terça-feira, 1 de agosto de 2017

Podres poderes

Saí de casa inocentemente para assistir a um show de Caetano Veloso. Tudo estava muito tranquilo até aquele moço elegante trajado de azul, no mais puro estilo um banquinho e um violão, começar a cantar. Nos primeiros acordes de Luz do sol, entrei em contato com um tempo que passou. Parece que fiz uma conexão com a minha adolescência e com o início da minha vida adulta, com os anos 80, com a conquista de direitos e a valorização da vontade popular.

Adolesci num tempo de luz, de abertura, de iluminação sobre o que tinham sido anos soturnos no Brasil. Embora não tivesse engajamento nos movimentos que vinham lutando pelas eleições diretas, era impossível não participar disso de alguma maneira. Os jovens e os nem tão jovens estavam nas ruas e Coração de estudante, de Milton Nascimento, era quase um hino. Era cantada nas escolas, nos bares, nas ruas. Tinha um ar de acalanto, de energia, de alegria e, sobretudo, de esperança. Acompanhei a eleição indireta, a morte de Tancredo, a inflação a galope. No meu primeiro ano de faculdade, só se falava nas eleições diretas.  Eu me lembro das campanhas eleitorais, da desinterdição das urnas depois de tantos anos em que estiveram lacradas. Era uma energia boa de um povo que começava a tomar as rédeas do processo democrático de seu país novamente. Era a energia carregada da esperança de um futuro melhor. Da construção de um país bom e justo para a juventude criar seus filhos e a maturidade ver crescerem seus netos.

Quando houve o impeachment de Collor de Mello, já acompanhei mais de perto. Vi brotarem os cara-pintadas aqui e ali e se tornarem atuantes em todo o país, me recordo bem, o som das ruas era uníssono. A grande maioria da população já não desejava aquele presidente, tinha pesadelos com Zélia Cardoso de Mello, a ministra que, no primeiro momento do governo, confiscou a poupança de uma parte significativa da população brasileira. Não foram só aqueles que tinham alguma reserva que ficaram com suas contas bloqueadas. Houve gente que tinha vendido um imóvel para comprar outro, por exemplo, e que diante do confisco ficou sem ter onde morar. Houve dor, houve suicídios, a coisa não foi brincadeira. Quando o presidente foi deposto, havia o sentimento da maioria de que isso havia sido justo.

Desse modo, tudo o que vivi na adolescência e juventude foi uma escalada ascendente de liberdade e de conquistas. Minha geração aprendeu a encher o peito e a boca e sacar as leis afirmando que tinha direitos. Eu acreditei. Cresci nessa onda e na ilusão de que os direitos, uma vez conquistados, estavam garantidos, que era pra frente que se andava, que havia direitos adquiridos. Sendo assim, os recentes acontecimentos no Brasil têm sido, mais do que um soco no estômago (ou muitos socos, sinto-me golpeada todos os dias), um momento de reflexão e da constatação de que direitos são apenas circunstanciais e que, para a sua manutenção, temos que cuidar deles o tempo todo. Do contrário, de um minuto para o outro, entre acordos e conluios, se esvaem e todos perdem.

Tá certo, a gente vê aqui e ali mundo afora as ameaças à democracia diante de nós na TV, direitos ruindo nos mais diversos lugares, mas a televisão é tão asséptica que tem qualquer coisa de ficção, de distanciamento, de nos informar como se estivéssemos todos longe daquele ponto. A TV nos ilude e nos adormece todos os dias. Se não fosse assim, como seria possível ter um aparelho desses na sala de jantar? Como comer diante das notícias e imagens de guerras e de mutilações? Eu acompanhava as democracias ameaçadas a distância, mas não via o risco aqui tão perto.

A realidade começou, nesse sentido, a me dar uns solavancos quando, logo depois da apuração dos votos nas eleições para presidente em 2014, alguns inconformados com o resultado das urnas começaram a pedir o impeachment da presidente eleita e tais protestos começaram a ganhar força com a participação de alguns políticos brasileiros. A oposição naquele momento começava a mostrar a sua face predadora em prol de um resultado e em detrimento da valorização da nação brasileira e do processo democrático, fomentando a divisão nascida na disputa eleitoral.

Quando Trump venceu as eleições dos EUA eu tive muita inveja dos americanos, muita. Não desse inacreditável resultado.Tive inveja da postura responsável de sua oposição. Da fala de Hillary Clinton que, diante da derrota, que nem ocorreu nas urnas, não perdeu a clareza de que o país era maior que seu umbigo e, portanto, conclamou os americanos à união pelo crescimento de todos. No Brasil, apesar do discurso do candidato derrotado nas urnas, não tivemos uma oposição responsável. Faltou à oposição, desde as últimas eleições, a grandeza de perceber o Brasil como um país. Ao contrário disso, o que houve foi o estímulo irresponsável e em causa própria para que seus eleitores fossem às ruas pedir o impeachment de uma presidente democraticamente eleita, no momento seguinte ao resultado do pleito. Faz parte do processo democrático aprender a perder. Há que se ter grandeza para continuar lutando por seus objetivos sem sabotar o processo legítimo das urnas.

A oposição sabotou o quanto pôde um governo legítimo. Foram pautas e mais pautas travadas no Congresso Nacional para levar o governo ao insucesso. O país ficou ingovernável. A crise econômica foi agravada. Um presidente, haja vista os “acordos e mais acordos” que têm sido feitos pelo presidente Temer, não pode governar sozinho. Mais tarde, diante das gravações apresentadas pela Operação Lava a jato, ficou claro nos diálogos de Sérgio Machado com Romero Jucá, que o medo, o pavor era de que aquela operação levasse boa parte deles ao naufrágio de suas carreiras políticas construídas nem sempre na legalidade. Desse modo, foram articuladas alianças e mais alianças para que salvassem a própria pele. O que fez a oposição nesse tempo todo? É como se ela, como dizem, tivesse descarrilhado o trem para depois “salvar” os feridos. Houve vítimas fatais? Para vítimas fatais cuidados médicos não resolvem coisa alguma. A oposição estimulou e promoveu o impeachment a um preço altíssimo para salvar sua própria pele. Sem falar naqueles que mudaram de lado pelo mesmo motivo.

Para agravar a crise vivida pelo governo Dilma naquela ocasião, faltou sensibilidade ao referido governo para lidar com uma parcela significativa da população que não o apoiava e que foi às ruas se manifestar.  As medidas tomadas pelo governo estabelecido ajudaram a pôr gasolina no fogo e a incendiar as possibilidades de reversão daquela situação. Àquela altura os movimentos já tinham certa autonomia e repudiavam alguns dos políticos que o incentivaram, chamando-os, inclusive, de oportunistas. Havia muitos manifestantes que defendiam a não participação de políticos naqueles protestos. Os movimentos, naquele momento, já tinham em grande parte outra identidade. No domingo anterior à nomeação de Lula como Ministro da Casa Civil, os movimentos de rua tinham levado três milhões de pessoas às ruas num protesto contra o governo e contra a possível nomeação do ex-presidente para um cargo ministerial. Não se ignora a voz de três milhões de pessoas impunemente. A nomeação dele para a casa civil soou, até para muitos que apoiavam o governo, como um desrespeito às vozes de uma parte significativa da população. Ao ignorar o movimento, o governo ajudou a jogar uma pá de cal sobre as possibilidades de superação da crise política em que se encontrava.

