segunda-feira, 19 de junho de 2017

Caravana estonteante


Era perto das oito da noite quando todas as luzes do Theatro Dom Pedro se apagaram. Ouvia-se uma voz delicada e firme, cativante desde a emissão da primeira nota. Uma luz suave foi aos poucos trazendo os contornos do rosto e do microfone de onde brotava aquele som intrigante. Era a Caravana Tonteria desembarcando em Petrópolis ao som de “Paroupupti”, uma das composições de Letícia Sabatella, escrita na língua dos índios krahô, que habitam a região norte do estado de Tocantins.

Depois de a plateia explodir em aplausos e as luzes tomarem conta do palco, a cantora/atriz ou atriz/cantora - nesse caso a ordem dos fatores não altera o talento - faz uma breve referência à sua ligação com os índios krahô e sua admiração pela relação de respeito e harmonia que estes conservam vivendo em comunhão com a natureza e ressalta o valor do equilíbrio, palavra-síntese do ideal krahô.

Para quem já estava deliciosamente surpreso com a primeira canção, com a afinação e a força da voz de Letícia, havia algo inesperado: estavam presentes no teatro sua mãe e seu pai e isto a deixara visivelmente feliz e emocionada. É impressionante como a mulher tímida ao falar se transforma ao cantar. Parecem duas pessoas, a que fala e a que canta, o que certamente lhe acrescenta uma dose extra de charme.

O show vai se desenhando e se revelando música a música e o encantamento é sempre em ordem crescente. De repente, surge um quase inacreditável “Retrato em branco e preto”. Um saboroso espanto aos sentidos. E, se alguém achava que tinha encerrado a cota de Chico Buarque naquela apresentação, irrompe no tablado uma performance cheia de personalidade de “Geni e o zepelim”.

Tango, mantra, português, inglês, francês, italiano, um toque de sapateado, um ambiente de cabaré, uma vertiginosa variação de ritmos e idiomas que inebria e arrebata a todos incontestavelmente. Agudos, graves, sussurros e surge uma inesperada cuíca num buliçoso sambinha em plena apresentação. Eu disse cuíca?! Sim, eu disse, mas não era, era a vocalista mostrando mais uma de suas facetas musicais.

Há que se destacar o duo protagonizado pela artista e por Fernando, que tempera a encenação com humor, maestria e vitalidade.

Quando já não se sabia o que esperar, a moça convida sua mãe para que juntas cantassem “Legata a un granello di sabbia”. Tudo era poético. O visível carinho e cumplicidade entre a atriz e sua mãe. A delicadeza ao modular sua voz e simplesmente acompanhar D. Marilza Sabatella. A reverência com que a senhora foi conduzida até o palco. Tudo transpirava respeito e emoção. Um momento sublime, sem dúvida. Um presente para quem compareceu ao espetáculo.

A exibição chega ao fim e o público parece não crer que acabou. Aplaude de pé e, quando a banda se retira, silenciosamente senta-se e aguarda para ver o que acontecerá. Quando o baixista volta ao palco e desliga o instrumento, a esperança se finda e, enfim, as pessoas começam a ir embora. Para quem não conhece Petrópolis, talvez seja surpresa perceber que o público é extremamente contido em pedir “mais uma”, mas dessa vez havia um certo desconcerto em saber como proceder. É show? É teatro? O que fazer? Nenhuma palavra, apenas o gesto incomum de aguardar. O público estava levemente ébrio e atônito. Era muita habilidade e informação para processar. Havia sido bom demais.

O talento dos músicos, a versatilidade de Fernando e Letícia, a perfeita interação entre eles em cena. Tudo é superlativo. Todas as palavras que usasse e todas as descrições que tentasse não dariam conta da grandeza da Caravana Tonteria no palco. Se não bastasse o meu próprio encantamento e o daqueles que me acompanhavam, encontro na saída do teatro um amigo que de pronto, antes de qualquer cumprimento, exclama: que mulher! Ali estava o mais perfeito resumo da noite de sexta: tudo eram exclamações.



MAIS SOBRE A CARAVANA TONTERIA:

A Caravana é formada por Letícia Sabatella, pelo ator e multi-instrumentista Fernando Alves Pinto e pelos músicos Paulo Braga e Zéli Silva. O espetáculo performático, que tem a direção de Arrigo Barnabé, conta com músicas autorais de Sabatella, canções de Chico Buarque, Colle Porter, Kurt Weill, Duke Ellington, Carlos Gardel e ainda outras referências.


Gênero: Show
Duração: 70 minutos
Composições e voz: Letícia Sabatella
Serrote, trompete, violão e voz: Fernando Alves Pinto
Piano: Paulo Braga
Contrabaixo: Zéli Silva
Direção artística: Arrigo Barnabé
Figurino: Chrystyan Kishida
Desenho de luz: Wagner Pinto
Direção de arte: Gustavo Guimarães
Roadie: Surabhi
Programação visual: Wagner Pinto

OUÇA:Paroupupti


OUÇA TAMBÉM:
Letícia Sabatella - Tonteria
Letícia Sabatella e Fernando Alves Pinto - Non, Je Ne Regrette Rien
Nico Fidenco - Legata ad un granello di sabbia

As fotos me foram cedidas por Sonia Lucia Caldara Quintella

domingo, 18 de junho de 2017

Das coisas simples da vida II: Dia de estar só

Acordo. É domingo. O sol insinuante pelas frestinhas da janela me convida a levantar. Vou ao quintal. O outono se esvai na ampulheta de 2017. O contorno da manhã é dourado e as copas das árvores em tom de verde e cobre contrastam com o azul intenso dessa época do ano.

Inspiro. O desejo de sorver a vida em cada átomo de oxigênio se manifesta. O ar frio e seco me põe um pouco mais desperta. Os pássaros estão em festa e, apesar do dia ensolarado, um vento gélido causa um leve desconforto aos meus braços nus resultando em arrepio. Tudo é naturalmente simples, exuberante e lindo.

Há calma dentro e fora de mim. E um silêncio capaz de deixar que se denunciem os sons dos motores possantes das motocicletas na BR 040. Apesar da distância, domingo de manhã é dia de ouvi-las na estrada. Há qualquer coisa de nostálgico nesse barulho. Inevitável lembrar das corridas de fórmula I dos anos 80/90. O tema da vitória ecoa na memória e uma lágrima sentida insiste em descer pelo meu rosto.

Pensei em Ayrton. Por um instante doeram-me ainda mais agudamente as últimas notícias do cenário político do país. Lembrei-me do orgulho que o piloto tinha em exibir as cores da bandeira nacional e que isso, antes dele, não era coisa corriqueira. Senna, naturalmente, inspirou gerações de atletas a fazerem o mesmo. Somos todos mais verde e amarelo depois dele. Tinha energia e alegria contagiantes. Quanta saudade!

Pensei no Brasil e também nos lenitivos que tenho tido que providenciar diariamente para não me deixar contagiar pela tristeza de constatar os prejuízos que as trapaças e crimes generalizados da administração pública e de parte significativa do empresariado brasileiro têm causado ao país. Estar bem tem sido um ato revolucionário, uma ação de resistência.

Hoje é dia de solitude. Todos a minha volta estão felizes e fazendo algo de que gostam muito e isso me dá a paz necessária para curtir esse dia comigo mesma. Os pais e a irmã na praia, o filho e a namorada no campo. Cada um aproveitando o dia a sua maneira. Como diria uma de minhas amigas: "Isso é que é bonito!"

Olho a paisagem e tiro algumas fotos para o registro da delícia de um dia assim tão manso. Algumas nuvens me fazem lembrar que nem todos os dias são de calmaria e que, portanto, convém apreciar o máximo possível.

Estar só é o momento de ouvir todas as minhas vozes sem interferência e, por mais que eu goste de estar em grupo, ficar sozinha vez por outra é mais do que um desejo, uma necessidade real. É parte fundamental para o meu equilíbrio.

