segunda-feira, 23 de abril de 2018

Leitora crônica

Foto disponível no Pixabay

Há uns caras que falam direitinho no ouvido que a gente escuta, têm conexão direta com o nosso entendimento, com a nossa maneira de enxergar o mundo e, sobretudo, com o nosso jeito de sentir a vida. Aquilo que eles, muito mais do que outros, falam faz sentido imediato pra gente. Cada um tem esse ou aquele escritor que é especialista em dar um plazinho, que fica reverberando horas, dias, meses, vida afora, no pé da sua orelha.

Para mim, alguns a quem costumo chamar de preferidos, estão nessa onda aí. Eles escrevem ou falam lá do seu jeito e plim, tocam o sininho da afinidade aqui dentro. Martha Medeiros é uma dessas. Pois é, acabo de saborear Felicidade crônica e a autora me deixou com gostinho de quero mais. Não só da série de “livros crônicos”, que são três: Felicidade crônica, Paixão crônica e Liberdade crônica, mas de quero mais vida também. Mais vida, mais viagem, mais música, mais cinema, mais visão desencanada dessa nossa passagem por aqui e o que é fundamental: mais leveza.

Felicidade crônica é dividido em quatro seções instigantes para quem quer seguir os dias praticando o deboísmo, sem perder a noção da realidade: Curtir a vida, Amor-próprio, Família e outros afetos, e Viagens e andanças. Em cada uma das partes há textos apetitosos que fazem você parar para pensar e sentir uma deliciosa e saudável vontade de descomplicar sua própria existência. De ficar de boas com a vida e aproveitar melhor sua estada no Planeta.

Daqui de onde estou em minha caminhada, avalio que são crônicas fundamentais desse trabalho: Muito barulho por tudo, O que acontece no meio, O mundo não é maternal, Órfãos adultos, Feliz por nada, Falhas e A capacidade de se encantar. Ah, sim! Ainda há os textos da categoria imperdíveis: Admitir o fracasso e Carta a João Pedro estão nessa daí. Nesse último, a autora escreve uma amorosa carta a seu sobrinho recém-chegado e descreve amorosamente para ele o que é a vida, fala sobre alguns aspectos do Brasil e, ainda, lhe diz como levar a vida leve. Fala sério, quem não queria ter uma tia dessas e receber tais dicas logo na primeira infância! O fato é que ela fala pra ele, mas escreve para a gente, e todos saem no lucro, independente da idade que tenham.

Martha é o tipo de escritora que, não raro, costuma me encantar até quando divergimos essencialmente sobre algum assunto. É o acontece em Feliz por nada, por exemplo. Para ela, autoconhecimento não é algo essencial para alcançar a felicidade, para mim é indispensável. E nem por isso deixei de adorar e compartilhar o texto. Ou alguém acha que dá para resistir à frase: “Você é o que é, um imperfeito bem intencionado e que muda de opinião sem a menor culpa.”

Não sei se acontece com vocês, mas pra mim tem sido um desafio enorme ler um romance do início ao fim. Os estudos, o trabalho, as tarefas, a leitura do noticiário, o dia a dia, tudo concorre para transformar meu tempo para a leitura de romances numa aventura épica. Desse modo, tenho me dedicado ainda mais à leitura de contos, crônicas e poemas, textos mais curtos e nem por isso menos densos (caso comum na poesia, por exemplo) ou menos ricos. O que não consigo mesmo é ficar sem ter um bom livro como companhia. Bons textos invariavelmente me fazem crescer e gosto disso sobremaneira.

Sempre gostei de crônicas, mas nesse momento, elas estão ainda mais presentes na minha vida e Martha Medeiros tem sido companheira constante nessa jornada. Nunca é demais lembrar que a escritora está com um trabalho novinho em folha na praça: Quem diria que viver ia dar nisso, uma seleção de mais de 100 crônicas para apreciar e sorver. Quanto a mim, acabo de ganhar Liberdade crônica, um delicioso presente de Páscoa, que já comecei a degustar.

Ler é, sem dúvida, encontrar as chaves de cadeados, se libertar.

Um pouco de Martha Medeiros:
Feliz por nada

sábado, 17 de março de 2018

Carta para Marielle

Petrópolis, 16 de março de 2018.

Cara Marielle.

Foto disponível no Facebook de Marielle
Infelizmente, você nasceu na minha vida no mesmo dia em que partiu desse mundo tão complexo e  complicado em que vivemos. É verdade, eu não a conhecia e tampouco tinha ideia de seu trabalho, luta e história tão cheios de significado. Diante da repercussão de sua morte, fui procurar entender quem era você para começar a pensar com alguma lógica em quem poderia ter interesse em calar a sua voz.

Fiquei muito bem impressionada ao ir vendo o desenho de sua trajetória e também ao descobrir que você representava tudo aquilo de bom que se defende em matéria de política e de vida em sociedade: ética, respeito, liberdade, igualdade e o pleno exercício da cidadania. Adorei saber que a moça que gostava de estudar e que concluiu a faculdade na PUC Rio não veio a este mundo para brincar, ainda que de modo alegre – como relatam seus amigos - e sempre trajada com cores vibrantes, tivesse constantemente um sorriso pra distribuir. Encontrei na sua voz pensamentos bem próximos daqueles que costumo defender. Por certo, não concordamos em tudo. Temos pontos de divergência e isso é sempre bom.

Ontem, quando me aproximava da Lapa, ainda sem saber a totalidade do pouco que sei hoje a seu respeito, meu coração doeu e o choro foi inevitável. Dor e choro porque uma mulher idealista e cheia de garra havia sido morta por defender e lutar por seus sonhos e ideais. Uma moça linda, cheia de vida, que teve a rota interrompida ainda no início do caminho. Essa sensação de saída antes do tempo. Essa constatação de saída forçada e brutal. Esse confronto com a finitude planejada, com o desejo de extermínio. Tudo isso me fez/faz sangrar.

De volta a minha cidade, mais leituras sobre você, mais vídeos assistidos, mais vezes ouvindo a sua voz, a sua fala, um pouco mais de você para tentar entender o porquê de, ao que parece, quererem fazer cessar sua atividade política. Conforme os detalhes do crime iam sendo revelados, eu ia pensando no tipo de pessoa que a matou. Em seu carro havia outras pessoas além de você. Eram vidas que, pela forma com que os disparos foram efetuados, não tinham nenhuma importância para o assassino. Anderson, seu motorista, foi morto por estar na mesma linha de tiro que você e nada mais. Para o seu assassino, a morte desse homem jovem, trabalhador, pai, amigo e esposo, pode ter sido apenas um dano colateral. Tudo indica que nada foi feito para que a morte dele pudesse ser evitada. E isso me choca ainda mais. A sua não conformidade foi defender a liberdade, as minorias, os Direitos Humanos, tão fundamentais para cada um de nós. Tudo leva a crer que, para o atirador, Anderson não tinha qualquer significado, era apenas alguém que estava no caminho das balas. Como pode uma vida a mais ou a menos não importar para alguém?!