A realidade me esbofeteou pra valer mesmo naquela sessão de domingo da Câmara de Deputados que aprovou o prosseguimento do processo de impeachment da presidente. Olhava incrédula para a postura e ficava atônita com as falas de grande parte daqueles parlamentares. Pensava na gravidade do que aquilo significava para além daquele resultado, para o fato de que aqueles senhores e aquelas senhoras ocupavam cargos representativos e, portanto, representavam uma parcela da população. Suas condutas questionáveis naquele dia e nos dias que se seguiram àquela sessão colocavam em xeque o nosso congresso. Ética?! Decoro?! Nada disso parecia existir por ali. Passei, a partir daí, a olhar com mais atenção o número expressivo e crescente de votos em branco e nulos , bem como o enorme número de abstenções nos processos eleitorais para os mais diversos cargos políticos de nosso país. Nosso sistema eleitoral desconsidera esses números para os resultados, no entanto, diante do quantitativo de pessoas que representam, devíamos repensá-lo. Não basta criticar os que agem assim, tampouco rotulá-los de isentões. Tais votos também manifestam uma mensagem, a de que aqueles eleitores não concordam que nenhum dos candidatos inscritos os representem e isso é coisa à beça.  Para muitos, deixar de votar é uma decisão amadurecida e demasiadamente difícil. Jamais votei nulo ou em branco nem me abstive das votações, mas entendo quem o faz. É preciso pensar nisso com a seriedade que o assunto merece.

Depois de passar pela Câmara dos Deputados, o Senado brasileiro aprovou o impeachment, que  se consolidou como um golpe quando, dois dias depois de ser votado,  o mesmo Senado sancionou uma lei que flexibilizava as regras para a abertura dos créditos suplementares sem a necessidade de autorização pelo Congresso Nacional. A partir daquela data, então, estavam legalizadas as “pedaladas fiscais”, que foram o principal argumento para o pedido do impeachment presidencial. Ou seja, depuseram a presidente por uma ilegalidade que dois dias depois avaliaram como legal. Deram nó em pingo de éter bem na nossa frente. Ao contrário do que ocorrera no impeachment de Collor, a voz das ruas não era uníssona. Novamente havia sido desconsiderada uma parte significativa da população.

Pouco mais de um ano do ocorrido, o que temos visto é de abalar as estruturas das nossas esperanças. Temos um presidente que foi gravado em uma conversa comprometedora com o empresário e delator Joesley Batista  em que, o mínimo que se pode pensar, é que o presidente tenha prevaricado. Acusado pela Procuradoria Geral da União de crime de corrupção passiva, esse mesmo presidente, ao invés de tomar atitudes coerentes com a lisura e a transparência que o exercício de sua função exigem, toma providências no sentido de dificultar a visão da entrada do Palácio do Jaburu e estabelece o uso de mecanismos para dificultar a gravação de suas conversas, como é o caso da instalação  do misturador de vozes. Coisa que mais se aproxima de uma confissão de culpa do que do desejo de provar que não a tem. Sua manutenção na presidência tem se dado por manobras e mais manobras políticas que, se não forem ilegais, certamente são imorais. A crise econômica e financeira continua instalada. Houve perdas de direitos trabalhistas. Universidades públicas agonizando. O aumento do número de pessoas em situação de rua é visível. O aumento da violência e da criminalidade é sentido pela população até fora dos grandes centros. E ninguém se manifesta. Bem, isso é o que dizem. Tenho visto, pelo país afora, gritos e mais gritos de “Fora, Temer!” E esse coro está crescendo. Basta que haja uma reunião para que tal apelo surja naturalmente. Se os gritos não ganharam as ruas, não quer dizer que eles não existam, é importante que isso fique claro.

Por que os gritos não ganham as ruas? Há vários motivos, mas sobre dois deles eu gostaria de falar. Temos sido sistematicamente expostos ao medo. Medo de que a economia desande e que o país vá à bancarrota, como se o desacerto no campo econômico não estivesse intimamente ligado aos inúmeros processos de gestão fraudulenta, de rios e rios de propina de que nos dá conta o Ministério Público. É como se falassem para nós que os gestores não têm culpa, mas nós podemos pôr o país a perder por querer que o presidente responda o processo por corrupção passiva no Supremo Tribunal Federal. Há uma espécie de ameaça de que teremos responsabilidade pelo fracasso da economia se houver uma mudança. “Ruim com ele, pior sem ele”, nos avisam alguns a todo o tempo. Além disso, a pós-verdade, sem entrarmos na discussão filosófica se está sendo usada no sentido real ou equivocado do termo, mas pensando no significado que tem assumido no contexto atual, tem ajudado a nos confundir, valorizando mais a versão do fato do que o fato ocorrido em si. Dando mais crédito à versão do fato do que a verdade em si. Os discursos de alguns políticos são completa e propositada distorção dos fatos. Precisamos estar atentos a isso.  Temos o dever cívico de não nos deixar enganar. Concordar que um presidente não seja julgado por um crime do qual se tem provas é o mesmo que assegurar para toda a classe política que a lei não pode atingi-los.  É endossar a impunidade.  A população não foi para a rua? Há muitos meios de se manifestar, ir às ruas não é o único. É fundamental fazer uso deles.

E o que tem Caetano a ver com tudo isso? Passei boa parte da vida adulta vendo uma escalada crescente de conquistas e direitos, tenho estado dolorida vendo essas conquistas descendo ladeira a baixo. Constatar toda a fragilidade desses direitos tem sido um duro aprendizado. Olhar Caetano ali no palco, desfilando sua poesia ante meus olhos, lembrar que ele foi um preso político, que foi exilado; ouvir canções compostas em 1968; constatar as letras vivas e mordazes de algumas de suas canções e não pensar na situação atual do país, no estado de coisas que estamos vivendo, no avizinhamento de um tempo ainda mais sombrio é simplesmente impossível. É inevitável linkar o Brasil atual aos podres poderes de Caetano. Naquele show, a adulta dolorida que estou se encontrou com a jovem esperançosa que eu fui e ratificou minha convicção de que é preciso resistir. Resistir com amor, com poesia, com dança, com música, com garra, com arte, com beleza para manter a saúde emocional. Resistir fazendo uso dos meios disponíveis para me manifestar. Resistir buscando informações em muitas e muitas fontes para não ser catequizada pelos manipuladores da informação. Sim, quem se propõe a ouvir mais do mesmo o tempo todo, pode acabar com sua capacidade de análise comprometida.  É preciso ser um leitor plural, lendo e ouvindo aqueles que concordam conosco e também aqueles que discordam de nós. É preciso crescer e exercitar o respeito, prestar muita atenção aos fatos e lutar pelo que se acredita.

Enquanto boa parte da classe política do nosso país exerce seus podres poderes, estamos nos perdendo ao dividir nossas forças. Enquanto eles nos vencem, saqueiam e oprimem, nos desgastamos em confrontos nas ruas ou em redes sociais. A polarização tem facilitado muito a vida deles. Até quando nos conformaremos com ridículos tiranos?

PODRES PODERES
(Caetano Veloso)



SOBRE AS HERANÇAS DO PLANO COLLOR
http://istoe.com.br/58752_DIFICIL+DE+ESQUECER/

RESULTADO DAS ELEIÇÕES DIRETAS PARA A PRESIDÊNCIA DO BRASIL EM 2014
http://www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2014/Dezembro/plenario-do-tse-proclama-resultado-definitivo-do-segundo-turno-da-eleicao-presidencial

PRIMEIRAS MANIFESTAÇÕES PELO IMPEACHMENT DA PRESIDENTE
http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2014-11-01/protesto-contra-dilma-rousseff-fecha-avenida-paulista.html

CONVOCAÇÃO PARA PROTESTOS FEITAS POR CANDIDATOS DA OPOSIÇÃO EM DEZEMBRO DE 2014
http://g1.globo.com/politica/noticia/2014/12/aecio-e-oposicionistas-fazem-pela-web-convocacao-para-ato-de-protesto.html

SOBRE O DISCURSO DE HILLARY CLINTON
https://www.youtube.com/watch?v=1AJph8kHBYc#t=1154.821324

SOBRE AS MANIFESTAÇÕES POPULARES DE 13 DE MARÇO DE 2016
https://brasil.elpais.com/brasil/2016/03/13/politica/1457906776_440577.html

APROVAÇÃO DAS PEDALADAS FISCAIS PELO SENADO DOIS DIAS DEPOIS DO IMPEACHMENT
http://economia.ig.com.br/2016-09-02/lei-orcamento.html


OUTROS TEXTOS INTERESSANTES

Logo após o resultado das eleições
http://g1.globo.com/sao-paulo/eleicoes/2014/noticia/2014/10/na-paulista-tucanos-gritam-impeachment-e-petistas-pedem-choro-no-cantareira.html

De antes das eleições
http://congressoemfoco.uol.com.br/opiniao/colunistas/os-dilemas-da-atual-oposicao-a-presidente-dilma/


terça-feira, 25 de julho de 2017

Entre linhas

Não nasci em uma família de leitores contumazes. Apesar disso, sempre tive incentivo para a leitura e para os estudos. Os pais liam, mais jornais e notícias do que literatura, mas liam. Digo liam, assim no passado, porque hoje com a tecnologia ao alcance das mãos, leem mais e têm uma leitura mais diversificada também.

