terça-feira, 1 de agosto de 2017

Podres poderes

Saí de casa inocentemente para assistir a um show de Caetano Veloso. Tudo estava muito tranquilo até aquele moço elegante trajado de azul, no mais puro estilo um banquinho e um violão, começar a cantar. Nos primeiros acordes de Luz do sol, entrei em contato com um tempo que passou. Parece que fiz uma conexão com a minha adolescência e com o início da minha vida adulta, com os anos 80, com a conquista de direitos e a valorização da vontade popular.

Adolesci num tempo de luz, de abertura, de iluminação sobre o que tinham sido anos soturnos no Brasil. Embora não tivesse engajamento nos movimentos que vinham lutando pelas eleições diretas, era impossível não participar disso de alguma maneira. Os jovens e os nem tão jovens estavam nas ruas e Coração de estudante, de Milton Nascimento, era quase um hino. Era cantada nas escolas, nos bares, nas ruas. Tinha um ar de acalanto, de energia, de alegria e, sobretudo, de esperança. Acompanhei a eleição indireta, a morte de Tancredo, a inflação a galope. No meu primeiro ano de faculdade, só se falava nas eleições diretas.  Eu me lembro das campanhas eleitorais, da desinterdição das urnas depois de tantos anos em que estiveram lacradas. Era uma energia boa de um povo que começava a tomar as rédeas do processo democrático de seu país novamente. Era a energia carregada da esperança de um futuro melhor. Da construção de um país bom e justo para a juventude criar seus filhos e a maturidade ver crescerem seus netos.

Quando houve o impeachment de Collor de Mello, já acompanhei mais de perto. Vi brotarem os cara-pintadas aqui e ali e se tornarem atuantes em todo o país, me recordo bem, o som das ruas era uníssono. A grande maioria da população já não desejava aquele presidente, tinha pesadelos com Zélia Cardoso de Mello, a ministra que, no primeiro momento do governo, confiscou a poupança de uma parte significativa da população brasileira. Não foram só aqueles que tinham alguma reserva que ficaram com suas contas bloqueadas. Houve gente que tinha vendido um imóvel para comprar outro, por exemplo, e que diante do confisco ficou sem ter onde morar. Houve dor, houve suicídios, a coisa não foi brincadeira. Quando o presidente foi deposto, havia o sentimento da maioria de que isso havia sido justo.

Desse modo, tudo o que vivi na adolescência e juventude foi uma escalada ascendente de liberdade e de conquistas. Minha geração aprendeu a encher o peito e a boca e sacar as leis afirmando que tinha direitos. Eu acreditei. Cresci nessa onda e na ilusão de que os direitos, uma vez conquistados, estavam garantidos, que era pra frente que se andava, que havia direitos adquiridos. Sendo assim, os recentes acontecimentos no Brasil têm sido, mais do que um soco no estômago (ou muitos socos, sinto-me golpeada todos os dias), um momento de reflexão e da constatação de que direitos são apenas circunstanciais e que, para a sua manutenção, temos que cuidar deles o tempo todo. Do contrário, de um minuto para o outro, entre acordos e conluios, se esvaem e todos perdem.

Tá certo, a gente vê aqui e ali mundo afora as ameaças à democracia diante de nós na TV, direitos ruindo nos mais diversos lugares, mas a televisão é tão asséptica que tem qualquer coisa de ficção, de distanciamento, de nos informar como se estivéssemos todos longe daquele ponto. A TV nos ilude e nos adormece todos os dias. Se não fosse assim, como seria possível ter um aparelho desses na sala de jantar? Como comer diante das notícias e imagens de guerras e de mutilações? Eu acompanhava as democracias ameaçadas a distância, mas não via o risco aqui tão perto.