Foto de Thaís Alvarenga em 08.03.2018
O Brasil que você deixou continua a mesma praça polarizada dos últimos tempos, mas não é o mesmo. A sua morte disparou um gatilho de luta e de resistência naqueles que se negam a sucumbir ao medo. A Cinelândia foi tomada por uma manifestação pacífica e transformada num espaço para gritar o seu nome. Para convocar e proclamar a sua presença, apesar da sua morte física. O nome de Anderson também ecoou pelas ruas. Foi emocionante!

Desde quarta à noite, tem sido difícil estar nas redes sociais. Tem sido doloroso ver a dureza das palavras dirigidas a você e a seus companheiros de luta. Tem sido repugnante ver o ódio materializado nas telas. O que são as palavras se não a materialização do pensamento? E os pensamentos expressos, creia, são os piores possíveis. Parafraseando Renato Russo, nos deram o ‘face’ e vimos um Brasil/um mundo doente.

Quando o Brasil perdeu de 7 a 1 para a Alemanha e o brasileiro foi obrigado a entender que existe mais coisa aqui na terra do que o pretenso talento inigualável do jogador brasileiro de futebol, cheguei a ficar animada que o assunto central das conversas agora fosse a política. Passado algum tempo, percebi mais do que a modificação da pauta dos bate-papos. A paixão agressiva e imatura pelos clubes havia sido transferida para partidos políticos. Algumas discussões na internet lembram bastante as falas de torcedores inconsequentes que não se importam em quebrar um estádio ou um país, desde que o  time deles saia ganhando. As redes sociais, que não por acaso têm esse nome, já que são um veículo que ligam diferentes linhas que se cruzam em determinados pontos e formam um conjunto capaz de salvar, capturar ou aprisionar (uma rede serve para esses fins, não?!), foram invadidas por uma horda de torcedores de um Fla X Flu apocalíptico, em que o bom senso e o equilíbrio foram expulsos de campo. São torcedores inflamados ofendendo o oponente, fazendo apologia ao crime de morte, à lei de talião, ao quebra-mata-esfola, e berrando “morreu porque mereceu” ou um infantilizado e cruel “bem feito”. É tanta gente em algazarra pregando os absurdos mais impiedosos sem qualquer constrangimento, sem qualquer autocrítica ou autocensura, que chego a duvidar que a sociedade brasileira consiga trilhar um caminho acertado algum dia.

Que tipo de doença será que faz uma pessoa pensar em um ranking de mortos, como se houvesse um morto mais importante do que outro? Cada vida perdida é uma lástima! Estão categorizando os mortos, Marielle! E reivindicando o impossível: que todas as mortes ocorridas no Estado do Rio de Janeiro tenham a mesma visibilidade que a sua. Como se não soubessem que a maioria esmagadora de nós não teria mesmo tal visibilidade. O motivo da visibilidade no seu caso é tão óbvio que me dá um pouco de má vontade de ponderar. Basta lembrar que você ocupava um cargo que representava o voto de mais de 46.000 pessoas e que era porta-voz de uma luta inteira. As pessoas agem como se fosse a visibilidade da morte de cada um que importasse. Não é! O que importa é a morte de cada um deles! O que importa, diante da impossibilidade de que você e eles voltem à vida,  é fazer dessa sua morte um ponto de partida para que se obtenha justiça para a sua família e para as famílias dos mortos do Rio e de tantas outras localidades. É unir as lutas e não separá-las. É somar e não dividir. É lutar por uma modificação dessa justiça aí constituída (ou da falta dela), dessa segurança aí posta (ou não), dessa dura realidade que estamos enfrentando. Importa transformar essa tragédia no mote para o fim do faroeste estabelecido na capital fluminense e em tantos outros lugares Brasil afora.

Todos sabem, alguns apenas não querem admitir, que a sua morte não foi aleatória, ligada exclusivamente às questões inerentes à área de Segurança Pública do Rio de Janeiro. A principal linha de investigação da polícia, desde o primeiro momento, é de que ela tenha sido uma execução. As balas que a atingiram tinham endereço certo, queriam exterminá-la. Não foram fruto de uma tentativa de assalto mal sucedida, tampouco estavam perdidas, muito pelo contrário. Quatro balas na cabeça! Quando se morre pelas ideias que se defende, isso tem um significado ainda mais ampliado.

Tem sido muito doloroso ver junto ao seu corpo e aos corpos de tantas outras pessoas assassinadas no Rio, a esperança, a empatia, a solidariedade e, sobretudo, a humanidade em franca agonia. Os tiros são muitos, Marielle. A sociedade brasileira tem se desumanizado e isso ficou ainda mais evidente nesses últimos dias.

Para salvar nossas sensibilidades, só mesmo o alento da realização de várias vigílias em sua homenagem no Rio, no Brasil e pelo mundo. Nas vigílias eu vi abraços, eu vi choro, eu ouvi vozes fortes que gritavam que você vivia. Eu li na poesia de alguém o anúncio e o alerta de que você é semente. Foi a imagem mais bonita que pude perceber neste momento. Lembrei-me da música de Gil e foi inevitável pensar em você como um grão que nasceu trigo e morreu pão para fortalecer aqueles que trabalham na construção de um mundo mais justo, em que haja espaço para as mais diversas vozes. O poeta tem razão: você é semente e está em franca brotação. Que seu caminho aí do outro lado seja cheio de Luz, como foi o que seguiu por aqui. Você virou símbolo, moça. Morreu em março e em plena luta, ao que tudo indica, em virtude dela. Ao contrário do desejo de seus algozes, sua voz se multiplicou e ecoa ainda mais forte.

Marielle, presente!
Anderson, presente!
Hoje e sempre!


domingo, 11 de março de 2018

Sem mais nem porquê

Foto de Mauro Ferreira
Acordei pulsando Bethânia. Tambores e atabaques no peito e nos ouvidos vibrando acordes e versos, voz e força, reverberando o show assistido na última quarta, sob as bênçãos do Cristo Redentor. Sou toda lembranças. É que ver a palavra iluminada sobre um palco vestindo canção é algo que não acontece todo dia e nem dá pra esquecer.