A memória pode nos trair algumas vezes, então, é meio complicado saber exatamente quando foi que o interesse pela leitura deu partida em minha história. Revirando o baú das lembranças, vou encontrar lá longe, na terceira série do primeiro grau, era assim que se falava, a Tia Magali. Era uma professora primária, de uma escola pública estadual e que já inovava em seu modo de estimular os alunos. Com todas as limitações que encontrava, promovia gincanas e desafios entre os estudantes para a realização das tarefas e os prêmios eram, entre outras coisas, revistas infantis e gibis. Meu primeiro prêmio significativo nessa séria brincadeira foi uma revista “Nosso amiguinho”. O exemplar trazia uma historinha, bem como uma narrativa lúdica sobre algum fato histórico. Essa é a primeira lembrança do contato com textos que me despertaram o quero mais. O desejo por mais e mais revistas daquele tipo nasceu daí.

A essa altura minha mãe, vendo que eu gostava de ler, já providenciava uma ou outra coleção infantil para que eu pudesse viajar nas páginas dos clássicos contos para crianças. Depois disso, por ter uma irmã portadora de necessidades especiais e por isso representar uma enorme dificuldade para a “aceitação” dela em escolas – naquele tempo não tinha lei específica para isso – acabei por ser matriculada na Escola Viva, que já fazia a chamada educação inclusiva em melhores moldes que os de hoje. Como a preocupação com a leitura fosse uma constante naquela escola, havia uma série de eventos nesse sentido. O ponto alto desse incentivo era o trabalho com alguns autores ao longo do ano e a presença de um deles na  Feira  Anual do livro.

O primeiro autor que me despertou fascínio foi Carlos de Marigny. Tinha lido ”Detetives por acaso” e “Os fantasmas da casa mal assombrada” e o sujeito escrevia de um jeito que me acordava o interesse por mais e mais aventuras.  Marigny foi o primeiro que me fascinou. Também ele escreveu o primeiro livro em que embatuquei. Tínhamos leitura de férias e o livro indicado para a minha turma era “A ilha das borboletas azuis”, eu começava e recomeçava e começava de novo e não conseguia avançar na leitura. Já quase no fim das férias, que eram longas, diga-se de passagem, consegui vencer a dificuldade e adorei o texto, coisa que revivi algumas vezes no correr dos anos. Há livros que não conseguimos ler de prima, é preciso insistir.

De lá pra cá, a vida seguiu seu curso entre Pollyannas,  O pequeno príncipe, O menino do dedo verde, É proibido chorar até chegar a adolescência e eu fazer, o que seria na época, minha primeira leitura clandestina. Um dia, no sótão de casa, descobri um livro que tinha um título particularmente interessante. Não tive dúvidas. Passava horas escondidinha lendo “O amante de Lady Chatterley”. E foi delicioso! Ri, chorei, tive raiva, compreendi e devorei o livro encantada com a literatura pra gente grande, que eu acabara de descortinar. O texto de D. H. Lawrence falava dos conflitos humanos, das encruzilhadas da vida, das escolhas, das diferenças entre as classes sociais e até de amor, desejo e sexo.  Foi precisamente aí que me apaixonei pelos dramas existenciais humanos.

Bem, mas por que estou falando de tudo isso? É que hoje é o Dia Nacional do Escritor e eu me peguei pensando em como foi que esses caras começaram a me interessar e fui buscar a minha vida de leitora, fazer uma retrospectiva. Cheguei até aqui, mas uma questão me inquieta: como nascem os nossos escritores favoritos? Para falar sobre eles, preciso me lembrar dos tempos da faculdade.

Decidi fazer Letras depois de muito tempo de amadurecimento, o que para muitos podia ser uma escolha óbvia, para mim estava submersa entre as tantas vozes do mundo, entre tantas escolhas possíveis. Nesse sentido, demorei a amadurecer. Passei muito tempo ouvindo as vozes de fora, sem reconhecer as vozes internas. Por incrível que pareça, tive a felicidade de conviver com alguns colegas que também iniciaram aquela faculdade na mesma época da vida, cada um com sua história, claro.  Minha turma era mesclada: havia os muito jovens, os jovens e os mais maduros e isso era muito rico.

O afeto sempre teve um papel importante para mim e, nos bancos acadêmicos, fui descobrindo pessoas que tinham, mais que autores preferidos, uma relação afetiva com eles. Desse modo, fiz uma outra leitura daqueles mesmos escritores a partir do olhar apaixonado de minhas amigas. Nanci era encantada por Fernando Sabino, Isabela por Rubem Braga e Claudia por Mário Quintana. Nanci lia o Fernando por entre as linhas de seus textos, Isabela suspirava com a poesia presente nos escritos de Braga e Cláudia era tão apaixonada por Quintana que sua mãe,  percebendo isso, num gesto delicado de amor e generosidade, fez uma jardineira de miosótis na janela do quarto da moça. E o que têm os miosótis a ver com isso, hão de me perguntar. Bem, eles são nada mais nada menos que as flores preferidas daquele poeta. Já pensaram nisso?! O fato é que, depois de conhecê-las, gosto mais de Fernando, de Rubem e de Quintana.

Embora apreciasse alguns escritores e alguns até muito, ainda não tinha encontrado aquele que falaria assim tão perto da minha maneira de sentir o mundo. Ainda não conhecia alguém que fizesse ecoar a sua voz dentro de mim. Era 2000, eu tinha 28, começara a faculdade e estava passando pela crise dos 30. É, passei por ela, mas adorei fazer 40, vai entender. Procura daqui e lê dali, encontrei num site uma crônica cujo título me interessara sobremaneira: “Fazer trinta anos”. Comecei a leitura achando ser mais um texto sobre os 30 e fui descobrindo que era o texto sobre os 30. E fui destacando frases, como de costume, “Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada”, “Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil”, “Fazer 30 anos é como o mineiro vê pela primeira vez o mar”, “Mas fazer 30 anos é como sair do espaço e penetrar no tempo. E penetrar no tempo é mister de grande necessidade”, “Por isso é necessário ter asas e sobre o abismo voar”.  Aquelas palavras, bem naquele momento singular de minha vida, ficaram reverberando em mim. Me encantei, claro, e reli em voz alta e quis conhecer o que mais escrevia aquele autor. Affonso Romano de Sant´Anna, o nome dele. E procurei textos e mais textos, e comprei livros, e li crônicas, e li poemas, e li ensaios, e li críticas, e li teorias e o dividi com os amigos e alguns amigos o repartiram comigo, e concordava e, vezes, até discordava do que ele dizia, mas seus textos eram/são de suma importância pra mim. Aquele homem era um manancial e eu estava fascinada. Não tive dúvidas e passei a comprar “O Globo” aos sábados exclusivamente por conta do caderno “Prosa e Verso”, u-ni-ca-men-te por conta do autor. Devo confessar que jamais perdoei aquele jornal por tê-lo deixado de publicar.

Sem perceber, minha leitura de mundo passava pela leitura de mundo daquele escritor, eu buscava nos jornais o que ele estava pensando sobre determinado assunto, o que ele estava escrevendo sobre o tema. Tinha nascido o afeto. Naturalmente, palavra por palavra foi surgindo em caixa alta o MEU ESCRITOR PREDILETO.