A realidade começou, nesse sentido, a me dar uns solavancos quando, logo depois da apuração dos votos nas eleições para presidente em 2014, alguns inconformados com o resultado das urnas começaram a pedir o impeachment da presidente eleita e tais protestos começaram a ganhar força com a participação de alguns políticos brasileiros. A oposição naquele momento começava a mostrar a sua face predadora em prol de um resultado e em detrimento da valorização da nação brasileira e do processo democrático, fomentando a divisão nascida na disputa eleitoral.

Quando Trump venceu as eleições dos EUA eu tive muita inveja dos americanos, muita. Não desse inacreditável resultado.Tive inveja da postura responsável de sua oposição. Da fala de Hillary Clinton que, diante da derrota, que nem ocorreu nas urnas, não perdeu a clareza de que o país era maior que seu umbigo e, portanto, conclamou os americanos à união pelo crescimento de todos. No Brasil, apesar do discurso do candidato derrotado nas urnas, não tivemos uma oposição responsável. Faltou à oposição, desde as últimas eleições, a grandeza de perceber o Brasil como um país. Ao contrário disso, o que houve foi o estímulo irresponsável e em causa própria para que seus eleitores fossem às ruas pedir o impeachment de uma presidente democraticamente eleita, no momento seguinte ao resultado do pleito. Faz parte do processo democrático aprender a perder. Há que se ter grandeza para continuar lutando por seus objetivos sem sabotar o processo legítimo das urnas.

A oposição sabotou o quanto pôde um governo legítimo. Foram pautas e mais pautas travadas no Congresso Nacional para levar o governo ao insucesso. O país ficou ingovernável. A crise econômica foi agravada. Um presidente, haja vista os “acordos e mais acordos” que têm sido feitos pelo presidente Temer, não pode governar sozinho. Mais tarde, diante das gravações apresentadas pela Operação Lava a jato, ficou claro nos diálogos de Sérgio Machado com Romero Jucá, que o medo, o pavor era de que aquela operação levasse boa parte deles ao naufrágio de suas carreiras políticas construídas nem sempre na legalidade. Desse modo, foram articuladas alianças e mais alianças para que salvassem a própria pele. O que fez a oposição nesse tempo todo? É como se ela, como dizem, tivesse descarrilhado o trem para depois “salvar” os feridos. Houve vítimas fatais? Para vítimas fatais cuidados médicos não resolvem coisa alguma. A oposição estimulou e promoveu o impeachment a um preço altíssimo para salvar sua própria pele. Sem falar naqueles que mudaram de lado pelo mesmo motivo.

Para agravar a crise vivida pelo governo Dilma naquela ocasião, faltou sensibilidade ao referido governo para lidar com uma parcela significativa da população que não o apoiava e que foi às ruas se manifestar.  As medidas tomadas pelo governo estabelecido ajudaram a pôr gasolina no fogo e a incendiar as possibilidades de reversão daquela situação. Àquela altura os movimentos já tinham certa autonomia e repudiavam alguns dos políticos que o incentivaram, chamando-os, inclusive, de oportunistas. Havia muitos manifestantes que defendiam a não participação de políticos naqueles protestos. Os movimentos, naquele momento, já tinham em grande parte outra identidade. No domingo anterior à nomeação de Lula como Ministro da Casa Civil, os movimentos de rua tinham levado três milhões de pessoas às ruas num protesto contra o governo e contra a possível nomeação do ex-presidente para um cargo ministerial. Não se ignora a voz de três milhões de pessoas impunemente. A nomeação dele para a casa civil soou, até para muitos que apoiavam o governo, como um desrespeito às vozes de uma parte significativa da população. Ao ignorar o movimento, o governo ajudou a jogar uma pá de cal sobre as possibilidades de superação da crise política em que se encontrava.

