terça-feira, 19 de junho de 2018

Flagrantes

Fulana vive compartilhando mensagens sobre fé, otimismo e religião, mas no emaranhado das redes sociais, acha bonita a homenagem que alguém fez a um ídolo do esporte e não hesita sequer um instante em copiar, colar e postá-la na sua própria linha do tempo assumindo o pequeno texto como se fosse seu.

Beltrano acha bastante criativa a frase de alguém acerca da conjuntura política do país e a sapeca na sua time line sem mencionar a autoria daquela que a havia escrito. Não é raro vê-lo agindo assim.

Sicrana apropria-se das fotos de um conhecido fotógrafo profissional, corta-lhes as logomarcas e as leva a público como se fossem suas.

Um canal de notícias copia fotos e texto do mural de alguém e os disponibiliza em sua própria página sem dar crédito nem àquele que redigiu o texto nem ao que clicou as imagens.



Todos recebem e acolhem naturalmente elogios por suas publicações sem aproveitarem a ocasião para citar os verdadeiros autores delas.

Esses são todos fatos reais que pude contemplar num curto período de tempo na imensa avenida chamada Facebook, sem realizar qualquer tipo de busca ou de pesquisa pra isso.

Todos os que agiram desse modo têm algo em comum: divulgam matérias, frases, imagens, memes e coisa e tal criticando a falta de ética na política, na administração pública, no Brasil. No afã de conquistar alguma popularidade, de sair bem no face, de fazer graça, de publicar algo belo e criativo ou seja lá o que for, sem perceber, fazem uma espécie de selfie de suas atitudes numa pose nada glamourosa e revelam que, no miudinho da vida, não foram nem tão honestos nem tão éticos quanto gostariam que o país fosse. As redes sociais são mesmo feito um espelho do que vivemos em sociedade e muitas vezes revelam exatamente aquele ângulo que se quer ocultar.

Não dá para esperar que caia do céu um mundo cheio de honestidade e ética. É a sociedade que faz do mundo o que ele é. Somos nós que constituímos a sociedade. É o somatório de uma porção das nossas pequenas (ou grandes) atitudes que tece a trama do mundo. Somos todos fios integrantes desse imenso tecido. O Brasil, a vida, as relações precisam urgentemente de discursos mais afinados com a prática. É preciso calibrar nosso diapasão.

A mudança de conduta para a construção de relações e lugares melhores precisa começar do individual para o coletivo e pode/deve ter início a partir de gestos muito simples como, por exemplo, dar o devido crédito a quem o tem numa simples postagem nas redes sociais. É fácil, indolor, honesto e muito elegante.
(Imagem retirada de postagem do site: https://bhdicas.com/afinal-o-que-e-etica)

domingo, 17 de junho de 2018

Salve a liberdade de escolha!

Jardim do Palácio Quitandinha
Até pouco antes do jogo de estreia do Brasil na Copa da Rússia, eu não tinha decidido se iria ou não assistir à partida. E muita gente pode não acreditar, mas sequer sabia o horário da disputa. Não que vivesse qualquer dilema por conta disso, apenas não via nenhuma urgência em tomar uma decisão. Tinha marcado um forrozinho esperto com meu pai para aproveitarmos o início da tarde cantando e dançando. Mantivemos a programação. 
Até então, vinha acompanhando as manifestações de torcedores e não torcedores da seleção Canarinho, sem achar que sim nem que não, mas que cada um tem a sua maneira de reagir a um mesmo evento e à situação em que se encontra o país. Continuo achando isso. Pelo menos nesse sentido, ainda é possível o exercício da liberdade.
Mas foi olhar o Quitandinha assim todo decorado, preparadíssimo, um luxo mesmo para receber os torcedores, que o clima da Copa chegou pra mim. Saímos do forró, que por sinal foi maravilhoso - eta, grupo porreta o tal do Ziriguidó! - correndo pra casa para acompanhar com a família o jogo do Brasil.

Jardim do Palácio Quitandinha decorado para a Copa

O time não venceu, mas ganhamos o dia. Assistimos ao jogo juntos rindo, brincando, torcendo, comentando, arrancando os cabelos com as oportunidades de gol perdidas, bem como com as injustiças da arbitragem e passamos um bom pedaço da tarde em plena curtição.

Falava com uma amiga dia desses, que todos nós merecemos "um descanso na loucura" e que de amor, paixão e alegria, estamos todos precisados. Assim nos diziam Guimarães Rosa e Drummond, com alguma diferença, é claro. Hoje o futebol me salvou do absurdo e de tudo mais que estamos presenciando. Vivi uma hora e meia de recreio e quero mais. Nas horas restantes, eu penso em coisa séria. 

terça-feira, 12 de junho de 2018

Retrato

O menino passa com sua caixa de sapatos
pedindo uns trocados em plena 16 de março
engulo as lágrimas
calo o choro
tenho a boca seca
e a alma encharcada de pranto.

Ouço a moça sentada na calçada na porta 
do mercado da Marechal Deodoro,
com o filho mal agasalhado nos braços,
a murmurar-me um pedido de frutas
para adoçar a boca (ou aquecer a alma?)
do rebento.
Nego, sigo, empaco.
O murmúrio nos olhos daquela mulher
me fez olhar para trás.
Flagro uma senhora
(quem sabe a mãe da moça)
devorando uma espécie de tangerina,
ainda meio envolta em cascas.
A cena é dura
a fome com que come corta-me.
Volto.

