domingo, 7 de janeiro de 2018

Sobre o Natal Imperial



Folia de Reis - arquivo pessoal
Quando surgiu o vídeo do projeto do Natal Imperial e foram divulgadas as cifras do orçamento para sua realização, houve muitas críticas. Eu mesma critiquei por questões de transparência na divulgação das informações e por achar as cifras absurdas. Depois veio a licitação, o custo ficou reduzido à metade do valor previsto, o projeto começou a ser executado e a cidade se iluminou no sentido próprio e também figurado dessa palavra.
O Natal Imperial aconteceu. Petro ficou movimentada. Nunca fui de boicotar por boicotar coisa alguma, acho contraproducente. Sou daquelas que acredita que quem boicota indiscriminadamente acaba boicotando a si mesmo. Fui conferir e ressalto que curti. Foi uma grande sacada dos comerciantes da 16 e da Alencar Lima dar vida àquele espaço da cidade. Gostaria que os comerciantes do polo de moda do Bingen tivessem a mesma perspicácia e descobrissem que a velha máxima "a união faz a força" continua valendo. A 16 encantada funcionou de fato. Atraiu olhares de munícipes, turistas, consumidores. Sim, o túnel de luzes teve problemas, mas ainda assim, ficou encantador.

Nem tudo se acertou de primeira e um bom exemplo disso foi o ajuste da iluminação da Avenida Koeller, para que o rio ganhasse enfim a tão sonhada cor azul. Isso também foi bacana de observar: a atenção aos detalhes e a determinação em corrigir as imperfeições.
A adesão do SESC ao projeto foi um ponto alto. A programação ficou ainda mais rica. Ou alguém duvida que assistir ao show da fadista Carminho ao lado de Paulo e Daniel Jobim - filho e neto de Tom, respectivamente - tenha sido um espetáculo? Houve música, poesia, contação de histórias, além de uma belíssima apresentação da Orquestra Sinfônica Brasileira. Sem falar que estavam lindos os jardins do palácio que, além de decorados, abrigavam famílias inteiras brincando até mesmo à noite.
Ganharam mais vida com as programações natalinas espaços como a Praça da Águia, a Praça da Liberdade, a Praça D. Pedro, a 16 de Março, o Palácio Quitandinha, o Museu Imperial e o distrito de Itaipava. Teve trenzinho, parada iluminada, apresentações da Escola de Música da Universidade Católica de Petrópolis e da Orquestra de Câmara do Palácio Itaboraí, e ainda mais.
Ontem à noite, foi promovida a Folia de Reis, que trouxe o enceramento do Natal Imperial. Foi um evento belíssimo e emocionante. A ideia de ir apagando as luzes depois da adoração dos Reis Magos ao menino Jesus foi sensível e em tudo muito simbólica. Foi uma bela caminhada pelo Centro Histórico da cidade até o Palácio de Cristal. Em tudo foi repleta de encantamento.
Já faz algum tempo que elogio o responsável pela pasta da cultura em nossa cidade. Ele é jovem e, a despeito de sua pouca idade, veio para escrever seu nome na história do município. Desde que assumiu o cargo tem revolucionado a programação cultural por aqui. Como eu queria que os responsáveis por outras pastas fossem tão pró-ativos quanto ele! Parece-me que o turismo vai indo na mesma direção, felizmente, já que Petrópolis é uma cidade com enorme potencial turístico e precisa aproveitá-lo.
Há muita coisa a ser feita no município, não há dúvidas. Assim como nem tudo no Natal Imperial foi 100%, mas é preciso reconhecer as boas iniciativas, aquelas bem sucedidas. Petrópolis pode ter um milhão de problemas - e tem - mas o evento em questão foi, inegavelmente, um sucesso.
PS: O Diretor-presidente do Instituto de Cultura e Esportes estava lá. Trabalhando. Acompanhando tudo de pertinho discretamente, sem firulas e rapapés.
#Natalimperial

ACESSE OUTRAS INFORMAÇÕES AQUI:

- Sobre a programação:
https://www.natalimperialpetropolis.com.br/programacao
http://www.natalsescquitandinha.com.br/programacao/

- Apaixone-se você também pela Orquestra de Câmara do Palácio Itaboraí:
https://www.youtube.com/watch?v=kjeYKqG2J9s


ALGUMAS FOTOS DO NATAL IMPERIAL:
Fotógrafo Marco Oddone

Catedral São Pedro de Alcântara
Palácio de Cristal



MAIS FOTOS DE MARCO ODDONE:
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1746983455333337&set=pcb.1746987171999632&type=3&theater

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1722725367759146&set=pcb.1722728797758803&type=3&theater