A realidade me esbofeteou pra valer mesmo naquela sessão de domingo da Câmara de Deputados que aprovou o prosseguimento do processo de impeachment da presidente. Olhava incrédula para a postura e ficava atônita com as falas de grande parte daqueles parlamentares. Pensava na gravidade do que aquilo significava para além daquele resultado, para o fato de que aqueles senhores e aquelas senhoras ocupavam cargos representativos e, portanto, representavam uma parcela da população. Suas condutas questionáveis naquele dia e nos dias que se seguiram àquela sessão colocavam em xeque o nosso congresso. Ética?! Decoro?! Nada disso parecia existir por ali. Passei, a partir daí, a olhar com mais atenção o número expressivo e crescente de votos em branco e nulos , bem como o enorme número de abstenções nos processos eleitorais para os mais diversos cargos políticos de nosso país. Nosso sistema eleitoral desconsidera esses números para os resultados, no entanto, diante do quantitativo de pessoas que representam, devíamos repensá-lo. Não basta criticar os que agem assim, tampouco rotulá-los de isentões. Tais votos também manifestam uma mensagem, a de que aqueles eleitores não concordam que nenhum dos candidatos inscritos os representem e isso é coisa à beça.  Para muitos, deixar de votar é uma decisão amadurecida e demasiadamente difícil. Jamais votei nulo ou em branco nem me abstive das votações, mas entendo quem o faz. É preciso pensar nisso com a seriedade que o assunto merece.

Depois de passar pela Câmara dos Deputados, o Senado brasileiro aprovou o impeachment, que  se consolidou como um golpe quando, dois dias depois de ser votado,  o mesmo Senado sancionou uma lei que flexibilizava as regras para a abertura dos créditos suplementares sem a necessidade de autorização pelo Congresso Nacional. A partir daquela data, então, estavam legalizadas as “pedaladas fiscais”, que foram o principal argumento para o pedido do impeachment presidencial. Ou seja, depuseram a presidente por uma ilegalidade que dois dias depois avaliaram como legal. Deram nó em pingo de éter bem na nossa frente. Ao contrário do que ocorrera no impeachment de Collor, a voz das ruas não era uníssona. Novamente havia sido desconsiderada uma parte significativa da população.

Pouco mais de um ano do ocorrido, o que temos visto é de abalar as estruturas das nossas esperanças. Temos um presidente que foi gravado em uma conversa comprometedora com o empresário e delator Joesley Batista  em que, o mínimo que se pode pensar, é que o presidente tenha prevaricado. Acusado pela Procuradoria Geral da União de crime de corrupção passiva, esse mesmo presidente, ao invés de tomar atitudes coerentes com a lisura e a transparência que o exercício de sua função exigem, toma providências no sentido de dificultar a visão da entrada do Palácio do Jaburu e estabelece o uso de mecanismos para dificultar a gravação de suas conversas, como é o caso da instalação  do misturador de vozes. Coisa que mais se aproxima de uma confissão de culpa do que do desejo de provar que não a tem. Sua manutenção na presidência tem se dado por manobras e mais manobras políticas que, se não forem ilegais, certamente são imorais. A crise econômica e financeira continua instalada. Houve perdas de direitos trabalhistas. Universidades públicas agonizando. O aumento do número de pessoas em situação de rua é visível. O aumento da violência e da criminalidade é sentido pela população até fora dos grandes centros. E ninguém se manifesta. Bem, isso é o que dizem. Tenho visto, pelo país afora, gritos e mais gritos de “Fora, Temer!” E esse coro está crescendo. Basta que haja uma reunião para que tal apelo surja naturalmente. Se os gritos não ganharam as ruas, não quer dizer que eles não existam, é importante que isso fique claro.

