sábado, 30 de julho de 2011

Maresia

O mar está em mim.
Forma-se. Espraia-se
inscrito em meu nome.

E vem, e bate,
explode, espuma,
e molha e salga.

Vigor, som e tempero.
O mar me curte inteira.

Cheiro forte.
Marulhar.
Beleza.
O mar me encanta e
desassossega.

Despertar de sonhos,
pensamentos vãos...

Noite: espelho negro
o luar reflete.
Prata que liberta
desejos do impossível.

O mar que canta aos ouvidos meus,
acolhe-me a alma e me faz convites.
Se me entrego toda às suas canções
e me deixo inteira escutar seus sons,
ouço seus murmúrios,
crio ilusões.

Em momento tal toda areia é pouca,
já não cabe mais a contemplação.
O meu corpo clama por carinhos seus
e dele me faço sem hesitações.

O mar devolve minhas atenções!
E me revigora, conclama-me à Vida.
E entre beijos-ondas deixa-me partir.

Sigo para a Serra,
às origens torno.
Longe permaneço
até que as saudades
em maré vazante,
fazem-me um rio
a buscar o mar.

E em novo encontro,
sôfrego e cúmplice,
sinto-me preenchida:
Mari-sea.

domingo, 17 de julho de 2011

Sempre

“Dura a vida alguns instantes
  Porém mais do que bastantes
  Quando cada instante é sempre.”
  (Chico Buarque de Hollanda)

Quarenta anos.

Fazer aniversário é coisa que cada um vivencia de uma maneira. Uns curtem extremamente. Outros se entregam ao isolamento. Há quem se dedique a fazer meditação. Há aqueles que ficam felizes e até os que se entristecem. Vivenciar a chegada de uma nova idade é, sem dúvida, uma questão subjetiva.

Eu mesma já vivenciei a nov-idade de maneiras diferentes. Os trinta foram emblemáticos e decisivos. Fiquei na corda bamba e, já que a chegada era inevitável, fui correndo ler Balzac para saber com propriedade o que vinha a ser mesmo uma balzaquiana (hoje até esse conceito está mudado). Os tempos realmente são outros. Graças a Deus!

No último dia 14 fiz 40. Que delícia! Ao contrário da entrada meio atribulada e trêmula nos trinta, cheguei aos quarenta cheia de esperanças, de expectativas, de alegrias, de satisfação. Cheguei aos quarenta agradecida a Deus, à Vida, à Família, aos Amigos e a todos aqueles que, de alguma maneira, me fizeram e me fazem aprender e crescer todos os dias.

Se me perguntarem se realizei plenamente os meus sonhos até aqui, direi sem pestanejar que não. Se fui bem sucedida em todas as minhas empreitadas, claro que não. Se houve sofrimento no caminho, certamente que sim. Há um rastro de frustrações e de felicidades diárias ao longo desses quarenta anos. Mas todas elas me deixaram incontáveis lições.

Completei quarenta no caminho entre Petrópolis e o Rio de Janeiro, na Serra. Vi o sol nascer na estrada e se pôr na baía. Tudo assim sem programar. As coisas e os horários aconteceram naturalmente. Para completar, que espetáculo! Era véspera de lua cheia. E o brilho prata se fez farto naquela noite. Tudo presente. Todos os amores presentes de alguma maneira: Filho e Pais, Amigos e Amor, Colegas e até desconhecidos (alguns desconhecidos não são definitivamente uns amores?).

Foi o meu melhor aniversário. Interna e externamente. Tudo o que era realmente importante se fez presente. E viva Graham Bell, o santo Orkut, o venerável Facebook (exagerada!) esses deliciosos encurtadores de distâncias!

Completei quarenta anos amarradona, no dia 14, com café da manhã especial e tive festa surpresíssima no dia 15, que fantástico! Os amigos me trouxeram aos pouquinhos cada uma das minhas paixões: o filho, a família, os próprios amigos, as palavras de Affonso Romano, minha grande paixão literária, as canções de Chico Buarque, minha eterna paixão musical. Não há como agradecer.