Deito na rede. Leio. Sublinho alguns trechos significativos do texto, escrevo observações. É um livro denso e me faz pensar na vida e nas relações humanas. É hora do almoço, meu estômago e também minha gatinha, impacientes, avisam que está na hora de saciar a fome. Estar só também é estar desobrigada de providenciar algo muito elaborado. E isso é ótimo. 

Aproveito para dar uma olhadinha no mundo lá fora. Do facebook me vêm notícias sobre a Parada do Orgulho Gay de São Paulo e reforço meus desejos por um mundo mais preocupado com o bem e com o amor e muito menos interessado na patrulha e castração da sexualidade alheia.

A tarde flui entre uma leitura e outra, entre uma tarefa e outra, entre um bem-te-vi e outro, entre uma peça de roupa e outra pendurada no varal, entre uma lembrança e outra e vem caindo a noite. As aves se recolhem e os sons ouvidos já não são os mesmos. Lá fora ouço os sons de grilos e um e outro bicho que não consigo reconhecer. As primeiras estrelas já começam a povoar o céu. É tudo harmônico e delicado.

Agora é saborear um chá e aguardar o retorno dos amores. É deixar um lanchinho saboroso pronto para recebê-los. É preparar o coração para ouvir outras vozes tão fundamentais na minha vida e esperar os beijos e abraços dos que foram e que voltam cheios de euforia e novidades de um fim de semana muito bem aproveitado. Sou só contentamento e gratidão.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Deixe que digam, que pensem, que falem

Dia dos Namorados e você aí sozinha, como diria Fernando Sabino, puxando uma angustiazinha. Não. Espera aí! Não dá pra ser assim, não. Sozinha dá, o que não dá é pra puxar angústia por conta disso. Você não tá por aí naquela de achar que mais vale estar mal acompanhada do que só, não é?! Afinal, nada daquilo que nos violente de alguma maneira vale o desfile pelas ruas, pelas passarelas da vida com alguém a dar as mãos e entrelaçar os braços só para inglês ver ou para se enquadrar em ideais pré-estabelecidos de felicidade. O ideal romântico de amor ainda faz muitas vítimas entre nós.

Toda relação que, de alguma maneira, se mantém única e exclusivamente pelo medo de estar só, apesar de toda dor que causa, não vale a pena. Já parou para pensar na expressão valer a pena? Já pensou no significado de pena, de penar? Pois é! Há coisas que não valem o sofrimento que provocam. Não dá para passar a vida remendando a relação ou se submetendo porque o outro não a quer inteira, não a respeita inteira ou porque o outro não é inteiro com você. Quando isso a incomoda, quando  a fragmenta de alguma maneira, é preciso vencer o medo e romper.

Toda relação pode promover crescimento pessoal e amadurecimento, mesmo aquelas muito sofridas, mas por que estar juntos se, na hora do balanço, a relação causa mais dor e dependência do que traz felicidade, é uma pergunta a se fazer.

Quem na vida teve um amor intenso e teve que dele abrir mão para não se perder de si mesma, sabe bem do que estou falando. Acontece. Às vezes você tem certeza de que você quer uma pessoa ao seu lado a vida toda, quer aquele cheiro, aquele gosto, aquele abraço, aquele carinho, aquele diálogo de palavras não ditas na intimidade, mas aí se depara com diferenças e obstáculos intransponíveis para você: a existência de um cônjuge na vida do outro, a relativização da ética, a naturalização da mentira, a incompatibilidade de valores, a deslealdade recorrente e você tem que partir. Cada um tem o seu próprio limite. E o limite é o seu próprio bem-estar, a sua paz, o seu amor próprio. Na luta para a manutenção ou a realização de um relacionamento amoroso, não se pode correr o risco de romper com você mesma, este é um preço caro demais a se pagar.

Sair de um relacionamento desse tipo, não é fácil. E envolvimentos assim não são prerrogativas de um gênero em particular. Embora sejam mais evidenciados do lado feminino da força, homens e mulheres se envolvem nessas relações. Nesse exato momento, alguém vive esta situação. Já viu que não dá, que não tem cacife para bancar o preço que essa relação cobra e cobrará, se debate e quer sair. Dá impulso, se lança, se movimenta, mas ainda está no balanço, vai e volta, juntando forças e convicções para romper com esse embalo de vez. 

A pessoa geralmente não sabe, mas para desatar essa relação, ela está aguardando a morte da esperança. Sim, nesses casos, só é possível romper quando a esperança já não existe. Esperança de que as coisas mudem, de que os obstáculos sejam removidos, de que se fique mais forte para aceitar o inaceitável, de que o outro decida livremente escolher a relação, coisas que, enfim, você já sabe que não acontecerão. 

A existência do amor justifica sua demora na partida. Amor?! E quem ama desiste? Desiste! Muitos vão dizer e insistir que não. Julgam que o amor seja capaz de todas as aceitações, como se o amor não fosse um sentimento humano e se aceitar tudo fosse prova inequívoca de amar alguém. Abrir mão do ser amado é das coisas mais difíceis de fazer nessa vida. Quem ama também desiste. E desiste, sobretudo, diante de duas situações: quando a relação o submete e o anula ou quando, diante da desamor do outro, mesmo sofrendo e querendo proximidade, se afasta por sua dignidade e por respeito ao ser amado.

No primeiro caso, é uma escolha muito difícil de fazer, ainda que estritamente necessária. É preciso preservar a saúde emocional. A leitura de alguns livros podem nos ajudar a enxergar de maneira mais clara o que está acontecendo conosco. É o caso de "Mulheres que correm com os lobos", de Clarissa Pinkola Estés e de "Vasos sagrados", de Maria Inez do Espírito Santo, ambos da Editora Rocco. Nesses livros, as autoras, através de mitos, histórias e de suas interpretações, vão puxando devagarinho ou de pronto o fio da meada que faltava para o acesso ao seu inconsciente. Clarissa nos alerta que "existem elementos na psique de todo mundo que são traiçoeiros, trapaceiros e maravilhosos" e que "esses elementos são inimigos da conscientização". As relações que têm conflitos estruturais, em geral dão pistas de que algo não vai bem. Podem deixá-la desconfortável com você mesma, podem lhe conferir um quezinho de inadequação ou uma sensação de que a felicidade não é pra você. Bobagem, moça, você nasceu pra ser feliz e, eu bem sei que é um clichê, mas a vida é muito curtinha para achar que só existe uma rota para o bem-estar e o contentamento. Se nem sempre tudo está bem claro, procurar bons textos para o auxílio para a libertação daquilo que acarreta sofrimento é sempre uma boa pedida.

No segundo caso, o que fazer além de compreender o processo do outro e conservar sua própria dignidade? Atormentar o outro depois do término de um namoro/casamento ou qualquer que seja a configuração é cruel para as duas partes, além de prova inequívoca de imaturidade.

Em ambos os casos é fundamental amadurecer para não se entregar à cilada da vitimização. Quem se vitimiza não muda. Não reconhece os próprios erros e fica pela vida afora repetindo os padrões de relacionamentos. Exceto pelo uso da violência indefensável, somos nós que permitimos que o outro faça a nós aquilo que não desejamos pelas mais variadas razões. É preciso que nos responsabilizemos pelas nossas próprias vidas, pela nossa felicidade. Se tiver alguém pra somar, ótimo. Se não, tranquilo. Nas duas hipóteses, é dar a mão a nós mesmas e conquistarmos nosso quinhão de alegria nessa existência.