Dançando na chuva

Flamboyant
O dia de trabalho começou cedinho. Tudo correu bem. Desci a serra sob chuva forte, dessas que fazem barulho no para-brisa. A mata, bem ali diante de meus olhos, celebrando o aguaceiro que veio abrandar o calor. Gosto de chuvas generosas dessas que vêm para lavar e abastecer. É claro que, morando em Petrópolis, torço para que sejam breves e que se alternem com dias de sol. Minha cidade sempre sofre quando elas se prolongam.
Encontrei um Rio de Janeiro igualmente chuvoso e, mesmo com o trânsito mais lento - e talvez por causa dele - pude contemplar os numerosos flamboyants em flor. Muitos floresciam vermelhos, mas havia amarelos e pude ver um alaranjado. Sempre busco o colorido por entre a paisagem. Tenho atração pelo verde, pela flor, pela beleza natural. Flamboyants sempre me lembram um grande amigo e foi uma pequena angústia não poder fotografá-los para ele. Quem disse que o celular funcionou?! Diante da impossibilidade de um instantâneo, deixei-me encantar pelas flores e trouxe nas retinas as imagens, que ainda estão bem vivas enquanto escrevo.
De volta a Petrópolis, mais trabalho. Bem no finzinho da tarde um café delicioso com direito a panetone, conversa jogada fora, boas notícias e risos, muitos e abençoados risos, depois de um dia de luta. Todo mundo merece - e precisa - sair do piloto automático vez por outra e desembarcar num recreio, seja lá o que isso for. Bem-aventurados sejam os sorrisos, porque podem salvar nossos dias.
Já em casa, encontro o filho de boas, bato um papo com a gata, faço uma coisinha aqui e outra ali e sigo para o meu quarto. É hora de relaxar. Abro o "face" e a primeira postagem que vejo é a do meu amigo, aquele lá do segundo parágrafo. Bem, se é música, gosto. Resolvo clicar e o que que é isso?! Uma violinista eletrizante executando Vivaldi me hipnotiza. Dançar é uma questão subjetiva. Tudo me encanta: música, instrumentos, cenário, figurino, luz. Tudo coroando um dia essencialmente leve. Que venham outros assim!

Confira:







Antônio Vivaldi
Winter Concert, Norway
Mari Samulesen










Flamboyant - Imagem disponível em:
https://pixabay.com/pt/flamboyant-%C3%A1frica-natureza-red-1424334/



domingo, 26 de novembro de 2017

Das orações naturais

"O bom samba é uma forma de oração."
(Vinícius de Moraes)

Sou do tipo que procura estar em oração e confesso que as orações naturais são as minhas preferidas. Observar o sol nascer lentamente ou vê-lo se pôr anunciando o fim de mais uma etapa. Ouvir a canção das águas de uma cachoeira, o barulho incessante do mar. Escutar o canto do vento e dos pássaros. Ver o céu azul que nos chama à vida. Perder o olhar nas árvores em flor. Sentir o perfume da rosa recém-brotada no quintal. São todas formas de me conectar com o sublime, de transcender o automático e o cotidiano.
Pôr do sol no Leme - arquivo pessoal

O mar salgando meu corpo é paz. O chocalho das conchas voltando nas ondas na beira da praia é louvor. A areia instável sob meus pés é lembrança de que a vida é também mudança e variação, mas que se pode equilibrar. O dourado do sol nas águas salgadas é pura iluminação. O pássaro que mergulha para pescar é beleza. Os movimentos e sons harmônicos do oceano sugerem meditação, encontro, conversa íntima com o Supremo, com o Criador, com Deus ou com qualquer outro nome que o Bem possa ter.

A lua nascendo é encantamento. O céu cheio de estrelas são infinitas possibilidades. Um entardecer cor de rosa ou alaranjado é o coração aquecido. As nuvens formando figuras no céu são sonho. O verde contrastando com o azul é graça. Pássaros voando são uma ode à autonomia. Fruta crescendo no pé, alimento. Água fresca na fonte, refrigério.

As orações naturais me acalmam e me levam à construção de minhas próprias orações. Hoje o vento assovia nos fios e frestas. Sacode as janelas, desassossega as folhas nas copas das árvores. O tempo cinza me diz que nem tudo é bonito, o ar está pesado e a chuva está num-cai-não-cai inquietante. O dia me lembra mudança, me diz que está do jeito que não é pra ser ou por outra, que ele pode ser muito mais do que isso. Traz-me à lembrança as potencialidades e me faz sonhar. Um dia cinza não é um ponto final, mas a véspera de um dia pródigo de sol e alegria. Tudo hoje me faz pensar no tempo de espera e preparação. Lanço mão de um livro.

Vezes, cerco-me de alguns outros tipos de oração: um poema, uma ida ao teatro, um concerto, uma crônica, um romance arrebatador, a tranquilidade de uma igreja vazia, um café com amigos, conversas com o filho, carinho dos pais. Sou do tipo que reverencia a beleza, o afeto e a liberdade. Liberdade de oração, inclusive.  Tudo celebro, agradeço e peço nas mais variadas situações. Tudo o que apazigua considero prece.