A jovem com o filho nos braços
e com olhos súplices me encara.
Cruzamos olhares, trocamos falas:
- Que frutas seu filho come?
Dou-lhes uma porção das escolhidas
que, sei, não matará suas fomes 
- plurais -
apenas por hoje, quem sabe amanhã ainda
tornará suas vidas um pouco mais palatáveis.
A Criança dorme
a Senhora fita-me
a Moça me doou um sorriso:
alimentou-me.
Prossigo.

Pelo caminho, meus olhos sangram
desse, às vezes, sangue sem cor
que vertemos de tristeza.
Preciso café
expresso pequeno e forte
enquanto enxugo o pranto.
Sigo.

Passo pela Praça Paulo Carneiro.
Onde antes havia caminhas para cachorros,
há uma fina manta cor de rosa estendida no chão:
um Homem dorme.
As camas dos cachorros já não há
um Homem dorme no canto da praça
desamparado até pelos cachorros
que estão juntos se aquecendo
ao centro dela.
Havíamos dado cobertor às gentes
e começávamos a ajudar os bichos.
Que retrocesso!

Engulo seco
não dá mais pra não notar
a Fome, o Medo e o Desamparo
estão berrando em vias públicas
de cidades, de estados, do país.

Levei um soco
era domingo
hoje é terça
e a Dor não passa.

domingo, 10 de junho de 2018

Pra frente Brasil!


“De tudo, ficaram três coisas:
a certeza de que ele estava
sempre começando, a certeza
de que era preciso continuar
e a certeza de que seria
interrompido antes de terminar.
Fazer da interrupção um caminho
novo. Fazer da queda um passo
de dança, do medo uma escada,
do sono uma ponte,
da procura um encontro.”
(Fernando Sabino)

Quando alguém faz terapia, não raras vezes, identifica que, apesar do potencial enorme que o indivíduo tem, ele é seu maior sabotador. É ele que cria os impedimentos, as dificuldades, que enxerga os obstáculos muito maiores do que são na verdade e, muitas vezes, é ele que fortalece os seus inimigos, que se desacredita.
Ayrton Senna do Brasil

Um terapeuta competente, ao fazer essa leitura, dá a devolutiva acertada para o seu analisando e, a partir daí, os dois juntos, analisando e terapeuta, vão ajustando o grau das lentes de que o paciente necessita. O indivíduo vai, então, se tornando uma pessoa assertiva, sabedora de seus limites e de suas potencialidades.

Para que se faz terapia? Perguntaria, algumas vezes, um lobo muito mal intencionado. Aqui cabe uma observação: sempre há, é claro, pessoas fazem tal pergunta sinceramente. Não é delas que estou falando. As perguntas sinceras normalmente nos conduzem ao crescimento. O maldoso não quer saber, conhecer, quer, antes, desacreditar. Voltando à pergunta: Para que se faz terapia? Para enxergar melhor a si mesmo, responderia qualquer pessoa que soubesse da importância que isso tem. Para enxergar a si mesmo?! Sim, é a partir da visão de si mesmo que o indivíduo deixa de se colocar no papel de vítima, que ele deixa de negar seu valor e suas potencialidades, que ele para de dar forças àqueles que querem prejudicá-lo, que para de se sabotar, que entende que o mundo não gira em torno do seu umbigo e que, enfim, começa a crescer e a progredir.

Ué! Como é que a pessoa vai olhar tanto para si mesma e vai deixar de ser egoísta?! Isso não é um paradoxo?! Por incrível que pareça, não é! Quando o indivíduo olha honestamente para si mesmo, ele compreende seus limites, lembra? Compreendendo seus limites, o indivíduo não avança desrespeitosa nem tiranicamente sobre o espaço do outro.  Ele não se coloca no papel de vítima nem de acusador, ele assume suas responsabilidades. Do mesmo modo, como se conhece, não aceita que o acusem injustamente, ele aprende a se defender. Além disso, olhando com honestidade para si, não cobra de outrem aquilo que ele próprio não pode oferecer. Crescer é, também, respeitar, a si e ao outro.

É a partir do processo de ver-se e de respeitar-se que o indivíduo compreende que, antes de querer mudar o mundo, precisa mudar a si mesmo, que ele só é capaz de transformar, transformando-se. Que é do micro para o macro que a vida e as relações humanas funcionam. Do individual para o coletivo. Como é possível modificar positivamente sua casa, seu bairro, sua cidade, seu país, o mundo e suas relações com tudo isso, se você não conseguiu nem tentou produzir uma versão melhorada de você mesmo?