Voltando ao Dia dos Namorados, preciso confidenciar, estou namorando novamente. Sim! E está ótimo. É uma pessoa bacana, sabem? Dessas que não nos abandonam nunca, que estão conosco nos melhores e nos piores momentos de nossas vidas (está comigo sempre). Companhia fundamental e pra vida toda. Confesso, não estou apaixonada, trata-se de um amor maduro e equilibrado que vem sendo construído há anos, ainda que eu não houvesse percebido tamanha aproximação. Tudo se deu lentamente, é verdade que mais lentamente do que o desejável, mas enfim chegou o momento e tenho aproveitado. Estou namorando eu mesma. É claro que esse relacionamento comigo mesma tem lá as suas dificuldades. Há dias em que não me aguento, mas é normal, né?! Todas as relações têm seus altos e baixos. O fato é que tem valido a pena.

Sair desse namoro só se for para um namoro a quatro. Eu e eu mesma, o namorado e ele mesmo. Mais do que esses quatro não quero. Tem gente que gosta, que curte, que fica bem assim, eu não tenho nada contra, mas essa definitivamente não é a minha. Pra mim, em matéria de relacionamento, decisões desse porte têm que ser sempre consenso. Se não forem consenso não rola.

Eu sei, tem gente que não me entende. Sempre tem. Também tinha um montão de gente que não me entendia antes, e antes, e até antes de antes. Não dá para ficar ligando pra isso, não.  Nesse momento, escolhi a solitude, o que é muito diferente de solidão, e tenho estado feliz com ela. Se vai ter comemoração de Dia dos Namorados? Vai, sim, claro. Deixe que digam, que pensem, que falem. Tô comigo e não abro. Salute! Um brinde à felicidade!


   Sugestão de música para a ocasião:


domingo, 11 de junho de 2017

Das coisas simples da vida: Domingueira diferente

A begônia florescendo
É domingo de outono em Petrópolis. O dia amanheceu ensolarado, o que significa que as copas das árvores se apresentam mais douradas, a temperatura é amena e os passarinhos estão em franco alvoroço.

A gata branquinha, toda esparramada no balanço da varanda, anuncia um dia preguiçoso e feliz propício à leitura, à contemplação e a tudo que confere prazer e tranquilidade à alma.

No som, num volume equilibrado e aprazível,  uma playlist de MPB pra lá de sensível e encantadora e a deleitosa descoberta de que tem muita gente jovem compondo umas delícias por aí. Novos e antigos sucessos se alternam acompanhados apenas  de uma interjeição: uau!

O café, cheiroso como sempre, já nos despertou e o pão fresquinho e estralante nos acordou o paladar. Agora, na cozinha, o filho e a namorada se esmeram no preparo do almoço, que já se insinua saboroso, posto que o seu perfume tomou conta do ambiente. Eu vou me envolvendo em outras tarefas domésticas para deixar a casa ainda mais acolhedora.

O ipê do meu quintal
Do lado de fora, o presente que me foi dado brota alegremente e me faz pensar que tem gente que vem mesmo para iluminar e florir os dias da gente. Daqui a um tempo, sempre ele, haverá ipê florescendo amarelinho aqui em casa. Também a begônia, que me foi dada em um aniversário, se assanha e começa a exibir suas florzinhas delicadamente rosadas.  Sou puro encantamento e gratidão.

A vida corre simples neste domingo e a felicidade vai, aos poucos, simplesmente se espraiando decidida, dizendo que veio pra ficar.

Do quintal, entre uma música e outra, vem o chocalho das folhas espalhadas pelo vento, o que faz sonhar um pouquinho.

Coisa boa é poder deixar a leveza se instalar e curtir um domingo sem maiores pretensões, apenas fruição e mais nada, porque o que é bom mesmo, vezes, mora mais perto do que se imagina. Bora  lá desfrutar do que é singelo.


Sobre a playlist em questão - alguns encantamentos (novos e antigos):
Roberta Campos - Minha felicidade
Anavitoria - Trevo de 4 folhas
Roberta Campos e Nando Reis - De janeiro a janeiro
Banda do Mar - Dia clarear
Tiago Iorc - Coisa linda
5 a seco - Pra você dar o nome
Zé Ramalho - Chão de giz

Um olhar atento para a crueldade desnuda

 “Se a bondade de vocês é tão cruel
nem imagino como seja a justiça." 
(O Homem Elefante)

De todas as maravilhas que o Teatro pode fazer por nós, a que mais me encanta é a de nos colocar frente a frente com o espelho. Espelho da nossa alma, do nosso tempo, da nossa sociedade e tantos outros espelhos igualmente necessários e possíveis. Ir ao espetáculo O Homem Elefante no Theatro Dom Pedro aqui em Petrópolis foi, verdadeiramente, um desses momentos de contemplação da nossa sociedade e de nossa (des)humanidade no espelho.

Foto divulgada no facebook do Sesi Cultural
Baseada no texto de Bernard Pomerance, a conhecida história de Joseph/John Merrick, um rapaz portador da Síndrome de Proteus, uma rara doença degenerativa causadora de várias e graves deformações em seu corpo e que, por conta disso, virou atração em shows de aberração na Inglaterra do século XIX , ganha vida com a Companhia Aberta e nos põe cara a cara com as deformidades de uma sociedade dura e cruel, que em muita medida, com o passar dos anos, não evoluiu tanto assim.

Na peça, o menino, que fora abandonado pela mãe, o jovem maltratado, agredido e explorado por aquele que o exibia publicamente com a finalidade de obtenção de lucro, toca nossas sensibilidades e nos traz um olhar aguçado sobre a humanidade e suas contradições. Ao assistir à peça, é impossível deixar de notar uma sociedade dura e cheia de dualidades: a mesma imagem que gera repulsa e que dificulta o estabelecimento de laços afetivos com Merrick é a que atrai olhares cheios da mais perversa curiosidade e que duramente aproxima as pessoas dele. Se num primeiro momento, é fácil atribuir a Ross, o dono do circo em que era exposto, toda a crueldade sofrida por Joseph, com um pouquinho mais de atenção, não se pode negar o mal que tantos olhares adoecidos e tantas agressões físicas e verbais lhe causaram.

Na pele do protagonista, o ator Vandré Silveira nos impressiona e nos insere com maestria no drama da personagem. As expressões corporais, os gestuais, os gritos lancinantes de um ser humano acorrentado e querendo se libertar das torturas físicas e emocionais a que era submetido, não só nos conduzem para o universo de Merrick, como são capazes de despertar em nós empatia e angústia.

Com a cabeça cheia de sonhos e de sensibilidade, John nos encanta, emociona e nos faz questionar os valores de nossas convenções sociais. Em que medida as regras nos protegem? Em que medida elas nos condenam? Que regras devemos seguir? Em que momento devemos quebrá-las para a realização de um sonho? É correto alguém impedir a realização de um sonho que não é seu?

A representação da relação entre o rapaz e o Dr. Frederick Treves, o médico que o ajudou a levar uma vida mais digna, é um capítulo à parte. Longe da tentadora visão Ross = Mal e Treves = Bem, a peça rompe com o lugar comum do maniqueísmo e expõe seriamente a relação bondade/vaidade/posse em contraposição à liberdade. Impossível sair do teatro sem refletir sobre a questão.

A aquisição da oralidade por John é um ponto alto de sua transformação. Para quem gosta das letras, ver tão explicitamente a fala como facilitadora para a relação com o mundo e ver tal habilidade se construindo diante dos olhos é, sem sombra de dúvida, fascinante. Para quem gosta da Arte, é um prato cheio assistir a relação entre o rapaz e a Sra. Kendal, uma famosa atriz e amiga do Dr. Traves, se fazendo. A ligação afetiva entre os dois põe em evidência o quanto a presença da arte pode ser transformadora na vida de uma pessoa e o quanto pode ser surpreendente olhar além das aparências. Depois de observar os dois, difícil é não se afeiçoar a John.

Engana-se quem acredita que, com um texto tão intenso e dramático, o clima fique pesado o tempo todo. Com uma atuação primorosa de todo o elenco, a Companhia Aberta nos leva do drama ao humor numa troca de luzes e cenário, num estalar de dedos. Um humor fino, inteligente e com a precisão cirúrgica imprescindível para a interação com o público.