Rezar é coisa subjetiva. Cada um tem seu jeito de se elevar, de sintonizar as forças que equilibram o universo em busca do seu próprio equilíbrio. Muitas vezes rezei ao volante, num gostoso bate-papo divinal estrada afora em busca de soluções e de entendimento. Deus é simples e está em toda parte é bom não nos esquecermos disso.

domingo, 19 de novembro de 2017

Muito além de uma xícara de café


Para Douglas e Antônio
pela arte de servirem café
c
om tempero de carinho


Torta de frutas secas - Sant`Anna Cafeteria
Era pra ser só um café, um momento de descontração no fim da tarde, um encontro comigo mesma. Já faz tempo que sou dessas, não adio descompromissos por falta de companhia. Teatro, cinema, show, recital, passeio, sorvete, café, nada obrigatório, descompromissos puros e prazerosos em que não cabem adiamentos. Se tem alguém para ir junto, ótimo. Se não, ótimo. Ontem foi assim, eu comigo, meus pensamentos, minhas sensações. Era pra ser só café, foi música, aroma, sabor e muita observação.  Como é bom terminar um dia em que tudo deu certo numa cafeteria! Um dia em que tudo dá errado também. Café é perfeito para um brinde ou como bálsamo.

Tudo corria do mesmo jeitinho: cardápio, simpatia, pedido, café. Clientes comportados e falando baixinho, como são os ambientes de cafeteria em geral. De repente, surge um menino. Ele, acompanhado por pais e avó, trouxe um bocadinho de inquietação àquele lugar. O pula que pula, a voz mais elevada, a brincadeira irreverente do pai com o garoto. Levei um susto. Não é que o rapaz estourou o pacotinho plástico que vem cuidadosamente embalando os talheres?! Ele mesmo se assustou quando se deu conta do que fizera. Eu ri, mas confesso que agitação não era exatamente o que eu estava procurando naquele lugar. Sou de silêncio e sons, ontem estava mais para a segunda opção.

A estada do menino por ali foi curta, como são próprias das paradas infantis em “lugares de adultos”, mas transformadora. Eu disse que era pra ser só um café, mas não foi isso o que se deu. Na saída, bem pertinho de mim, o garotinho deu de cara com uma vitrola. Foi um espanto. Ele jamais havia visto coisa igual e tampouco sabia para o que servia. Curioso, aproximou-se do objeto e crivou o pai de perguntas. O pai bem que tentava explicar na teoria, no entanto não dava conta de satisfazer à curiosidade do filho. Um pouco distante, o proprietário do estabelecimento observava tudo atentamente. Aproximou-se, desligou o som e ligou o toca-discos para o pleno  encantamento do menino. Pacientemente virou o disco e mostrou que do outro lado tinha mais música, o menino silenciou entre a surpresa e a maravilha. Recolheu a experiência, agradeceu e saiu dali levando uma história pra contar.

Eu sorri, dessa vez, emocionada. Havia presenciado um momento de fascínio e descoberta. Além disso, o sorriso generoso do proprietário do café ao ter servido ao menino um tanto de fascínio denunciava a sua satisfação e me fazia lembrar de uma bela crônica de Affonso Romano de Sant' Anna, que nos fala exatamente que “cada um tem um momento, um gesto, um ato em se que individualiza e brilha”. O moço tinha se iluminado ao encontrar o que tem de mais próprio em si: o prazer de fazer o outro se sentir bem, confortável. A cena foi simples, mas me deixou contemplar “o incêndio de cada um”: o menino colhendo frutos de sua curiosidade e o rapaz extrapolando o ato de servir ao doar-se.  Meu café terminou, pedi a conta, vim para casa, mas a poesia daquele instante está presente fazendo eco até agora. Era para ser só um café, mas foi beleza e testemunho dos fragmentos poéticos que a vida nos dá.

É bonito ver alguém fazendo aquilo de que gosta. O contentamento escapa-lhe pelos poros e nos atinge de alguma maneira. Lembrei-me de um balconista da lanchonete da faculdade, seu nome era Messias (eu me lembro e já faz 14 anos que deixei a universidade).  O pão era o mesmo, as frutas também, mas quando ele preparava o suco e o sanduíche, o sabor era diferente. O aprazimento no preparo agregava um tempero especial e inigualável. Há algo mágico que emana daqueles que estão no lugar certo fazendo aquilo que gostam. No lugar que desejam ocupar. A alegria deles nos contagia, vem conosco e nos faz mais ternos e felizes também, a gente se sente mais vivo. A vida é também essa maravilhosa mudança de roteiros. O fim da tarde de ontem era para ser só um café, mas foi muito além disso e, uma vez mais, a cafeteria fez jus a seu slogan.

Confira também a crônica "O incêncio de cada um", de Affonso Romano de Sant´Anna:
https://www.facebook.com/estacaomarisebender/posts/1882150905435258

Cafeteria Sant'Anna, eu adoro.
Rua Dr. Paulo Hervé, 1139
Bingen
https://www.facebook.com/santannacafeteria/

domingo, 5 de novembro de 2017

Como eu era antes de você


De repente a gente se dá conta de que viveu um grande amor. Um sentimento todinho maiúsculo e que, mesmo que não tenha durado a vida inteira, foi capaz de nos transformar para a eternidade. Não que não soubéssemos antes, mas agora essa certeza é ainda mais clara e pungente. E aí descobrimos que nossas vidas estão divididas em antes e depois desse amor. Que ele foi fundamental para o nosso crescimento, que nos fez conviver genuinamente com a partilha, com todas as nossas impossibilidades, que nos apresentou o respeito amplo e irrestrito pelo ser humano que somos. De repente nos damos conta de que fomos verdadeiramente amados e de que em verdade amamos. Que naquele relacionamento não havia rede de proteção. Que era saltar e ter certeza do amparo, do abraço, do afago, da escuta, do beijo, da cumplicidade, do encontro.