Tudo isso pode parecer muito lógico e bonito. E é! Somos, individualmente, potenciais transformadores individuais e coletivos! Para o bem e para o mal. É preciso ter consciência disso para fazer as melhores escolhas. Ir tomando consciência disso é provar do néctar dos deuses e degustar uma saborosa ambrosia. Mas ninguém está dizendo que o processo de transformação é fácil nem que ele um dia termina. Crescer é decisão diária e contínua e, para que o processo terapêutico tenha sucesso, é preciso ter coragem. Olhar para si mesmo muitas vezes dói. Descobrir que você não é perfeito machuca (mas é também libertador). Muitas vezes, o indivíduo sangra nessa jornada. Crescer pode doer e, na maioria das vezes, dói mesmo. É preciso ser forte. Resiliente. Enfrentar-se. Olhar-se com carinho e honestidade. Doer-se e decidir caminhar. Há um pote de ouro no fim do arco-íris e você nunca vai encontrá-lo. O segredo é ter a certeza de que ele existe e seguir procurando.


Dormi conversando sobre o Brasil e acordei com essa reflexão. Ué! Mas o que tem a ver uma coisa com a outra? Simples. Enxergo o Brasil e o povo brasileiro como aquele sujeito cheio de potencial e repleto de qualidades, mas que não enxerga suas capacidades, que não leva fé em si mesmo e que exacerba as suas imperfeições. Imaturo, sem saber de si mesmo, é usado, manipulado, manobrado, é impelido a lutar contra os seus iguais e a favorecer seus inimigos. E isso é feito por indivíduos sem ética, sem moral. Indivíduos (que se juntam em coletivos de igual natureza) de uma desonestidade ampla, que vai do campo das relações humanas à economia, do terreno das ideias à prática. Indivíduos cujos umbigos são grandes vórtices devoradores de leis, de empresas, de empregos, de pessoas, de dignidade, da Saúde, da  Educação e da verdadeira Justiça.

O processo de desconstrução do Brasil é tão forte e arraigado, que fizeram uma enorme parcela do povo brasileiro rejeitar os símbolos da pátria. Urge que comecemos a reverter o processo! Que comecemos, pois, pelo resgate, pela reapropriação de nossos símbolos. Nossa bandeira é linda! Sejamos verde-amarelos e vermelhos ou vermelhos, e verde-amarelos. Usemos todas as cores. Sejamos todos por nós: o povo e contra eles: os que se locupletam com o dinheiro público em detrimento do nosso país e do nosso povo. Sejamos pelo Brasil.

A nossa Copa mais importante não começa agora! Ela acontece em outubro. A primeira partida será dia 7. A final será dia 28. Que todos nós escolhamos crescer! O Brasil merece e o povo brasileiro precisa.


OBSERVAÇÕES IMPORTANTES:

Não acho, de jeito nenhum, que aqueles que torcem pelo time do Brasil na Copa sejam alienados. Cada um reage a seu modo, cada um sabe como sente cada coisa e sabe como lida com ela. "É de cada um", como diria uma colega da faculdade. Não os julgo nem posso julgá-los. Amo futebol! Além disso, a seleção é também um grande símbolo nacional.

Excerto do texto de Fernando Sabino recolhido no blog "A Magia da Poesia". Visite o blog:

FotoS de Ayrton Senna retiradas de:

sábado, 9 de junho de 2018

Lindos e graciosos

E como se o destino quisesse iluminar ainda mais a serra, uniu três músicos pródigos de carisma e talento e lhes deu a sentença: "Vai, Surya, vai ser luz nesta vida!" E o trio não só aceitou, como honrou o veredicto. Surya é Sol, é Luz, é a música nos dando um sorriso. É emoção à flor da pele e puro encantamento.
Foi a sensibilidade de Guilherme Mará que deu início ao grupo. Tendo sido convidado para tocar em um evento em Petrópolis, Mará avaliou que o lugar pedia a junção ousada de sanfona, violino, cello e pandeiro e não perdeu tempo: convidou Frida Maurine e Yuri Garrido para a ocasião. Sob as bênçãos do acaso e da sensibilidade nascia o Surya Trio.
No último domingo, o grupo se apresentou nos jardins do SESC Quitandinha e aqueceu a manhã fria e cinzenta à beira do lago. Foi tudo som. Foi tudo cor. Com um delicioso e variado repertório que foi de Chiquinha Gonzaga a Dominguinhos e Nando Cordel, o trio iluminou o dia e encantou o público presente.

Segue uma pequena mostra daquela manhã em um videozinho amador para lhes abrir o apetite. Iluminem-se!
Surya Trio
Guilherme Mara - Sanfona/Cello
Yuri Garrido - Percussão
Frida Maurine - Violino


domingo, 20 de maio de 2018

No amor, no Vale e na vida

Vale do Amor – Fazenda Inglesa, Petrópolis

Dia desses, tive oportunidade de voltar a um espaço que está causando muito burburinho em Petrópolis: O Vale do Amor. O local, que pertence à Fraternidade Cósmica Universal e que, além de lindo, tem uma energia incrível, ainda está em construção e, segundo me informou um dos responsáveis por sua conservação, foi descoberto pelo público antes do tempo. Para mim, que gosto de acompanhar o processo de fazimento e transformação de coisas, lugares e pessoas, esse é mais um dos atrativos do lugar.