Ir ao teatro conferir a montagem é constatar que, se a sagacidade, a inteligência e a sensibilidade de John, estiveram inalcançáveis para os muitos que, a olho nu, só viam o homem elefante, o olhar cruel da sociedade estava o tempo todo afiado e à mostra e, ainda assim, não era notado, era tratado com naturalidade. Por si só este já é um bom motivo para comparecer ao teatro, além disso, a peça é um incontestável espetáculo.

SOBRE A MONTAGEM:
Texto: Bernard Pomerance
Idealização: Companhia Aberta
Encenação: Cibele Forjaz e Wagner Antônio
Assistência de direção: Artur Abe
Elenco: Davi de Carvalho, Regina França, Rogério Freitas e Vandré Silveira
Iluminação: Wagner Antônio



quarta-feira, 24 de maio de 2017

Que tal um cafezinho?

Quem me conhece sabe que adoro um café. Gosto do aroma, da cor, do sabor.  O café desperta meus sentidos. Isso por si só já é uma delícia. Além disso, gosto do ritual de prepara-lo, café bom é café fresco. E gosto quando se insinua todo perfumando o ambiente e me faz logo pensar em xícara. Café bom é também o café que nos convida à degustação. É, sou dessas! Gosto de degustar o café e não apenas de sorvê-lo rapidamente.


Hoje é Dia Nacional do Café, você sabia? Pois é, soube disso ano passado, quando lia descomprometidamente um jornal. Viu que chique? O café também tem um dia e o fato de hoje ser o dia nacional da bebida pressupõe que haja um dia internacional. Segundo Mr. Google, há, e é comemorado em abril, mas eu quero mesmo é celebrar o 24 de maio. De acordo com a ABIC – Associação Brasileira da Indústria de Café, a data simboliza o início da colheita do grão em grande parte das regiões produtoras. Adoro descobrir essas coisas, mas vamos ao café.

Café pode significar conversa, pode ser encontro, pode ter cheirinho de reflexão ou gostinho de leitura. Pode ser um momento de ficar sozinho pensando na vida, pondo as ideias em ordem (ou não).  Pode ser um objetivo ou um pretexto. Pode ser conclusão ou proposta. Café congrega e faz companhia.

O lugar para tomar café também importa. Não gosto apenas da bebida, mas do ambiente de cafeteria. Há verdadeiras delicinhas nesse ramo. Durante algum tempo fazia uma pequena viagem sempre que queria provar desse gostinho: café e cafeteria totalmente harmonizados. Saia do Bingen, ia a Itaipava, terceiro distrito de Petrópolis e lá me deleitava com poesias declamadas nas paredes, o bolo da vovó exposto no balcão, o vinil rolando um Vinícius e tantos outros na vitrola, o gosto forte do café produzido num município vizinho, os livros para doação delicadamente arrumados num pequeno móvel num cantinho e o atendimento cheio de simpatia e carinho das proprietárias. Vou lá de vez em quando, como resistir?!

Recentemente, o Bingen ganhou uma gostosura dessas, que felicidade. Num outro estilo, com outra proposta, mas igualmente harmônica e aconchegante. Belas cores, um chocolate premiado no balcão, geleias especiais, bolo caseiro que não pode faltar, Edith Piaf e tantos outros na vitrola, vinho selecionado para acompanhar pensamentos e pratos quentes, o requinte e o sabor do café caprichosamente preparado,  o afeto e o incomparável papo dos meninos, que dirigem o local. E eles têm ainda uma cafeteria no Valparaíso que, se não bastasse tudo isso, de vez em quando ainda tem café e violino. A proposta é ofertar muito além de uma xícara de café e eles conseguem. Dá pra imaginar?

Por aqui, esses são os meus lugares preferidos para exercer o meu sacrossanto direito de apreciar essa bebida milenar. Hoje é dia de celebrar o café e de brindar tudo o que ele evoca. A amizade, o diálogo, o paladar, o bom gosto, a sobriedade... Tintim! Que tal comemorar?


Fonte da imagem:
https://pixabay.com/pt/photos/download/coffee-563800_1920.jpg?attachment&modal

domingo, 21 de maio de 2017

Ainda sobre o Dia das Mães


Para Leonardo e Mamãe,
aqueles que me ensinaram e ensinam a
ser Mãe, com imensa gratidão.

Domingo passado foi dia de comemorar oficialmente o Dia das Mães. Por mais que algumas pessoas nos lembrem de que esta é uma data que tem um forte apelo comercial e que aquece o consumo, creio que cabe a cada um de nós limitar essa influência mercadológica em uma data tão especial. Definitivamente, podemos escolher como celebrar um dia como esses sem precisarmos aceder completamente ao deus mercado. Um presente pode ser bem-vindo, mas nem de longe tem que ser o fim. Dia das Mães é dia para celebrar o encontro, ainda que não possa ser físico, a gratidão e o afeto, se não for assim, de que adianta presentear?


Já faz 22 anos que ganhei a maternidade de presente.  Ela veio forte, densa e enriquecedora com todos os ônus e bônus dela próprios. Ônus?! Muitos! Quem disse que é fácil ser mãe? Incerteza, insegurança, noites sem dormir, seios doloridos, medo do fracasso, choros (do bebê e da mãe, por conseguinte), dores, cólicas, fraldas, despesas, cansaço e medo. Um medo do tamanho de um bonde de não dar conta. Que mãe não passou ou não passa por isso? Tudo isso faz parte desse universo particular. A vida vira de ponta cabeça com a chegada de uma criança. Por mais planejada que seja, uma gravidez sempre tem cara, gosto e cheiro de surpresa. Ainda assim, não conheço uma só mãe, que tenha abraçado a maternidade, que troque esse reboliço todo por qualquer outra coisa na vida. Eu também não trocaria. Lembrei-me de uma música do Gonzaguinha: “começaria tudo outra vez, se preciso fosse, meu amor”. Começaria! Ah, se começaria!

Bem, mas eu também falei em bônus, não foi? Sim! Cada balbucio da criança é um presente, cada passo, cada gesto, cada nova atitude é sentida e celebrada. O filhote é capaz de nos despertar para detalhes antes imperceptíveis. A relação mãe e filho se constrói momento a momento, no dia a dia, e pode ser maravilhosa. É preciso ter em vista a construção de uma relação saudável.

É claro que sei que muitas mulheres não desejam ser mães pelos mais variados motivos, eu as entendo e as respeito, cada um sabe de si. Também sei que há mil e uma outras maneiras de se realizar nessa vida, essa está longe de ser a única. É muito importante ter esse entendimento.

No meu caso, a maternidade era um apelo desde muito cedo. Ela sempre fez parte dos meus planos e até das minhas brincadeiras infantis. Meu filho foi planejado e chegou trazendo luz à vida das nossas famílias. No entanto, nem tudo foi como o idealizado, a família feliz do comercial de margarina ruiu no meio da infância do pequeno e foi preciso reprogramar a rota. Não foi fácil, houve uma série de obstáculos a enfrentar, mas dentro do possível, as coisas foram se acertando e o menino foi crescendo. Ano passado, aquele bebê lindo, amado e desejado, que chegou prenunciando a primavera de 1995, completou 21 anos. Coisa emocionante olhar para o homem correto, honesto, amoroso e cheio de personalidade que ele se tornou.  Educar não é nada fácil, requer uma série de ponderações e de escolhas e a grande verdade é que a gente morre de medo de errar e que muitas vezes erra mesmo. Mas tudo o que não se quer é prejudicar um filho e olhar para o Leonardo e vê-lo um homem feito, cheio de bom senso e amorosidade, capaz de cuidar da sua própria vida, dá uma certa paz ao coração. A fase agora é outra, cheia de desafios e de aprendizados.  Nessa vida de ser mãe, a gente vai aprendendo durante o percurso e é preciso ter o coração sempre preparado para mudanças. Vida de mãe é dinamismo puro.