Há parceiros amorosos que nos mostram o melhor de nós. Que nos enxergam antes de nós mesmos, compreendem nossas falhas e nos apontam nossas possibilidades, que respeitam nosso tempo de chegada e, sobretudo, não nos apressam. São puro e autêntico acolhimento. Nos veem e, ainda assim, não se espantam, escolhem permanecer, somar, dividir, ouvir, calar e dizer. Escolhem trilhar o caminho lado a lado conosco em harmonia, transcendendo os solavancos que o dia a dia nos dá, ainda que por um tempo. Há encontros que são de corpos, de sentimentos e de almas e que, por isso mesmo, nos fazem querer ser amigos melhores, amores melhores, amantes melhores, pessoas melhores. Do convívio com alguém assim, saímos sempre uma versão aprimorada de nós mesmos. Inteiros e fortalecidos. Damos um upgrade em nossa humanidade. Isso não se mede.

São encontros que suplantam as lembranças e a presença, ficam vivos na pele, nas retinas, no coração, não saem de nós. São pessoas que passam pela vida da gente e fazem morada, ainda que resolvam partir. Gente encantada e encantadora que nos faz ver a vida de um jeito mais simples e que, mesmo ao ir embora, nos deixa a leveza e um refúgio de paz como herança. Gente capaz de plantar em nós uma essência de otimismo e esperança. De despertar nosso olhar mais colorido para a incrível oportunidade que é viver, bem como a habilidade para ver que a felicidade é o grande motivo e que ela existe mesmo em dias tristes ou repletos de saudade.

Há relacionamentos marcantes e amadurecidos que, por motivos, explicáveis ou não, não foram feitos para durar a vida toda. Quando isso ocorre, não há desespero na partida. Há dor, respeito e compreensão. Separação: prova de fogo para qualquer amor. Sua sobrevivência a um abalo desses, a constatação de que a liberdade é laço inquebrantável entre aqueles que se amam. Diante da ausência e da partida do amado, os telefones não tocam desesperada e desesperadoramente nem explodem em oitocentas mil mensagens de amor desaforado que não aceita a decisão do outro. Tudo é paz, ainda que uma paz dolorida e tristonha e que demore um tempinho para se tornar aquela falta gostosa de sorriso de canto de boca a cada lembrança. Há uma beleza cheia de dignidade nesse tipo de separação. O que fica é gratidão imensa por ter podido viver um relacionamento desse quilate. Por ter podido semear e colher a florada dessa relação. Por ambos saírem dela tomados de força e coragem.  A não ser a necessidade de um de partir e o desejo do outro de permanecer, tudo é recíproco. E o respeito suplanta todo e qualquer desejo. Não há espaço para cobranças ou acusações. 

A esta altura, você já sabe que o título desta crônica tem, sim, estreita relação com o filme inspirado no romance homônimo de Jojo Moyes, a que assisti e achei imperdível e fascinante, não apenas pelo grande dilema que propõe, mas por evidenciar as profundas mudanças que um amor pode causar em seus pares, sobretudo quando se está aberto para que elas aconteçam. Um amor assim não se esquece e, quando a saudade bate, ela é só saudade, autêntica e sublime, saudade-presença sem qualquer visgo de melancolia.  Amar é também se abrir, viver e descobrir, na contramão do que diz o poeta, que há amores que se sagram eternos porque duram infinitamente.


Foto disponível em https://pixabay.com/pt/p%C3%B4r-do-sol-mar-de-barco-navio-675847/

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Sobre a leitura de um manifesto

Acabo de ler o pequeno grande livro “Para educar crianças feministas – um manifesto”, de Chimamanda Ngozi Adichie. O texto é daqueles cuja leitura é rápida e o conteúdo transformador. Nascido a partir de uma carta que a escritora redigiu como resposta à pergunta de uma amiga de infância que, na época, desejava saber como criar sua filha recém-nascida como feminista, o livro propõe caminhos para que tentemos, através da maneira de criar nossos filhos, preparar um mundo mais justo para mulheres e homens e nos faz pensar.