Visitá-lo pode ser em tudo simbólico. Desde o acesso, que conta com trechos de chão batido e que exige alguma perícia ao volante para driblar os obstáculos, é possível transcender o plano físico e partir para a prática reflexiva. Afinal, o amor, até mesmo o próprio, pode ser lindo, mas nem sempre é fácil, nem sempre é doce, nem sempre é uma viagem tranquila em uma estrada perfeita e pavimentada. Quem nunca derrapou na estrada amorosa que atire a primeira pedra e lance ao lixo todas as suas caixas de lenços de papel. E por falar em pedras, há muitas delas no caminho. É preciso transpô-las com o máximo de cuidado e prosseguir, no Vale e na vida.

Segundo Sérgio Fecher, idealizador do espaço, o Vale é a proposta de um Asham Universalista com elementos das culturas cristã, budista, taoísta, hinduísta e umbandista com o objetivo de promover uma conexão entre o ser humano e a grande força criadora do Universo. Tudo isso cercado de uma enorme variedade de plantas e jardins, de cantos dos mais variados pássaros, do barulhinho de água correndo por entre as pedras, do ar puro e do frescor de uma cidade serrana. O local é encantador e tem muito a oferecer. É um oásis eclético e parece nos dizer o tempo todo que no amor, no Vale e na vida, preconceitos não devem ter vez. Não é à toa que o espaço nos conduza naturalmente ao respeito, à contemplação e à meditação e nos conecte com o amor em cada detalhe.

Localizado no fim do bairro Fazenda Inglesa, não é difícil, diante de uma desatenção, errar o acesso até lá. Como no amor, é possível que os distraídos peguem uma ou outra estrada que não os levará ao destino desejado. Eu mesma já errei o caminho no Vale, no amor e na vida, e nem por isso deixei de me encantar com a paisagem, tudo é parte integrante da caminhada. Na direção do Vale, no entanto, se prestarmos atenção, há umas plaquinhas rústicas indicando a direção, o que facilita bastante o percurso.

Descobri-lo é parte do deslumbramento. Ele é um todo integrado à natureza e está localizado no ventre de uma reserva de Mata Atlântica, pródigo de vida. Traz em si a proposição de uma peregrinação entre um espaço e outro, sempre em aclive. Assim sendo, para desfrutar de sua beleza, diversidade e quietude é preciso disposição para caminhar, especialmente em pequenas subidas. O trajeto é amorosamente acidentado, não muito, apenas o suficiente. Logo, o ideal é usar roupas leves e que permitam a liberdade de movimentos, bem como calçados confortáveis e de solados aderentes para evitar escorregões na descida. O lugar combina com simplicidade, algum esforço, equilíbrio, moderação e nos faz lembrar que leveza e prudência são sempre bem-vindas na vida, no amor e no Vale.

Como já disse, o espaço fica no seio da Mata Atlântica. Desse modo, é bom ter em conta que consciência ecológica não faz mal a ninguém. É imperativo evitar quaisquer danos à natureza, ali ou em qualquer outro lugar a que se faça uma visita. É fundamental aproveitar o ensejo para o exercício do respeito à flora e à fauna locais em cada parte e o tempo todo. Além disso, o Vale do Amor é fruto do sonho de alguém, é bom que não se perca isso de vista.  Sou o tipo de pessoa que entende que o simples fato de estar pondo os pés nos elevados sonhos de alguém já deveria bastar para se ter consciência de que se está a pisar em território sagrado. O espírito afobado de turistas esbaforidos não combina com a atmosfera e destoa do ambiente. O lugar pede uma postura mais introspectiva e respeitosa. Deus é antes de tudo respeito, independente da religião de que se faça parte.

Um sonho. É assim que me refiro ao lugar. É desse jeitinho que o sinto. Um espaço para estar pertinho do Criador e de suas criaturas. Uma oportunidade de flerte com os mais variados aspectos de diversas filosofias e religiões, ou simplesmente um momento de estar em contato com a natureza. Uma oportunidade para se aproximar de si mesmo, de se ver, de se ouvir, se acarinhar. De ofertar a si a beleza e a paz, que são santos remédios para as intempéries da vida. Para ir até o lugar, não é necessário ter crença, mas é imprescindível ter/ser/sentir amor. Amor no sentido lato. Eu recomendo.


Outras fotos disponíveis em:

Informações sobre o projeto podem ser encontradas no site da 
Fraternidade Cósmica Universal:



sábado, 5 de maio de 2018

Filosofando


Numa sala de aula, a professora de Filosofia da filha de uma das minhas amigas – com toda a distância que essa descrição sugere, já que dela não sei sequer o nome - passou uma tarefa para casa: assistir a um determinado filme em companhia da família. Cumpridora de seus deveres e parte integrante de um núcleo familiar amoroso, atento e atuante em tudo o que diz respeito a sua educação, a jovem realizou com prazer e louvor o trabalho proposto na escola (isso nem sempre é possível). Assistiu à película, conversou longamente sobre ela com os pais e juntos analisaram, interpretaram, criticaram, apreciaram, trocaram.

No trabalho, durante o almoço, a mãe da menina repartiu a experiência. O papo esquentou, a conversa fluiu. Resultado: saímos todos da mesa com uma vontade imensa de devorar a obra cinematográfica em questão. Bastante inquieta e curiosa, tratei de me movimentar e assistir a Para sempre Alice, um filme baseado no livro de Lisa Genova, que foi produzido em 2014 e ao qual, por uma razão ou por outra, ainda não tinha assistido.