Tenho tido a oportunidade de acompanhar bem de pertinho a trajetória de alguns de meus amigos e primos nos primeiros anos da maternidade/paternidade. Como é gostoso vê-los vibrando com cada conquista de suas crianças! Vira e mexe pego-os surpresos com esse ou aquele traço da personalidade dos meninos ou irritados com esse ou aquele comportamento infantil. Muitas vezes, observando-os, revivo minha estrada com o Leo. É sempre muito gratificante ouvi-los falando de seus rebentos, partilhar de suas alegrias, dividir angústias.  Os pequeninos, por sua vez, vão me atualizando, vão mostrando o que é mesmo que interessa às crianças de hoje. São novos brinquedos, novos heróis, novos personagens infantis, novos gostos e novas cantigas. É lindo vê-los crescer, vê-los ganhando mais e mais autonomia. Cada vez que nos encontramos há sempre uma novidade. Aprendem rápido e causam espanto diariamente com a articulação de suas respostas, cada vez mais bem elaboradas. É uma meninada que me ensina sempre mais que “o tempo não para”. Que lição importante!

E por falar em lição e em maternidade, um dos presentes mais bacanas que a maternidade trouxe para mim, foi a proximidade com a minha mãe. Foi um melhor entendimento do mundo dela, das suas angústias, dos seus tropeços e acertos. Foi enxergá-la melhor como mulher. Não sei se com todo mundo funciona assim, mas aprender a ser mãe, me fez amadurecer como filha.

Falando em mãe, a minha é uma pessoa que tem uma coragem imensa diante da vida. Diante de todas as dificuldades propostas, a leveza e a alegria sempre foram/são suas marcas registradas. Ela é dessas que sempre escolhe sorrir, embora seja inevitável uma lágrima ou outra. Sente, sofre, chora como todo mundo, mas é de sua natureza buscar o lado mais iluminado da vida. Pra mim essa é uma proposta de aprendizado e tanto. Além disso, ela tem uma qualidade que admiro imensamente: a postura de julgar o menos possível. Tem uma conduta generosa que procura acolher e entender cada um como é, sem rotular. Mulher de fibra, firme, doce e terna.

Ternura. Está aí uma palavra que o Dia das Mães evoca. Independente do apelo comercial, é sempre importante ter um dia, um mês para celebrar, para comemorar, para vivenciar mais intensamente a importância e a força que essa presença tem e terá na vida da gente. Para exercitar e saborear a ternura e “dançar na chuva de vida que cai sobre nós”.


Trem bala
(Ana Vilela)




Obs: Em 23/05/17, acrescentei a dedicatória.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Sobre "Piper: descobrindo o mundo"


Pode ser que você já tenha visto há algum tempo, eu o vi dia desses. Você pode até pensar que o vi com um atraso considerável, já que o curta foi o vencedor do Oscar 2017 na categoria "Melhor curta de animação". Tudo bem, vi com atraso mesmo o filme americano escrito e dirigido por Alan Barillaro e produzido pela Pixar Animation Studios. No entanto, isso não impediu meu completo encantamento com as suas múltiplas possibilidades.

Pode ser sobre mães e filhos e o processo de aprender e ensinar. Pode ser sobre a hora de ter que dar conta da vida da gente. Pode ser sobre levar umas rasteiras da vida e sobre morrer de medo depois. Pode ser sobre ter que vencer esse medo para seguir em frente. Pode ser sobre aprender com o diferente e sobre superar as dificuldades. 
Pode ser sobre a importância que a amizade desempenha em nossa caminhada. Pode ser sobre olhar a vida de outro ângulo e sobre desenvolver novas habilidades. Pode ser sobre dividir descobertas com os outros e sobre celebrar as conquistas.Pode ser sobre o esforço e o trabalho necessários pra botar a comida no papo. Pode ter essas e muitas outras leituras, é rico, cheio de encanto e sensibilidade.

E você o que vê?
(Se ainda não viu, corra lá no youtube e confira.)

quarta-feira, 26 de abril de 2017

O amigo partiu

Para João Carlos de  Miranda e
Rossana Rezende Rocha


É sexta, fim de noite e a notícia chega cortando o coração: o amigo partiu. Dessas partidas sem jeito e definitivas para o território das hipóteses, como salienta Monteiro Lobato. A notícia chega de repente e, por mais que a esperasse a qualquer momento, foi um choque. Diante do fato, comento com meu filho: “Ah! Eu gostava tanto dele!” A resposta que recebi me pôs a pensar sobre a vida, sobre as relações, sobre a importância ou a passagem de alguém na vida da gente: “Curioso, mãe, só me lembro de você falar dele pra mim uma vez.”

O amigo era desses, não precisava estar presente para ser querido e podia ficar anos a fio sem o menor contato. O carinho restava intacto e se fazia manifesto à primeira troca de olhares em um encontro casual.

Conheci o amigo em uma época difícil de sua vida. Dinheiro curto, incertezas na profissão, um caminho de luz a garimpar e a esperança de dias melhores brilhando no olhar. Esse era o cara. Tinha sempre uma piada, um sorriso, uma alegria pra dividir e um jeito alegre e divertido de contar os infortúnios.

A estrada iluminada foi construída em caminhada firme ao longo dos anos e no estabelecimento de parcerias no amor e na profissão, na dedicação dia após dia àquilo em que acreditava. Daqui de onde eu o via, trilhava feliz, corajoso e agradecido o seu caminho. Era uma pessoa humilde e solar, dessas que não se esquecem de onde vieram e que fazem questão de dividir o sucesso pessoal professando diariamente a simplicidade e espalhando sorrisos por onde quer que passe.

A partida de alguém jovem, no auge de sua carreira e da felicidade em seu relacionamento afetivo, sempre soa desconcertante. Parece fora do tom, um tanto desafinada, mas a vida é mesmo cheia de mistérios e não nos cabe questionar, apenas sentir.

Na vida, muitas vezes nos afastamos de pessoas queridas por motivos vários, por mudança de planos, por oportunidades de trabalho, por mudança de endereço ou por muitas outras possibilidades. Vezes ela se incumbe de dificultar o convívio e tudo bem, o afastamento é pacífico e indolor. Não há saudade, não há planos para encontros, almoços nos fins de semana, chopinho no bar, nadica de nada. A vida vem, muda a nossa realidade, segue seu curso livremente e ficamos bem com isso. O curioso é que muitas vezes o bem querer não se altera, fica latente. Foi assim com a gente.

Conversando com amigos e amigas que tinham com ele a mesma relação de respeito e admiração, proximidade quase nenhuma e afinidade muita, pude constatar que ele era assim, era seu jeito, fazia parte de sua natureza passar e marcar indelevelmente a vida dos outros, fazer-se naturalmente querido e vivo em seus corações e memórias. Era de luz, de iluminar, de repartir conhecimento e contentamento, de enxergar o milagre da vida e de viver. Isso é coisa tão sublime, tão bonita de se ver.

Em uma rede social, leio a mensagem repleta de amorosidade escrita por sua esposa, mulher que conheço e admiro, agradecendo a Deus e a ele pelo privilégio dos anos de partilha, de crescimento mútuo e do laço de amor ainda mais estreitado na vigência da doença do companheiro. Coisa mais inspiradora, no mundo das relações líquidas de que nos fala Bauman, o testemunho de uma relação sólida e feliz em que o descarte não é possível nem diante da dor ou da morte.

O amigo partiu e o que restou? Restou a certeza de que há pessoas encantadas que passam pela vida da gente e que nela, de alguma forma, se instalam por seu exemplo e pelo entusiasmo que espalham. O amigo era assim, que siga em paz e continue na eternidade sua missão de candeeiro. Por aqui fica a certeza de que tem gente que é mesmo para além das distâncias, para além do convívio diário.