Por que os gritos não ganham as ruas? Há vários motivos, mas sobre dois deles eu gostaria de falar. Temos sido sistematicamente expostos ao medo. Medo de que a economia desande e que o país vá à bancarrota, como se o desacerto no campo econômico não estivesse intimamente ligado aos inúmeros processos de gestão fraudulenta, de rios e rios de propina de que nos dá conta o Ministério Público. É como se falassem para nós que os gestores não têm culpa, mas nós podemos pôr o país a perder por querer que o presidente responda o processo por corrupção passiva no Supremo Tribunal Federal. Há uma espécie de ameaça de que teremos responsabilidade pelo fracasso da economia se houver uma mudança. “Ruim com ele, pior sem ele”, nos avisam alguns a todo o tempo. Além disso, a pós-verdade, sem entrarmos na discussão filosófica se está sendo usada no sentido real ou equivocado do termo, mas pensando no significado que tem assumido no contexto atual, tem ajudado a nos confundir, valorizando mais a versão do fato do que o fato ocorrido em si. Dando mais crédito à versão do fato do que a verdade em si. Os discursos de alguns políticos são completa e propositada distorção dos fatos. Precisamos estar atentos a isso.  Temos o dever cívico de não nos deixar enganar. Concordar que um presidente não seja julgado por um crime do qual se tem provas é o mesmo que assegurar para toda a classe política que a lei não pode atingi-los.  É endossar a impunidade.  A população não foi para a rua? Há muitos meios de se manifestar, ir às ruas não é o único. É fundamental fazer uso deles.

E o que tem Caetano a ver com tudo isso? Passei boa parte da vida adulta vendo uma escalada crescente de conquistas e direitos, tenho estado dolorida vendo essas conquistas descendo ladeira a baixo. Constatar toda a fragilidade desses direitos tem sido um duro aprendizado. Olhar Caetano ali no palco, desfilando sua poesia ante meus olhos, lembrar que ele foi um preso político, que foi exilado; ouvir canções compostas em 1968; constatar as letras vivas e mordazes de algumas de suas canções e não pensar na situação atual do país, no estado de coisas que estamos vivendo, no avizinhamento de um tempo ainda mais sombrio é simplesmente impossível. É inevitável linkar o Brasil atual aos podres poderes de Caetano. Naquele show, a adulta dolorida que estou se encontrou com a jovem esperançosa que eu fui e ratificou minha convicção de que é preciso resistir. Resistir com amor, com poesia, com dança, com música, com garra, com arte, com beleza para manter a saúde emocional. Resistir fazendo uso dos meios disponíveis para me manifestar. Resistir buscando informações em muitas e muitas fontes para não ser catequizada pelos manipuladores da informação. Sim, quem se propõe a ouvir mais do mesmo o tempo todo, pode acabar com sua capacidade de análise comprometida.  É preciso ser um leitor plural, lendo e ouvindo aqueles que concordam conosco e também aqueles que discordam de nós. É preciso crescer e exercitar o respeito, prestar muita atenção aos fatos e lutar pelo que se acredita.

Enquanto boa parte da classe política do nosso país exerce seus podres poderes, estamos nos perdendo ao dividir nossas forças. Enquanto eles nos vencem, saqueiam e oprimem, nos desgastamos em confrontos nas ruas ou em redes sociais. A polarização tem facilitado muito a vida deles. Até quando nos conformaremos com ridículos tiranos?

PODRES PODERES
(Caetano Veloso)



SOBRE AS HERANÇAS DO PLANO COLLOR
http://istoe.com.br/58752_DIFICIL+DE+ESQUECER/

RESULTADO DAS ELEIÇÕES DIRETAS PARA A PRESIDÊNCIA DO BRASIL EM 2014
http://www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2014/Dezembro/plenario-do-tse-proclama-resultado-definitivo-do-segundo-turno-da-eleicao-presidencial

PRIMEIRAS MANIFESTAÇÕES PELO IMPEACHMENT DA PRESIDENTE
http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2014-11-01/protesto-contra-dilma-rousseff-fecha-avenida-paulista.html

CONVOCAÇÃO PARA PROTESTOS FEITAS POR CANDIDATOS DA OPOSIÇÃO EM DEZEMBRO DE 2014
http://g1.globo.com/politica/noticia/2014/12/aecio-e-oposicionistas-fazem-pela-web-convocacao-para-ato-de-protesto.html