O longa, que deu o Oscar de melhor atriz a Julianne Moore pelo papel de uma renomada linguista que sofre precocemente do Mal de Alzheimer, põe o espelho diante de nós, reflete e nos faz refletir sobre a possibilidade de um dia perdermos nossa autonomia, nossa identidade, nossas marcas registradas.  Trata da nossa finitude sem se ater ao inexorável destino que teremos todos nós. Ao contrário disso, fala das diversas mortes possíveis de se experimentar ainda em vida: a morte da memória, dos desejos, da consciência e do embotamento da inteligência. Diz sobre a morte social, sobre o fenecer dos vários papéis que exercemos ao longo da vida. E do nosso nascimento em outros papéis muitas vezes desconfortáveis ao longo da vida ou em face de uma doença. Além disso, olha de maneira sensível e competente para a reação daqueles que estão em torno de nós em cada um desses falecimentos. Das dificuldades de lidarem conosco e com eles mesmos diante dessas situações. Das angústias de ser cuidador.

Para sempre Alice é, antes de tudo, uma belíssima reflexão sobre a impermanência. Sobre o fato de sermos todos os dias um pouco novos, um pouco outros de nós mesmos, para o bem e para o mal. Dependendo da situação. É também um nítido retrato da necessidade de nos movimentarmos para a adaptação e o convívio com as novas situações. É, sobretudo, a exposição clara e inequívoca de que não temos o controle absoluto de nossas vidas em nossas mãos. De uma hora para outra, tudo pode mudar. Enxergar isso pode ser um diferencial na hora de eleger nossas prioridades. Pode nos fazer buscar a essência.

Ao falar sobre as perdas e limitações impostas pela doença de que sofre a protagonista, aproxima-nos sensivelmente daqueles que somos hoje e nos faz querer viver melhor a partir de já, de ontem se fosse possível. Fixa-nos um pouco mais no presente e nos transforma um tanto. Aproxima-nos dos nossos afetos, dos nossos amores, de tudo o que nos é caro. Avizinha-nos do valor que tem nosso tempo.

O discurso de Alice para uma plateia de médicos em um congresso é um dos pontos altos do filme. Vemos ali toda a riqueza de seu intelecto a serviço da melhor qualidade de vida para ela mesma e para os que a cercam. Convivemos com os mecanismos criados por ela para, dentro do possível, vencer os limites impostos pela enfermidade que a acomete. Experimentamos seu sentimento de perda,  sua consciência sobre tal agravo, sua coragem para o enfrentamento do problema e sua luta. Deparamo-nos com a generosidade de alguém que quer, com a sua história, contribuir para a maior compreensão dos sentimentos e o melhor atendimento de portadores da mesma doença. A cena do discurso de Alice é daquelas que devem ser revisitadas de vez em quando. É um tremendo estímulo para valorizarmos cada momento vivido, já que a vida é o somatório de momentos vivenciados ou não. É bom ficarmos de olho no piloto automático.

Mas você lembra onde começou nosso bate-papo? Isto mesmo: numa escola! Nossa conversa é fruto da tarefa proposta dentro de uma sala de aula num colégio que jamais frequentei, reverberando aqui em casa, em você e sabe-se lá onde mais. É a Filosofia gerando frutos e nos alimentando. Cumprindo o seu papel de contribuir para o crescimento individual e coletivo numa onda de reflexão. A Filosofia e a Educação têm dessas coisas, não é à toa que metem medo em tanta gente mal intencionada.
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UM POUCO MAIS:
Neste link é possível baixar um excelente artigo da escritora Heloisa Seixas, Flertando com as sombras. O texto trata das dificuldades que ela teve ao precisar lidar com a mãe acometida por Alzheimer e também sobre o enfrentamento de outras dificuldades. Coincidentemente, caiu-me nas mãos enquanto escrevia essa crônica. Recomendo a leitura. Sobretudo para aqueles que lidam com essa questão.
https://www.sescsp.org.br/online/artigo/12016_FLERTANDO+COM+AS+SOMBRAS

TRAILER DO FILME:

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Leitora crônica

Foto disponível no Pixabay

Há uns caras que falam direitinho no ouvido que a gente escuta, têm conexão direta com o nosso entendimento, com a nossa maneira de enxergar o mundo e, sobretudo, com o nosso jeito de sentir a vida. Aquilo que eles, muito mais do que outros, falam faz sentido imediato pra gente. Cada um tem esse ou aquele escritor que é especialista em dar um plazinho, que fica reverberando horas, dias, meses, vida afora, no pé da sua orelha.

Para mim, alguns a quem costumo chamar de preferidos, estão nessa onda aí. Eles escrevem ou falam lá do seu jeito e plim, tocam o sininho da afinidade aqui dentro. Martha Medeiros é uma dessas. Pois é, acabo de saborear Felicidade crônica e a autora me deixou com gostinho de quero mais. Não só da série de “livros crônicos”, que são três: Felicidade crônica, Paixão crônica e Liberdade crônica, mas de quero mais vida também. Mais vida, mais viagem, mais música, mais cinema, mais visão desencanada dessa nossa passagem por aqui e o que é fundamental: mais leveza.