Das delicadezas de Monteiro Lobato:

Arquivo pessoal - Piso da "Praça da Língua" -
Museu da Língua Portuguesa - SP





















Imagem do lírio disponível em:
https://pixabay.com/pt/l%C3%ADrio-%C3%A1gua-flor-reflex%C3%A3o-branco-2097262/


domingo, 23 de abril de 2017

Sobre "Iscariotes. A outra face."

"Eu, Judas Iscariotes,
 sou o bode expiatório
 eternamente abandonado no deserto.
 Depositário de todas as culpas.
 Não apenas de meu povo, 
mas de toda a humanidade."
(Trecho da peça)


Foto disponível na fanpage
do Theatro D. Pedro
E sexta-feira passada, 21/04, foi dia de assistir à estreia nacional do monólogo: "Iscariotes. A outra face." Estreia nacional aqui em Petrópolis?! Exatamente! Que coisa boa, não?! Assistir a uma estreia no Theatro D. Pedro foi, verdadeiramente, um privilégio. 

Criado e interpretado por Carlos Vereza, o espetáculo é livremente inspirado no Evangelho Apócrifo de Judas Iscariotes e é fruto de três anos de intensa pesquisa do ator.

O texto, denso, rico e emocionante, convida-nos a olhar a História pela perspectiva daquele apóstolo e, em uma linha próxima da que propõe a Doutrina Espírita, a ter um olhar misericordioso com o atormentado homem que entregou Jesus aos membros do Sinédrio e aos soldados romanos. Além de trazer fatos históricos narrados nos evangelhos.

A atuação de Vereza é primorosa e, com vigor e sensibilidade, nos conduz o tempo todo à emoção e à reflexão, vezes fazendo um link com as maldades humanas na atualidade.

Há que se destacar as projeções e os efeitos de som, que nos ambientam nas cenas nos fazendo experimentar a realidade representada no palco. A conexão entre as imagens, efeitos sonoros e a realidade que se quer retratar é perturbadora. 

Olhar para Judas sob uma ótica mais humanizada, participar de alguns de seus momentos de crise existencial é uma proposta ousada, mas que, sem dúvida, promove o exercício tão necessário de ouvir a outra parte. 

A polêmica fica por conta de, nessa leitura, Judas ser apresentado como o apóstolo preferido de Jesus.

Vale a pena conferir.

domingo, 16 de abril de 2017

Todo dia é dia de ressurgimento

Todos os dias os noticiários nos matam um pouco e tentam pôr uma pá de cal na esperança nossa de cada dia. São crimes, guerras, corrupção, crueldades e, ainda, algum absurdo do qual nós nem fazíamos ideia da existência (denúncias de campos de concentração para gays na Chechênia, é isso mesmo?!). Todos os dias o mundo árduo, duro, embrutecido tenta sepultar nossa ternura, compelindo para a morte os nossos mais nobres sentimentos. 

Todos os dias o trânsito nos violenta com berros, brigas, xingamentos, freadas bruscas e desrespeito. Todos os dias as relações humanas sofrem com alguma doença degenerativa. Todos os dias as redes sociais vociferam ódios gratuitos pondo abaixo o uso de toda e qualquer estratégia de argumentação. Todos os dias alguém tenta nos manter alienados através de veículos que deviam trazer informação. Todos os dias tem alguém simplesmente replicando notícias falsas e sensacionalistas sem a checar a idoneidade de suas fontes. Todos os dias nossa cidadania é violada. Parecemos todos imersos num fluido lodacento que tenta dificultar nosso movimento para a luz e que, se bobearmos, seremos nele submersos. Sob esses e outros aspectos, vivemos uma espécie de via crucis diária.

No que diz respeito à informação, em muita medida, somos nós mesmos que permitimos nosso afundamento nesse pântano de negatividade. Se pararmos para pensar, os meios de comunicação de massa nos servem generosas e regulares refeições todos os dias e o cardápio é quase sempre muito ruim e pouco variado. Mais do mesmo o dia inteiro. No despertar, no café da manhã, no almoço, no jantar e na hora de dormir e, ainda, é claro, algumas "colações" entre cada uma das principais refeições. O menu por vezes é o mesmo dias a fio. Resultado: ficamos impregnados de alguns elementos e carentes de outros tantos nutrientes. Sem nutrir-se, a vida perde sua qualidade ou se esvai. Precisamos, pois, cuidar da nossa dieta. É preciso promover uma mudança de hábitos e ela deve começar em cada um de nós.

Não é que tenhamos que nos manter mal informados. De jeito nenhum! Mas é observar a velha máxima de que quantidade nem sempre é qualidade e de que a alimentação que já vem processada e preparada nem sempre (ou quase nunca) é aquela que nos proporciona melhor qualidade de vida. É necessário dosar, variar, criar e buscar fontes que nos alimentem de maneira mais adequada e balanceada. Isso é urgente. É questão de saúde mental, emocional, física, intelectual e espiritual.

Buscar informação leve também é de suma necessidade para contrabalançar com as inevitáveis notícias densas que circulam por aí e que, invariavelmente, consumimos todos os dias (afinal, é preciso saber da dor, doer-se, agir e também cuidar-se). Essa alimentação mais leve, no entanto, não vem oferecida em bandejas nos telejornais e revistas por aí, elas não estão em destaque, elas não são o prato principal. Não estão nas vitrines. São da ordem do garimpo. Há que buscá-las. Elas podem ser de vários tipos, cabe-nos descobrir aquelas que funcionam melhor para manter a nossa leveza.

Foto de arquivo pessoal
Todos dias a vida nos oferece um tanto de beleza. Flores. Perfumes. Árvores frondosas ou pequeninas. Água correndo no riacho. Cantos de pássaros em lugares prováveis ou não. Sol. Chuva. Nuvem formando figuras ao sabor do vento. Noite. Lua. Estrelas. Cinema. Música. Literatura. Fotos de lugares paradisíacos. Gestos de carinho e gentileza. Sorrisos. Abraços. Beijos. Gostos.  Cores. Gargalhadas. Café quentinho e papo com amigos. Almoço em família. Não tudo para todos o tempo todo, mas sempre há uma possibilidade. Na simplicidade, há incontáveis fontes de alegria e apaziguamento.

Todo dia é um exercício de ressuscitar. Romper as barreiras do embrutecimento e das reações imediatistas aos ódios que nos cercam. De filtrar as mentiras e de fazer ressurgirem as verdades em nós primeiramente. Isso é da nossa governabilidade. É de dentro pra fora que se transforma uma vida, um lugar, um país, o planeta. É no trabalho de formiguinha, enxergando com clareza o nosso papel na e para a coletividade. Por falar em formigas e em coletivo, dia desses, li no site do El País a seguinte notícia: "Formigas resgatam seus 'soldados' feridos". A matéria dava conta de que as formigas de uma determinada espécie da África Subsaariana carregam de volta à colônia suas companheiras feridas ou mutiladas durante a caça e que não fazem isso pelo indivíduo, mas pela coletividade, já quase todas as formigas resgatadas, cerca de 95% delas, participam das expedições de caça posteriores, ou seja, elas perceberam que salvar o indivíduo favorece toda a colônia. E elas nem precisaram de empatia para isso, apenas de pragmatismo. A matéria é baseada em  um estudo realizado por cientistas do Centro de Pesquisa do Parque Nacional da Comoé, na Costa do Marfim e me fez pensar que, nós, seres humanos, já devíamos ter tido essa sacada: abandonar um é pior pra todos. Em alguns lugares do mundo, as ofertas dessas coisas todas que citei no parágrafo anterior é muito menor do que em outros e aqui esbarramos na solidariedade e na falta dela. Devíamos aprender com as formigas. Alguns de nós já aprenderam, felizmente, haja vista os países que recebem refugiados.

Hoje é Domingo da Páscoa Cristã, dia de ressurreição, de despertar a solidariedade, o perdão, o respeito, o sagrado (independente de religiões, a vida é sagrada), a Esperança para que todo dia possamos exercitar e construir a Paz. Hoje é dia de celebração da Vida. Da vida que supera cada uma das dificuldades e triunfa sobre a morte e sobre o sofrimento. Vimemos um bom momento para lembrarmos disso.