A leitura me remeteu à maneira como fui criada e também ao modo como criei meu filho, hoje com quase 22 anos. Conforme lia, encontrava aquela menininha que um dia eu fui e, não poucas vezes, desejei ter ouvido algumas daquelas palavras ali escritas, para que pudesse ter enfrentado essa vida mais dona de mim e de maneira mais corajosa também. As coisas que são plantadas na cabecinha de gente em tenra idade, às vezes sutilmente, deixam uma herança que em alguns casos precisa ser resolvida no consultório de um terapeuta. Bem, aquilo que passou não tem jeito, está escrito e virou história, mas revisitar o passado sem melancolia é também processo de aprendizado. O negócio é daqui para frente e, saibam, mesmo para mim, uma mulher de 46 anos, ler certas coisas contidas no manifesto, ajudou a fortalecer a alma - a de mulher, a de mãe e a de filha também. É reconfortante e encorajador dar de cara com uma sentença como: “as pessoas vão usar a ‘tradição’ seletivamente para justificar qualquer coisa” e perceber que é a mais pura verdade e que muitas vezes isso está intrinsecamente ligado à manutenção de discriminações e injustiças. Ler o livro da nigeriana pode, mais do que ajudar a criar filhas e filhos para uma vida mais justa, ajudar a fechar velhas feridas.

A autora faz um verdadeiro carinho nas mães, sobretudo naquelas de primeira viagem, quando expõe tão claramente que criar seus próprios filhos é muito mais difícil do que palpitar na criação dos filhos dos outros, que é uma tarefa gratificante sim, mas uma realidade bastante complexa. Dessa forma, ela mesma diz que vai “tentar” criar a sua própria filha segundo as suas proposições - ela foi mãe depois de ter escrito a carta – e incentiva que as mães – citadas na figura de sua amiga – peçam ajuda, que sejam boas para elas mesmas. Lembrei-me de três casais de jovens pais que acompanho bem de pertinho e, com alegria, percebi que têm ideias semelhantes a algumas constantes do texto, na perspectiva da construção de um mundo mais equilibrado, de uma vida mais leve e de uma realidade com mais justiça.

Ver meu filho aqui em casa também me enche de contentamento. Ver o cara respeitador das individualidades alheias que ele é, é constatar que ensinar a ele sobre a diferença, sobre não atribuir valor à diferença, foi parte fundamental de seu processo educativo. É claro que também cometi erros pelo caminho, todos cometem, muita vez, falar sobre eles também é importante. O diálogo, a confiança, a disponibilidade para oferecer a linguagem ao seu filho são coisas de suma importância e Chimamanda fala sobremaneira sobre isso. Aliás, sobre a linguagem, há uma frase belíssima e que gera reflexão imediata: “a linguagem é o repositório de nossos preconceitos, de nossas crenças, de nossos pressupostos. Mas, para lhe ensinar isso, você terá de questionar sua própria linguagem.” Aí está explicitada de forma contundente a importância crucial da linguagem em nossos relacionamentos, em nossa relação com o mundo e na perpetuação ou não da transmissão de conceitos equivocados aos nossos filhos.

Sempre me debati com a palavra pãe. Jamais gostaria de receber parabéns no dia dos pais. Sempre me entendi como mãe. O abandono emocional de seu próprio pai – quer seja biológico ou adotivo - é uma ausência que uma pessoa leva para a vida toda, mesmo que busque e encontre referências em um avô, um tio ou em um amigo ou namorado de sua mãe, mesmo que supere esse trauma. Muitas pessoas podem até esquecer que ser pai é muito mais do que ser um provedor e escolherem exercer somente o segundo papel ou nem esse, mas o fato de um filho ter sua mãe ali presente o tempo todo diante dessa ausência, significa apenas que o filho tem a mãe presente, que ela é a melhor mãe que consegue ser, e não que ela esteja exercendo os dois papéis. O contrário também é absolutamente verdadeiro. Adichie exalta a relevância dos dois papéis, refuta o uso da palavra pãe, e nisso concordo em absoluto com ela.

Mais do que um roteiro para a criação de crianças feministas, o livro é uma importante reflexão sobre a importância da educação de nossas crianças para a construção de um mundo em que haja respeito à diversidade, respeito entre as relações humanas e, sobretudo, respeito ao espaço e à autenticidade de cada um no convívio social. O livro é pequeno, tem preço acessível, a linguagem é clara e objetiva, a leitura é fácil e rápida e seu conteúdo é transformador. É um livro fundamental.


CONHECENDO UM POUCO MAIS DE CHIMAMANDA ADICHIE:"O perigo de uma história única"
https://www.ted.com/talks/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story?language=pt-br

domingo, 10 de setembro de 2017

Alquimia em processo

(Sobre "Processo de Conscerto do Desejo")

É escuro, surgem ruídos que não se pode identificar, há um violão e um desamparo. Só eu que sinto esse perfume espalhado pelo ar? Ela dorme. Princesa, rima ocultada, estrela atrás da nuvem. Dorme.

Foto de Fábio Seixo
A voz de Matheus ecoa ainda tímida, vem do palco e não o vemos. Aos poucos, ele desenha em tinta vocabular o início de sua história e corajosamente a divide conosco. O pranto, o dele e o nosso, é inevitável. Há uma grande vontade de abraçar o triste e solitário menino que se despe de suas feições adultas diante dos nossos olhos, ainda que estejamos todos numa penumbra incômoda. Triste, solitário, magoado e transbordando de dor, de amor, de saudade. Ela se matara, quando ele tinha apenas três meses.

