domingo, 31 de agosto de 2014

Surreal


Poucas coisas fazem a gente se sentir tão mal como ser ludibriado, enganado, passado para trás (é tão irritante que dá vontade de ir se referindo à vilania de todas as formas). Dá vontade de não pensar mais no assunto e de não falar sobre isso com ninguém. Entretanto, uma parte importante daquilo de que os vilões se alimentam denomina-se silêncio. É o silêncio das vítimas, que colabora para que eles sejam cada vez mais eficazes em seus golpes.

Até as pessoas que me conhecem minimamente  sabem que uma de minhas paixões é a cidade do Rio de Janeiro. A despeito de todas as críticas que são feitas a ela, meu amor pelo Rio é incondicional. Mas dotado de uma boa dose de realidade, não finjo que o lugar não tem problemas. Ontem, eu e  quatro de minhas amigas fomos à  Cidade Maravilhosa para degustar as delícias da exposição de Dali e daquela bossa irresistível que só o Rio Antigo tem. Chegamos na hora certa, visitamos a mostra confortavelmente, revivemos a história, respiramos cultura. Haja variedade em apenas um quarteirão: de Dali à feira livre! Um banquete para todos os sentidos. Até então, um sensacional programinha de sábado para pessoas que curtem estar juntas.

Depois do almoço, como havíamos programado de seguir para o Leme, fomos apanhar o carro para continuar o passeio. Foi, então, que tivemos uma ingrata surpresa: havíamos sido autuadas. O carro, parado em local indevido e eu, a condutora, de repente atordoada a me perguntar: mas se era tão óbvio, como pude parar aqui?

Refazendo o percurso: chegamos à Candelária, tivemos a preocupação de parar o carro em um local adequado, procuramos informações com motoristas profissionais (em seu ponto de embarque de passageiros) e fomos orientadas a seguir pela Presidente Vargas. Num piscar de olhos salta um “flanelinha” à nossa frente e começa a nos direcionar para o pseudoestacionamento. Cobra de nós um valor pelo “serviço” e nós seguimos em paz para nosso programinha cultural. Tudo parece tão normal, que embarcamos na malandragem e deixamos de perceber os sinais claros de que ali, era óbvio que não poderia ser um estacionamento. A constatação de que o estacionamento não existia fez-me vivenciar o SURREALISMO em toda a sua dimensão. O chão faltou sob os meus pés. Eu, verdadeiramente, senti-me tola, ingênua, incauta e uma série de outros adjetivos de campo semântico semelhante.

Conversando com comerciantes do local, soubemos que essa é uma prática comum, que funciona assim o tempo todo, entretanto que, durante a semana, a fiscalização não passa e tampouco autua os veículos estacionados. As autuações são feitas somente aos sábados, quando a maioria dos “incautos” é composta por turistas. Concluo que, se os relatos dos comerciantes forem verdadeiros,  o poder público, nesse casso, seria omisso e agiria de má fé. E me ocorrem vários questionamentos: Se o problema é conhecido, por que permitirem a atuação de “flanelinhas” nesse lugar? Se as multas são comuns, por que não montar um serviço de proteção que alerte os turistas na região? O local é uma “fábrica de multas” que gera receita para o município (havia, somente no local em que estávamos,  talvez uns oito veículos autuados)?!?!

Como pessoa, senti-me ingênua, como turista desprotegida, como cidadã desrespeitada. E o passeio, que até ali seguira perfeito, perdeu um bocadinho de seu brilho. Salvaram a mim e as minhas amigas, uma volta pela orla de Copacabana e Ipanema e o bom senso de uma de nós que colocou um sambinha irresistível pra tocar: “...o Rio de Janeiro continua lindo...”. Concluo: continua, mas precisa repensar a sua administração.
Escrevo para que outras pessoas possam ter conhecimento do fato e que, dessa maneira, não caiam na mesma cilada.