Foi de Santo Amaro que essa graça nos chegou purificada em poesia e música. Baía de todos os cantos. Poema vivo e em movimento, com voz que sabe ser miúda e sabe ser forte, que sabe ser prece e ser canto. Poema-se o tempo todo em expressivas declamações. Ora, samba, saúda, louva, grita, esbraveja, canta, brinca e dança. Sorri. É toda luz. Traz em si a alegria que só têm as pessoas que fazem aquilo que amam e o fazem com gosto. Oferta ao público uma energia que só emana daqueles que têm íntima conexão com a terra, com a natureza, com o divino que habita em cada um e fora de nós. Aqueles que têm uma nítida conexão com o sublime.

Traz consigo todas as suas referências e as reverencia no altar de seu espetáculo pondo em lugar de destaque aqueles que foram e são responsáveis por ser e se tornar quem ela é. Estão ali expostas todas as tramas de seu tecido pessoal e profissional: família, amigos, amores, poetas, músicos, cantores, cantigas, lugares, leituras, vivências. Tudo posto e explícito numa natural e belíssima homenagem. A gratidão pela vida, pelas companhias e oportunidades é cristalina. Seu show é celebração.

Do recôncavo de si, transforma cantigas já consagradas nas vozes de outros intérpretes em algo particular e único, como se houvessem sido sempre e somente suas. Reinventa, aprimora, enriquece. Encanta. A voz potente povoa o ambiente de modo equilibrado e confortável, e transmuta cantiga em oração. Dialoga com seus Orixás com intimidade e confiança. Convoca e se entrega à Sagrada Família diante de nossos olhos. Maria de todos os santos rouba-nos risadas, lágrimas e suspiros tão espontâneos, que nem nos damos conta de que recônditos de nós eles nasceram. Invariavelmente nos emociona.

A bênção, Caetano, Dominguinhos, Chico Cesar, Gil, Ary Barroso, Chico Buarque. A bênção, Adriana Calcanhoto, Baden Powell, Gonzaguinha, Pessoa e tantos outros. A bênção, Vinícius de Moraes! Fomos todos abençoados com um repertório rico e envolvente. Como diria o poeta, a intérprete viajou muitas canções e percorreu muitos caminhos para nos entregar um abraço lírico, terno e melodioso.

Para encerrar, ela trouxe uma catártica declaração de amor à Cidade Maravilhosa. De uns tempos pra cá, ouvir essa canção me faz compreender ainda melhor os lindos versos do samba: “a tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste não”. Cantamos em oração. Com fervor, bem querer e torcida muita para que o berço do samba seja novamente coberto de felicidade. E o bis desaguou em Gonzaguinha, saudando a beleza da vida na pureza da resposta das crianças. Foi bonito! Foi bonito! E foi bonito!

Há coisas que devemos fazer uma vez na vida. Uma vez feitas, não é preciso repeti-las. E há outras, no entanto, que não se consegue entender como se viveu tanto tempo sem fazer e a vontade é repetir e repetir e repetir. Ver e ouvir de perto essa entidade nascida em solo baiano é uma delas. Remoçada, ando cantando à toa. Quero mais e ponto!


Foto de Mauro Ferreira
Observações:

- O show em questão foi realizado na Casa de Shows Vivo Rio em duas oportunidades: dias 06 e 07 de março, e teve por finalidade a gravação de um DVD. Bethânia o intitulou interinamente como "show de rua". As músicas são todas bastante conhecidas e os músicos que a acompanham possuem talento e técnica excepcionais.

- Mauro Ferreira é colunista de "O Globo" e pode ser acessado no blog especializado em música:
http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


É ou não é uma força da natureza?

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Carnaval sem máscaras: entre confetes e reflexões

Imagem disponível no Pixabay
Em casa, à tardinha, varrendo o chão, vou juntando os confetes e as ideias. A festa acabou e o fato é que aqueles pedacinhos de papel colorido que haviam sido testemunhas de parte daquilo fora o meu carnaval, deveriam ter agora outro destino. Era preciso organizar a casa, os pensamentos e as deliciosas lembranças de dias de descanso e também divertimento. Meu feriado foi de música, confetes, serpentinas, família, café, encontro com gente querida, conversas, carinho, muito riso, muita alegria. O ninho, o contentamento, as gargalhadas, a dança e a força dos laços afetivos recarregam as baterias para o enfrentamento da vida, do mundo, da realidade brasileira e até dos conflitos internos. Pelo menos do lugar de onde vejo, é assim. E ninho necessariamente não é casa, mas abrigo e acolhimento, coisas que podem se dar em qualquer espaço físico, não importa. Família para mim é, dentre uma porção de outras coisas, esse ninho nem sempre perfeito que nos dá essa força tão necessária quer seja dentro de casa ou no meio da avenida.

Como minha onda é celebrar a fantasia e não a azaração, já faz tempo que escolho um ambiente em que haja famílias inteiras e um clima de amizade celebrando o sonho, a ilusão, a beleza, o canto e o gingado como fontes de renovação, de bem-estar e movimento. Este ano não foi diferente. Nada contra desfiles de escolas de samba, blocos, grandes festas nem contra viagens e retiros também. Cada um festeja seus três dias de folguedo a seu modo e da maneira que mais o contenta. Cada um busca harmonizar-se e energizar-se do seu jeito. Ou nem busca nada disso. Carnaval também pressupõe liberdade. De pensamento, inclusive.

Gosto, gosto sim. De marchinhas, de samba, de cantoria e batucada. Gosto de dançar sorridente cantando a plenos pulmões cantigas que libertam a voz embargada de muitos dos outros 362 dias do ano. Gosto de pôr flores no cabelo e brilho no rosto. Gosto de chapéus de malando, de gravatas e de camisas listradas. Gosto de coisas que não uso habitualmente nos dias que não são de folia, especialmente daquelas que espantam a caretice e botam pra correr o meu lado mais ranzinza. Na minha vida, gosto de dar espaço à fantasia. Afinal, ela tem importante papel na preservação e na manutenção da saúde mental. Ela nos salva e nos resgata do excesso de racionalização. Tenho estado bastante inquieta e apreensiva com sociedades que têm tentado legislar sobre a ficção e cometem barbaridades na vida real. Somos feitos de realidade e de sonhos, é bom procurarmos dar vazão a ambos, do contrário corremos sério risco de adoecer.