Em 27 de março deste ano, Affonso Romano fez 80 anos. Produzindo, adaptado às novidades tecnológicas, cheio de inquietações e encantador como sempre. É bonito ver uma trajetória como a dele. Parabéns pra ele! Leio o mundo, a vida, as situações, as pessoas entre as linhas de muitos autores, mas Affonso é o cara que me ajudou/ajuda a ver mais poesia no mundo, a respeitar meu tempo, a analisar as situações sobre vários aspectos, a ver com clareza as regras nem sempre claras da nossa sociedade. Affonso é o cara que me ajudou/ajuda a ler o mundo que, aliás, é o título de um de seus livros, com mais serenidade, crônica e cronologicamente. E é por isso que, com  imenso respeito a todos os escritores do mundo, é pra ele que gostaria de desejar de modo especial Feliz Dia do Escritor! Feliz dia, Poeta! Feliz dia, Professor!

E você já parou pra pensar como o seu escritor favorito chegou na sua vida? A quem felicitaria de modo especial nesta data?


FAZER 30 ANOS,  de Affonso Romano de Sant´Anna
http://www.releituras.com/arsant_30anos.asp


OUTROS TEXTOS DO AUTOR:
O homem-bomba
https://www.facebook.com/estacaomarisebender/photos/a.1718157488501268.1073741829.1708697116113972/1718155915168092/?type=3&theater

Despir um corpo a primeira vez
https://www.facebook.com/estacaomarisebender/posts/1804460883204261:0

PROJETO RELEITURAS (vários textos de vários autores)
http://www.releituras.com/arsant_menu.asp

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Hibernação


É inverno. A temperatura lá fora cai vertiginosamente, enquanto meu peito se ilumina aquecido de lembranças saborosas e caras da infância e de outras fases da minha história. Talvez porque a vida tenha escolhido essa época do ano para me fazer aportar por aqui e porque, por isso mesmo, inverno sempre tenha sido para mim sinônimo de celebração ou, ainda, porque sempre tenha gostado do recolhimento necessário para apaziguar o espírito e essa estação favoreça o estar consigo mesmo o tempo todo. Talvez porque, diante do frio, os sabores se acentuem. Talvez porque o frio congregue, aproxime, envolva e sugira afago e abrigo ou talvez por cada uma dessas coisas e de outras mais, o inverno pra mim sempre vem cheio de significado.

Recolher, nutrir, proteger, aninhar a si e aos afetos. Tempo de refinamento e construção para desembarcar no setembro primaveril. Há sempre um tempo de brotação que é invisível aos olhos, o inverno é assim. Inverno é etapa, fase, momento, avaliação. Ao contrário do que ocorre com outras espécies, até a nossa alimentação é mais rica nessa época do ano. 

Dia desses, a sala de aula me fez lembrar de um período muito caro da minha vida na escola. Petrópolis amanhecera fria, um vento gélido e cortante insistia em desconfortar. Abro a porta da sala e me deparo com algumas meninas com uma espécie de mantinha de soft jogada sobre os ombros. Estavam em pares. Aquela imagem, repleta da noção de aconchego, reportou-me à infância.

Parte da minha vida escolar se deu em um colégio com ideias e ideais à frente de seu tempo, coisa de que só tive consciência quando já era adulta, cursava a Faculdade de Letras e começava a estudar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Nesse momento, percebi que muitas das coisas que eram apresentadas como novidades, eu já experimentara muitos anos antes na Escola Viva, a educação inclusiva foi uma delas. Nessa escola, vezes, na chegada do inverno, os professores reuniam os alunos num grande salão com lareira em que as janelas permaneciam parcialmente fechadas, para que fosse favorecida a penumbra. O fogo era aceso, eram servidas canequinhas com um delicioso chocolate bem quentinho e falava-se sobre o inverno, contava-se histórias e curtia-se em conjunto esse momento/tempo de recolhimento. À exceção do verão, cuja chegada nos encontrava já em férias, celebrava-se cada estação à sua maneira, frutas, chocolate quente ou flores. Tenho, portanto, uma ligação afetiva com a passagem do tempo, com os ciclos.

A própria Petrópolis fica também mais viva e pulsante no inverno. São festivais, músicas, teatro, poesia, a tradicional Festa do Colono Alemão. É tempo de pura efervescência. As cerejeiras afloram. Tudo fica mais mágico e encantado.

Voltando à sala de aula, a programação era a leitura do conto "O espelho", de Machado de Assis, texto disponível no próprio livro didático. Achei por bem deixar as meninas aconchegadas, duas a duas, tal qual estavam para que nossa "roda" de leitura ficasse um pouco mais confortável. A palavra girou espontaneamente a cada parágrafo e, aos poucos, fomos todos nos assombrando com as colocações de Machado. Eu também?! Sim, eu sempre fico maravilhada com os textos desse escritor, mesmo quando leio um velho conhecido. E eles?! Muito! Duas almas?! E  a surpresa era nítida nos jovens olhares que perscrutavam aquelas linhas machadianas. Quando a leitura acabou estávamos todos envolvidos e eles repletos de curiosidade e fomos, então, desvendando as mensagens daquele escriba também à frente de seu tempo.

De temática atualíssima, o conto nos leva a pensar no contraste entre a aparência e a essência, bem como no risco que corremos ao absorvermos as referências externas, aquelas que vêm dos outros, para enxergar a nós mesmos. Quantas vezes duvidamos daquilo que somos precisamente porque os outros nos apontam o contrário? Quantas vezes nos expomos e, mesmo relutantes no início, aceitamos com o tempo os rótulos que outras pessoas nos dão? Quantas vezes acreditamos que nossa essência está nos papéis que desempenhamos e não exatamente naquilo que somos? Quantas vezes damos ao outro o poder de, tal qual um espelho, nos mostrar "quem somos"? São muitas as perguntas que nos fazemos depois da leitura de tais escritos, além da inevitável ponderação de que a vaidade pode fazer perder uma vida, um projeto. Ela pode nos fazer perder a noção de nós mesmos e dos limites que o outro deve ter em nossas vidas. A adulação é mesmo perniciosa e quem a ela se rende cria, inevitavelmente, uma espécie de dependência.

A aula terminou, estavam todos (ou quase todos) encantados com a genialidade de Machado e com tantas informações críticas e subliminares naquele texto. Deixei a sala de aula feliz, a alegria refletida naqueles olhinhos me encheu de entusiamo. Saímos todos daquela leitura nos conhecendo um pouquinho mais e um pouco mais aquecidos. Inverno é tempo de essência e daquilo que é essencial. Nesse sentido, hibernar é fundamental.



Contos de Machado de Assis:
http://machado.mec.gov.br/obra-completa-menu-principal-173/166-conto

Imagem disponível em:

https://pixabay.com/pt/vela-bruxuleante-chama-2400240/

Up em 19/07/2017
Para encantar e aquecer:

Vivaldi The four seasons - Winter - Julia Fischer

domingo, 9 de julho de 2017

O inesgotável Machado de Assis

Para Gerson Pereira Valle,
pelo empenho em fazer da academia
um espaço bem mais próximo dos mortais.


Apaixonada pela figura e pela escrita de Machado de Assis, de modo geral, recuso-me a perder qualquer oportunidade de ouvir um pouco mais sobre ele. Sábado foi dia de programação na Academia Petropolitana de Letras e, para o meu deleite, o assunto era justamente Machado. Há vários aspectos na vida e na obra do escritor que me fascinam. Tanto assim, que muitos estudantes que já passaram por minhas aulas, de um modo ou de outro, logo reconhecem minha paixão pelo autor.