SOBRE O DISCURSO DE HILLARY CLINTON
https://www.youtube.com/watch?v=1AJph8kHBYc#t=1154.821324

SOBRE AS MANIFESTAÇÕES POPULARES DE 13 DE MARÇO DE 2016
https://brasil.elpais.com/brasil/2016/03/13/politica/1457906776_440577.html

APROVAÇÃO DAS PEDALADAS FISCAIS PELO SENADO DOIS DIAS DEPOIS DO IMPEACHMENT
http://economia.ig.com.br/2016-09-02/lei-orcamento.html


OUTROS TEXTOS INTERESSANTES

Logo após o resultado das eleições
http://g1.globo.com/sao-paulo/eleicoes/2014/noticia/2014/10/na-paulista-tucanos-gritam-impeachment-e-petistas-pedem-choro-no-cantareira.html

De antes das eleições
http://congressoemfoco.uol.com.br/opiniao/colunistas/os-dilemas-da-atual-oposicao-a-presidente-dilma/


terça-feira, 25 de julho de 2017

Entre linhas

Não nasci em uma família de leitores contumazes. Apesar disso, sempre tive incentivo para a leitura e para os estudos. Os pais liam, mais jornais e notícias do que literatura, mas liam. Digo liam, assim no passado, porque hoje com a tecnologia ao alcance das mãos, leem mais e têm uma leitura mais diversificada também.

A memória pode nos trair algumas vezes, então, é meio complicado saber exatamente quando foi que o interesse pela leitura deu partida em minha história. Revirando o baú das lembranças, vou encontrar lá longe, na terceira série do primeiro grau, era assim que se falava, a Tia Magali. Era uma professora primária, de uma escola pública estadual e que já inovava em seu modo de estimular os alunos. Com todas as limitações que encontrava, promovia gincanas e desafios entre os estudantes para a realização das tarefas e os prêmios eram, entre outras coisas, revistas infantis e gibis. Meu primeiro prêmio significativo nessa séria brincadeira foi uma revista “Nosso amiguinho”. O exemplar trazia uma historinha, bem como uma narrativa lúdica sobre algum fato histórico. Essa é a primeira lembrança do contato com textos que me despertaram o quero mais. O desejo por mais e mais revistas daquele tipo nasceu daí.

A essa altura minha mãe, vendo que eu gostava de ler, já providenciava uma ou outra coleção infantil para que eu pudesse viajar nas páginas dos clássicos contos para crianças. Depois disso, por ter uma irmã portadora de necessidades especiais e por isso representar uma enorme dificuldade para a “aceitação” dela em escolas – naquele tempo não tinha lei específica para isso – acabei por ser matriculada na Escola Viva, que já fazia a chamada educação inclusiva em melhores moldes que os de hoje. Como a preocupação com a leitura fosse uma constante naquela escola, havia uma série de eventos nesse sentido. O ponto alto desse incentivo era o trabalho com alguns autores ao longo do ano e a presença de um deles na  Feira  Anual do livro.

O primeiro autor que me despertou fascínio foi Carlos de Marigny. Tinha lido ”Detetives por acaso” e “Os fantasmas da casa mal assombrada” e o sujeito escrevia de um jeito que me acordava o interesse por mais e mais aventuras.  Marigny foi o primeiro que me fascinou. Também ele escreveu o primeiro livro em que embatuquei. Tínhamos leitura de férias e o livro indicado para a minha turma era “A ilha das borboletas azuis”, eu começava e recomeçava e começava de novo e não conseguia avançar na leitura. Já quase no fim das férias, que eram longas, diga-se de passagem, consegui vencer a dificuldade e adorei o texto, coisa que revivi algumas vezes no correr dos anos. Há livros que não conseguimos ler de prima, é preciso insistir.