Coisa boa é ver gente sorridente, esbanjando animação, numa saudável entrega à ludicidade. E encontrar aquela galerinha que a gente só vê no Facebook com seus amores, filhos, netos, amigos e trocar um sorriso, uma palavra, um abraço, dois beijinhos, um olá ou um tchauzinho que seja. E ir com familiares e amigos curtir um sambinha, uma canção de criança, uma coreografia. Tenho uma visão extremamente positiva do Carnaval e ela, obviamente, não tem nada a ver com os absurdos e abusos praticados em nome da "alegria". No entanto, não é todo mundo que olha para ele com olhos tão enamorados. Há os que o criticam severamente e outros que, se pudessem, o riscariam do mapa sob as mais diversas alegações, esquecendo-se de que o Carnaval é uma festa popular.

Ainda que muitos insistam em criticar a Festa de Momo e a apontem como um modo prático de alienar-se, para além dos rótulos, há o que acontece, há o que cada um faz e sente, e há a ocupação de praças, ruas e avenidas por uma massa popular que, de modo geral, não é o centro das atenções.  O centro e a periferia se misturam em escolas e cordões. Simbolicamente, o povo toma conta das cidades, promove a sua marcha e espalha seus cantos - múltiplos e plurais - aos quatro ventos.

O samba nasceu do povo e conquistou o seu lugar na base da resistência. Ele, que surgiu marginalizado, teve seu primeiro registro na Biblioteca Nacional em 27 de novembro de 1916, embora tenha havido quem fizesse samba antes dessa época, sem contudo - por temor - registrá-lo com tal sobrenome. É isso que nos relata, por exemplo, a historiadora Thaís Matarazzo numa entrevista feita à época do centenário do samba. Pelo telefone, de Donga (música) e Mauro de Almeida (letra) foi a primeira composição desse gênero musical oficialmente registrada no Brasil. E o primeiro samba a fazer sucesso.

Nesse ponto do raciocínio, lembro-me da apuração das notas obtidas pelas Escolas de Samba do Rio de Janeiro e ligo a televisão. Teve muita gente surpresa com o tom crítico dos enredos e das alegorias de Paraíso do Tuiuti, Beija-flor e Mangueira este ano. Fruto de um provável lapso de memória em relação ao papel de resistência que o samba e o próprio Carnaval sempre tiveram. Houve quem se espantasse com desfiles tão críticos e politizados na Marquês de Sapucaí. Mas isso não é exatamente novidade, que digam os ratos e urubus de 1989 (Beija-flor) e o rei dos esfarrapados, príncipe do povo de 2000 (Mangueira), não é mesmo? Vixe! Tem são Clemente cantando os Capitães do Asfalto lá em 1987. Tem muito mais! E a crítica não é prerrogativa só das escolas, um bom e atualíssimo exemplo disso é o que nos trouxe o Simpatia é quase amor.

Voltando à apuração, quando liguei a TV, já passava um tanto da metade. Fiquei animada com a Paraíso do Tuiuti aparecendo nas primeiras colocações. Achei a agremiação corajosa, visto que temia que o fato de ela não ter o que os carnavalescos chamam de uma "bandeira de peso", pudesse lhe trazer algum prejuízo.  Em primeiro, estava lá a Beija-flor, seguida da Portela. Foi a primeira vez em muitos anos que vi muita coerência entre a posição das cinco primeiras e o zumzumzum resultante dos desfiles na avenida. Não consegui deixar de acompanhar até o resultado final.

O samba que havia arrebatado meu coração verde e rosa na voz da menina Giovana Galdino foi o vencedor de 2018. Ela o tinha gravado em vídeo e feito um baita sucesso nas redes sociais. Deu Beija-flor na cabeça! Foi aquela pequena que me fez perceber toda a poesia desse enredo. Foi na voz dela que ouvi mais forte o apelo de um eu lírico menino pobre - à margem de uma sociedade que o repele como a um monstro - a uma pátria mãe e amada, mas omissa e negligente. Um menino que põe em xeque o uso da religião para fins comerciais, que denuncia o aprisionamento da liberdade, a falta de esperança do povo brasileiro e que chama a pátria a arcar com as suas responsabilidades.

A Mangueira, minha escola do coração, terminou a disputa em quinto lugar. Com uma crítica contundente ao Prefeito do Rio de Janeiro, também esteve no centro das discussões sobre o desfile das escolas do grupo especial. Entretanto, embatuquei em um dos versos da composição. Tenho restrições ao termo "sambar na cara da sociedade". Apesar de entender que significa arrasar, ter sucesso, e ter caído no gosto do povo, é uma expressão que exclui a comunidade da sociedade. Penso que precisamos compreender que somos todos parte dela e corresponsáveis por ela até no discurso. Confesso que dessa vez minha torcida foi para outras escolas, ainda que desejasse muito ver a verde e rosa entre as primeiras. E aqui paro pra pensar na postura (ou na falta dela) que tiveram o prefeito e o governador do Rio, ao virarem as costas para a população durante um evento dessa magnitude.

Paraíso do Tuiuti traz vampiro com a faixa presidencial
numa clara referência ao atual presidente brasileiro
Foto: Wilton Júnior/Estadão
É claro que sempre tem uma divergência ou outra, e que sempre vai haver aquele que ache o resultado injusto. Independente do resultado oficial, a Paraíso do Tuiuti, que ficou com o segundo lugar, foi aquela que rompeu o medo, que rompeu a barreira da segurança pública opressora, dos sprays de pimenta, dos cassetetes, das bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral, das balas de borracha, dos criminosos mascarados travestidos de manifestantes - que promovem quebra-quebra em manifestações pacíficas (comprados???) - e mostrou ao mundo - inclusive à Suíça - que o povo brasileiro não está satisfeito com a realidade que lhe está sendo imposta, tampouco de acordo com as reformas que estão sendo "propostas".

Foi ela o mais explícito marco de resistência na avenida. Ela cantou e foi  o principal quilombo do povo brasileiro no sambódromo. Ultrapassou as fronteiras das telecomunicações do país e lançou o grito do Brasil oprimido ao Planeta. O Tuiuti voou longe e bateu pra geral o sentimento de grande parte do nosso povo. E, vamos combinar que o silêncio dos apresentadores da Globo veio bem a calhar, uma vez que se pôde ver e ouvir a franca manifestação dos setores mais populares do sambódromo. O desfile da escola foi catártico. Deu voz à muita gente que queria gritar. Foi pura apoteose.

O samba deu o seu recado e cumpriu o seu papel em rede nacional. Os enredos de Beija-flor e Paraíso do Tuiuti são complementares e contíguos. Acho um tremendo tiro no pé tentar uma oposição entre essas escolas. Bola fora. Um mega gol contra. O resultado de um campeonato não pode dividir o grito uníssono das arquibancadas. O que tem valor imensurável é a denúncia, o rompimento dos meios de contenção do apelo popular. O desmascaramento da farsa de que estamos todos de acordo com as  reformas trabalhista e previdenciária (com minúsculas miudíssimas).