 Machado de Assis - 1904 -(fonte: g1.globo.com) 
Gosto de apresentá-lo em sala de aula primeiramente como o sujeito que enfrentou uma série de dificuldades e que, a despeito disso, chegou à notoriedade. Como muitos sabem, Machado era mulato, nasceu no Morro do Livramento, era filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira açoriana e ficou órfão de mãe muito cedo. Tinha epilepsia, isso numa época em que muito do desconhecimento sobre a doença, sustentava uma série de crenças de que hoje, felizmente, muitos nem têm conhecimento.  Sempre friso que, sem meios para os estudos regulares, o escritor estudou da maneira que pôde. Foi um autodidata que, além de chegar à presidência da Academia Brasileira de Letras, foi um de seus fundadores. Aí está um verdadeiro legado de superação e de amor à cultura. Machado é o cara!

Gosto de contrapor a trajetória do literato ao personagem Brás Cubas e de extrair daí as oposições entre um e outro. Machado tem, em certo sentido, uma trajetória inversa à de Brás Cubas. Era pobre, buscou instruir-se por meios próprios, tinha uma série de dificuldades a enfrentar, cresceu profissionalmente, conheceu o amor e venceu, alcançando notoriedade e deixando para a vida uma herança de valor inestimável: sua obra. Brás Cubas foi um menino mimado, que tinha todas as condições para alcançar a notoriedade e que a desejava como ninguém. Estudou em Coimbra, graduou-se em Direito e, no entanto, terminou seus dias num capítulo de negativas. Não alcançou a celebridade, não teve sucesso na almejada carreira política, não conheceu o casamento e se vangloria pelo fato de nunca ter tido que suar para garantir o seu sustento. Ainda nesse último capítulo, Brás Cubas afirma ter se vingado da vida não deixando a ela nenhum herdeiro ou, como diz, de não ter transmitido a nenhuma criatura o legado de sua miséria. Machado, apesar de não ter tido descendentes, transmitiu e transmite a cada um de nós uma perpetuação de si mesmo, através das inesgotáveis leituras e possibilidades de seus textos. Com sua atualidade, ele sobrevive ao tempo.

Como sempre me interessei pelos homens e mulheres que escrevem, ou seja, pelos autores dos livros e não somente pelos livros e, como trabalho com adolescentes, sempre entendi que apresentar o indivíduo com todas as suas emoções, com toda a sua humanidade, com as suas honras e agruras, fosse uma boa estratégia para despertar-lhes o interesse pelos autores e, consequentemente, por suas obras. Sou daquelas que acreditam que a sacralização dos medalhões literários distancia um tanto o estudante da literatura. Para apaixonar-se é preciso afeto, na literatura não é diferente.

No caso de Machado, sempre procuro apresentá-lo como, além do ícone de superação que ele é, o sujeito apaixonado por Carolina. Costumo inclusive levar alguns registros da amorosa correspondência do autor para sua Carola: “és tão dócil como eu; a razão fala em nós ambos. Pedes-me cousas tão justas, que eu nem teria pretexto de te recusar se quisesse recusar-te alguma cousa, e não quero.” Não é fascinante ver esse lado de Machado? É enternecedor, por exemplo, o registro das saudades de Machadinho (como ele assina uma das cartas endereçadas a ela): “Obrigado pela flor que me mandaste; dei-lhe dous beijos como se fosse em ti mesma, pois que apesar de seca e sem perfume, trouxe-me ela um pouco de tua alma. Sábado é o dia de minha ida; faltam poucos dias e está tão longe!” Machado ansioso pelo encontro com a amada? Sim! A ponto de sentir alterações na noção de tempo. Tão humano, tão próximo a nós e isso é tão rico.

Depois da morte de Carolina, o autor compõe um belíssimo soneto capaz de nos aproximar da dor e da saudade que o poeta – sim, ele é poeta também - sente da amada. A composição poética tem três versos tão pungentes que, a eles, é impossível ficar indiferente.  Belos e tristíssimos versos que denunciam a dor da separação causada pela morte do ser amado: “Trago-te flores – restos arrancados / Da terra que nos viu passar unidos / E ora mortos nos deixa e separados". Como não levar “A Carolina” às salas de aula?

Bem, acabo de fazer uma digressão e entrar em uma sala de aula. Hábito?! Paixão?! O fato é que me afastei do real motivo de escrever esta crônica: a palestra de ontem. O tema, “Inovações narrativas na obra de Machado de Assis”, era muito menos revelador que a realidade oferecida na fala apaixonada, envolvente e com muita propriedade do Professor Pierre da Silva Moraes, de Nova Friburgo. Lá pelas tantas, estava a plateia completamente seduzida, curiosa e embriagada pela grandeza de Machado de Assis e pela fluência do professor.  Foi um encontro memorável.  Todos aprendemos. Todos.

O docente trouxe, com riqueza de detalhes, a estada do autor em Nova Friburgo para recuperar-se de um adoecimento e a estreita relação desse período com a composição da obra “Memórias póstumas de Brás Cubas”. De acordo com os seus estudos, o Machado realista teria sido gestado durante o tempo passado naquela cidade serrana. Diante da possibilidade real da morte e de todos os diálogos internos que tem um homem que se vê próximo a ela, Machado dá uma guinada em sua obra e chega à criação do defunto autor. Eu jamais havia parado para pensar na relação vida e obra do autor sob essa ótica. E foi a primeira vez em que conjecturei que, então, talvez viesse daí a expressão defunto autor: um sujeito quase morrendo - ou pelo menos que pensava nessa possibilidade - escrevendo uma narrativa bastante diferente daquelas que já produzira. Achei fantástico. Foi uma leitura possível, através da palestra.

O palestrante trouxe muita novidade acerca da virada na vida e na obra do escritor, ou seja, desse renascimento de Machado, homem e autor, e da ligação desse fato com Nova Friburgo, além de referências a Alfredo Bosi, Massaud Moisés, entre outros renomados críticos literários. Ademais, Pierre encaminhou um paralelo entre os recursos usados atualmente pela televisão, por exemplo, e as inovações na narrativa de Machado no sentido de deixar sua obra aberta. Ele ressaltou que, de certo modo, a interatividade já estava presente nas obras primas do autor, já que ele requer a participação do leitor e torna possível mais de uma leitura para seus romances, como se pode constatar em “Dom Casmurro”. Nessa obra em particular, o leitor tem elementos para acreditar e defender as teses de que Capitu traiu e de que Capitu não traiu Bentinho. Cada leitura, cada olhar e cada interpretação é uma possibilidade.

Todos na plateia ficaram igualmente mobilizados e, depois da explanação, houve uma profícua conversa acerca da literatura. E, nessa conversa, estiveram presentes, além de Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, entre outros. Faz-se necessário destacar a fala de um professor – de que infelizmente não sei o nome - que trouxe à baila a necessidade da valorização da produção poética de Machado de Assis, além de seus textos para o teatro. Entre a apresentação de Pierre e a posterior conversa sobre as informações trazidas e as provocações lançadas por ele, foram quase três horas de interação. Foi um espaço para constatações, exposições, compartilhamento de pontos de vista e insights e, é preciso salientar, que o debate terminou em seu auge, com gosto de quero mais e com muitos outros assuntos aventados para as próximas discussões. Machado é mesmo uma fonte inesgotável para a leitura e para os estudos. Foi uma noite de autêntica fruição literária. Que venham mais noites assim!


O SONETO PARA A ESPOSA FALECIDA:
Carolina Augusta Xavier de Novais - 1879

A CAROLINA
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.
Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados,
Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos da vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

(Machado de Assis, in Relíquias de Casa Velha)



ALGUNS LINKS INTERESSANTES


UM POUCO SOBRE O PROFESSOR PIERRE DA SILVA MORAES:

(Estas e outras obras completas disponíveis em pdf)
http://machado.mec.gov.br/obra-completa-menu-principal-173/168-teatro

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Caravana estonteante


Era perto das oito da noite quando todas as luzes do Theatro Dom Pedro se apagaram. Ouvia-se uma voz delicada e firme, cativante desde a emissão da primeira nota. Uma luz suave foi aos poucos trazendo os contornos do rosto e do microfone de onde brotava aquele som intrigante. Era a Caravana Tonteria desembarcando em Petrópolis ao som de “Paroupupti”, uma das composições de Letícia Sabatella, escrita na língua dos índios krahô, que habitam a região norte do estado de Tocantins.