O desejo de trazer Maria Cecília para a luz se cumpre. Se faz por letras, sílabas, palavras, versos inteiros, músicas e gestos, ora delicados, ora vigorosos e cheios de tenacidade. Quase um balé.

Delicadamente vão surgindo as angústias da mãe de um bebê recém-nascido que chora, mama, dorme, suja as fraldas e, vez por outra, tem essa rotina quebrada por um evento cheio de preocupação: o vômito. A maternidade em sua face nada glamorosa aparece e vem contracenar com o menino.

O texto é mais que um diálogo, uma vivência. É processo. Participamos todos da tristeza que provoca uma vida que se vai tão cedo, da falta de colo e do brinquedo colorido, da queda solitária da criança. A melancolia é irremediável, o moço essencialmente triste e com jeito de quem está querendo ser criança outra vez não a espanta dos olhares à luz. A dor é um direito, precisa ser vivida.

No tablado, a ferida é exposta com delicadeza em uma mistura terna, e áspera, e dolorida, que a ausência provoca. Ao som primoroso de violão e violino, o ator se estilhaça e se recompõe sob nossos olhares comovidos e atônitos e nos conduz, através dele mesmo, da poesia e da música, à conversão da melancolia em beleza, coisa que só pode fazer mesmo quem tem as mãos de um jardineiro quando está chovendo.

O espetáculo de Matheus Nachtergaele é poesia em movimento. É alquimia. É a transformação do sofrimento em arte. É uma flor brotada da sensibilidade e da intensidade que só tem um menino-homem que transpira amor e sorri à toa. É um convite para valsar apesar do destino, por mais duro que ele possa ser.

Processo de Conscerto do Desejo é o mais perfeito e generoso poema composto a quatro mãos por Matheus e Maria Cecília,  numa parceria imperdível. É preciso ir ver.


SOBRE O ESPETÁCULO:
Matheus Nachtergaele ficou órfão de mãe aos três meses de idade. Maria Cecília, que cometera suicídio, deixa alguns textos e poemas aos quais o ator tem acesso na adolescência, através de seu pai. Na vida adulta, na tentativa de superar a dor que o fato traz à sua vida, Nachtergaele realiza o emocionante espetáculo com os poemas de sua mãe e convida o público a participar dessa superação num sensível concerto de voz, atuação, violino e violão. A arte é o principal instrumento desse processo.


Matheus Nachtergaele declamando um dos poemas de sua mãe:
https://www.youtube.com/watch?v=D3joAP6js4E

Foto de Fabio Seixo (A quem agradeço pela autorização para o uso da imagem)
Agência O Globo - disponível em:

https://oglobo.globo.com/cultura/teatro/nachtergaele-celebra-mae-morta-quando-ele-tinha-3-meses-em-peca-17997243

Mais poesia:
(Atualização em 16.09.2017)

Concebi o espetáculo como um poema a quatro mãos: Matheus e Maria Cecília. Sendo assim, reuni aqui o belíssimo registro fotográfico da apresentação da peça em Petrópolis, a partir das lentes sensíveis e cheias de expressividade do fotógrafo Marco Oddone, e os versos de Maria Cecília Nathtergaele. Que maravilhoso concerto!







Eu procuro alguém 
Para fazer uma poesia comigo
Tem que ser terno e triste
É essencial que seja triste








Gestos de poeira
Muita saudade
Medo
Os olhos de até logo
Com jeitinho 

de adeus.







Tem que ser distraído
Sorrir à toa
Sempre querer chorar
Mas nunca conseguir







E ter amado muito
E ter sofrido
E andar de poeta 
Que fala sozinho
E falar muito 
abandonadamente










É preciso ter jeito
De quem está querendo 
Ser criança outra vez
E as mãos...
As mãos de um jardineiro
Quando está chovendo







Que nunca saiba
Como começar a falar
Mas sempre saiba 
Como começar a sorrir












Mas a maior urgência que existe
O essencial,
Muito essencial,
É ser imensamente triste.


Maria Cecília Nathtergaele



quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Um soco no estômago

Não, não fale! Eu não quero escutar. Cale, vai, quebre essa. Me deixe fora dessas reflexões tão duras. Mantenha esse silêncio de estourar os tímpanos, bote uns panos quentes e não me mostre. Eu não quero ver nem ouvir, muito menos pensar que tudo isso pode ser verdade e pode acontecer.

É duro! Qualquer um que trabalhe na área da saúde, em que o sigilo é tão precioso e tão caro, sente um violento incômodo já nas primeiras cenas do filme. É uma obra áspera, sem burilações e refinamentos. Trata daquilo que se quer empurrar para debaixo do tapete.

O silêncio, a solidão acompanhada dentro de uma família até na hora do jantar. O pai ali num papel secundário. A solidão da criança em casa. O desconhecido (alô!). A fantasia (é você, fulano?). O desequilíbrio, a transgressão, a dor, o preconceito. O afeto. A complexidade. A alternância de papéis. O agressor, o opressor, a vítima. Quem é quem nesse jogo da vida? 