De lá pra cá, a vida seguiu seu curso entre Pollyannas,  O pequeno príncipe, O menino do dedo verde, É proibido chorar até chegar a adolescência e eu fazer, o que seria na época, minha primeira leitura clandestina. Um dia, no sótão de casa, descobri um livro que tinha um título particularmente interessante. Não tive dúvidas. Passava horas escondidinha lendo “O amante de Lady Chatterley”. E foi delicioso! Ri, chorei, tive raiva, compreendi e devorei o livro encantada com a literatura pra gente grande, que eu acabara de descortinar. O texto de D. H. Lawrence falava dos conflitos humanos, das encruzilhadas da vida, das escolhas, das diferenças entre as classes sociais e até de amor, desejo e sexo.  Foi precisamente aí que me apaixonei pelos dramas existenciais humanos.

Bem, mas por que estou falando de tudo isso? É que hoje é o Dia Nacional do Escritor e eu me peguei pensando em como foi que esses caras começaram a me interessar e fui buscar a minha vida de leitora, fazer uma retrospectiva. Cheguei até aqui, mas uma questão me inquieta: como nascem os nossos escritores favoritos? Para falar sobre eles, preciso me lembrar dos tempos da faculdade.

Decidi fazer Letras depois de muito tempo de amadurecimento, o que para muitos podia ser uma escolha óbvia, para mim estava submersa entre as tantas vozes do mundo, entre tantas escolhas possíveis. Nesse sentido, demorei a amadurecer. Passei muito tempo ouvindo as vozes de fora, sem reconhecer as vozes internas. Por incrível que pareça, tive a felicidade de conviver com alguns colegas que também iniciaram aquela faculdade na mesma época da vida, cada um com sua história, claro.  Minha turma era mesclada: havia os muito jovens, os jovens e os mais maduros e isso era muito rico.

O afeto sempre teve um papel importante para mim e, nos bancos acadêmicos, fui descobrindo pessoas que tinham, mais que autores preferidos, uma relação afetiva com eles. Desse modo, fiz uma outra leitura daqueles mesmos escritores a partir do olhar apaixonado de minhas amigas. Nanci era encantada por Fernando Sabino, Isabela por Rubem Braga e Claudia por Mário Quintana. Nanci lia o Fernando por entre as linhas de seus textos, Isabela suspirava com a poesia presente nos escritos de Braga e Cláudia era tão apaixonada por Quintana que sua mãe,  percebendo isso, num gesto delicado de amor e generosidade, fez uma jardineira de miosótis na janela do quarto da moça. E o que têm os miosótis a ver com isso, hão de me perguntar. Bem, eles são nada mais nada menos que as flores preferidas daquele poeta. Já pensaram nisso?! O fato é que, depois de conhecê-las, gosto mais de Fernando, de Rubem e de Quintana.

Embora apreciasse alguns escritores e alguns até muito, ainda não tinha encontrado aquele que falaria assim tão perto da minha maneira de sentir o mundo. Ainda não conhecia alguém que fizesse ecoar a sua voz dentro de mim. Era 2000, eu tinha 28, começara a faculdade e estava passando pela crise dos 30. É, passei por ela, mas adorei fazer 40, vai entender. Procura daqui e lê dali, encontrei num site uma crônica cujo título me interessara sobremaneira: “Fazer trinta anos”. Comecei a leitura achando ser mais um texto sobre os 30 e fui descobrindo que era o texto sobre os 30. E fui destacando frases, como de costume, “Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada”, “Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil”, “Fazer 30 anos é como o mineiro vê pela primeira vez o mar”, “Mas fazer 30 anos é como sair do espaço e penetrar no tempo. E penetrar no tempo é mister de grande necessidade”, “Por isso é necessário ter asas e sobre o abismo voar”.  Aquelas palavras, bem naquele momento singular de minha vida, ficaram reverberando em mim. Me encantei, claro, e reli em voz alta e quis conhecer o que mais escrevia aquele autor. Affonso Romano de Sant´Anna, o nome dele. E procurei textos e mais textos, e comprei livros, e li crônicas, e li poemas, e li ensaios, e li críticas, e li teorias e o dividi com os amigos e alguns amigos o repartiram comigo, e concordava e, vezes, até discordava do que ele dizia, mas seus textos eram/são de suma importância pra mim. Aquele homem era um manancial e eu estava fascinada. Não tive dúvidas e passei a comprar “O Globo” aos sábados exclusivamente por conta do caderno “Prosa e Verso”, u-ni-ca-men-te por conta do autor. Devo confessar que jamais perdoei aquele jornal por tê-lo deixado de publicar.