Depois de a plateia explodir em aplausos e as luzes tomarem conta do palco, a cantora/atriz ou atriz/cantora - nesse caso a ordem dos fatores não altera o talento - faz uma breve referência à sua ligação com os índios krahô e sua admiração pela relação de respeito e harmonia que estes conservam vivendo em comunhão com a natureza e ressalta o valor do equilíbrio, palavra-síntese do ideal krahô.

Para quem já estava deliciosamente surpreso com a primeira canção, com a afinação e a força da voz de Letícia, havia algo inesperado: estavam presentes no teatro sua mãe e seu pai e isto a deixara visivelmente feliz e emocionada. É impressionante como a mulher tímida ao falar se transforma ao cantar. Parecem duas pessoas, a que fala e a que canta, o que certamente lhe acrescenta uma dose extra de charme.

O show vai se desenhando e se revelando música a música e o encantamento é sempre em ordem crescente. De repente, surge um quase inacreditável “Retrato em branco e preto”. Um saboroso espanto aos sentidos. E, se alguém achava que tinha encerrado a cota de Chico Buarque naquela apresentação, irrompe no tablado uma performance cheia de personalidade de “Geni e o zepelim”.

Tango, mantra, português, inglês, francês, italiano, um toque de sapateado, um ambiente de cabaré, uma vertiginosa variação de ritmos e idiomas que inebria e arrebata a todos incontestavelmente. Agudos, graves, sussurros e surge uma inesperada cuíca num buliçoso sambinha em plena apresentação. Eu disse cuíca?! Sim, eu disse, mas não era, era a vocalista mostrando mais uma de suas facetas musicais.

Há que se destacar o duo protagonizado pela artista e por Fernando, que tempera a encenação com humor, maestria e vitalidade.

Quando já não se sabia o que esperar, a moça convida sua mãe para que juntas cantassem “Legata a un granello di sabbia”. Tudo era poético. O visível carinho e cumplicidade entre a atriz e sua mãe. A delicadeza ao modular sua voz e simplesmente acompanhar D. Marilza Sabatella. A reverência com que a senhora foi conduzida até o palco. Tudo transpirava respeito e emoção. Um momento sublime, sem dúvida. Um presente para quem compareceu ao espetáculo.

A exibição chega ao fim e o público parece não crer que acabou. Aplaude de pé e, quando a banda se retira, silenciosamente senta-se e aguarda para ver o que acontecerá. Quando o baixista volta ao palco e desliga o instrumento, a esperança se finda e, enfim, as pessoas começam a ir embora. Para quem não conhece Petrópolis, talvez seja surpresa perceber que o público é extremamente contido em pedir “mais uma”, mas dessa vez havia um certo desconcerto em saber como proceder. É show? É teatro? O que fazer? Nenhuma palavra, apenas o gesto incomum de aguardar. O público estava levemente ébrio e atônito. Era muita habilidade e informação para processar. Havia sido bom demais.

O talento dos músicos, a versatilidade de Fernando e Letícia, a perfeita interação entre eles em cena. Tudo é superlativo. Todas as palavras que usasse e todas as descrições que tentasse não dariam conta da grandeza da Caravana Tonteria no palco. Se não bastasse o meu próprio encantamento e o daqueles que me acompanhavam, encontro na saída do teatro um amigo que de pronto, antes de qualquer cumprimento, exclama: que mulher! Ali estava o mais perfeito resumo da noite de sexta: tudo eram exclamações.



MAIS SOBRE A CARAVANA TONTERIA:

A Caravana é formada por Letícia Sabatella, pelo ator e multi-instrumentista Fernando Alves Pinto e pelos músicos Paulo Braga e Zéli Silva. O espetáculo performático, que tem a direção de Arrigo Barnabé, conta com músicas autorais de Sabatella, canções de Chico Buarque, Colle Porter, Kurt Weill, Duke Ellington, Carlos Gardel e ainda outras referências.


Gênero: Show
Duração: 70 minutos
Composições e voz: Letícia Sabatella
Serrote, trompete, violão e voz: Fernando Alves Pinto
Piano: Paulo Braga
Contrabaixo: Zéli Silva
Direção artística: Arrigo Barnabé
Figurino: Chrystyan Kishida
Desenho de luz: Wagner Pinto
Direção de arte: Gustavo Guimarães
Roadie: Surabhi
Programação visual: Wagner Pinto

OUÇA:Paroupupti


OUÇA TAMBÉM:
Letícia Sabatella - Tonteria
Letícia Sabatella e Fernando Alves Pinto - Non, Je Ne Regrette Rien
Nico Fidenco - Legata ad un granello di sabbia

As fotos me foram cedidas por Sonia Lucia Caldara Quintella

domingo, 18 de junho de 2017

Das coisas simples da vida II: Dia de estar só

Acordo. É domingo. O sol insinuante pelas frestinhas da janela me convida a levantar. Vou ao quintal. O outono se esvai na ampulheta de 2017. O contorno da manhã é dourado e as copas das árvores em tom de verde e cobre contrastam com o azul intenso dessa época do ano.

Inspiro. O desejo de sorver a vida em cada átomo de oxigênio se manifesta. O ar frio e seco me põe um pouco mais desperta. Os pássaros estão em festa e, apesar do dia ensolarado, um vento gélido causa um leve desconforto aos meus braços nus resultando em arrepio. Tudo é naturalmente simples, exuberante e lindo.

Há calma dentro e fora de mim. E um silêncio capaz de deixar que se denunciem os sons dos motores possantes das motocicletas na BR 040. Apesar da distância, domingo de manhã é dia de ouvi-las na estrada. Há qualquer coisa de nostálgico nesse barulho. Inevitável lembrar das corridas de fórmula I dos anos 80/90. O tema da vitória ecoa na memória e uma lágrima sentida insiste em descer pelo meu rosto.

Pensei em Ayrton. Por um instante doeram-me ainda mais agudamente as últimas notícias do cenário político do país. Lembrei-me do orgulho que o piloto tinha em exibir as cores da bandeira nacional e que isso, antes dele, não era coisa corriqueira. Senna, naturalmente, inspirou gerações de atletas a fazerem o mesmo. Somos todos mais verde e amarelo depois dele. Tinha energia e alegria contagiantes. Quanta saudade!

Pensei no Brasil e também nos lenitivos que tenho tido que providenciar diariamente para não me deixar contagiar pela tristeza de constatar os prejuízos que as trapaças e crimes generalizados da administração pública e de parte significativa do empresariado brasileiro têm causado ao país. Estar bem tem sido um ato revolucionário, uma ação de resistência.

Hoje é dia de solitude. Todos a minha volta estão felizes e fazendo algo de que gostam muito e isso me dá a paz necessária para curtir esse dia comigo mesma. Os pais e a irmã na praia, o filho e a namorada no campo. Cada um aproveitando o dia a sua maneira. Como diria uma de minhas amigas: "Isso é que é bonito!"

Olho a paisagem e tiro algumas fotos para o registro da delícia de um dia assim tão manso. Algumas nuvens me fazem lembrar que nem todos os dias são de calmaria e que, portanto, convém apreciar o máximo possível.

Estar só é o momento de ouvir todas as minhas vozes sem interferência e, por mais que eu goste de estar em grupo, ficar sozinha vez por outra é mais do que um desejo, uma necessidade real. É parte fundamental para o meu equilíbrio.

Deito na rede. Leio. Sublinho alguns trechos significativos do texto, escrevo observações. É um livro denso e me faz pensar na vida e nas relações humanas. É hora do almoço, meu estômago e também minha gatinha, impacientes, avisam que está na hora de saciar a fome. Estar só também é estar desobrigada de providenciar algo muito elaborado. E isso é ótimo. 

Aproveito para dar uma olhadinha no mundo lá fora. Do facebook me vêm notícias sobre a Parada do Orgulho Gay de São Paulo e reforço meus desejos por um mundo mais preocupado com o bem e com o amor e muito menos interessado na patrulha e castração da sexualidade alheia.