Para melhorar, no dia 16, festa julina com a família e comemoração especial para os aniversariantes de julho.

Nesse meu aniversário tive Amor (na sua definição mais ampla), Sol, Mar, Lua, Música, Literatura. Foi uma chegada cheia de afeto, repleta de significado. Recebi tanto carinho que não houve um espaçozinho sequer para pensar em algo que não fosse bom. Pode haver melhor presente?

domingo, 10 de julho de 2011

Lá vem o sol

Domingo ensolarado na Serra. Céu azulzinho, desses caprichados na tinta. Dia iluminado, com ares de barulho de crianças na praça. Não resisto. Numa volta de carro, curto um pouquinho da criançada barulhenta na Praça da Liberdade. Jardim, estalinhos, bolas, algodão doce, passeio de bodinho. Tudo lá, como nos tempos do filho pequeno.

Para mim, dias alegres e cheios de luz assim  combinam com Lulu Santos cantando a mais que empolgada "Lá vem o sol", versão de uma das muitas e inesquecíveis canções dos Beatles.

Coisa boa é ver filho crescer sorridente e saudável. Faz exatamente duas semanas que estou envôlta nessa atmosfera de alvoroço infantil. Primeiro foi a festa julina no colégio do filho. Meu menino já tem 15 anos, logo a dança de que participou ficou para ser apresentada em último lugar. Até lá foi um desfile de séries inteiras, desde a Educação infantil até o 9º ano. Impossível não lembrar do meu menino ainda pequeno. Ali um pouco  agitado em meio às coreografias infantis, bigodes pintados, chapéus de cowboy ou caipira, calças jeans com falsos remendos pregados.

Calças jeans e falsos remendos! Lá está ele. Um jovem entre seus amigos, gargalhadas, sorrisos, piadas e aquele jeito de falar próprio dos da sua idade. Lindo! Dá para alguém me dizer como é possível ser mãe sem deixar que a corujisse role solta na alma da gente?  Quero não. Quero mais é ser coruja que ele merece.

A essa altura, festas no colégio são sempre ocasiões de deixar as lembranças chegarem. De prestar atenção na garotada e em seus pais. Todos iguais. Todos achando maravilhosa aquela dança desengonçada dos pequenos e se derretendo inteiros. Como eu sempre me derreti. E me derreto até hoje. Alguém duvida? (risos)

Essa semana foi a vez da abertura das Olimpíadas. Bandeira Vermelha. O capitão. Pode?! Pode, o carinha cresceu mesmo e agora anda assumindo responsabilidades. Dedicou-se. Foram dias e dias inteiros no colégio planejando e ensaiando o desfile de abertura. Ele e mais duas amigas. Os três mosqueteiros!

Na hora da apresentação, eu na arquibancada com o coração pra lá de agitado e muito, mas muito mesmo mais que emocionado. Quando meu loiro entrou na quadra foi felicidade imensa. Um orgulho que nem cabia no meu peito. Ele e todos da equipe motivados, empenhados naquele desfile com o propósito de fazer o melhor. Foi lindo!

Se ficaram em primeiro lugar? Não ficaram. Não foram nem os últimos nem os primeiros, mas ganharam. Ganharam a certeza de que vale a pena lutar pelo que se quer, por aquilo em que se acredita. Ganharam o aprendizado de que nem sempre o nosso melhor é suficiente para vencer a competição, mas que o movimento na direção da vitória já é conquista muita. Ganharam a felicidade de ter os abraços amigos para confortarem-se na hora da frustração.

Deu verde na cabeça. E vê-los (o filho e os colegas) parabenizando a equipe vencedora cheios de sinceridade e do verdadeiro espírito esportivo foi motivo mais do que suficiente para, ainda com a voz embargada e os olhos cheios d´água, dizer: valeu, meu filho, você fez o melhor! Valeu Bandeira Vermelha!