Sem perceber, minha leitura de mundo passava pela leitura de mundo daquele escritor, eu buscava nos jornais o que ele estava pensando sobre determinado assunto, o que ele estava escrevendo sobre o tema. Tinha nascido o afeto. Naturalmente, palavra por palavra foi surgindo em caixa alta o MEU ESCRITOR PREDILETO.

Em 27 de março deste ano, Affonso Romano fez 80 anos. Produzindo, adaptado às novidades tecnológicas, cheio de inquietações e encantador como sempre. É bonito ver uma trajetória como a dele. Parabéns pra ele! Leio o mundo, a vida, as situações, as pessoas entre as linhas de muitos autores, mas Affonso é o cara que me ajudou/ajuda a ver mais poesia no mundo, a respeitar meu tempo, a analisar as situações sobre vários aspectos, a ver com clareza as regras nem sempre claras da nossa sociedade. Affonso é o cara que me ajudou/ajuda a ler o mundo que, aliás, é o título de um de seus livros, com mais serenidade, crônica e cronologicamente. E é por isso que, com  imenso respeito a todos os escritores do mundo, é pra ele que gostaria de desejar de modo especial Feliz Dia do Escritor! Feliz dia, Poeta! Feliz dia, Professor!

E você já parou pra pensar como o seu escritor favorito chegou na sua vida? A quem felicitaria de modo especial nesta data?


FAZER 30 ANOS,  de Affonso Romano de Sant´Anna
http://www.releituras.com/arsant_30anos.asp


OUTROS TEXTOS DO AUTOR:
O homem-bomba
https://www.facebook.com/estacaomarisebender/photos/a.1718157488501268.1073741829.1708697116113972/1718155915168092/?type=3&theater

Despir um corpo a primeira vez
https://www.facebook.com/estacaomarisebender/posts/1804460883204261:0

PROJETO RELEITURAS (vários textos de vários autores)
http://www.releituras.com/arsant_menu.asp

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Hibernação


É inverno. A temperatura lá fora cai vertiginosamente, enquanto meu peito se ilumina aquecido de lembranças saborosas e caras da infância e de outras fases da minha história. Talvez porque a vida tenha escolhido essa época do ano para me fazer aportar por aqui e porque, por isso mesmo, inverno sempre tenha sido para mim sinônimo de celebração ou, ainda, porque sempre tenha gostado do recolhimento necessário para apaziguar o espírito e essa estação favoreça o estar consigo mesmo o tempo todo. Talvez porque, diante do frio, os sabores se acentuem. Talvez porque o frio congregue, aproxime, envolva e sugira afago e abrigo ou talvez por cada uma dessas coisas e de outras mais, o inverno pra mim sempre vem cheio de significado.

Recolher, nutrir, proteger, aninhar a si e aos afetos. Tempo de refinamento e construção para desembarcar no setembro primaveril. Há sempre um tempo de brotação que é invisível aos olhos, o inverno é assim. Inverno é etapa, fase, momento, avaliação. Ao contrário do que ocorre com outras espécies, até a nossa alimentação é mais rica nessa época do ano. 

Dia desses, a sala de aula me fez lembrar de um período muito caro da minha vida na escola. Petrópolis amanhecera fria, um vento gélido e cortante insistia em desconfortar. Abro a porta da sala e me deparo com algumas meninas com uma espécie de mantinha de soft jogada sobre os ombros. Estavam em pares. Aquela imagem, repleta da noção de aconchego, reportou-me à infância.