Felicidade crônica é dividido em quatro seções instigantes para quem quer seguir os dias praticando o deboísmo, sem perder a noção da realidade: Curtir a vida, Amor-próprio, Família e outros afetos, e Viagens e andanças. Em cada uma das partes há textos apetitosos que fazem você parar para pensar e sentir uma deliciosa e saudável vontade de descomplicar sua própria existência. De ficar de boas com a vida e aproveitar melhor sua estada no Planeta.

Daqui de onde estou em minha caminhada, avalio que são crônicas fundamentais desse trabalho: Muito barulho por tudo, O que acontece no meio, O mundo não é maternal, Órfãos adultos, Feliz por nada, Falhas e A capacidade de se encantar. Ah, sim! Ainda há os textos da categoria imperdíveis: Admitir o fracasso e Carta a João Pedro estão nessa daí. Nesse último, a autora escreve uma amorosa carta a seu sobrinho recém-chegado e descreve amorosamente para ele o que é a vida, fala sobre alguns aspectos do Brasil e, ainda, lhe diz como levar a vida leve. Fala sério, quem não queria ter uma tia dessas e receber tais dicas logo na primeira infância! O fato é que ela fala pra ele, mas escreve para a gente, e todos saem no lucro, independente da idade que tenham.

Martha é o tipo de escritora que, não raro, costuma me encantar até quando divergimos essencialmente sobre algum assunto. É o acontece em Feliz por nada, por exemplo. Para ela, autoconhecimento não é algo essencial para alcançar a felicidade, para mim é indispensável. E nem por isso deixei de adorar e compartilhar o texto. Ou alguém acha que dá para resistir à frase: “Você é o que é, um imperfeito bem intencionado e que muda de opinião sem a menor culpa.”

Não sei se acontece com vocês, mas pra mim tem sido um desafio enorme ler um romance do início ao fim. Os estudos, o trabalho, as tarefas, a leitura do noticiário, o dia a dia, tudo concorre para transformar meu tempo para a leitura de romances numa aventura épica. Desse modo, tenho me dedicado ainda mais à leitura de contos, crônicas e poemas, textos mais curtos e nem por isso menos densos (caso comum na poesia, por exemplo) ou menos ricos. O que não consigo mesmo é ficar sem ter um bom livro como companhia. Bons textos invariavelmente me fazem crescer e gosto disso sobremaneira.

Sempre gostei de crônicas, mas nesse momento, elas estão ainda mais presentes na minha vida e Martha Medeiros tem sido companheira constante nessa jornada. Nunca é demais lembrar que a escritora está com um trabalho novinho em folha na praça: Quem diria que viver ia dar nisso, uma seleção de mais de 100 crônicas para apreciar e sorver. Quanto a mim, acabo de ganhar Liberdade crônica, um delicioso presente de Páscoa, que já comecei a degustar.

Ler é, sem dúvida, encontrar as chaves de cadeados, se libertar.

Um pouco de Martha Medeiros:
Feliz por nada

sábado, 17 de março de 2018

Carta para Marielle

Petrópolis, 16 de março de 2018.

Cara Marielle.

Foto disponível no Facebook de Marielle
Infelizmente, você nasceu na minha vida no mesmo dia em que partiu desse mundo tão complexo e  complicado em que vivemos. É verdade, eu não a conhecia e tampouco tinha ideia de seu trabalho, luta e história tão cheios de significado. Diante da repercussão de sua morte, fui procurar entender quem era você para começar a pensar com alguma lógica em quem poderia ter interesse em calar a sua voz.

Fiquei muito bem impressionada ao ir vendo o desenho de sua trajetória e também ao descobrir que você representava tudo aquilo de bom que se defende em matéria de política e de vida em sociedade: ética, respeito, liberdade, igualdade e o pleno exercício da cidadania. Adorei saber que a moça que gostava de estudar e que concluiu a faculdade na PUC Rio não veio a este mundo para brincar, ainda que de modo alegre – como relatam seus amigos - e sempre trajada com cores vibrantes, tivesse constantemente um sorriso pra distribuir. Encontrei na sua voz pensamentos bem próximos daqueles que costumo defender. Por certo, não concordamos em tudo. Temos pontos de divergência e isso é sempre bom.

Ontem, quando me aproximava da Lapa, ainda sem saber a totalidade do pouco que sei hoje a seu respeito, meu coração doeu e o choro foi inevitável. Dor e choro porque uma mulher idealista e cheia de garra havia sido morta por defender e lutar por seus sonhos e ideais. Uma moça linda, cheia de vida, que teve a rota interrompida ainda no início do caminho. Essa sensação de saída antes do tempo. Essa constatação de saída forçada e brutal. Esse confronto com a finitude planejada, com o desejo de extermínio. Tudo isso me fez/faz sangrar.