A terapeuta que rompe os códigos de sua profissão advogando em causa própria e aquela coisa de ver mais uma vez o profissional de saúde mental perdendo a linha, o tom, misturando o pessoal e o profissional e é possível que se fique pensando: mas isso não afastará ainda mais as pessoas desses profissionais? Não fará aumentar o preconceito?  Bem, já há algum tempo tenho questionado um pouco essa maneira de olhar para a ficção como um impulso para a realidade. Vejo a ficção como um mote para a discussão, não como um padrão a ser seguido. Entendo que ela possa influenciar comportamentos, mas acho que a discussão tem que ser ainda anterior a isso: se é assim, por que estamos seguindo padrões "impostos" pela ficção? E que "imposição" é essa? Quem a está permitindo? Estamos mesmo assumindo que é a ficção e são as mídias que ditam o que devemos fazer sem questionar?

A gente se mexe na poltrona do cinema, ora irritado, ora constrangido, ora perplexo, sempre reflexivo. "Fala comigo",  o filme de Felipe Sholl, com cenas cuidadosamente trabalhadas e com belíssimas atuações, toca em pontos incômodos, expõe tabus e fica reverberando na gente depois da sessão.

É, sim, é mais fácil olhar para o outro lado, pedir um café, fingir que não vê, mas as situações estão aí o tempo todo em todo lugar e, quer queiramos ou não, continuarão existindo, e por que não falar sobre elas?

Trailer oficial:
https://www.youtube.com/watch?v=o8BqKYjV6qM

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Na pele dele

Ler o livro de Lázaro Ramos é, de fato, como propõe o título, vestir a pele do autor. É olhar o mundo do ponto de vista dele e descobrir alguns ângulos antes nunca perscrutados. Ao menos comigo foi assim.

Muita gente defende a meritocracia como um caminho lógico e claro e diz por aí que quem luta, quem nada contra a corrente das várias violências e ameaças sofridas - veladamente ou não - vence, que superar as dificuldades é só uma questão de determinação, como se aquele que não vence fosse simplesmente fraco ou desistisse no primeiro espinho. Acho essa questão um pouquinho mais complicada e ler "Na minha pele" me ajudou muito a enxergar essas complicações com mais clareza. É que o ser humano não é constituído apenas de razão e de decisões racionais - e quase todo mundo sabe disso, mas sempre é bom repetir  - há muito sentimento e emoção na humanidade de cada um e, nem sempre, acessar a lógica, traçar um caminho e seguir é simples assim. Há caminhos que sequer conseguem ser traçados, cada um reage de um jeito aos acontecimentos desse mundo. Ainda é, para mim, um denso mistério a reação de cada um aos mesmos fatos e como enquanto uns fazem disso a mola propulsora para alcançar, mais do que seus objetivos, suas potencialidades, outros paralisam e não conseguem prosseguir. Na especificidade de cada um há coisas que causam marcas em uns, deixam de atingir outros e dilaceram alguns. Não dá para julgar todo mundo por um, fazer isso é, no mínimo, leviano. Como tão bem ressalta Lázaro, as exceções vêm, muitas vezes, confirmar as regras.

O autor salienta o tempo todo o quanto foi importante para ele o conhecimento de si mesmo: "Compreender o que fazia sentido para mim foi libertador, pois assim é que buscamos o nosso caminho". Não é por acaso que essa frase está inserida no capítulo "Escolhas". Penso que talvez o que haja de especial nas exceções é que essa consciência do sentido tenha vindo cedo. Talvez e só talvez, é preciso frisar bem isso. Muitas vezes esse sentido, tão necessário para traçar um caminho, não vem na ordem cronológica. Há muitos caminhos e, vez por outra, sem encontrar o sentido, toma-se uma direção diversa daquela que seria a mais acertada para o desenvolvimento pleno do potencial de cada um.

Para além disso, o escritor cita inúmeras vezes o quanto foi importante, apesar das dificuldades relativas ao toque, receber desde sempre o afeto de sua família. É possível ler nas entrelinhas que Lázaro foi amado desde sempre e que isso fez toda a diferença. Nas linhas, ele destaca: "afeto é potência" e é nesse sentido que está conduzindo a educação de seus filhos para que sejam seres livres e plenos, que desenvolvam suas potencialidades com um olhar de respeito para eles mesmos e para os outros. É curiosa essa coisa de fazer sentido, não é mesmo? Isso acontece também com as expressões. Um dia a gente ouve algo que já tinha escutado, mas que alguém fala de um jeito diferente e plim, aquilo nos toca. Sentimos, então, aquela sentença como verdadeira, a visão se amplia. Foi o que aconteceu comigo ao ler "afeto é potência".

Toque, carinho, palavras de incentivo, referências, tudo isso é cuidadosamente tratado no fluido texto do autor. Ele traz uma linguagem leve, o que nos faz passar por temas árduos e chegar a importantes reflexões sem aspereza. Diz daquilo que a maioria já sabe, mas que é preciso repetir o tempo todo: "racismo é motivo de discriminação diária, sim". No entanto, coerente com aquilo que ele mesmo traz, é preciso dizer isso, mas sem se apropriar da linguagem do opressor. Numa proposta consciente e decisão manifesta, destaca a importância da inteligência e da delicadeza para abrir e ampliar a escuta. 