A tarde flui entre uma leitura e outra, entre uma tarefa e outra, entre um bem-te-vi e outro, entre uma peça de roupa e outra penduradas no varal, entre uma lembrança e outra e vem caindo a noite. As aves se recolhem e os sons ouvidos já não são os mesmos. Lá fora ouço os sons de grilos e um e outro bicho que não consigo reconhecer. As primeiras estrelas já começam a povoar o céu. É tudo harmônico e delicado.

Agora é saborear um chá e aguardar o retorno dos amores. É deixar um lanchinho saboroso pronto para recebê-los. É preparar o coração para ouvir outras vozes tão fundamentais na minha vida e esperar os beijos e abraços dos que foram e que voltam cheios de euforia e novidades de um fim de semana muito bem aproveitado. Sou só contentamento e gratidão.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Deixe que digam, que pensem, que falem

Dia dos Namorados e você aí sozinha, como diria Fernando Sabino, puxando uma angustiazinha. Não. Espera aí! Não dá pra ser assim, não. Sozinha dá, o que não dá é pra puxar angústia por conta disso. Você não tá por aí naquela de achar que mais vale estar mal acompanhada do que só, não é?! Afinal, nada daquilo que nos violente de alguma maneira vale o desfile pelas ruas, pelas passarelas da vida com alguém a dar as mãos e entrelaçar os braços só para inglês ver ou para se enquadrar em ideais pré-estabelecidos de felicidade. O ideal romântico de amor ainda faz muitas vítimas entre nós.

Toda relação que, de alguma maneira, se mantém única e exclusivamente pelo medo de estar só, apesar de toda dor que causa, não vale a pena. Já parou para pensar na expressão valer a pena? Já pensou no significado de pena, de penar? Pois é! Há coisas que não valem o sofrimento que provocam. Não dá para passar a vida remendando a relação ou se submetendo porque o outro não a quer inteira, não a respeita inteira ou porque o outro não é inteiro com você. Quando isso a incomoda, quando  a fragmenta de alguma maneira, é preciso vencer o medo e romper.

Toda relação pode promover crescimento pessoal e amadurecimento, mesmo aquelas muito sofridas, mas por que estar juntos se, na hora do balanço, a relação causa mais dor e dependência do que traz felicidade, é uma pergunta a se fazer.

Quem na vida teve um amor intenso e teve que dele abrir mão para não se perder de si mesma, sabe bem do que estou falando. Acontece. Às vezes você tem certeza de que você quer uma pessoa ao seu lado a vida toda, quer aquele cheiro, aquele gosto, aquele abraço, aquele carinho, aquele diálogo de palavras não ditas na intimidade, mas aí se depara com diferenças e obstáculos intransponíveis para você: a existência de um cônjuge na vida do outro, a relativização da ética, a naturalização da mentira, a incompatibilidade de valores, a deslealdade recorrente e você tem que partir. Cada um tem o seu próprio limite. E o limite é o seu próprio bem-estar, a sua paz, o seu amor próprio. Na luta para a manutenção ou a realização de um relacionamento amoroso, não se pode correr o risco de romper com você mesma, este é um preço caro demais a se pagar.

Sair de um relacionamento desse tipo, não é fácil. E envolvimentos assim não são prerrogativas de um gênero em particular. Embora sejam mais evidenciados do lado feminino da força, homens e mulheres se envolvem nessas relações. Nesse exato momento, alguém vive esta situação. Já viu que não dá, que não tem cacife para bancar o preço que essa relação cobra e cobrará, se debate e quer sair. Dá impulso, se lança, se movimenta, mas ainda está no balanço, vai e volta, juntando forças e convicções para romper com esse embalo de vez. 

A pessoa geralmente não sabe, mas para desatar essa relação, ela está aguardando a morte da esperança. Sim, nesses casos, só é possível romper quando a esperança já não existe. Esperança de que as coisas mudem, de que os obstáculos sejam removidos, de que se fique mais forte para aceitar o inaceitável, de que o outro decida livremente escolher a relação, coisas que, enfim, você já sabe que não acontecerão. 

A existência do amor justifica sua demora na partida. Amor?! E quem ama desiste? Desiste! Muitos vão dizer e insistir que não. Julgam que o amor seja capaz de todas as aceitações, como se o amor não fosse um sentimento humano e se aceitar tudo fosse prova inequívoca de amar alguém. Abrir mão do ser amado é das coisas mais difíceis de fazer nessa vida. Quem ama também desiste. E desiste, sobretudo, diante de duas situações: quando a relação o submete e o anula ou quando, diante da desamor do outro, mesmo sofrendo e querendo proximidade, se afasta por sua dignidade e por respeito ao ser amado.

No primeiro caso, é uma escolha muito difícil de fazer, ainda que estritamente necessária. É preciso preservar a saúde emocional. A leitura de alguns livros podem nos ajudar a enxergar de maneira mais clara o que está acontecendo conosco. É o caso de "Mulheres que correm com os lobos", de Clarissa Pinkola Estés e de "Vasos sagrados", de Maria Inez do Espírito Santo, ambos da Editora Rocco. Nesses livros, as autoras, através de mitos, histórias e de suas interpretações, vão puxando devagarinho ou de pronto o fio da meada que faltava para o acesso ao seu inconsciente. Clarissa nos alerta que "existem elementos na psique de todo mundo que são traiçoeiros, trapaceiros e maravilhosos" e que "esses elementos são inimigos da conscientização". As relações que têm conflitos estruturais, em geral dão pistas de que algo não vai bem. Podem deixá-la desconfortável com você mesma, podem lhe conferir um quezinho de inadequação ou uma sensação de que a felicidade não é pra você. Bobagem, moça, você nasceu pra ser feliz e, eu bem sei que é um clichê, mas a vida é muito curtinha para achar que só existe uma rota para o bem-estar e o contentamento. Se nem sempre tudo está bem claro, procurar bons textos para o auxílio para a libertação daquilo que acarreta sofrimento é sempre uma boa pedida.

No segundo caso, o que fazer além de compreender o processo do outro e conservar sua própria dignidade? Atormentar o outro depois do término de um namoro/casamento ou qualquer que seja a configuração é cruel para as duas partes, além de prova inequívoca de imaturidade.

Em ambos os casos é fundamental amadurecer para não se entregar à cilada da vitimização. Quem se vitimiza não muda. Não reconhece os próprios erros e fica pela vida afora repetindo os padrões de relacionamentos. Exceto pelo uso da violência indefensável, somos nós que permitimos que o outro faça a nós aquilo que não desejamos pelas mais variadas razões. É preciso que nos responsabilizemos pelas nossas próprias vidas, pela nossa felicidade. Se tiver alguém pra somar, ótimo. Se não, tranquilo. Nas duas hipóteses, é dar a mão a nós mesmas e conquistarmos nosso quinhão de alegria nessa existência.

Voltando ao Dia dos Namorados, preciso confidenciar, estou namorando novamente. Sim! E está ótimo. É uma pessoa bacana, sabem? Dessas que não nos abandonam nunca, que estão conosco nos melhores e nos piores momentos de nossas vidas (está comigo sempre). Companhia fundamental e pra vida toda. Confesso, não estou apaixonada, trata-se de um amor maduro e equilibrado que vem sendo construído há anos, ainda que eu não houvesse percebido tamanha aproximação. Tudo se deu lentamente, é verdade que mais lentamente do que o desejável, mas enfim chegou o momento e tenho aproveitado. Estou namorando eu mesma. É claro que esse relacionamento comigo mesma tem lá as suas dificuldades. Há dias em que não me aguento, mas é normal, né?! Todas as relações têm seus altos e baixos. O fato é que tem valido a pena.

Sair desse namoro só se for para um namoro a quatro. Eu e eu mesma, o namorado e ele mesmo. Mais do que esses quatro não quero. Tem gente que gosta, que curte, que fica bem assim, eu não tenho nada contra, mas essa definitivamente não é a minha. Pra mim, em matéria de relacionamento, decisões desse porte têm que ser sempre consenso. Se não forem consenso não rola.

Eu sei, tem gente que não me entende. Sempre tem. Também tinha um montão de gente que não me entendia antes, e antes, e até antes de antes. Não dá para ficar ligando pra isso, não.  Nesse momento, escolhi a solitude, o que é muito diferente de solidão, e tenho estado feliz com ela. Se vai ter comemoração de Dia dos Namorados? Vai, sim, claro. Deixe que digam, que pensem, que falem. Tô comigo e não abro. Salute! Um brinde à felicidade!


   Sugestão de música para a ocasião:


domingo, 11 de junho de 2017

Das coisas simples da vida: Domingueira diferente

A begônia florescendo
É domingo de outono em Petrópolis. O dia amanheceu ensolarado, o que significa que as copas das árvores se apresentam mais douradas, a temperatura é amena e os passarinhos estão em franco alvoroço.

A gata branquinha, toda esparramada no balanço da varanda, anuncia um dia preguiçoso e feliz propício à leitura, à contemplação e a tudo que confere prazer e tranquilidade à alma.

No som, num volume equilibrado e aprazível,  uma playlist de MPB pra lá de sensível e encantadora e a deleitosa descoberta de que tem muita gente jovem compondo umas delícias por aí. Novos e antigos sucessos se alternam acompanhados apenas  de uma interjeição: uau!

O café, cheiroso como sempre, já nos despertou e o pão fresquinho e estralante nos acordou o paladar. Agora, na cozinha, o filho e a namorada se esmeram no preparo do almoço, que já se insinua saboroso, posto que o seu perfume tomou conta do ambiente. Eu vou me envolvendo em outras tarefas domésticas para deixar a casa ainda mais acolhedora.

O ipê do meu quintal
Do lado de fora, o presente que me foi dado brota alegremente e me faz pensar que tem gente que vem mesmo para iluminar e florir os dias da gente. Daqui a um tempo, sempre ele, haverá ipê florescendo amarelinho aqui em casa. Também a begônia, que me foi dada em um aniversário, se assanha e começa a exibir suas florzinhas delicadamente rosadas.  Sou puro encantamento e gratidão.

A vida corre simples neste domingo e a felicidade vai, aos poucos, simplesmente se espraiando decidida, dizendo que veio pra ficar.

Do quintal, entre uma música e outra, vem o chocalho das folhas espalhadas pelo vento, o que faz sonhar um pouquinho.

Coisa boa é poder deixar a leveza se instalar e curtir um domingo sem maiores pretensões, apenas fruição e mais nada, porque o que é bom mesmo, vezes, mora mais perto do que se imagina. Bora  lá desfrutar do que é singelo.


Sobre a playlist em questão - alguns encantamentos (novos e antigos):
Roberta Campos - Minha felicidade
Anavitoria - Trevo de 4 folhas
Roberta Campos e Nando Reis - De janeiro a janeiro
Banda do Mar - Dia clarear
Tiago Iorc - Coisa linda
5 a seco - Pra você dar o nome
Zé Ramalho - Chão de giz

Um olhar atento para a crueldade desnuda

 “Se a bondade de vocês é tão cruel
nem imagino como seja a justiça." 
(O Homem Elefante)

De todas as maravilhas que o Teatro pode fazer por nós, a que mais me encanta é a de nos colocar frente a frente com o espelho. Espelho da nossa alma, do nosso tempo, da nossa sociedade e tantos outros espelhos igualmente necessários e possíveis. Ir ao espetáculo O Homem Elefante no Theatro Dom Pedro aqui em Petrópolis foi, verdadeiramente, um desses momentos de contemplação da nossa sociedade e de nossa (des)humanidade no espelho.

Foto divulgada no facebook do Sesi Cultural
Baseada no texto de Bernard Pomerance, a conhecida história de Joseph/John Merrick, um rapaz portador da Síndrome de Proteus, uma rara doença degenerativa causadora de várias e graves deformações em seu corpo e que, por conta disso, virou atração em shows de aberração na Inglaterra do século XIX , ganha vida com a Companhia Aberta e nos põe cara a cara com as deformidades de uma sociedade dura e cruel, que em muita medida, com o passar dos anos, não evoluiu tanto assim.

Na peça, o menino, que fora abandonado pela mãe, o jovem maltratado, agredido e explorado por aquele que o exibia publicamente com a finalidade de obtenção de lucro, toca nossas sensibilidades e nos traz um olhar aguçado sobre a humanidade e suas contradições. Ao assistir à peça, é impossível deixar de notar uma sociedade dura e cheia de dualidades: a mesma imagem que gera repulsa e que dificulta o estabelecimento de laços afetivos com Merrick é a que atrai olhares cheios da mais perversa curiosidade e que duramente aproxima as pessoas dele. Se num primeiro momento, é fácil atribuir a Ross, o dono do circo em que era exposto, toda a crueldade sofrida por Joseph, com um pouquinho mais de atenção, não se pode negar o mal que tantos olhares adoecidos e tantas agressões físicas e verbais lhe causaram.

Na pele do protagonista, o ator Vandré Silveira nos impressiona e nos insere com maestria no drama da personagem. As expressões corporais, os gestuais, os gritos lancinantes de um ser humano acorrentado e querendo se libertar das torturas físicas e emocionais a que era submetido, não só nos conduzem para o universo de Merrick, como são capazes de despertar em nós empatia e angústia.

Com a cabeça cheia de sonhos e de sensibilidade, John nos encanta, emociona e nos faz questionar os valores de nossas convenções sociais. Em que medida as regras nos protegem? Em que medida elas nos condenam? Que regras devemos seguir? Em que momento devemos quebrá-las para a realização de um sonho? É correto alguém impedir a realização de um sonho que não é seu?

A representação da relação entre o rapaz e o Dr. Frederick Treves, o médico que o ajudou a levar uma vida mais digna, é um capítulo à parte. Longe da tentadora visão Ross = Mal e Treves = Bem, a peça rompe com o lugar comum do maniqueísmo e expõe seriamente a relação bondade/vaidade/posse em contraposição à liberdade. Impossível sair do teatro sem refletir sobre a questão.

A aquisição da oralidade por John é um ponto alto de sua transformação. Para quem gosta das letras, ver tão explicitamente a fala como facilitadora para a relação com o mundo e ver tal habilidade se construindo diante dos olhos é, sem sombra de dúvida, fascinante. Para quem gosta da Arte, é um prato cheio assistir a relação entre o rapaz e a Sra. Kendal, uma famosa atriz e amiga do Dr. Traves, se fazendo. A ligação afetiva entre os dois põe em evidência o quanto a presença da arte pode ser transformadora na vida de uma pessoa e o quanto pode ser surpreendente olhar além das aparências. Depois de observar os dois, difícil é não se afeiçoar a John.

Engana-se quem acredita que, com um texto tão intenso e dramático, o clima fique pesado o tempo todo. Com uma atuação primorosa de todo o elenco, a Companhia Aberta nos leva do drama ao humor numa troca de luzes e cenário, num estalar de dedos. Um humor fino, inteligente e com a precisão cirúrgica imprescindível para a interação com o público.

Ir ao teatro conferir a montagem é constatar que, se a sagacidade, a inteligência e a sensibilidade de John, estiveram inalcançáveis para os muitos que, a olho nu, só viam o homem elefante, o olhar cruel da sociedade estava o tempo todo afiado e à mostra e, ainda assim, não era notado, era tratado com naturalidade. Por si só este já é um bom motivo para comparecer ao teatro, além disso, a peça é um incontestável espetáculo.

SOBRE A MONTAGEM:
Texto: Bernard Pomerance
Idealização: Companhia Aberta
Encenação: Cibele Forjaz e Wagner Antônio
Assistência de direção: Artur Abe
Elenco: Davi de Carvalho, Regina França, Rogério Freitas e Vandré Silveira
Iluminação: Wagner Antônio