De volta a minha cidade, mais leituras sobre você, mais vídeos assistidos, mais vezes ouvindo a sua voz, a sua fala, um pouco mais de você para tentar entender o porquê de, ao que parece, quererem fazer cessar sua atividade política. Conforme os detalhes do crime iam sendo revelados, eu ia pensando no tipo de pessoa que a matou. Em seu carro havia outras pessoas além de você. Eram vidas que, pela forma com que os disparos foram efetuados, não tinham nenhuma importância para o assassino. Anderson, seu motorista, foi morto por estar na mesma linha de tiro que você e nada mais. Para o seu assassino, a morte desse homem jovem, trabalhador, pai, amigo e esposo, pode ter sido apenas um dano colateral. Tudo indica que nada foi feito para que a morte dele pudesse ser evitada. E isso me choca ainda mais. A sua não conformidade foi defender a liberdade, as minorias, os Direitos Humanos, tão fundamentais para cada um de nós. Tudo leva a crer que, para o atirador, Anderson não tinha qualquer significado, era apenas alguém que estava no caminho das balas. Como pode uma vida a mais ou a menos não importar para alguém?!

Foto de Thaís Alvarenga em 08.03.2018
O Brasil que você deixou continua a mesma praça polarizada dos últimos tempos, mas não é o mesmo. A sua morte disparou um gatilho de luta e de resistência naqueles que se negam a sucumbir ao medo. A Cinelândia foi tomada por uma manifestação pacífica e transformada num espaço para gritar o seu nome. Para convocar e proclamar a sua presença, apesar da sua morte física. O nome de Anderson também ecoou pelas ruas. Foi emocionante!

Desde quarta à noite, tem sido difícil estar nas redes sociais. Tem sido doloroso ver a dureza das palavras dirigidas a você e a seus companheiros de luta. Tem sido repugnante ver o ódio materializado nas telas. O que são as palavras se não a materialização do pensamento? E os pensamentos expressos, creia, são os piores possíveis. Parafraseando Renato Russo, nos deram o ‘face’ e vimos um Brasil/um mundo doente.

Quando o Brasil perdeu de 7 a 1 para a Alemanha e o brasileiro foi obrigado a entender que existe mais coisa aqui na terra do que o pretenso talento inigualável do jogador brasileiro de futebol, cheguei a ficar animada que o assunto central das conversas agora fosse a política. Passado algum tempo, percebi mais do que a modificação da pauta dos bate-papos. A paixão agressiva e imatura pelos clubes havia sido transferida para partidos políticos. Algumas discussões na internet lembram bastante as falas de torcedores inconsequentes que não se importam em quebrar um estádio ou um país, desde que o  time deles saia ganhando. As redes sociais, que não por acaso têm esse nome, já que são um veículo que ligam diferentes linhas que se cruzam em determinados pontos e formam um conjunto capaz de salvar, capturar ou aprisionar (uma rede serve para esses fins, não?!), foram invadidas por uma horda de torcedores de um Fla X Flu apocalíptico, em que o bom senso e o equilíbrio foram expulsos de campo. São torcedores inflamados ofendendo o oponente, fazendo apologia ao crime de morte, à lei de talião, ao quebra-mata-esfola, e berrando “morreu porque mereceu” ou um infantilizado e cruel “bem feito”. É tanta gente em algazarra pregando os absurdos mais impiedosos sem qualquer constrangimento, sem qualquer autocrítica ou autocensura, que chego a duvidar que a sociedade brasileira consiga trilhar um caminho acertado algum dia.

Que tipo de doença será que faz uma pessoa pensar em um ranking de mortos, como se houvesse um morto mais importante do que outro? Cada vida perdida é uma lástima! Estão categorizando os mortos, Marielle! E reivindicando o impossível: que todas as mortes ocorridas no Estado do Rio de Janeiro tenham a mesma visibilidade que a sua. Como se não soubessem que a maioria esmagadora de nós não teria mesmo tal visibilidade. O motivo da visibilidade no seu caso é tão óbvio que me dá um pouco de má vontade de ponderar. Basta lembrar que você ocupava um cargo que representava o voto de mais de 46.000 pessoas e que era porta-voz de uma luta inteira. As pessoas agem como se fosse a visibilidade da morte de cada um que importasse. Não é! O que importa é a morte de cada um deles! O que importa, diante da impossibilidade de que você e eles voltem à vida,  é fazer dessa sua morte um ponto de partida para que se obtenha justiça para a sua família e para as famílias dos mortos do Rio e de tantas outras localidades. É unir as lutas e não separá-las. É somar e não dividir. É lutar por uma modificação dessa justiça aí constituída (ou da falta dela), dessa segurança aí posta (ou não), dessa dura realidade que estamos enfrentando. Importa transformar essa tragédia no mote para o fim do faroeste estabelecido na capital fluminense e em tantos outros lugares Brasil afora.

Todos sabem, alguns apenas não querem admitir, que a sua morte não foi aleatória, ligada exclusivamente às questões inerentes à área de Segurança Pública do Rio de Janeiro. A principal linha de investigação da polícia, desde o primeiro momento, é de que ela tenha sido uma execução. As balas que a atingiram tinham endereço certo, queriam exterminá-la. Não foram fruto de uma tentativa de assalto mal sucedida, tampouco estavam perdidas, muito pelo contrário. Quatro balas na cabeça! Quando se morre pelas ideias que se defende, isso tem um significado ainda mais ampliado.

Tem sido muito doloroso ver junto ao seu corpo e aos corpos de tantas outras pessoas assassinadas no Rio, a esperança, a empatia, a solidariedade e, sobretudo, a humanidade em franca agonia. Os tiros são muitos, Marielle. A sociedade brasileira tem se desumanizado e isso ficou ainda mais evidente nesses últimos dias.