Que sejamos agentes de promoção da vida. Que não nos encharquemos nem contribuamos com aquilo que nos faz mal individual ou coletivamente. Que todos os  dias sejam dias de resistir à vaidade, à leviandade, à hipnose das redes sociais,  de conviver com a gente mesmo para se fazer melhor e melhorar o nosso entorno. Que todos os  dias sejam dias de despertar o bem em nós mesmos e espalhá-lo por aí. Que todos os dias sejam dias do exercício da Ética e da honestidade, a fim de que consigamos ressurgir melhores a cada dia. Enfim, que façamos renascer diariamente nossos mais caros sentimentos, que os alimentemos e os preservemos. Isso podemos fazer e só cabe a cada um de nós. Que tenhamos força, fé e coragem para esse enfrentamento diário e sigamos o exemplo do Cristo. Que possamos encontrar a beleza em qualquer parte. É tempo de ressurgimento. Tempo de ensolarar a alma da gente. São esses os meus desejos de Páscoa para mim, para minha família e para cada um de vocês.


Notícias acerca das denúncias da existência de um campo de concentração na Chechênia:
http://www.bbc.com/portuguese/internacional-39603792

http://g1.globo.com/mundo/noticia/campos-de-concentracao-para-homossexuais-a-crescente-perseguicao-a-gays-na-chechenia.ghtml

Matéria do El País: Formigas resgatam seus 'soldados" feridos, matéria da jornalista Joana Oliveira:
http://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/12/ciencia/1491987928_241787.html?id_externo_rsoc=FB_CC

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Crônica de um grande amor


Para Nanci Dias,
minha amiga querida,
por sua alegria e generosidade



Era uma menina comum, dessas assim iguaizinhas a todas as outras da sua idade. Cabelos loiros e lisos, sempre esvoaçantes na agitação de suas brincadeiras infanto-juvenis. Balanço de cordas na árvore frondosa do jardim, cheirinho de pipoca nas tardes de filmes na TV, amarelinhas e cordas puladas no quintal. Correria barulhenta ao redor da casa e risadas, muitas risadas. Tinha o riso fácil. Um bom humor a toda prova. Desses que neutralizam a rabugice dos amigos mau-humorados. Ria até mesmo das próprias resmungações.

Nessa moleca inquieta, que por vezes ainda tinha maria-chiquinhas nos cabelos, morava um espírito curioso que empreendia muitas viagens através dos livros. Ah, os livros! Quando descobriu a dimensão de seus mundos, não houve quem tivesse o poder de afastá-la deles. Eram histórias interessantes, engraçadas,  misteriosas, cheias de gafes e que muitas vezes provocavam nela generosas gargalhadas.

Lendo e relendo, a menina foi folheando um universo ora na realidade, ora na ficção e povoando sua vida de narrativas e personagens. O mundo vinha para ela "filtrado através das palavras", como diria o escritor Affonso Romano de Sant´Anna. Palavras e sentimento. Palavras e sensações. Palavras e lágrimas. Palavras e compreensão. Palavras!

Desejava sempre mais e mais leituras de escritores variados, sem se dar conta de que a essa altura já estava completamente apaixonada por um gênero literário específico: a crônica.

Devorava as crônicas com a avidez de um homem adulto que tem a necessidade de um prato fundo e com a curiosidade da moça que ia se tornando. Assim, alguns nomes iam ficando familiares: Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Otto Lara Resende e tantos outros. Sorvia esse banquete de letras associadas incontinentemente. 

"Para gostar de ler" era essa a coleção que reunia seu tesouro mais precioso. Tesouro igualmente par e variado.

Aos poucos a loirinha foi percebendo que buscava nesses livros um nome específico. Desse modo, todas as vezes em que pegava os livros, corria os dedos afoitos entre as páginas para ler o seu dileto. Com o passar do tempo, o dileto foi ficando tão dileto, que já não o queria mais assim embaralhado entre outros autores. Ela o queria só e o desvendava mais e mais.

Primeiro vieram as histórias, a maneira de contar um fato corriqueiro, as palavras comumente por ele usadas, a descoberta do estilo, a adivinhação dos vocábulos seguintes. Aos poucos foi descortinando o cara que havia  atrás das páginas impressas. Era natural que perguntasse para si mesma quem era esse moço que a encantava tanto.

Não lhe bastavam as crônicas. a essa altura precisava preencher-se dessa alma. Pesquisava sobre o dileto, conhecia seus hábitos e seus desejos. Degustava fotos e biografias. Os olhos adolescentes tinham particular interesse pelas fotos. Analisava-as cuidadosa e detalhadamente. Não tardou que os pequenos e brilhantes olhos dele lhe chamassem a atenção e desejou ver-se refletida naquele par de espelhos. Apaixonou-se.

Experimentava a todo tempo maneiras de estar próxima, ainda que não geograficamente. Quis ser mineira: foi devagar que tinha pressa. E ter mais gosto: tutu de feijão com torresmos. E sobremesa: goiabada cascão com queijo palmira.  E passo a passo foi adentrando o mundo dele e se encantando mais e mais.

Havia algo que ele admirava imensamente e, a medida que o tempo passava, ela ia se tornando. Ele era um grande admirador da mulher e era para lá que a menina ia seguindo, inevitavelmente. 

E que mulher! Viveu paixões. Primeiro beijo. Primeiro namorado. Estudou. Trabalhou. Despertou diversas atenções. Faceira, andava de bicicleta pelas ruas da cidade imperial a entregar jornais, uma maneira bem alfabética de ganhar a vida.  Sorveu a História da cidade onde morava observando gente, árvores e prédios. Viu diferenças. Namorou o Teatro. Experimentou os palcos e gostou. E foi gerando um banco de dados de óptica pessoal, que passou intensamente por essa etapa. Mais namorados, mais descobertas, mais lágrimas, mais sonhos e gargalhadas. A mulher recém-nascida conservara intacta a habilidade do humor. Que bênção!

Encontrou o amor e despertou a mais intensa e íntima mulher que havia em si. Tornou-se mãe. Conjugou pacientemente os verbos aguardar, evoluir, surpreender e foi felicidade muita quando os dois pequenos começaram a juntar as letrinhas para escrever e ler o mundo em que viviam. Letras, palavras, orações, períodos, frases, textos, capítulos, romances, coleções inteiras. A vida ia passando num crescente, como acontece com a obra literária. Literária... palavra mágica! Filhos crescidos, foi cursar Letras.

Teoria da Literatura. Comunicação. Prosa. Verso. Rima. Métrica. Compasso. Enjambement. Estudos. História. Gramática. Sintaxe. Latim. Diretório Acadêmico. Semana de Letras. Amigos. Gêneros literários, CRÔNICA e... ELE, o preferido. Ela, que sempre dividira com a família os seus prazeres literários iria agora estudar seu ídolo nos bancos da faculdade e enxergá-lo à luz da Literatura.

Respirou fundo, cruzou a fronteira. Escreveu carta e obteve resposta. As letrinhas dele lhe chegaram no rosto de um livro, sob forma de presente e dedicatória. O autor do outro lado das linhas foi, algumas vezes, o leitor dessa mulher. E a leu de maneira competente. Ele teve medo de sofrer? Boa pergunta. Embora o encontro marcado nunca acontecesse, ele deixara nela, irremediavelmente, a mais terna e preciosa herança: adulta, ela acredita em estrelas e invariavelmente vai buscá-las.

Duas crônicas do autor preferido dela:

DEZ MINUTOS DE IDADE
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.1777421109241572.1073741842.1708697116113972&type=3

MINAS ENIGMA
http://www.releituras.com/fsabino_minas.asp





sexta-feira, 7 de abril de 2017

Sobre "Diários marginais"

Era uma noite de quinta. Fazia calor e o céu vestia-se de modo atraente, embora os ventos denunciassem que estava próxima uma mudança de tempo. Saímos de casa para encontrar Lima Barreto e João do Rio no Theatro D. Pedro e, devo dizer, que foi um encontro fascinante.