Findas a apuração e a limpeza da casa, dou aos confetes o destino adequado e fico aqui torcendo para que o que aconteceu na Sapucaí não tenha se acabado na quarta-feira de cinzas. Quero crer que as discussões e a queda das máscaras estejam apenas começando e que venham os melhores resultados possíveis nas eleições de 2018!




VEJA OUTRAS IMAGENS DO
DESFILE DAS ESCOLAS DE SAMBA DO RIO DE JANEIRO:

Desfile da escola Paraíso do Tuiuti repercute nas redes socias
| Foto: Mauro Pimentel / AFP / Correio do Povo



"Meu Deus! Meu Deus!
Se eu chorar, não leve a mal
Pela luz do candeeiro


Liberte o cativeiro social"
          (Paraíso do Tuiuti)











Através de Frankenstein, a Beija-flor traz a história
do menino (povo) abandonado por sua pátria
Foto: Daniel Castelo Branco - Agência O Dia


"Ganância veste terno e gravata
  Onde a Esperança sucumbiu
  Vejo a Liberdade aprisionada
  Teu livro eu não sei ler, Brasil!"
                     (Beija-Flor -2018)










"Chegou a hora de mudar
  Erguer a bandeira do samba
  Vem a luz à consciência
  Que ilumina a resistência 
  dessa gente bamba
  Pergunte aos seus ancestrais
  Dos antigos carnavais,
  nossa raça costumeira"
  (Mangueira - 2018)



Diante do descaso das autoridades,
a Mangueira faz um apelo aos céus
Foto: Fernanda Rouvenat/G1






















quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Caravanas: um show todo sentimento

Foto: Fábio Motta/Estadão
Consta nos astros, nos signos, nos búzios e onde mais quer que seja, que ir a um show de Chico Buarque é a concretização de um sonho, não importa a quantos espetáculos se tenha assistido anteriormente.


Ele, que não é unanimidade (ufa!), com sua inteligência, musicalidade e poesia é mesmo arrebatador. Quem mais mereceria uma resenha feita por um Caetano tão nitidamente extasiado em pontos, vírgulas e metáforas? Ver Chico é isto: meio magia, meio ritual, todo encantamento. Ouvir, ver, emocionar-se, vibrar. Buarquear tem sempre um quê de sentimento, de realização pessoal, de presente.

Domingo foi dia de integrar a caravana do compositor na Vivo Rio e conferir a energia e o refinamento do artista. Já passava um tanto das oito da noite, quando ele pisou o palco e sua voz tímida e singular ocupou todo o ambiente com a força do samba Minha embaixada chegou. Na plateia, os corações eram franca batucada e os olhos pura admiração.

O cenário todo navegação: esfera armilar e cordas, que nos remetem a caravelas e desbravamento, nos conduzindo por mares inter e intraplanetários de lembrança e novidade. Rimas de hoje e de tempos atrás, sempre e cada vez mais atuais. O show inteiro transpira equilíbrio e luz. E que iluminação!


O samba cresce e pede passagem até desaguar numa delicada interpretação de Iolanda em que bate forte Pablo Milanés. Em seguida, desemboca nada casualmente em canções do novo trabalho. Depois, menções a Edu Lobo e a Tom Jobim numa fala doce e emocionada de reverência ao talento dos dois. Algumas composições feitas com eles e, na sequência, aquela que agora traz em si uma aura ainda mais afetiva. Além de divinamente interpretada por Bia Paes Leme, como não lembrar das vozes de avô e neta em um Dueto familiar?

No coração do programa surge a encantadora e rica Massarandupió. Aquele piá, aquele psiu, aquele bacuri cresceu. Já faz música de gente grande e deixa cada um de nós babando e respirando afeto, e cor, e som. Os Chicos nos enternecem. É com o espírito delicadamente comovido que recebemos Todo sentimento. Somos todos encantados.

Quando Tua cantiga inaugura o terço final da apresentação, o  público irrompe em aplausos e une sua voz à do cantor para que celebrem juntos a liberdade incontestável do eu lírico da canção. As vozes se fundem e a emoção emana de cada um transformando a atmosfera do lugar. Ao fim da melodia, uma sucessão de palmas, brados e assovios. Manifestação calorosa que tem tom de desagravo. E sabiá retardou seu pouso, o silêncio que evoca demorou a chegar.


Foto: Fábio Motta/Estadão
Um chapéu de malandro surge em cena e saúda uma lembrança querida. É chegado o momento de  homenagear Wilson das Neves, o companheiro de toda uma estrada, falecido em agosto do ano passado. As caravanas passam trazendo à luz e em letra o subúrbio carioca, marca registrada do compositor. 

Samba, bolero, blues... é uma profusão de ritmos. Vem chegando o enceramento, a derradeira estação. O cantor é ainda mais aplaudido. Todos estamos, como Caetano, extasiados. Biiiiiis! Mais uma! Volta! Fora, Temer! E Chico volta! E tem mais: uma vigorosa Geni e o zepelim e a emoção de Futuros amantes parecem dizer que a noite acabou. Parece! Mais palmas, mais saudações, mais clamores. Mais! E ele termina com Paratodos. 
Que venham outros sonhos!




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Que tal ouvir Chico Buarque?

Set list de Caravanas:

Minha embaixada chegou
Mambembe
Partido alto
Iolanda
Casualmente
A moça do sonho
Retrato em branco e preto
Desaforos
Injuriado
Dueto
A volta do malandro
Palavra de mulher

As vitrines
Jogo de bola
Massarandupió

Outros sonhos
Blues para Bia
A história de Lily Braun
A bela e a fera

Todo sentimento
Tua cantiga
Sabiá
Grande hotel
Gota d´água
As caravanas

Estação derradeira

Bis
Geni e o Zepelim
Futuros amantes

Bis 2
Paratodos

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Na estrada

(ou, do meu ponto de vista, o que é ser feliz) 




"Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
  Procede tal e qual o avozinho infeliz:
  Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!"
(Mário Quintana)



Arquivo pessoal
E no meio de um bate-papo, uma pergunta: você é feliz? Ao que respondo imediatamente: hoje sou! Com variações entre o inconformado e o curioso ele manda outra à queima-roupa: o que é ser feliz pra você? A indagação me fez parar pra pensar, me levando a consultar os retrovisores e a ponderar as razões para eu ter feito uma ressalva adverbial logo de saída. Foi um questionamento nada simples e que não merecia uma resposta pró-forma. Felicidade é coisa séria e a questão me fez reviver momentos que têm tudo a ver com o meu conceito atual do que ela seja.