Parte da minha vida escolar se deu em um colégio com ideias e ideais à frente de seu tempo, coisa de que só tive consciência quando já era adulta, cursava a Faculdade de Letras e começava a estudar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Nesse momento, percebi que muitas das coisas que eram apresentadas como novidades, eu já experimentara muitos anos antes na Escola Viva, a educação inclusiva foi uma delas. Nessa escola, vezes, na chegada do inverno, os professores reuniam os alunos num grande salão com lareira em que as janelas permaneciam parcialmente fechadas, para que fosse favorecida a penumbra. O fogo era aceso, eram servidas canequinhas com um delicioso chocolate bem quentinho e falava-se sobre o inverno, contava-se histórias e curtia-se em conjunto esse momento/tempo de recolhimento. À exceção do verão, cuja chegada nos encontrava já em férias, celebrava-se cada estação à sua maneira, frutas, chocolate quente ou flores. Tenho, portanto, uma ligação afetiva com a passagem do tempo, com os ciclos.

A própria Petrópolis fica também mais viva e pulsante no inverno. São festivais, músicas, teatro, poesia, a tradicional Festa do Colono Alemão. É tempo de pura efervescência. As cerejeiras afloram. Tudo fica mais mágico e encantado.

Voltando à sala de aula, a programação era a leitura do conto "O espelho", de Machado de Assis, texto disponível no próprio livro didático. Achei por bem deixar as meninas aconchegadas, duas a duas, tal qual estavam para que nossa "roda" de leitura ficasse um pouco mais confortável. A palavra girou espontaneamente a cada parágrafo e, aos poucos, fomos todos nos assombrando com as colocações de Machado. Eu também?! Sim, eu sempre fico maravilhada com os textos desse escritor, mesmo quando leio um velho conhecido. E eles?! Muito! Duas almas?! E  a surpresa era nítida nos jovens olhares que perscrutavam aquelas linhas machadianas. Quando a leitura acabou estávamos todos envolvidos e eles repletos de curiosidade e fomos, então, desvendando as mensagens daquele escriba também à frente de seu tempo.

De temática atualíssima, o conto nos leva a pensar no contraste entre a aparência e a essência, bem como no risco que corremos ao absorvermos as referências externas, aquelas que vêm dos outros, para enxergar a nós mesmos. Quantas vezes duvidamos daquilo que somos precisamente porque os outros nos apontam o contrário? Quantas vezes nos expomos e, mesmo relutantes no início, aceitamos com o tempo os rótulos que outras pessoas nos dão? Quantas vezes acreditamos que nossa essência está nos papéis que desempenhamos e não exatamente naquilo que somos? Quantas vezes damos ao outro o poder de, tal qual um espelho, nos mostrar "quem somos"? São muitas as perguntas que nos fazemos depois da leitura de tais escritos, além da inevitável ponderação de que a vaidade pode fazer perder uma vida, um projeto. Ela pode nos fazer perder a noção de nós mesmos e dos limites que o outro deve ter em nossas vidas. A adulação é mesmo perniciosa e quem a ela se rende cria, inevitavelmente, uma espécie de dependência.

A aula terminou, estavam todos (ou quase todos) encantados com a genialidade de Machado e com tantas informações críticas e subliminares naquele texto. Deixei a sala de aula feliz, a alegria refletida naqueles olhinhos me encheu de entusiamo. Saímos todos daquela leitura nos conhecendo um pouquinho mais e um pouco mais aquecidos. Inverno é tempo de essência e daquilo que é essencial. Nesse sentido, hibernar é fundamental.



Contos de Machado de Assis:
http://machado.mec.gov.br/obra-completa-menu-principal-173/166-conto

Imagem disponível em:

https://pixabay.com/pt/vela-bruxuleante-chama-2400240/

Up em 19/07/2017
Para encantar e aquecer:

Vivaldi The four seasons - Winter - Julia Fischer