É verdade que Lima era já aquele, em muita medida, sequestrado pela bebida e vítima do alcoolismo e que João estava demasiadamente perturbado com os apelidos maldosos que a sociedade do início do século XX lhe impôs, ainda assim a riqueza daqueles dois sobressaía a essas tristezas que a vida às vezes decreta.

Os dois nos trouxeram generosamente um pouco de suas biografias e, em seus diálogos delirantes, nos mostraram a dor e a delícia que pode trazer a cada autor o dom para a escrita. É que essa sensibilidade tão aflorada muitas vezes fere e não são raros os exemplos daqueles que não conseguiram lidar com ela sem anestesia, ou mesmo daqueles que não conseguiram a ela sobreviver.

Em dado momento, ambos protagonizaram um julgamento que bem nos faz refletir sobre o lado cruel da sociedade em que não importa o que se diga, o que se faça, o que se apresente ou mesmo os fatos, julga do mesmo modo. Em alguns casos, a conclusão e o veredicto social é sempre o mesmo e viciado. A sociedade julga e rotula desde sempre e isso não é exatamente uma novidade. Novo é ver o processo se fazendo diante dos nossos olhos com humor e ironia.

Não se pode negar que saímos de lá meio mexidos com essa coisa inevitável que é a morte na vida da gente. Igualmente não se negará que é belo e pleno de força constatar que Lima e João estão vivos e atuais em cada um dos textos produzidos pelos autores e que seus personagens renovam suas forças.

A mim, particularmente, Lima sensibilizou mais até por confundir-se ali, bem na minha frente e de maneira tão explícita, com Policarpo. Mas foi João que conduziu muito bem o espetáculo e puxou, do fundo de nossas almas absorvidas pelo Rio de Janeiro confuso e ambíguo da Belle Epoque, um olhar humano e terno para dois autores de um tempo que parece distante, mas que, sob alguns aspectos, se repete um século depois.

Foi um encontro adorável, em uma noite de reflexões, emoção e encantamento. O Teatro tem sempre essa magia.

PS: Diários marginais – um encontro com Lima Barreto e João do Rio é uma peça teatral da Oráculo Cia de Teatro e, atualmente, vem sendo encenada, através do SESI Cultural, em diversos municípios do Rio de Janeiro, com texto e atuação de Gilson Gomes e Wagner Brandi.

Trailer da peça:



quinta-feira, 23 de março de 2017

Comigos de mim

No jardim aqui de casa. Presente do meu querido Sr. Luiz.
Sábado chuvoso. Tempinho frio e muito bem recebido depois de uma onda de calor intenso. A amiga liga chamando para sair. Cinema? Perfeito! E lá fomos nós animadas para assistir ao filme, quando tivemos uma surpresa: não havia ingressos. Tickets só para o dia seguinte, informava um aviso. Ao contrário de nos aborrecermos, compramos as entradas para o domingo e saímos encantadas com as longas filas e o clima de expectativa no ambiente. Um burburinho, uma inquietação, uma delícia! O sábado terminou mesmo em pizza e isso, ao contrário do sentido que vemos por aí, foi muito bom.

Vinte e quatro horas depois, chegamos para a sessão que já ia começar. Nada de pipocas! A fila estava gigantesca e o que a gente queria mesmo era se fartar de filme. Tempo de espera é também tempo de observação. Havia crianças, pais, avós, grupinhos de jovens, casais de namorados, gente sozinha e acompanhada, homens, mulheres. Enfim, o público era pra lá de heterogêneo, ponto a favor!

Entre ruídos vários, pipocas sucumbindo entre dentes, latas de refrigerantes se abrindo, pacotes sendo rasgados, zunzunzum de crianças e pais, risinhos adolescentes – é, quando a gente não faz parte da orquestra, os barulhos ficam mais evidentes - começou a sessão. Demorou um pouquinho pra todo mundo embarcar na magia, o silêncio veio sem pressa, mas todos chegamos lá. Era hora de viajar.

De alguma maneira, à medida que as cenas apareciam e que canções e diálogos iam se revelando, eu ia me conectando a uma jovem entre dezenove e vinte, que assistira a uma animação exibida há mais de vinte anos. Era tudo tão familiar, só que agora eram pessoas dando vida aos personagens. Eu estava duplamente encantada.

Ao mesmo tempo em que a personagem principal ia se revelando, eu ia me lembrando de algumas pessoas que têm esse amor deliberado pelos pensamentos escritos, os livros. Daquelas que sabem que em cada exemplar há um mundo vezes feio, vezes bonito, vezes complexo, outras simples. Há até os desinteressantes. Numa biblioteca está o pensamento materializado, aquilo que existiu ou existe dentro da mente dos seus autores. São prateleiras inteiras de sonhos e ruminações. Pode haver algo mais íntimo que o pensamento? Talvez por isso seja um espaço sagrado.

Deixei-me encantar com o ímpeto e a determinação da protagonista, mas quando olhei nos olhos da Fera  foi que me encontrei. Foi ali que me lembrei de que cada um de nós tem um lado meio/muito bruto, precisando de cuidadosa e insistente lapidação. E me veio Fernando Pessoa: “Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim”.

E, naquele espelho encantado, resgatei aquela jovem que outrora assistira ao desenho cheia de paixão, sonhos, ilusões e encantamento. De lá até aqui, foram anos e mais anos de desilusão e burilamento. Não desse desiludir-se barato, que parece uma grande tragédia, mas de um desiludir-se próprio do amadurecimento em que vamos trocando ilusões por planejamento e realidade. Desiludir-se não é mau, é apenas aprender a trabalhar com o que é real e, embora possa haver algum sofrimento no processo, é crescimento e não há nada de melancólico nisso.

Na vida, todos temos nossa rosa, dentro ou fora da redoma, a perder as pétalas do tempo. Urge que nos encontremos e que amemos a nós mesmos profundamente, apesar de nossos espinhos. Sem egolatria, mas com a humildade necessária para saber-nos e aceitar-nos belos e feras. Essa é minha busca, é o meu desafio diário.

Conforme a trama avançava, amparada por toda poesia musical e imagética do longa, fui me afeiçoando, tal qual Bela, àquela Fera desajeitada, mas cheia de potencial. Ao mesmo tempo, segui amparando “as feras de mim” e recordando o quanto foi difícil refiná-las ao longo desses anos. Valsei com minha fera longamente, com doçura e compreensão e me vieram à memória muitas pessoas envolvidas nessa depuração, ao longo desses quarenta e cinco anos vividos intensamente. De fora pra dentro, houve quem me olhasse e só visse a bela, outros só a fera. Poucos a moeda inteira. Bela e fera são dois lados da mesma moeda. Muitos torceram, muitos vibraram e tantos outros jogaram contra, mas, ainda que alguns tenham tido papel mais determinante que outros, todos foram importantes para a formação daquela que sou hoje. E novamente Pessoa chegou me dizendo que (com licença poética) minhas mágoas não foram capazes de me fazer ver para sempre negro o que era de cor laranja. Isso aqueceu minha alma e me encheu de emoção.

Na Fera, perscrutei a mim, e vi em seus/meus olhos que, sentimentos (pensamentos e  posturas também), ao contrário do que diz a canção, nem sempre são fáceis de mudar, entretanto essa mudança pode ser pra melhor. As “feras de mim” ainda existem, elas são minhas, são eu. Algumas já não rugem, mas todas são trajeto para meu equilíbrio. E saí do cinema entre Pessoa e Gonzaguinha, comigo, com os comigos de mim, me gostando muito mais, porque me entendendo muito mais também. Isso não tem preço.



Eu apenas queria que você soubesse
(Gonzaguinha)