Explico-me. Durante muito tempo, não fui minha melhor amiga. Não estava suficientemente perto de mim e não me sabia ler de maneira competente.  Míope, não enxergava minhas qualidades e vislumbrava vultos que exacerbavam em demasia meus defeitos. E nem é preciso dizer que ninguém é feliz submetendo sistematicamente suas falhas a lentes de aumento.  Parece estranho, mas isso é coisa que acontece a muita gente e não tem nada a ver com autocrítica, que é gênero de primeira necessidade.

O grande problema disso é que não se enxergar com clareza ofusca a própria felicidade, assim como compromete a sua elaboração. Com a visão pouco apurada e lendo mal minhas entrelinhas, desconhecia minhas reais necessidades para viver bem. Pautava-me em muita medida pela miragem. E miragem, a gente bem sabe, é algo impalpável e inatingível. Não existe e ponto.  É só imaginação. Vemos miragens quando nossos sentidos nos enganam. A temperatura sobe e a visão fica comprometida. Pode brotar no asfalto ou nos desertos que muitas vezes percorremos ou perscrutamos. Paixões, ambições, desconhecimento, entre outras coisas, podem aquecer a realidade o suficiente para que nossos sentidos nos preguem peças.

Um pouco mais amadurecida, entendi que, para alcançar a felicidade, autoconhecimento é tudo. É uma espécie de óculos de que se precisa dispor. Felicidade é coisa que existe da boca pra dentro, do lado avesso da pele. E se a gente não se enxergar, não rola.  O modo como você se relaciona consigo mesmo e com o mundo é uma espécie de ponto G da felicidade. O lado de fora tem mais ou menos impacto em seu bem estar emocional, dependendo da maneira que você lida com você mesmo ali no miudinho da vida. É como numa estrada: mapas, placas, desenhos e orientações existem e servem para tornar o percurso mais fácil e seguro, mas de nada ou muito pouco adiantarão se você não souber aonde quer chegar, ou, nesse caso, o que lhe faz bem. Definir onde se quer estar é parte fundamental da viagem. A partir daí, é preciso olhar para dentro de si com coragem para acessar sua própria bússola. Para tomar conhecimento de onde estão seus pontos cardeais e outros tantos mais. Talvez nunca saibamos tudo de nós e talvez isso nem seja necessário, mas o principal, o que nos move e o que nos paralisa, isso precisamos saber. Alguns já nascem com essa habilidade mais desenvolvida, entendem logo pra que lado é o Norte e vão nessa. Não sou dessas, tive que aprender o caminho e isso não rolou de primeira.  Haja tentativa, erro e ilusão até descobrir o que me faz feliz!

Evidentemente, mesmo sabendo um tanto considerável de si, há sempre o risco de se perder no percurso, mas isso se torna um evento menos provável e com consequências menos graves, quando se conhece a sua própria natureza. Alguns desvios são inevitáveis, outros ricos e até necessários, mas quando o desvio vira regra, transforma-se em transtorno e empecilho.

Descobrir logo cedo que não se pode controlar tudo na vida é uma vantagem. Ponto pra quem consegue! Descobri com algum atraso. Durante muito tempo, por ignorar muito de mim, andei pisando pedras, julguei que precisava possuir certas coisas, que não precisava de outras, enveredei por caminhos acidentados e me feri. Tudo isso pode ter sido válido e foi.  Me fez crescer e me deixou mais forte. No entanto, a distância de mim mesma muitas vezes me deixava à margem da felicidade, numa realidade próxima, mas não exata. E me fazia experimentar a sensação de estar em uma montanha russa: feliz-triste-feliz-triste-triste, tornando a tal felicidade mais acaso que destino e, portanto, angústia. Era um tempo em que achava que ela tinha mais a ver com o que vinha de fora e não com a maneira que eu tinha de lidar com a vida.  Conhecer melhor a mim mesma pode não me dar garantias de seguir sem imprevistos e acidentes e não dá mesmo, afinal há fatores externos, óbvio. Contudo me mostra onde estão meus próprios abismos, o que me derruba, o que me machuca, o que me põe em perigo e o que me cura, me protege e me salva.

Arquivo pessoal
O que é felicidade para você? Ele insistiu e eu despertei das minhas divagações, ponderando que essa é uma pergunta que a gente deve se fazer logo no início da jornada. Posto que a vida é trajeto, achei em tudo simbólico que tal questionamento me fosse feito num carro em movimento no meio da estrada. Felicidade pra mim é estar em paz com as próprias escolhas. É não esmurrar o irremissível. É estar pleno de si, com todas as incompletudes, imperfeições e incertezas. É conservar-se aberto ao aprendizado diariamente.  É saber-se, sentir-se e amar-se apesar de todas as situações adversas. É ser grato a tudo e a cada coisa, não porque gratidão está na moda ou porque isso pode ser uma barganha com o Universo, mas porque quem é grato vê/sente/vibra a vida mais bonita. É estar apaziguado com o passado e com a realidade. É estar cercado de e distribuir afeto. É não abraçar nem dar as mãos ao sofrimento. É buscar uma rota leve e solar. É estar pavimentando uma estrada alegre, apesar das inevitáveis frustrações e tristezas. É seguir em paz e poder curtir a viagem. 



domingo, 7 de janeiro de 2018

Sobre o Natal Imperial



Folia de Reis - arquivo pessoal
Quando surgiu o vídeo do projeto do Natal Imperial e foram divulgadas as cifras do orçamento para sua realização, houve muitas críticas. Eu mesma critiquei por questões de transparência na divulgação das informações e por achar as cifras absurdas. Depois veio a licitação, o custo ficou reduzido à metade do valor previsto, o projeto começou a ser executado e a cidade se iluminou no sentido próprio e também figurado dessa palavra.
O Natal Imperial aconteceu. Petro ficou movimentada. Nunca fui de boicotar por boicotar coisa alguma, acho contraproducente. Sou daquelas que acredita que quem boicota indiscriminadamente acaba boicotando a si mesmo. Fui conferir e ressalto que curti. Foi uma grande sacada dos comerciantes da 16 e da Alencar Lima dar vida àquele espaço da cidade. Gostaria que os comerciantes do polo de moda do Bingen tivessem a mesma perspicácia e descobrissem que a velha máxima "a união faz a força" continua valendo. A 16 encantada funcionou de fato. Atraiu olhares de munícipes, turistas, consumidores. Sim, o túnel de luzes teve problemas, mas ainda assim, ficou encantador.