Na pele dele eu pude ver e sentir um outro olhar do mundo e, algumas vezes, fiquei incomodada na minha própria pele. Algumas vezes na pele dele ou na minha pele esse ângulo do olhar do mundo nos aproximou, se não foi o racismo que apontou a minha "inadequação", foi outro ismo igualmente opressor das diferenças alheias e me pôs a pensar: e se além de todas as minhas "não conformidades" eu tivesse a pele dele, como seria? O olhar do mundo não seria ainda mais inquisidor comigo? O humor muitas vezes foi a saída encontrada por ele, por mim e por tantas outras peles em caleidoscópicas circunstâncias. Na pele dele pude enxergar com olhos que não são os meus, pude ver além de mim e me encontrar e essa é uma experiência singular. "Na minha pele" é uma proposta de viagem em outra pele e dessa travessia dificilmente não se sairá transformado. Isso não preço!

domingo, 3 de setembro de 2017

Palavras ao mar

Sempre que me ponho a escrever, tenho a intenção de organizar as ideias e entender os sentimentos. No papel, na tela, no gravador (mais raramente, quando da urgência de pauta inexistente), faço uma leitura mais eficiente de mim mesma e das várias situações que a vida, que o mundo, que o que vem de fora me traz. Toda vez que torno público um texto, eu o faço da perspectiva da leitora. Publicar, nesse caso, é a partilha das minhas leituras de mundo.

Disponível em Pixabay
Quando divido posicionamentos políticos, idas a peças de teatro, visitas a jardins, entre ouras coisas, eu o faço não da ótica de especialista, que não sou, mas do ângulo da observadora e, vezes, personagem que sou.

Considero cada postagem no facebook ou no blog como uma garrafa lançada ao mar. Um dia a gente escreve um recado, junta a ele uma imagem, um vídeo, ou seja lá o que for, e de casa, do jardim, da escola, do bar, da praça ou de qualquer outro lugar, lança no oceano que é a grande rede de informações que nos conecta. Ah, se eu soubesse desenhar! Faria uma ilustração. No fim das contas, parafraseando o poeta, tenho apenas meu ponto de vista e o sentimento do mundo.

Há garrafas que viajam muito e outras que encalham logo ali na frente. Há aquelas que chegam a locais dos quais jamais tinha ouvido falar e corro para a pesquisa. Umas vezes há interação, outras não. Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo, além de não ser uma solução, não seria eu mesma, é claro.

Às vezes escrevo algo de que gosto imensamente e a garrafa quase não segue adiante. Outras vezes ponho na garrafa um inseguro lembrete e aquilo viaja longe e em algumas ocasiões produz até respostas. O mundo das garrafas e dos recados dentro delas, para mim, configura um denso mistério. É imprevisível e fascinante também. Hoje, por exemplo, sem mais nem meio mais, conforme vou escrevendo, vou me lembrando de Drummond e pedacinhos de alguns de seus poemas vão surgindo naturalmente. Fico tentando entender.

Agora, penso em “Mãos dadas”. Nessa questão de não nos afastarmos muito do presente, de seguirmos de mãos dadas num tempo taciturno, mas cheio de esperança. Talvez sejam as notícias de bombas, de guerras, de refugiados, da degradação dos recursos naturais. Talvez seja a face de um Brasil tão sombrio. O fato é que a poesia drummondiana está pulsando mais forte em meus pensamentos hoje, ela é quase um sentimento.

É preciso salvar o país. Salvar?! Quem poderá?! Penso que seja preciso acreditar no país e fazer parte dele e lutar e não o entregar a quem não o ama e simplesmente deseja fazer dele uma reserva de recursos naturais. Tudo isso assim sem vírgulas mesmo. É preciso nos descobrir partes de um todo – isso é tão óbvio, mas inúmeras vezes agimos como se não soubéssemos. Tudo isso parte de uma coisa só, de uma só proposta. O que anda me trazendo o poeta, descubro enquanto escrevo, é o fato de não podemos tudo ignorar como inocentes que não somos. Já cantamos o medo muitas vezes. Aqui e no mundo todo.

A tarde cai dourada e lenta. É domingo. O vinho está na mesa. O pão. O queijo. O sabor. O sabiá anuncia incessantemente que o sol está se pondo, é quase hora de dormir. A calmaria lá fora confronta as inquietações aqui dentro. É um tempo complicado esse nosso. É preciso conjugar a esperança.

A lua se anuncia. Está bonita. É hora de deixar o recado partir, que flua, que viaje, que encontre. São palavras ao mar, escritas nas ondas.

Sobre Drummond:
http://www.revistabula.com/391-os-dez-melhores-poemas-de-carlos-drummond-de-andrade/
https://nsantand.wordpress.com/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-palavras-no-mar/

Poema de sete faces: