terça-feira, 12 de setembro de 2017

Sobre a leitura de um manifesto

Acabo de ler o pequeno grande livro “Para educar crianças feministas – um manifesto”, de Chimamanda Ngozi Adichie. O texto é daqueles cuja leitura é rápida e o conteúdo transformador. Nascido a partir de uma carta que a escritora redigiu como resposta à pergunta de uma amiga de infância que, na época, desejava saber como criar sua filha recém-nascida como feminista, o livro propõe caminhos para que tentemos, através da maneira de criar nossos filhos, preparar um mundo mais justo para mulheres e homens e nos faz pensar.

A leitura me remeteu à maneira como fui criada e também ao modo como criei meu filho, hoje com quase 22 anos. Conforme lia, encontrava aquela menininha que um dia eu fui e, não poucas vezes, desejei ter ouvido algumas daquelas palavras ali escritas, para que pudesse ter enfrentado essa vida mais dona de mim e de maneira mais corajosa também. As coisas que são plantadas na cabecinha de gente em tenra idade, às vezes sutilmente, deixam uma herança que em alguns casos precisa ser resolvida no consultório de um terapeuta. Bem, aquilo que passou não tem jeito, está escrito e virou história, mas revisitar o passado sem melancolia é também processo de aprendizado. O negócio é daqui para frente e, saibam, mesmo para mim, uma mulher de 46 anos, ler certas coisas contidas no manifesto, ajudou a fortalecer a alma - a de mulher, a de mãe e a de filha também. É reconfortante e encorajador dar de cara com uma sentença como: “as pessoas vão usar a ‘tradição’ seletivamente para justificar qualquer coisa” e perceber que é a mais pura verdade e que muitas vezes isso está intrinsecamente ligado à manutenção de discriminações e injustiças. Ler o livro da nigeriana pode, mais do que ajudar a criar filhas e filhos para uma vida mais justa, ajudar a fechar velhas feridas.

A autora faz um verdadeiro carinho nas mães, sobretudo naquelas de primeira viagem, quando expõe tão claramente que criar seus próprios filhos é muito mais difícil do que palpitar na criação dos filhos dos outros, que é uma tarefa gratificante sim, mas uma realidade bastante complexa. Dessa forma, ela mesma diz que vai “tentar” criar a sua própria filha segundo as suas proposições - ela foi mãe depois de ter escrito a carta – e incentiva que as mães – citadas na figura de sua amiga – peçam ajuda, que sejam boas para elas mesmas. Lembrei-me de três casais de jovens pais que acompanho bem de pertinho e, com alegria, percebi que têm ideias semelhantes a algumas constantes do texto, na perspectiva da construção de um mundo mais equilibrado, de uma vida mais leve e de uma realidade com mais justiça.

Ver meu filho aqui em casa também me enche de contentamento. Ver o cara respeitador das individualidades alheias que ele é, é constatar que ensinar a ele sobre a diferença, sobre não atribuir valor à diferença, foi parte fundamental de seu processo educativo. É claro que também cometi erros pelo caminho, todos cometem, muita vez, falar sobre eles também é importante. O diálogo, a confiança, a disponibilidade para oferecer a linguagem ao seu filho são coisas de suma importância e Chimamanda fala sobremaneira sobre isso. Aliás, sobre a linguagem, há uma frase belíssima e que gera reflexão imediata: “a linguagem é o repositório de nossos preconceitos, de nossas crenças, de nossos pressupostos. Mas, para lhe ensinar isso, você terá de questionar sua própria linguagem.” Aí está explicitada de forma contundente a importância crucial da linguagem em nossos relacionamentos, em nossa relação com o mundo e na perpetuação ou não da transmissão de conceitos equivocados aos nossos filhos.

Sempre me debati com a palavra pãe. Jamais gostaria de receber parabéns no dia dos pais. Sempre me entendi como mãe. O abandono emocional de seu próprio pai – quer seja biológico ou adotivo - é uma ausência que uma pessoa leva para a vida toda, mesmo que busque e encontre referências em um avô, um tio ou em um amigo ou namorado de sua mãe, mesmo que supere esse trauma. Muitas pessoas podem até esquecer que ser pai é muito mais do que ser um provedor e escolherem exercer somente o segundo papel ou nem esse, mas o fato de um filho ter sua mãe ali presente o tempo todo diante dessa ausência, significa apenas que o filho tem a mãe presente, que ela é a melhor mãe que consegue ser, e não que ela esteja exercendo os dois papéis. O contrário também é absolutamente verdadeiro. Adichie exalta a relevância dos dois papéis, refuta o uso da palavra pãe, e nisso concordo em absoluto com ela.

Mais do que um roteiro para a criação de crianças feministas, o livro é uma importante reflexão sobre a importância da educação de nossas crianças para a construção de um mundo em que haja respeito à diversidade, respeito entre as relações humanas e, sobretudo, respeito ao espaço e à autenticidade de cada um no convívio social. O livro é pequeno, tem preço acessível, a linguagem é clara e objetiva, a leitura é fácil e rápida e seu conteúdo é transformador. É um livro fundamental.


CONHECENDO UM POUCO MAIS DE CHIMAMANDA ADICHIE:"O perigo de uma história única"
https://www.ted.com/talks/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story?language=pt-br

domingo, 10 de setembro de 2017

Alquimia em processo

(Sobre "Processo de Conscerto do Desejo")

É escuro, surgem ruídos que não se pode identificar, há um violão e um desamparo. Só eu que sinto esse perfume espalhado pelo ar? Ela dorme. Princesa, rima ocultada, estrela atrás da nuvem. Dorme.

Foto de Fábio Seixo
A voz de Matheus ecoa ainda tímida, vem do palco e não o vemos. Aos poucos, ele desenha em tinta vocabular o início de sua história e corajosamente a divide conosco. O pranto, o dele e o nosso, é inevitável. Há uma grande vontade de abraçar o triste e solitário menino que se despe de suas feições adultas diante dos nossos olhos, ainda que estejamos todos numa penumbra incômoda. Triste, solitário, magoado e transbordando de dor, de amor, de saudade. Ela se matara, quando ele tinha apenas três meses.

O desejo de trazer Maria Cecília para a luz se cumpre. Se faz por letras, sílabas, palavras, versos inteiros, músicas e gestos, ora delicados, ora vigorosos e cheios de tenacidade. Quase um balé.

Delicadamente vão surgindo as angústias da mãe de um bebê recém-nascido que chora, mama, dorme, suja as fraldas e, vez por outra, tem essa rotina quebrada por um evento cheio de preocupação: o vômito. A maternidade em sua face nada glamorosa aparece e vem contracenar com o menino.

O texto é mais que um diálogo, uma vivência. É processo. Participamos todos da tristeza que provoca uma vida que se vai tão cedo, da falta de colo e do brinquedo colorido, da queda solitária da criança. A melancolia é irremediável, o moço essencialmente triste e com jeito de quem está querendo ser criança outra vez não a espanta dos olhares à luz. A dor é um direito, precisa ser vivida.

No tablado, a ferida é exposta com delicadeza em uma mistura terna, e áspera, e dolorida, que a ausência provoca. Ao som primoroso de violão e violino, o ator se estilhaça e se recompõe sob nossos olhares comovidos e atônitos e nos conduz, através dele mesmo, da poesia e da música, à conversão da melancolia em beleza, coisa que só pode fazer mesmo quem tem as mãos de um jardineiro quando está chovendo.

O espetáculo de Matheus Nachtergaele é poesia em movimento. É alquimia. É a transformação do sofrimento em arte. É uma flor brotada da sensibilidade e da intensidade que só tem um menino-homem que transpira amor e sorri à toa. É um convite para valsar apesar do destino, por mais duro que ele possa ser.

Processo de Conscerto do Desejo é o mais perfeito e generoso poema composto a quatro mãos por Matheus e Maria Cecília,  numa parceria imperdível. É preciso ir ver.


SOBRE O ESPETÁCULO:
Matheus Nachtergaele ficou órfão de mãe aos três meses de idade. Maria Cecília, que cometera suicídio, deixa alguns textos e poemas aos quais o ator tem acesso na adolescência, através de seu pai. Na vida adulta, na tentativa de superar a dor que o fato traz à sua vida, Nachtergaele realiza o emocionante espetáculo com os poemas de sua mãe e convida o público a participar dessa superação num sensível concerto de voz, atuação, violino e violão. A arte é o principal instrumento desse processo.


Matheus Nachtergaele declamando um dos poemas de sua mãe:
https://www.youtube.com/watch?v=D3joAP6js4E

Foto de Fabio Seixo (A quem agradeço pela autorização para o uso da imagem)
Agência O Globo - disponível em:

https://oglobo.globo.com/cultura/teatro/nachtergaele-celebra-mae-morta-quando-ele-tinha-3-meses-em-peca-17997243

Mais poesia:
(Atualização em 16.09.2017)

Concebi o espetáculo como um poema a quatro mãos: Matheus e Maria Cecília. Sendo assim, reuni aqui o belíssimo registro fotográfico da apresentação da peça em Petrópolis, a partir das lentes sensíveis e cheias de expressividade do fotógrafo Marco Oddone, e os versos de Maria Cecília Nathtergaele. Que maravilhoso concerto!







Eu procuro alguém 
Para fazer uma poesia comigo
Tem que ser terno e triste
É essencial que seja triste








Gestos de poeira
Muita saudade
Medo
Os olhos de até logo
Com jeitinho 

de adeus.







Tem que ser distraído
Sorrir à toa
Sempre querer chorar
Mas nunca conseguir







E ter amado muito
E ter sofrido
E andar de poeta 
Que fala sozinho
E falar muito 
abandonadamente










É preciso ter jeito
De quem está querendo 
Ser criança outra vez
E as mãos...
As mãos de um jardineiro
Quando está chovendo







Que nunca saiba
Como começar a falar
Mas sempre saiba 
Como começar a sorrir












Mas a maior urgência que existe
O essencial,
Muito essencial,
É ser imensamente triste.


Maria Cecília Nathtergaele



quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Um soco no estômago

Não, não fale! Eu não quero escutar. Cale, vai, quebre essa. Me deixe fora dessas reflexões tão duras. Mantenha esse silêncio de estourar os tímpanos, bote uns panos quentes e não me mostre. Eu não quero ver nem ouvir, muito menos pensar que tudo isso pode ser verdade e pode acontecer.

É duro! Qualquer um que trabalhe na área da saúde, em que o sigilo é tão precioso e tão caro, sente um violento incômodo já nas primeiras cenas do filme. É uma obra áspera, sem burilações e refinamentos. Trata daquilo que se quer empurrar para debaixo do tapete.

O silêncio, a solidão acompanhada dentro de uma família até na hora do jantar. O pai ali num papel secundário. A solidão da criança em casa. O desconhecido (alô!). A fantasia (é você, fulano?). O desequilíbrio, a transgressão, a dor, o preconceito. O afeto. A complexidade. A alternância de papéis. O agressor, o opressor, a vítima. Quem é quem nesse jogo da vida? 

A terapeuta que rompe os códigos de sua profissão advogando em causa própria e aquela coisa de ver mais uma vez o profissional de saúde mental perdendo a linha, o tom, misturando o pessoal e o profissional e é possível que se fique pensando: mas isso não afastará ainda mais as pessoas desses profissionais? Não fará aumentar o preconceito?  Bem, já há algum tempo tenho questionado um pouco essa maneira de olhar para a ficção como um impulso para a realidade. Vejo a ficção como um mote para a discussão, não como um padrão a ser seguido. Entendo que ela possa influenciar comportamentos, mas acho que a discussão tem que ser ainda anterior a isso: se é assim, por que estamos seguindo padrões "impostos" pela ficção? E que "imposição" é essa? Quem a está permitindo? Estamos mesmo assumindo que é a ficção e são as mídias que ditam o que devemos fazer sem questionar?

A gente se mexe na poltrona do cinema, ora irritado, ora constrangido, ora perplexo, sempre reflexivo. "Fala comigo",  o filme de Felipe Sholl, com cenas cuidadosamente trabalhadas e com belíssimas atuações, toca em pontos incômodos, expõe tabus e fica reverberando na gente depois da sessão.

É, sim, é mais fácil olhar para o outro lado, pedir um café, fingir que não vê, mas as situações estão aí o tempo todo em todo lugar e, quer queiramos ou não, continuarão existindo, e por que não falar sobre elas?

Trailer oficial:
https://www.youtube.com/watch?v=o8BqKYjV6qM

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Na pele dele

Ler o livro de Lázaro Ramos é, de fato, como propõe o título, vestir a pele do autor. É olhar o mundo do ponto de vista dele e descobrir alguns ângulos antes nunca perscrutados. Ao menos comigo foi assim.

Muita gente defende a meritocracia como um caminho lógico e claro e diz por aí que quem luta, quem nada contra a corrente das várias violências e ameaças sofridas - veladamente ou não - vence, que superar as dificuldades é só uma questão de determinação, como se aquele que não vence fosse simplesmente fraco ou desistisse no primeiro espinho. Acho essa questão um pouquinho mais complicada e ler "Na minha pele" me ajudou muito a enxergar essas complicações com mais clareza. É que o ser humano não é constituído apenas de razão e de decisões racionais - e quase todo mundo sabe disso, mas sempre é bom repetir  - há muito sentimento e emoção na humanidade de cada um e, nem sempre, acessar a lógica, traçar um caminho e seguir é simples assim. Há caminhos que sequer conseguem ser traçados, cada um reage de um jeito aos acontecimentos desse mundo. Ainda é, para mim, um denso mistério a reação de cada um aos mesmos fatos e como enquanto uns fazem disso a mola propulsora para alcançar, mais do que seus objetivos, suas potencialidades, outros paralisam e não conseguem prosseguir. Na especificidade de cada um há coisas que causam marcas em uns, deixam de atingir outros e dilaceram alguns. Não dá para julgar todo mundo por um, fazer isso é, no mínimo, leviano. Como tão bem ressalta Lázaro, as exceções vêm, muitas vezes, confirmar as regras.

O autor salienta o tempo todo o quanto foi importante para ele o conhecimento de si mesmo: "Compreender o que fazia sentido para mim foi libertador, pois assim é que buscamos o nosso caminho". Não é por acaso que essa frase está inserida no capítulo "Escolhas". Penso que talvez o que haja de especial nas exceções é que essa consciência do sentido tenha vindo cedo. Talvez e só talvez, é preciso frisar bem isso. Muitas vezes esse sentido, tão necessário para traçar um caminho, não vem na ordem cronológica. Há muitos caminhos e, vez por outra, sem encontrar o sentido, toma-se uma direção diversa daquela que seria a mais acertada para o desenvolvimento pleno do potencial de cada um.

Para além disso, o escritor cita inúmeras vezes o quanto foi importante, apesar das dificuldades relativas ao toque, receber desde sempre o afeto de sua família. É possível ler nas entrelinhas que Lázaro foi amado desde sempre e que isso fez toda a diferença. Nas linhas, ele destaca: "afeto é potência" e é nesse sentido que está conduzindo a educação de seus filhos para que sejam seres livres e plenos, que desenvolvam suas potencialidades com um olhar de respeito para eles mesmos e para os outros. É curiosa essa coisa de fazer sentido, não é mesmo? Isso acontece também com as expressões. Um dia a gente ouve algo que já tinha escutado, mas que alguém fala de um jeito diferente e plim, aquilo nos toca. Sentimos, então, aquela sentença como verdadeira, a visão se amplia. Foi o que aconteceu comigo ao ler "afeto é potência".

Toque, carinho, palavras de incentivo, referências, tudo isso é cuidadosamente tratado no fluido texto do autor. Ele traz uma linguagem leve, o que nos faz passar por temas árduos e chegar a importantes reflexões sem aspereza. Diz daquilo que a maioria já sabe, mas que é preciso repetir o tempo todo: "racismo é motivo de discriminação diária, sim". No entanto, coerente com aquilo que ele mesmo traz, é preciso dizer isso, mas sem se apropriar da linguagem do opressor. Numa proposta consciente e decisão manifesta, destaca a importância da inteligência e da delicadeza para abrir e ampliar a escuta. 

Na pele dele eu pude ver e sentir um outro olhar do mundo e, algumas vezes, fiquei incomodada na minha própria pele. Algumas vezes na pele dele ou na minha pele esse ângulo do olhar do mundo nos aproximou, se não foi o racismo que apontou a minha "inadequação", foi outro ismo igualmente opressor das diferenças alheias e me pôs a pensar: e se além de todas as minhas "não conformidades" eu tivesse a pele dele, como seria? O olhar do mundo não seria ainda mais inquisidor comigo? O humor muitas vezes foi a saída encontrada por ele, por mim e por tantas outras peles em caleidoscópicas circunstâncias. Na pele dele pude enxergar com olhos que não são os meus, pude ver além de mim e me encontrar e essa é uma experiência singular. "Na minha pele" é uma proposta de viagem em outra pele e dessa travessia dificilmente não se sairá transformado. Isso não preço!

domingo, 3 de setembro de 2017

Palavras ao mar

Sempre que me ponho a escrever, tenho a intenção de organizar as ideias e entender os sentimentos. No papel, na tela, no gravador (mais raramente, quando da urgência de pauta inexistente), faço uma leitura mais eficiente de mim mesma e das várias situações que a vida, que o mundo, que o que vem de fora me traz. Toda vez que torno público um texto, eu o faço da perspectiva da leitora. Publicar, nesse caso, é a partilha das minhas leituras de mundo.

Disponível em Pixabay
Quando divido posicionamentos políticos, idas a peças de teatro, visitas a jardins, entre ouras coisas, eu o faço não da ótica de especialista, que não sou, mas do ângulo da observadora e, vezes, personagem que sou.

Considero cada postagem no facebook ou no blog como uma garrafa lançada ao mar. Um dia a gente escreve um recado, junta a ele uma imagem, um vídeo, ou seja lá o que for, e de casa, do jardim, da escola, do bar, da praça ou de qualquer outro lugar, lança no oceano que é a grande rede de informações que nos conecta. Ah, se eu soubesse desenhar! Faria uma ilustração. No fim das contas, parafraseando o poeta, tenho apenas meu ponto de vista e o sentimento do mundo.

Há garrafas que viajam muito e outras que encalham logo ali na frente. Há aquelas que chegam a locais dos quais jamais tinha ouvido falar e corro para a pesquisa. Umas vezes há interação, outras não. Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo, além de não ser uma solução, não seria eu mesma, é claro.

Às vezes escrevo algo de que gosto imensamente e a garrafa quase não segue adiante. Outras vezes ponho na garrafa um inseguro lembrete e aquilo viaja longe e em algumas ocasiões produz até respostas. O mundo das garrafas e dos recados dentro delas, para mim, configura um denso mistério. É imprevisível e fascinante também. Hoje, por exemplo, sem mais nem meio mais, conforme vou escrevendo, vou me lembrando de Drummond e pedacinhos de alguns de seus poemas vão surgindo naturalmente. Fico tentando entender.

Agora, penso em “Mãos dadas”. Nessa questão de não nos afastarmos muito do presente, de seguirmos de mãos dadas num tempo taciturno, mas cheio de esperança. Talvez sejam as notícias de bombas, de guerras, de refugiados, da degradação dos recursos naturais. Talvez seja a face de um Brasil tão sombrio. O fato é que a poesia drummondiana está pulsando mais forte em meus pensamentos hoje, ela é quase um sentimento.

É preciso salvar o país. Salvar?! Quem poderá?! Penso que seja preciso acreditar no país e fazer parte dele e lutar e não o entregar a quem não o ama e simplesmente deseja fazer dele uma reserva de recursos naturais. Tudo isso assim sem vírgulas mesmo. É preciso nos descobrir partes de um todo – isso é tão óbvio, mas inúmeras vezes agimos como se não soubéssemos. Tudo isso parte de uma coisa só, de uma só proposta. O que anda me trazendo o poeta, descubro enquanto escrevo, é o fato de não podemos tudo ignorar como inocentes que não somos. Já cantamos o medo muitas vezes. Aqui e no mundo todo.

A tarde cai dourada e lenta. É domingo. O vinho está na mesa. O pão. O queijo. O sabor. O sabiá anuncia incessantemente que o sol está se pondo, é quase hora de dormir. A calmaria lá fora confronta as inquietações aqui dentro. É um tempo complicado esse nosso. É preciso conjugar a esperança.

A lua se anuncia. Está bonita. É hora de deixar o recado partir, que flua, que viaje, que encontre. São palavras ao mar, escritas nas ondas.

Sobre Drummond:
http://www.revistabula.com/391-os-dez-melhores-poemas-de-carlos-drummond-de-andrade/
https://nsantand.wordpress.com/2016/02/22/carlos-drummond-de-andrade-palavras-no-mar/

Poema de sete faces:




terça-feira, 29 de agosto de 2017

Rosa vívida

Para Rosa,
minha avó querida.


Cabelos brancos.
Ombros curvados.
Passo feminino e lento.

Pelas lentes octogenárias
o mundo parece um canto simples.
Rotina. Rudimentar.Trivial.
Deslumbramento.
Riso compreensível
diante de juvenis afobações.

Lugar de aprendizado é trajeto
e trajeto é sempre.
Florescendo aqui em casa

O vento muda de uma hora para outra.

Muda o tempo, a direção.
A paisagem muda,
vezes emudece, vezes soa.
A vida é um tilintar
de movimentos.

Na roda viva
até a lucidez se esvai.

Vívidos delírios
de amor intacto.
Palpável e utópico.
Namora moinhos de vento.
Fiéis desejos.
Partida entre nuvens confusas
de parcial realidade.

A vida é só momento.

domingo, 27 de agosto de 2017

O filme da minha vida


Se há um programa de que gosto nessa vida é cinema. Sozinha ou acompanhada, na primeira ou na última sessão, a telona me fascina e, na imensa maioria das vezes, me proporciona uma viagem. Foi o que aconteceu vendo o novo filme de Selton Mello, livremente inspirado no livro “Um pai de cinema”, do chileno Antônio Skármeta. O longa traz uma gama de questões fundamentais abordadas de maneira cuidadosa e delicada e merece destaque também pela fotografia que revela, além de belezas naturais do sul do Brasil, um longo e trabalhoso estudo. 

Decidir nem sempre é fácil. Pode gerar arrependimentos e às vezes gera. Muitas vezes se quer mudar o presente, mas o peso do passado parece nos impedir. Muitas vezes não podemos transpô-lo sozinhos, precisamos do amor, da generosidade, do impulso e da torcida daqueles que nos têm afeto.


A história do rapaz que sente a ausência de seu pai, um homem que deixa a família e vai para a França e o aprofundamento de seus laços afetivos com a mãe, enquanto se inicia em sua profissão e descobre seu primeiro amor é envolvente e cheia de nuances para a além do drama principal.

Ali naquela poltrona de cinema, vi a vida passar diante dos olhos viajando numa locomotiva, perfeita metáfora para os caminhos que a gente segue e para tudo aquilo que pode nos tirar dos trilhos. Vezes, uma simples decisão pode ser a mudança de uma vida inteira, de um jeito de olhar a estrada, da mudança de hábitos para a aquisição de cuidados antes sequer considerados. Todo mundo tem em sua história um divisor de águas, um fato que o modificou profundamente e para a vida toda. Às vezes, numa descomprometida conversa com um maquinista, esse fato vem à tona, sobressai. A vida é mesmo diálogos e trajeto.

Sentada na poltrona do cinema, entrando e saindo daquele trem e pensando nos deslizes que têm consequências permanentes e que modificam significativamente as nossas vidas, fui me deixando encantar por Tony Terranova, por suas coragens e fraquezas. Entre uma viagem e outra, entre uma sessão de cinema e outra ali na tela, o filme foi se revelando e se tornando mais próximo.

Quem de nós não apostou na pessoa errada? Quem de nós não viu um amigo onde havia somente interesse próprio e manipulação da verdade? Quem de nós não se deixou seduzir apenas pela beleza? Quem de nós não teve na vida uma grande decepção? Decepções podem, em muita medida, ser o impulso que faltava para uma tomada de decisão, a superação necessária de um medo para a revelação de doloridas verdades. Decepcionar-se pode ser o caminho para o ponto de vista que faltava, para que se tivesse noção do todo em uma situação. Embora provoque dor e demande o esforço da recuperação, pode ser a retirada da árvore que, tombada na estrada, impede-nos de avançar.

O drama da ausência do pai. O drama da falta de uma razão, de uma explicação. O drama de saber que qualquer dúvida pode ser pior do que a mais dura certeza, uma vez que  a dúvida pode fazer paralisar, é sensivelmente retratado na tela. E porque o drama não é a única face da vida, a veia cômica surge para fazer mais leves os momentos dramáticos da caminhada. Cabem sorrisos e tristezas e revisão de posicionamentos diante dos dramas humanos apresentados.

E como é importante tentar colher a verdade na fonte e não apenas no discurso de terceiros. O controle emocional para permitir-se a descoberta é uma arte custosa, mas pode trazer benefícios àqueles que em lugar da pressa têm bons propósitos e firmes objetivos. Nada disso é fácil nem indolor, mas gera crescimento e, algumas vezes, o resgate da esperança. Nem sempre a situação é tão feia quanto se vê num primeiro olhar.

O filme fala de amor e de cobiça o tempo todo. Assim é a história, assim é a vida. O amor, sem dúvida, é a parte ensolarada do filme. E não será da vida? O despertar do bem querer e do afeto entre os jovens, a descoberta do sexo, a alegria provocada por tais revelações. Tudo é luz. Uma luz pálida e repleta de nostalgia, como convém a qualquer lembrança. Amor de pares. Amor de pai. Amor de mãe. Amor de filho. Acerto, erro,  caminhada e o contraste com um tempo que já vai longe e que também tinha hábitos nada saudáveis e que confrontam os dias atuais. Era muito cigarro, pouco cinto de segurança e nada de capacetes. Era assim mesmo. É... algumas coisas mudam para melhor.

Selton também aparece na tela e como não observar o ator talentoso, o diretor sensível e competente e o homem maduro que se tornou? Está belo e forte. Sua presença é enriquecedora e marcante, como acontece com aqueles que se encontram no auge de sua carreira.

O filme acabou. Eu e algumas outras pessoas permanecemos sentados, enquanto numa tela escura subiam letrinhas e mais letrinhas ao som de uma melíflua e apaziguadora canção francesa. Não havia pressa em deixar o cinema. Indubitavelmente tínhamos ganhado duas horas em nossas vidas.


TRAILLER OFICIAL DO FILME

domingo, 20 de agosto de 2017

Salve a fantasia!

A arte existe porque a realidade não basta.
(Ferreira Gullart)


Não é segredo pra ninguém que muitos estudiosos e escritores ressaltam o poder da arte e da beleza, dentre outras coisas, para a promoção e a manutenção da saúde mental e emocional daqueles que, de algum modo, a elas se entregam. A arte salva nossas sensibilidades. Neste momento particular de dificuldade por que todos nós passamos, acho que precisamos de terapia intensiva. Quanto mais arte melhor. Tenho aceitado a prescrição daqueles caras. São doses de poesia, crônica, romance, pintura, música, dança, teatro e muito mais. Além disso, muita beleza natural, deliciosas conversas e a presença de gente cujo afeto aquece a alma e o coração são elementos fundamentais.

Dia desses, fui ao Theatro Dom Pedro em companhia de familiares e amigos assistir a uma montagem de “Sonho de uma noite de verão”, de Shakespeare. Foi verdadeiramente uma noite de sonhos. A montagem feita pela Companhia Arteira de Nova Friburgo transportou-nos à fantasia e trouxe-nos o delicioso contato com nossa criança interior, através da mescla entre humanos e fantoches no palco. A perfeição dos movimentos dos bonecos, a delicadeza do cenário e da música e uma primorosa atuação nos colocaram, por mais de uma hora, em contato com o sublime.

Foi uma grande sacada da trupe fazer os fantoches representarem os personagens humanos, numa linda metáfora para a interferência dos seres élficos em seus destinos. Coube, então, aos atores a representação dos seres elementais. As trapalhadas de Puck, numa esplêndida e envolvente atuação de Cássio Campos, levaram-nos às gargalhadas, enquanto a riqueza musical foi, sem dúvida, uma facilitadora para sonhássemos regidos pela maestria de Shakespeare. Antes que provássemos da flor encantada, estávamos todos apaixonados.
Dia do espetáculo - foto da Companhia Arteira

Floresta. Desejo. Sonho. Conflitos. Elfos. Fadas. Vaidade. Manipulação. Dúvida. Destino. Amor. Tudo ali sensivelmente retratado numa viagem fantástica e poética para a posterior reflexão sobre os grandes dramas da humanidade. O teatro é mesmo um espaço privilegiado. Não raras vezes nos tira da apatia e nos põe representados no palco ou em contato com algo que desconhecíamos em nós.  Pode nos refletir por dentro e por fora, tão necessário susto. A arte tem essa extraordinária capacidade de nos abismar, algumas vezes de maneira muito leve e lúdica como nessa montagem. Sonhos, gargalhadas, talento, criatividade e beleza: tudo num só espetáculo. O teatro pode ser bálsamo para as agruras da vida e um portal escancarado para um mundo além do físico. De fato, viver só de realidade não basta.



SOBRE O ESPETÁCULO:
Gênero: Comédia
Duração: 90 minutos

Direção: Gabriela Ribas
Supervisão de direção para manipulação de bonecos: Marise Nogueira
Trilha sonora original e direção musical: Diogo Rebel
Elenco: Cacá Pitrez, Cássio Campos, Catherine Bom, Gabriela Ribas, Gero Band, Jerônimo Nunes, Maria José Silva, Nathália Newlands e Silvia araújo
Cenografia: Silvia Araújo
Figurinos: Joanna Ribas
Artesã bonequeira: N´vea Semprini
Iluminação: Erlom Cordeiro

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Podres poderes

Saí de casa inocentemente para assistir a um show de Caetano Veloso. Tudo estava muito tranquilo até aquele moço elegante trajado de azul, no mais puro estilo um banquinho e um violão, começar a cantar. Nos primeiros acordes de Luz do sol, entrei em contato com um tempo que passou. Parece que fiz uma conexão com a minha adolescência e com o início da minha vida adulta, com os anos 80, com a conquista de direitos e a valorização da vontade popular.

Adolesci num tempo de luz, de abertura, de iluminação sobre o que tinham sido anos soturnos no Brasil. Embora não tivesse engajamento nos movimentos que vinham lutando pelas eleições diretas, era impossível não participar disso de alguma maneira. Os jovens e os nem tão jovens estavam nas ruas e Coração de estudante, de Milton Nascimento, era quase um hino. Era cantada nas escolas, nos bares, nas ruas. Tinha um ar de acalanto, de energia, de alegria e, sobretudo, de esperança. Acompanhei a eleição indireta, a morte de Tancredo, a inflação a galope. No meu primeiro ano de faculdade, só se falava nas eleições diretas.  Eu me lembro das campanhas eleitorais, da desinterdição das urnas depois de tantos anos em que estiveram lacradas. Era uma energia boa de um povo que começava a tomar as rédeas do processo democrático de seu país novamente. Era a energia carregada da esperança de um futuro melhor. Da construção de um país bom e justo para a juventude criar seus filhos e a maturidade ver crescerem seus netos.

Quando houve o impeachment de Collor de Mello, já acompanhei mais de perto. Vi brotarem os cara-pintadas aqui e ali e se tornarem atuantes em todo o país, me recordo bem, o som das ruas era uníssono. A grande maioria da população já não desejava aquele presidente, tinha pesadelos com Zélia Cardoso de Mello, a ministra que, no primeiro momento do governo, confiscou a poupança de uma parte significativa da população brasileira. Não foram só aqueles que tinham alguma reserva que ficaram com suas contas bloqueadas. Houve gente que tinha vendido um imóvel para comprar outro, por exemplo, e que diante do confisco ficou sem ter onde morar. Houve dor, houve suicídios, a coisa não foi brincadeira. Quando o presidente foi deposto, havia o sentimento da maioria de que isso havia sido justo.

Desse modo, tudo o que vivi na adolescência e juventude foi uma escalada ascendente de liberdade e de conquistas. Minha geração aprendeu a encher o peito e a boca e sacar as leis afirmando que tinha direitos. Eu acreditei. Cresci nessa onda e na ilusão de que os direitos, uma vez conquistados, estavam garantidos, que era pra frente que se andava, que havia direitos adquiridos. Sendo assim, os recentes acontecimentos no Brasil têm sido, mais do que um soco no estômago (ou muitos socos, sinto-me golpeada todos os dias), um momento de reflexão e da constatação de que direitos são apenas circunstanciais e que, para a sua manutenção, temos que cuidar deles o tempo todo. Do contrário, de um minuto para o outro, entre acordos e conluios, se esvaem e todos perdem.

Tá certo, a gente vê aqui e ali mundo afora as ameaças à democracia diante de nós na TV, direitos ruindo nos mais diversos lugares, mas a televisão é tão asséptica que tem qualquer coisa de ficção, de distanciamento, de nos informar como se estivéssemos todos longe daquele ponto. A TV nos ilude e nos adormece todos os dias. Se não fosse assim, como seria possível ter um aparelho desses na sala de jantar? Como comer diante das notícias e imagens de guerras e de mutilações? Eu acompanhava as democracias ameaçadas a distância, mas não via o risco aqui tão perto.

A realidade começou, nesse sentido, a me dar uns solavancos quando, logo depois da apuração dos votos nas eleições para presidente em 2014, alguns inconformados com o resultado das urnas começaram a pedir o impeachment da presidente eleita e tais protestos começaram a ganhar força com a participação de alguns políticos brasileiros. A oposição naquele momento começava a mostrar a sua face predadora em prol de um resultado e em detrimento da valorização da nação brasileira e do processo democrático, fomentando a divisão nascida na disputa eleitoral.

Quando Trump venceu as eleições dos EUA eu tive muita inveja dos americanos, muita. Não desse inacreditável resultado.Tive inveja da postura responsável de sua oposição. Da fala de Hillary Clinton que, diante da derrota, que nem ocorreu nas urnas, não perdeu a clareza de que o país era maior que seu umbigo e, portanto, conclamou os americanos à união pelo crescimento de todos. No Brasil, apesar do discurso do candidato derrotado nas urnas, não tivemos uma oposição responsável. Faltou à oposição, desde as últimas eleições, a grandeza de perceber o Brasil como um país. Ao contrário disso, o que houve foi o estímulo irresponsável e em causa própria para que seus eleitores fossem às ruas pedir o impeachment de uma presidente democraticamente eleita, no momento seguinte ao resultado do pleito. Faz parte do processo democrático aprender a perder. Há que se ter grandeza para continuar lutando por seus objetivos sem sabotar o processo legítimo das urnas.

A oposição sabotou o quanto pôde um governo legítimo. Foram pautas e mais pautas travadas no Congresso Nacional para levar o governo ao insucesso. O país ficou ingovernável. A crise econômica foi agravada. Um presidente, haja vista os “acordos e mais acordos” que têm sido feitos pelo presidente Temer, não pode governar sozinho. Mais tarde, diante das gravações apresentadas pela Operação Lava Jato, ficou claro nos diálogos de Sérgio Machado com Romero Jucá, que o medo, o pavor era de que aquela operação levasse boa parte deles ao naufrágio de suas carreiras políticas construídas nem sempre na legalidade. Desse modo, foram articuladas alianças e mais alianças para que salvassem a própria pele. O que fez a oposição nesse tempo todo? É como se ela, como dizem, tivesse descarrilhado o trem para depois “salvar” os feridos. Houve vítimas fatais? Para vítimas fatais cuidados médicos não resolvem coisa alguma. A oposição estimulou e promoveu o impeachment a um preço altíssimo para salvar sua própria pele. Sem falar naqueles que mudaram de lado pelo mesmo motivo.

Para agravar a crise vivida pelo governo Dilma naquela ocasião, faltou sensibilidade ao referido governo para lidar com uma parcela significativa da população que não o apoiava e que foi às ruas se manifestar.  As medidas tomadas pelo governo estabelecido ajudaram a pôr gasolina no fogo e a incendiar as possibilidades de reversão daquela situação. Àquela altura os movimentos já tinham certa autonomia e repudiavam alguns dos políticos que o incentivaram, chamando-os, inclusive, de oportunistas. Havia muitos manifestantes que defendiam a não participação de políticos naqueles protestos. Os movimentos, naquele momento, já tinham em grande parte outra identidade. No domingo anterior à nomeação de Lula como Ministro da Casa Civil, os movimentos de rua tinham levado três milhões de pessoas às ruas num protesto contra o governo e contra a possível nomeação do ex-presidente para um cargo ministerial. Não se ignora a voz de três milhões de pessoas impunemente. A nomeação dele para a casa civil soou, até para muitos que apoiavam o governo, como um desrespeito às vozes de uma parte significativa da população. Ao ignorar o movimento, o governo ajudou a jogar uma pá de cal sobre as possibilidades de superação da crise política em que se encontrava.

A realidade me esbofeteou pra valer mesmo naquela sessão de domingo da Câmara de Deputados que aprovou o prosseguimento do processo de impeachment da presidente. Olhava incrédula para a postura e ficava atônita com as falas de grande parte daqueles parlamentares. Pensava na gravidade do que aquilo significava para além daquele resultado, para o fato de que aqueles senhores e aquelas senhoras ocupavam cargos representativos e, portanto, representavam uma parcela da população. Suas condutas questionáveis naquele dia e nos dias que se seguiram àquela sessão colocavam em xeque o nosso congresso. Ética?! Decoro?! Nada disso parecia existir por ali. Passei, a partir daí, a olhar com mais atenção o número expressivo e crescente de votos em branco e nulos , bem como o enorme número de abstenções nos processos eleitorais para os mais diversos cargos políticos de nosso país. Nosso sistema eleitoral desconsidera esses números para os resultados, no entanto, diante do quantitativo de pessoas que representam, devíamos repensá-lo. Não basta criticar os que agem assim, tampouco rotulá-los de isentões. Tais votos também manifestam uma mensagem, a de que aqueles eleitores não concordam que nenhum dos candidatos inscritos os representem e isso é coisa à beça.  Para muitos, deixar de votar é uma decisão amadurecida e demasiadamente difícil. Jamais votei nulo ou em branco nem me abstive das votações, mas entendo quem o faz. É preciso pensar nisso com a seriedade que o assunto merece.

Depois de passar pela Câmara dos Deputados, o Senado brasileiro aprovou o impeachment, que  se consolidou como um golpe quando, dois dias depois de ser votado,  o mesmo Senado sancionou uma lei que flexibilizava as regras para a abertura dos créditos suplementares sem a necessidade de autorização pelo Congresso Nacional. A partir daquela data, então, estavam legalizadas as “pedaladas fiscais”, que foram o principal argumento para o pedido do impeachment presidencial. Ou seja, depuseram a presidente por uma ilegalidade que dois dias depois avaliaram como legal. Deram nó em pingo de éter bem na nossa frente. Ao contrário do que ocorrera no impeachment de Collor, a voz das ruas não era uníssona. Novamente havia sido desconsiderada uma parte significativa da população.

Pouco mais de um ano do ocorrido, o que temos visto é de abalar as estruturas das nossas esperanças. Temos um presidente que foi gravado em uma conversa comprometedora com o empresário e delator Joesley Batista  em que, o mínimo que se pode pensar, é que o presidente tenha prevaricado. Acusado pela Procuradoria Geral da União de crime de corrupção passiva, esse mesmo presidente, ao invés de tomar atitudes coerentes com a lisura e a transparência que o exercício de sua função exigem, toma providências no sentido de dificultar a visão da entrada do Palácio do Jaburu e estabelece o uso de mecanismos para dificultar a gravação de suas conversas, como é o caso da instalação  do misturador de vozes. Coisa que mais se aproxima de uma confissão de culpa do que do desejo de provar que não a tem. Sua manutenção na presidência tem se dado por manobras e mais manobras políticas que, se não forem ilegais, certamente são imorais. A crise econômica e financeira continua instalada. Houve perdas de direitos trabalhistas. Universidades públicas agonizando. O aumento do número de pessoas em situação de rua é visível. O aumento da violência e da criminalidade é sentido pela população até fora dos grandes centros. E ninguém se manifesta. Bem, isso é o que dizem. Tenho visto, pelo país afora, gritos e mais gritos de “Fora, Temer!” E esse coro está crescendo. Basta que haja uma reunião para que tal apelo surja naturalmente. Se os gritos não ganharam as ruas, não quer dizer que eles não existam, é importante que isso fique claro.

Por que os gritos não ganham as ruas? Há vários motivos, mas sobre dois deles eu gostaria de falar. Temos sido sistematicamente expostos ao medo. Medo de que a economia desande e que o país vá à bancarrota, como se o desacerto no campo econômico não estivesse intimamente ligado aos inúmeros processos de gestão fraudulenta, de rios e rios de propina de que nos dá conta o Ministério Público. É como se falassem para nós que os gestores não têm culpa, mas nós podemos pôr o país a perder por querer que o presidente responda o processo por corrupção passiva no Supremo Tribunal Federal. Há uma espécie de ameaça de que teremos responsabilidade pelo fracasso da economia se houver uma mudança. “Ruim com ele, pior sem ele”, nos avisam alguns a todo o tempo. Além disso, a pós-verdade, sem entrarmos na discussão filosófica se está sendo usada no sentido real ou equivocado do termo, mas pensando no significado que tem assumido no contexto atual, tem ajudado a nos confundir, valorizando mais a versão do fato do que o fato ocorrido em si. Dando mais crédito à versão do fato do que a verdade em si. Os discursos de alguns políticos são completa e propositada distorção dos fatos. Precisamos estar atentos a isso.  Temos o dever cívico de não nos deixar enganar. Concordar que um presidente não seja julgado por um crime do qual se tem provas é o mesmo que assegurar para toda a classe política que a lei não pode atingi-los.  É endossar a impunidade.  A população não foi para a rua? Há muitos meios de se manifestar, ir às ruas não é o único. É fundamental fazer uso deles.

E o que tem Caetano a ver com tudo isso? Passei boa parte da vida adulta vendo uma escalada crescente de conquistas e direitos, tenho estado dolorida vendo essas conquistas descendo ladeira a baixo. Constatar toda a fragilidade desses direitos tem sido um duro aprendizado. Olhar Caetano ali no palco, desfilando sua poesia ante meus olhos, lembrar que ele foi um preso político, que foi exilado; ouvir canções compostas em 1968; constatar as letras vivas e mordazes de algumas de suas canções e não pensar na situação atual do país, no estado de coisas que estamos vivendo, no avizinhamento de um tempo ainda mais sombrio é simplesmente impossível. É inevitável linkar o Brasil atual aos podres poderes de Caetano. Naquele show, a adulta dolorida que estou se encontrou com a jovem esperançosa que eu fui e ratificou minha convicção de que é preciso resistir. Resistir com amor, com poesia, com dança, com música, com garra, com arte, com beleza para manter a saúde emocional. Resistir fazendo uso dos meios disponíveis para me manifestar. Resistir buscando informações em muitas e muitas fontes para não ser catequizada pelos manipuladores da informação. Sim, quem se propõe a ouvir mais do mesmo o tempo todo, pode acabar com sua capacidade de análise comprometida.  É preciso ser um leitor plural, lendo e ouvindo aqueles que concordam conosco e também aqueles que discordam de nós. É preciso crescer e exercitar o respeito, prestar muita atenção aos fatos e lutar pelo que se acredita.

Enquanto boa parte da classe política do nosso país exerce seus podres poderes, estamos nos perdendo ao dividir nossas forças. Enquanto eles nos vencem, saqueiam e oprimem, nos desgastamos em confrontos nas ruas ou em redes sociais. A polarização tem facilitado muito a vida deles. Até quando nos conformaremos com ridículos tiranos?

PODRES PODERES
(Caetano Veloso)



SOBRE AS HERANÇAS DO PLANO COLLOR
http://istoe.com.br/58752_DIFICIL+DE+ESQUECER/

RESULTADO DAS ELEIÇÕES DIRETAS PARA A PRESIDÊNCIA DO BRASIL EM 2014
http://www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2014/Dezembro/plenario-do-tse-proclama-resultado-definitivo-do-segundo-turno-da-eleicao-presidencial

PRIMEIRAS MANIFESTAÇÕES PELO IMPEACHMENT DA PRESIDENTE
http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2014-11-01/protesto-contra-dilma-rousseff-fecha-avenida-paulista.html

CONVOCAÇÃO PARA PROTESTOS FEITAS POR CANDIDATOS DA OPOSIÇÃO EM DEZEMBRO DE 2014
http://g1.globo.com/politica/noticia/2014/12/aecio-e-oposicionistas-fazem-pela-web-convocacao-para-ato-de-protesto.html

SOBRE O DISCURSO DE HILLARY CLINTON
https://www.youtube.com/watch?v=1AJph8kHBYc#t=1154.821324

SOBRE AS MANIFESTAÇÕES POPULARES DE 13 DE MARÇO DE 2016
https://brasil.elpais.com/brasil/2016/03/13/politica/1457906776_440577.html

APROVAÇÃO DAS PEDALADAS FISCAIS PELO SENADO DOIS DIAS DEPOIS DO IMPEACHMENT
http://economia.ig.com.br/2016-09-02/lei-orcamento.html


OUTROS TEXTOS INTERESSANTES

Logo após o resultado das eleições
http://g1.globo.com/sao-paulo/eleicoes/2014/noticia/2014/10/na-paulista-tucanos-gritam-impeachment-e-petistas-pedem-choro-no-cantareira.html

De antes das eleições
http://congressoemfoco.uol.com.br/opiniao/colunistas/os-dilemas-da-atual-oposicao-a-presidente-dilma/


terça-feira, 25 de julho de 2017

Entre linhas

Não nasci em uma família de leitores contumazes. Apesar disso, sempre tive incentivo para a leitura e para os estudos. Os pais liam, mais jornais e notícias do que literatura, mas liam. Digo liam, assim no passado, porque hoje com a tecnologia ao alcance das mãos, leem mais e têm uma leitura mais diversificada também.

A memória pode nos trair algumas vezes, então, é meio complicado saber exatamente quando foi que o interesse pela leitura deu partida em minha história. Revirando o baú das lembranças, vou encontrar lá longe, na terceira série do primeiro grau, era assim que se falava, a Tia Magali. Era uma professora primária, de uma escola pública estadual e que já inovava em seu modo de estimular os alunos. Com todas as limitações que encontrava, promovia gincanas e desafios entre os estudantes para a realização das tarefas e os prêmios eram, entre outras coisas, revistas infantis e gibis. Meu primeiro prêmio significativo nessa séria brincadeira foi uma revista “Nosso amiguinho”. O exemplar trazia uma historinha, bem como uma narrativa lúdica sobre algum fato histórico. Essa é a primeira lembrança do contato com textos que me despertaram o quero mais. O desejo por mais e mais revistas daquele tipo nasceu daí.

A essa altura minha mãe, vendo que eu gostava de ler, já providenciava uma ou outra coleção infantil para que eu pudesse viajar nas páginas dos clássicos contos para crianças. Depois disso, por ter uma irmã portadora de necessidades especiais e por isso representar uma enorme dificuldade para a “aceitação” dela em escolas – naquele tempo não tinha lei específica para isso – acabei por ser matriculada na Escola Viva, que já fazia a chamada educação inclusiva em melhores moldes que os de hoje. Como a preocupação com a leitura fosse uma constante naquela escola, havia uma série de eventos nesse sentido. O ponto alto desse incentivo era o trabalho com alguns autores ao longo do ano e a presença de um deles na  Feira  Anual do livro.

O primeiro autor que me despertou fascínio foi Carlos de Marigny. Tinha lido ”Detetives por acaso” e “Os fantasmas da casa mal assombrada” e o sujeito escrevia de um jeito que me acordava o interesse por mais e mais aventuras.  Marigny foi o primeiro que me fascinou. Também ele escreveu o primeiro livro em que embatuquei. Tínhamos leitura de férias e o livro indicado para a minha turma era “A ilha das borboletas azuis”, eu começava e recomeçava e começava de novo e não conseguia avançar na leitura. Já quase no fim das férias, que eram longas, diga-se de passagem, consegui vencer a dificuldade e adorei o texto, coisa que revivi algumas vezes no correr dos anos. Há livros que não conseguimos ler de prima, é preciso insistir.

De lá pra cá, a vida seguiu seu curso entre Pollyannas,  O pequeno príncipe, O menino do dedo verde, É proibido chorar até chegar a adolescência e eu fazer, o que seria na época, minha primeira leitura clandestina. Um dia, no sótão de casa, descobri um livro que tinha um título particularmente interessante. Não tive dúvidas. Passava horas escondidinha lendo “O amante de Lady Chatterley”. E foi delicioso! Ri, chorei, tive raiva, compreendi e devorei o livro encantada com a literatura pra gente grande, que eu acabara de descortinar. O texto de D. H. Lawrence falava dos conflitos humanos, das encruzilhadas da vida, das escolhas, das diferenças entre as classes sociais e até de amor, desejo e sexo.  Foi precisamente aí que me apaixonei pelos dramas existenciais humanos.

Bem, mas por que estou falando de tudo isso? É que hoje é o Dia Nacional do Escritor e eu me peguei pensando em como foi que esses caras começaram a me interessar e fui buscar a minha vida de leitora, fazer uma retrospectiva. Cheguei até aqui, mas uma questão me inquieta: como nascem os nossos escritores favoritos? Para falar sobre eles, preciso me lembrar dos tempos da faculdade.

Decidi fazer Letras depois de muito tempo de amadurecimento, o que para muitos podia ser uma escolha óbvia, para mim estava submersa entre as tantas vozes do mundo, entre tantas escolhas possíveis. Nesse sentido, demorei a amadurecer. Passei muito tempo ouvindo as vozes de fora, sem reconhecer as vozes internas. Por incrível que pareça, tive a felicidade de conviver com alguns colegas que também iniciaram aquela faculdade na mesma época da vida, cada um com sua história, claro.  Minha turma era mesclada: havia os muito jovens, os jovens e os mais maduros e isso era muito rico.

O afeto sempre teve um papel importante para mim e, nos bancos acadêmicos, fui descobrindo pessoas que tinham, mais que autores preferidos, uma relação afetiva com eles. Desse modo, fiz uma outra leitura daqueles mesmos escritores a partir do olhar apaixonado de minhas amigas. Nanci era encantada por Fernando Sabino, Isabela por Rubem Braga e Claudia por Mário Quintana. Nanci lia o Fernando por entre as linhas de seus textos, Isabela suspirava com a poesia presente nos escritos de Braga e Cláudia era tão apaixonada por Quintana que sua mãe,  percebendo isso, num gesto delicado de amor e generosidade, fez uma jardineira de miosótis na janela do quarto da moça. E o que têm os miosótis a ver com isso, hão de me perguntar. Bem, eles são nada mais nada menos que as flores preferidas daquele poeta. Já pensaram nisso?! O fato é que, depois de conhecê-las, gosto mais de Fernando, de Rubem e de Quintana.

Embora apreciasse alguns escritores e alguns até muito, ainda não tinha encontrado aquele que falaria assim tão perto da minha maneira de sentir o mundo. Ainda não conhecia alguém que fizesse ecoar a sua voz dentro de mim. Era 2000, eu tinha 28, começara a faculdade e estava passando pela crise dos 30. É, passei por ela, mas adorei fazer 40, vai entender. Procura daqui e lê dali, encontrei num site uma crônica cujo título me interessara sobremaneira: “Fazer trinta anos”. Comecei a leitura achando ser mais um texto sobre os 30 e fui descobrindo que era o texto sobre os 30. E fui destacando frases, como de costume, “Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada”, “Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil”, “Fazer 30 anos é como o mineiro vê pela primeira vez o mar”, “Mas fazer 30 anos é como sair do espaço e penetrar no tempo. E penetrar no tempo é mister de grande necessidade”, “Por isso é necessário ter asas e sobre o abismo voar”.  Aquelas palavras, bem naquele momento singular de minha vida, ficaram reverberando em mim. Me encantei, claro, e reli em voz alta e quis conhecer o que mais escrevia aquele autor. Affonso Romano de Sant´Anna, o nome dele. E procurei textos e mais textos, e comprei livros, e li crônicas, e li poemas, e li ensaios, e li críticas, e li teorias e o dividi com os amigos e alguns amigos o repartiram comigo, e concordava e, vezes, até discordava do que ele dizia, mas seus textos eram/são de suma importância pra mim. Aquele homem era um manancial e eu estava fascinada. Não tive dúvidas e passei a comprar “O Globo” aos sábados exclusivamente por conta do caderno “Prosa e Verso”, u-ni-ca-men-te por conta do autor. Devo confessar que jamais perdoei aquele jornal por tê-lo deixado de publicar.

Sem perceber, minha leitura de mundo passava pela leitura de mundo daquele escritor, eu buscava nos jornais o que ele estava pensando sobre determinado assunto, o que ele estava escrevendo sobre o tema. Tinha nascido o afeto. Naturalmente, palavra por palavra foi surgindo em caixa alta o MEU ESCRITOR PREDILETO.

Em 27 de março deste ano, Affonso Romano fez 80 anos. Produzindo, adaptado às novidades tecnológicas, cheio de inquietações e encantador como sempre. É bonito ver uma trajetória como a dele. Parabéns pra ele! Leio o mundo, a vida, as situações, as pessoas entre as linhas de muitos autores, mas Affonso é o cara que me ajudou/ajuda a ver mais poesia no mundo, a respeitar meu tempo, a analisar as situações sobre vários aspectos, a ver com clareza as regras nem sempre claras da nossa sociedade. Affonso é o cara que me ajudou/ajuda a ler o mundo que, aliás, é o título de um de seus livros, com mais serenidade, crônica e cronologicamente. E é por isso que, com  imenso respeito a todos os escritores do mundo, é pra ele que gostaria de desejar de modo especial Feliz Dia do Escritor! Feliz dia, Poeta! Feliz dia, Professor!

E você já parou pra pensar como o seu escritor favorito chegou na sua vida? A quem felicitaria de modo especial nesta data?


FAZER 30 ANOS,  de Affonso Romano de Sant´Anna
http://www.releituras.com/arsant_30anos.asp


OUTROS TEXTOS DO AUTOR:
O homem-bomba
https://www.facebook.com/estacaomarisebender/photos/a.1718157488501268.1073741829.1708697116113972/1718155915168092/?type=3&theater

Despir um corpo a primeira vez
https://www.facebook.com/estacaomarisebender/posts/1804460883204261:0

PROJETO RELEITURAS (vários textos de vários autores)
http://www.releituras.com/arsant_menu.asp

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Hibernação


É inverno. A temperatura lá fora cai vertiginosamente, enquanto meu peito se ilumina aquecido de lembranças saborosas e caras da infância e de outras fases da minha história. Talvez porque a vida tenha escolhido essa época do ano para me fazer aportar por aqui e porque, por isso mesmo, inverno sempre tenha sido para mim sinônimo de celebração ou, ainda, porque sempre tenha gostado do recolhimento necessário para apaziguar o espírito e essa estação favoreça o estar consigo mesmo o tempo todo. Talvez porque, diante do frio, os sabores se acentuem. Talvez porque o frio congregue, aproxime, envolva e sugira afago e abrigo ou talvez por cada uma dessas coisas e de outras mais, o inverno pra mim sempre vem cheio de significado.

Recolher, nutrir, proteger, aninhar a si e aos afetos. Tempo de refinamento e construção para desembarcar no setembro primaveril. Há sempre um tempo de brotação que é invisível aos olhos, o inverno é assim. Inverno é etapa, fase, momento, avaliação. Ao contrário do que ocorre com outras espécies, até a nossa alimentação é mais rica nessa época do ano. 

Dia desses, a sala de aula me fez lembrar de um período muito caro da minha vida na escola. Petrópolis amanhecera fria, um vento gélido e cortante insistia em desconfortar. Abro a porta da sala e me deparo com algumas meninas com uma espécie de mantinha de soft jogada sobre os ombros. Estavam em pares. Aquela imagem, repleta da noção de aconchego, reportou-me à infância.

Parte da minha vida escolar se deu em um colégio com ideias e ideais à frente de seu tempo, coisa de que só tive consciência quando já era adulta, cursava a Faculdade de Letras e começava a estudar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Nesse momento, percebi que muitas das coisas que eram apresentadas como novidades, eu já experimentara muitos anos antes na Escola Viva, a educação inclusiva foi uma delas. Nessa escola, vezes, na chegada do inverno, os professores reuniam os alunos num grande salão com lareira em que as janelas permaneciam parcialmente fechadas, para que fosse favorecida a penumbra. O fogo era aceso, eram servidas canequinhas com um delicioso chocolate bem quentinho e falava-se sobre o inverno, contava-se histórias e curtia-se em conjunto esse momento/tempo de recolhimento. À exceção do verão, cuja chegada nos encontrava já em férias, celebrava-se cada estação à sua maneira, frutas, chocolate quente ou flores. Tenho, portanto, uma ligação afetiva com a passagem do tempo, com os ciclos.

A própria Petrópolis fica também mais viva e pulsante no inverno. São festivais, músicas, teatro, poesia, a tradicional Festa do Colono Alemão. É tempo de pura efervescência. As cerejeiras afloram. Tudo fica mais mágico e encantado.

Voltando à sala de aula, a programação era a leitura do conto "O espelho", de Machado de Assis, texto disponível no próprio livro didático. Achei por bem deixar as meninas aconchegadas, duas a duas, tal qual estavam para que nossa "roda" de leitura ficasse um pouco mais confortável. A palavra girou espontaneamente a cada parágrafo e, aos poucos, fomos todos nos assombrando com as colocações de Machado. Eu também?! Sim, eu sempre fico maravilhada com os textos desse escritor, mesmo quando leio um velho conhecido. E eles?! Muito! Duas almas?! E  a surpresa era nítida nos jovens olhares que perscrutavam aquelas linhas machadianas. Quando a leitura acabou estávamos todos envolvidos e eles repletos de curiosidade e fomos, então, desvendando as mensagens daquele escriba também à frente de seu tempo.

De temática atualíssima, o conto nos leva a pensar no contraste entre a aparência e a essência, bem como no risco que corremos ao absorvermos as referências externas, aquelas que vêm dos outros, para enxergar a nós mesmos. Quantas vezes duvidamos daquilo que somos precisamente porque os outros nos apontam o contrário? Quantas vezes nos expomos e, mesmo relutantes no início, aceitamos com o tempo os rótulos que outras pessoas nos dão? Quantas vezes acreditamos que nossa essência está nos papéis que desempenhamos e não exatamente naquilo que somos? Quantas vezes damos ao outro o poder de, tal qual um espelho, nos mostrar "quem somos"? São muitas as perguntas que nos fazemos depois da leitura de tais escritos, além da inevitável ponderação de que a vaidade pode fazer perder uma vida, um projeto. Ela pode nos fazer perder a noção de nós mesmos e dos limites que o outro deve ter em nossas vidas. A adulação é mesmo perniciosa e quem a ela se rende cria, inevitavelmente, uma espécie de dependência.

A aula terminou, estavam todos (ou quase todos) encantados com a genialidade de Machado e com tantas informações críticas e subliminares naquele texto. Deixei a sala de aula feliz, a alegria refletida naqueles olhinhos me encheu de entusiamo. Saímos todos daquela leitura nos conhecendo um pouquinho mais e um pouco mais aquecidos. Inverno é tempo de essência e daquilo que é essencial. Nesse sentido, hibernar é fundamental.



Contos de Machado de Assis:
http://machado.mec.gov.br/obra-completa-menu-principal-173/166-conto

Imagem disponível em:

https://pixabay.com/pt/vela-bruxuleante-chama-2400240/

Up em 19/07/2017
Para encantar e aquecer:

Vivaldi The four seasons - Winter - Julia Fischer

domingo, 9 de julho de 2017

O inesgotável Machado de Assis

Para Gerson Pereira Valle,
pelo empenho em fazer da academia
um espaço bem mais próximo dos mortais.


Apaixonada pela figura e pela escrita de Machado de Assis, de modo geral, recuso-me a perder qualquer oportunidade de ouvir um pouco mais sobre ele. Sábado foi dia de programação na Academia Petropolitana de Letras e, para o meu deleite, o assunto era justamente Machado. Há vários aspectos na vida e na obra do escritor que me fascinam. Tanto assim, que muitos estudantes que já passaram por minhas aulas, de um modo ou de outro, logo reconhecem minha paixão pelo autor.

 Machado de Assis - 1904 -(fonte: g1.globo.com) 
Gosto de apresentá-lo em sala de aula primeiramente como o sujeito que enfrentou uma série de dificuldades e que, a despeito disso, chegou à notoriedade. Como muitos sabem, Machado era mulato, nasceu no Morro do Livramento, era filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira açoriana e ficou órfão de mãe muito cedo. Tinha epilepsia, isso numa época em que muito do desconhecimento sobre a doença, sustentava uma série de crenças de que hoje, felizmente, muitos nem têm conhecimento.  Sempre friso que, sem meios para os estudos regulares, o escritor estudou da maneira que pôde. Foi um autodidata que, além de chegar à presidência da Academia Brasileira de Letras, foi um de seus fundadores. Aí está um verdadeiro legado de superação e de amor à cultura. Machado é o cara!

Gosto de contrapor a trajetória do literato ao personagem Brás Cubas e de extrair daí as oposições entre um e outro. Machado tem, em certo sentido, uma trajetória inversa à de Brás Cubas. Era pobre, buscou instruir-se por meios próprios, tinha uma série de dificuldades a enfrentar, cresceu profissionalmente, conheceu o amor e venceu, alcançando notoriedade e deixando para a vida uma herança de valor inestimável: sua obra. Brás Cubas foi um menino mimado, que tinha todas as condições para alcançar a notoriedade e que a desejava como ninguém. Estudou em Coimbra, graduou-se em Direito e, no entanto, terminou seus dias num capítulo de negativas. Não alcançou a celebridade, não teve sucesso na almejada carreira política, não conheceu o casamento e se vangloria pelo fato de nunca ter tido que suar para garantir o seu sustento. Ainda nesse último capítulo, Brás Cubas afirma ter se vingado da vida não deixando a ela nenhum herdeiro ou, como diz, de não ter transmitido a nenhuma criatura o legado de sua miséria. Machado, apesar de não ter tido descendentes, transmitiu e transmite a cada um de nós uma perpetuação de si mesmo, através das inesgotáveis leituras e possibilidades de seus textos. Com sua atualidade, ele sobrevive ao tempo.

Como sempre me interessei pelos homens e mulheres que escrevem, ou seja, pelos autores dos livros e não somente pelos livros e, como trabalho com adolescentes, sempre entendi que apresentar o indivíduo com todas as suas emoções, com toda a sua humanidade, com as suas honras e agruras, fosse uma boa estratégia para despertar-lhes o interesse pelos autores e, consequentemente, por suas obras. Sou daquelas que acreditam que a sacralização dos medalhões literários distancia um tanto o estudante da literatura. Para apaixonar-se é preciso afeto, na literatura não é diferente.

No caso de Machado, sempre procuro apresentá-lo como, além do ícone de superação que ele é, o sujeito apaixonado por Carolina. Costumo inclusive levar alguns registros da amorosa correspondência do autor para sua Carola: “és tão dócil como eu; a razão fala em nós ambos. Pedes-me cousas tão justas, que eu nem teria pretexto de te recusar se quisesse recusar-te alguma cousa, e não quero.” Não é fascinante ver esse lado de Machado? É enternecedor, por exemplo, o registro das saudades de Machadinho (como ele assina uma das cartas endereçadas a ela): “Obrigado pela flor que me mandaste; dei-lhe dous beijos como se fosse em ti mesma, pois que apesar de seca e sem perfume, trouxe-me ela um pouco de tua alma. Sábado é o dia de minha ida; faltam poucos dias e está tão longe!” Machado ansioso pelo encontro com a amada? Sim! A ponto de sentir alterações na noção de tempo. Tão humano, tão próximo a nós e isso é tão rico.

Depois da morte de Carolina, o autor compõe um belíssimo soneto capaz de nos aproximar da dor e da saudade que o poeta – sim, ele é poeta também - sente da amada. A composição poética tem três versos tão pungentes que, a eles, é impossível ficar indiferente.  Belos e tristíssimos versos que denunciam a dor da separação causada pela morte do ser amado: “Trago-te flores – restos arrancados / Da terra que nos viu passar unidos / E ora mortos nos deixa e separados". Como não levar “A Carolina” às salas de aula?

Bem, acabo de fazer uma digressão e entrar em uma sala de aula. Hábito?! Paixão?! O fato é que me afastei do real motivo de escrever esta crônica: a palestra de ontem. O tema, “Inovações narrativas na obra de Machado de Assis”, era muito menos revelador que a realidade oferecida na fala apaixonada, envolvente e com muita propriedade do Professor Pierre da Silva Moraes, de Nova Friburgo. Lá pelas tantas, estava a plateia completamente seduzida, curiosa e embriagada pela grandeza de Machado de Assis e pela fluência do professor.  Foi um encontro memorável.  Todos aprendemos. Todos.

O docente trouxe, com riqueza de detalhes, a estada do autor em Nova Friburgo para recuperar-se de um adoecimento e a estreita relação desse período com a composição da obra “Memórias póstumas de Brás Cubas”. De acordo com os seus estudos, o Machado realista teria sido gestado durante o tempo passado naquela cidade serrana. Diante da possibilidade real da morte e de todos os diálogos internos que tem um homem que se vê próximo a ela, Machado dá uma guinada em sua obra e chega à criação do defunto autor. Eu jamais havia parado para pensar na relação vida e obra do autor sob essa ótica. E foi a primeira vez em que conjecturei que, então, talvez viesse daí a expressão defunto autor: um sujeito quase morrendo - ou pelo menos que pensava nessa possibilidade - escrevendo uma narrativa bastante diferente daquelas que já produzira. Achei fantástico. Foi uma leitura possível, através da palestra.

O palestrante trouxe muita novidade acerca da virada na vida e na obra do escritor, ou seja, desse renascimento de Machado, homem e autor, e da ligação desse fato com Nova Friburgo, além de referências a Alfredo Bosi, Massaud Moisés, entre outros renomados críticos literários. Ademais, Pierre encaminhou um paralelo entre os recursos usados atualmente pela televisão, por exemplo, e as inovações na narrativa de Machado no sentido de deixar sua obra aberta. Ele ressaltou que, de certo modo, a interatividade já estava presente nas obras primas do autor, já que ele requer a participação do leitor e torna possível mais de uma leitura para seus romances, como se pode constatar em “Dom Casmurro”. Nessa obra em particular, o leitor tem elementos para acreditar e defender as teses de que Capitu traiu e de que Capitu não traiu Bentinho. Cada leitura, cada olhar e cada interpretação é uma possibilidade.

Todos na plateia ficaram igualmente mobilizados e, depois da explanação, houve uma profícua conversa acerca da literatura. E, nessa conversa, estiveram presentes, além de Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, entre outros. Faz-se necessário destacar a fala de um professor – de que infelizmente não sei o nome - que trouxe à baila a necessidade da valorização da produção poética de Machado de Assis, além de seus textos para o teatro. Entre a apresentação de Pierre e a posterior conversa sobre as informações trazidas e as provocações lançadas por ele, foram quase três horas de interação. Foi um espaço para constatações, exposições, compartilhamento de pontos de vista e insights e, é preciso salientar, que o debate terminou em seu auge, com gosto de quero mais e com muitos outros assuntos aventados para as próximas discussões. Machado é mesmo uma fonte inesgotável para a leitura e para os estudos. Foi uma noite de autêntica fruição literária. Que venham mais noites assim!


O SONETO PARA A ESPOSA FALECIDA:
Carolina Augusta Xavier de Novais - 1879

A CAROLINA
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.
Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados,
Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos da vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

(Machado de Assis, in Relíquias de Casa Velha)



ALGUNS LINKS INTERESSANTES


UM POUCO SOBRE O PROFESSOR PIERRE DA SILVA MORAES:

(Estas e outras obras completas disponíveis em pdf)
http://machado.mec.gov.br/obra-completa-menu-principal-173/168-teatro