Nem tudo se acertou de primeira e um bom exemplo disso foi o ajuste da iluminação da Avenida Koeller, para que o rio ganhasse enfim a tão sonhada cor azul. Isso também foi bacana de observar: a atenção aos detalhes e a determinação em corrigir as imperfeições.
A adesão do SESC ao projeto foi um ponto alto. A programação ficou ainda mais rica. Ou alguém duvida que assistir ao show da fadista Carminho ao lado de Paulo e Daniel Jobim - filho e neto de Tom, respectivamente - tenha sido um espetáculo? Houve música, poesia, contação de histórias, além de uma belíssima apresentação da Orquestra Sinfônica Brasileira. Sem falar que estavam lindos os jardins do palácio que, além de decorados, abrigavam famílias inteiras brincando até mesmo à noite.
Ganharam mais vida com as programações natalinas espaços como a Praça da Águia, a Praça da Liberdade, a Praça D. Pedro, a 16 de Março, o Palácio Quitandinha, o Museu Imperial e o distrito de Itaipava. Teve trenzinho, parada iluminada, apresentações da Escola de Música da Universidade Católica de Petrópolis e da Orquestra de Câmara do Palácio Itaboraí, e ainda mais.
Ontem à noite, foi promovida a Folia de Reis, que trouxe o enceramento do Natal Imperial. Foi um evento belíssimo e emocionante. A ideia de ir apagando as luzes depois da adoração dos Reis Magos ao menino Jesus foi sensível e em tudo muito simbólica. Foi uma bela caminhada pelo Centro Histórico da cidade até o Palácio de Cristal. Em tudo foi repleta de encantamento.
Já faz algum tempo que elogio o responsável pela pasta da cultura em nossa cidade. Ele é jovem e, a despeito de sua pouca idade, veio para escrever seu nome na história do município. Desde que assumiu o cargo tem revolucionado a programação cultural por aqui. Como eu queria que os responsáveis por outras pastas fossem tão pró-ativos quanto ele! Parece-me que o turismo vai indo na mesma direção, felizmente, já que Petrópolis é uma cidade com enorme potencial turístico e precisa aproveitá-lo.
Há muita coisa a ser feita no município, não há dúvidas. Assim como nem tudo no Natal Imperial foi 100%, mas é preciso reconhecer as boas iniciativas, aquelas bem sucedidas. Petrópolis pode ter um milhão de problemas - e tem - mas o evento em questão foi, inegavelmente, um sucesso.
PS: O Diretor-presidente do Instituto de Cultura e Esportes estava lá. Trabalhando. Acompanhando tudo de pertinho discretamente, sem firulas e rapapés.
#Natalimperial

ACESSE OUTRAS INFORMAÇÕES AQUI:

- Sobre a programação:
https://www.natalimperialpetropolis.com.br/programacao
http://www.natalsescquitandinha.com.br/programacao/

- Apaixone-se você também pela Orquestra de Câmara do Palácio Itaboraí:
https://www.youtube.com/watch?v=kjeYKqG2J9s


ALGUMAS FOTOS DO NATAL IMPERIAL:
Fotógrafo Marco Oddone

Catedral São Pedro de Alcântara
Palácio de Cristal



MAIS FOTOS DE MARCO ODDONE:
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1746983455333337&set=pcb.1746987171999632&type=3&theater

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1722725367759146&set=pcb.1722728797758803&type=3&theater


Dançando na chuva

Flamboyant
O dia de trabalho começou cedinho. Tudo correu bem. Desci a serra sob chuva forte, dessas que fazem barulho no para-brisa. A mata, bem ali diante de meus olhos, celebrando o aguaceiro que veio abrandar o calor. Gosto de chuvas generosas dessas que vêm para lavar e abastecer. É claro que, morando em Petrópolis, torço para que sejam breves e que se alternem com dias de sol. Minha cidade sempre sofre quando elas se prolongam.
Encontrei um Rio de Janeiro igualmente chuvoso e, mesmo com o trânsito mais lento - e talvez por causa dele - pude contemplar os numerosos flamboyants em flor. Muitos floresciam vermelhos, mas havia amarelos e pude ver um alaranjado. Sempre busco o colorido por entre a paisagem. Tenho atração pelo verde, pela flor, pela beleza natural. Flamboyants sempre me lembram um grande amigo e foi uma pequena angústia não poder fotografá-los para ele. Quem disse que o celular funcionou?! Diante da impossibilidade de um instantâneo, deixei-me encantar pelas flores e trouxe nas retinas as imagens, que ainda estão bem vivas enquanto escrevo.
De volta a Petrópolis, mais trabalho. Bem no finzinho da tarde um café delicioso com direito a panetone, conversa jogada fora, boas notícias e risos, muitos e abençoados risos, depois de um dia de luta. Todo mundo merece - e precisa - sair do piloto automático vez por outra e desembarcar num recreio, seja lá o que isso for. Bem-aventurados sejam os sorrisos, porque podem salvar nossos dias.
Já em casa, encontro o filho de boas, bato um papo com a gata, faço uma coisinha aqui e outra ali e sigo para o meu quarto. É hora de relaxar. Abro o "face" e a primeira postagem que vejo é a do meu amigo, aquele lá do segundo parágrafo. Bem, se é música, gosto. Resolvo clicar e o que que é isso?! Uma violinista eletrizante executando Vivaldi me hipnotiza. Dançar é uma questão subjetiva. Tudo me encanta: música, instrumentos, cenário, figurino, luz. Tudo coroando um dia essencialmente leve. Que venham outros assim!

Confira:







Antônio Vivaldi
Winter Concert, Norway
Mari Samulesen










Flamboyant - Imagem disponível em:
https://pixabay.com/pt/flamboyant-%C3%A1frica-natureza-red-1424334/




domingo, 26 de novembro de 2017

Das orações naturais

"O bom samba é uma forma de oração."
(Vinícius de Moraes)

Sou do tipo que procura estar em oração e confesso que as orações naturais são as minhas preferidas. Observar o sol nascer lentamente ou vê-lo se pôr anunciando o fim de mais uma etapa. Ouvir a canção das águas de uma cachoeira, o barulho incessante do mar. Escutar o canto do vento e dos pássaros. Ver o céu azul que nos chama à vida. Perder o olhar nas árvores em flor. Sentir o perfume da rosa recém-brotada no quintal. São todas formas de me conectar com o sublime, de transcender o automático e o cotidiano.
Pôr do sol no Leme - arquivo pessoal

O mar salgando meu corpo é paz. O chocalho das conchas voltando nas ondas na beira da praia é louvor. A areia instável sob meus pés é lembrança de que a vida é também mudança e variação, mas que se pode equilibrar. O dourado do sol nas águas salgadas é pura iluminação. O pássaro que mergulha para pescar é beleza. Os movimentos e sons harmônicos do oceano sugerem meditação, encontro, conversa íntima com o Supremo, com o Criador, com Deus ou com qualquer outro nome que o Bem possa ter.

A lua nascendo é encantamento. O céu cheio de estrelas são infinitas possibilidades. Um entardecer cor de rosa ou alaranjado é o coração aquecido. As nuvens formando figuras no céu são sonho. O verde contrastando com o azul é graça. Pássaros voando são uma ode à autonomia. Fruta crescendo no pé, alimento. Água fresca na fonte, refrigério.

As orações naturais me acalmam e me levam à construção de minhas próprias orações. Hoje o vento assovia nos fios e frestas. Sacode as janelas, desassossega as folhas nas copas das árvores. O tempo cinza me diz que nem tudo é bonito, o ar está pesado e a chuva está num-cai-não-cai inquietante. O dia me lembra mudança, me diz que está do jeito que não é pra ser ou por outra, que ele pode ser muito mais do que isso. Traz-me à lembrança as potencialidades e me faz sonhar. Um dia cinza não é um ponto final, mas a véspera de um dia pródigo de sol e alegria. Tudo hoje me faz pensar no tempo de espera e preparação. Lanço mão de um livro.

Vezes, cerco-me de alguns outros tipos de oração: um poema, uma ida ao teatro, um concerto, uma crônica, um romance arrebatador, a tranquilidade de uma igreja vazia, um café com amigos, conversas com o filho, carinho dos pais. Sou do tipo que reverencia a beleza, o afeto e a liberdade. Liberdade de oração, inclusive.  Tudo celebro, agradeço e peço nas mais variadas situações. Tudo o que apazigua considero prece.

Rezar é coisa subjetiva. Cada um tem seu jeito de se elevar, de sintonizar as forças que equilibram o universo em busca do seu próprio equilíbrio. Muitas vezes rezei ao volante, num gostoso bate-papo divinal estrada afora em busca de soluções e de entendimento. Deus é simples e está em toda parte é bom não nos esquecermos disso.


domingo, 19 de novembro de 2017

Muito além de uma xícara de café


Para Douglas e Antônio
pela arte de servir café
c
om tempero de carinho


Torta de frutas secas - Sant`Anna Cafeteria
Era pra ser só um café, um momento de descontração no fim da tarde, um encontro comigo mesma. Já faz tempo que sou dessas, não adio descompromissos por falta de companhia. Teatro, cinema, show, recital, passeio, sorvete, café, nada obrigatório, descompromissos puros e prazerosos em que não cabem adiamentos. Se tem alguém para ir junto, ótimo. Se não, ótimo. Ontem foi assim, eu comigo, meus pensamentos, minhas sensações. Era pra ser só café, foi música, aroma, sabor e muita observação.  Como é bom terminar um dia em que tudo deu certo numa cafeteria! Um dia em que tudo dá errado também. Café é perfeito para um brinde ou como bálsamo.

Tudo corria do mesmo jeitinho: cardápio, simpatia, pedido, café. Clientes comportados e falando baixinho, como são os ambientes de cafeteria em geral. De repente, surge um menino. Ele, acompanhado por pais e avó, trouxe um bocadinho de inquietação àquele lugar. O pula que pula, a voz mais elevada, a brincadeira irreverente do pai com o garoto. Levei um susto. Não é que o rapaz estourou o pacotinho plástico que vem cuidadosamente embalando os talheres?! Ele mesmo se assustou quando se deu conta do que fizera. Eu ri, mas confesso que agitação não era exatamente o que eu estava procurando naquele lugar. Sou de silêncio e sons, ontem estava mais para a segunda opção.

A estada do menino por ali foi curta, como são próprias das paradas infantis em “lugares de adultos”, mas transformadora. Eu disse que era pra ser só um café, mas não foi isso o que se deu. Na saída, bem pertinho de mim, o garotinho deu de cara com uma vitrola. Foi um espanto. Ele jamais havia visto coisa igual e tampouco sabia para o que servia. Curioso, aproximou-se do objeto e crivou o pai de perguntas. O pai bem que tentava explicar na teoria, no entanto não dava conta de satisfazer à curiosidade do filho. Um pouco distante, o proprietário do estabelecimento observava tudo atentamente. Aproximou-se, desligou o som e ligou o toca-discos para o pleno  encantamento do menino. Pacientemente virou o disco e mostrou que do outro lado tinha mais música, o menino silenciou entre a surpresa e a maravilha. Recolheu a experiência, agradeceu e saiu dali levando uma história pra contar.

Eu sorri, dessa vez, emocionada. Havia presenciado um momento de fascínio e descoberta. Além disso, o sorriso generoso do proprietário do café ao ter servido ao menino um tanto de fascínio denunciava a sua satisfação e me fazia lembrar de uma bela crônica de Affonso Romano de Sant' Anna, que nos fala exatamente que “cada um tem um momento, um gesto, um ato em se que individualiza e brilha”. O moço tinha se iluminado ao encontrar o que tem de mais próprio em si: o prazer de fazer o outro se sentir bem, confortável. A cena foi simples, mas me deixou contemplar “o incêndio de cada um”: o menino colhendo frutos de sua curiosidade e o rapaz extrapolando o ato de servir ao doar-se.  Meu café terminou, pedi a conta, vim para casa, mas a poesia daquele instante está presente fazendo eco até agora. Era para ser só um café, mas foi beleza e testemunho dos fragmentos poéticos que a vida nos dá.

É bonito ver alguém fazendo aquilo de que gosta. O contentamento escapa-lhe pelos poros e nos atinge de alguma maneira. Lembrei-me de um balconista da lanchonete da faculdade, seu nome era Messias (eu me lembro e já faz 14 anos que deixei a universidade).  O pão era o mesmo, as frutas também, mas quando ele preparava o suco e o sanduíche, o sabor era diferente. O aprazimento no preparo agregava um tempero especial e inigualável. Há algo mágico que emana daqueles que estão no lugar certo fazendo aquilo que gostam. No lugar que desejam ocupar. A alegria deles nos contagia, vem conosco e nos faz mais ternos e felizes também, a gente se sente mais vivo. A vida é também essa maravilhosa mudança de roteiros. O fim da tarde de ontem era para ser só um café, mas foi muito além disso e, uma vez mais, a cafeteria fez jus a seu slogan.

Confira também a crônica "O incêncio de cada um", de Affonso Romano de Sant´Anna:
https://www.facebook.com/estacaomarisebender/posts/1882150905435258

Cafeteria Sant'Anna, eu adoro.
Rua Dr. Paulo Hervé, 1139
Bingen
https://www.facebook.com/santannacafeteria/