Para salvar nossas sensibilidades, só mesmo o alento da realização de várias vigílias em sua homenagem no Rio, no Brasil e pelo mundo. Nas vigílias eu vi abraços, eu vi choro, eu ouvi vozes fortes que gritavam que você vivia. Eu li na poesia de alguém o anúncio e o alerta de que você é semente. Foi a imagem mais bonita que pude perceber neste momento. Lembrei-me da música de Gil e foi inevitável pensar em você como um grão que nasceu trigo e morreu pão para fortalecer aqueles que trabalham na construção de um mundo mais justo, em que haja espaço para as mais diversas vozes. O poeta tem razão: você é semente e está em franca brotação. Que seu caminho aí do outro lado seja cheio de Luz, como foi o que seguiu por aqui. Você virou símbolo, moça. Morreu em março e em plena luta, ao que tudo indica, em virtude dela. Ao contrário do desejo de seus algozes, sua voz se multiplicou e ecoa ainda mais forte.

Marielle, presente!
Anderson, presente!
Hoje e sempre!


domingo, 11 de março de 2018

Sem mais nem porquê

Foto de Mauro Ferreira
Acordei pulsando Bethânia. Tambores e atabaques no peito e nos ouvidos vibrando acordes e versos, voz e força, reverberando o show assistido na última quarta, sob as bênçãos do Cristo Redentor. Sou toda lembranças. É que ver a palavra iluminada sobre um palco vestindo canção é algo que não acontece todo dia e nem dá pra esquecer.

Foi de Santo Amaro que essa graça nos chegou purificada em poesia e música. Baía de todos os cantos. Poema vivo e em movimento, com voz que sabe ser miúda e sabe ser forte, que sabe ser prece e ser canto. Poema-se o tempo todo em expressivas declamações. Ora, samba, saúda, louva, grita, esbraveja, canta, brinca e dança. Sorri. É toda luz. Traz em si a alegria que só têm as pessoas que fazem aquilo que amam e o fazem com gosto. Oferta ao público uma energia que só emana daqueles que têm íntima conexão com a terra, com a natureza, com o divino que habita em cada um e fora de nós. Aqueles que têm uma nítida conexão com o sublime.

Traz consigo todas as suas referências e as reverencia no altar de seu espetáculo pondo em lugar de destaque aqueles que foram e são responsáveis por ser e se tornar quem ela é. Estão ali expostas todas as tramas de seu tecido pessoal e profissional: família, amigos, amores, poetas, músicos, cantores, cantigas, lugares, leituras, vivências. Tudo posto e explícito numa natural e belíssima homenagem. A gratidão pela vida, pelas companhias e oportunidades é cristalina. Seu show é celebração.

Do recôncavo de si, transforma cantigas já consagradas nas vozes de outros intérpretes em algo particular e único, como se houvessem sido sempre e somente suas. Reinventa, aprimora, enriquece. Encanta. A voz potente povoa o ambiente de modo equilibrado e confortável, e transmuta cantiga em oração. Dialoga com seus Orixás com intimidade e confiança. Convoca e se entrega à Sagrada Família diante de nossos olhos. Maria de todos os santos rouba-nos risadas, lágrimas e suspiros tão espontâneos, que nem nos damos conta de que recônditos de nós eles nasceram. Invariavelmente nos emociona.

A bênção, Caetano, Dominguinhos, Chico Cesar, Gil, Ary Barroso, Chico Buarque. A bênção, Adriana Calcanhoto, Baden Powell, Gonzaguinha, Pessoa e tantos outros. A bênção, Vinícius de Moraes! Fomos todos abençoados com um repertório rico e envolvente. Como diria o poeta, a intérprete viajou muitas canções e percorreu muitos caminhos para nos entregar um abraço lírico, terno e melodioso.

Para encerrar, ela trouxe uma catártica declaração de amor à Cidade Maravilhosa. De uns tempos pra cá, ouvir essa canção me faz compreender ainda melhor os lindos versos do samba: “a tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste não”. Cantamos em oração. Com fervor, bem querer e torcida muita para que o berço do samba seja novamente coberto de felicidade. E o bis desaguou em Gonzaguinha, saudando a beleza da vida na pureza da resposta das crianças. Foi bonito! Foi bonito! E foi bonito!

Há coisas que devemos fazer uma vez na vida. Uma vez feitas, não é preciso repeti-las. E há outras, no entanto, que não se consegue entender como se viveu tanto tempo sem fazer e a vontade é repetir e repetir e repetir. Ver e ouvir de perto essa entidade nascida em solo baiano é uma delas. Remoçada, ando cantando à toa. Quero mais e ponto!


Foto de Mauro Ferreira
Observações:

- O show em questão foi realizado na Casa de Shows Vivo Rio em duas oportunidades: dias 06 e 07 de março, e teve por finalidade a gravação de um DVD. Bethânia o intitulou interinamente como "show de rua". As músicas são todas bastante conhecidas e os músicos que a acompanham possuem talento e técnica excepcionais.

- Mauro Ferreira é colunista de "O Globo" e pode ser acessado no blog especializado em música:
http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


É ou não é uma força da natureza?