sábado, 30 de julho de 2016

Dos presentes que a vida nos dá

Já faz uma semana! Como passou rápido! Era um domingo ensolarado de azul imponderável no céu. Manhã dourada, dessas que nos desassossegam e nos impelem a viver. Bora sair, meu filho! Bora ver o sol, respirar,  contemplar a natureza. O dia está lindo! E fomos!

Mirante do Cristo, um de meus passeios prediletos. Passava das dez, boa hora pra pegar a estrada e descer um pouco. A serra iluminada é, sem dúvida, das coisas que aprecio. Música, cantoria, o filho e a namorada dele: ótimas companhias. Domingo perfeito.

Desce Serra, sobe Serra e o Mirante está florido. Repleto de turistas abismados e deliciosamente deslumbrados e curiosos. Tudo em festa. Tudo cheio de vida.

Contemplação, poses para fotos, flashes da natureza. Todas essas coisas triviais e saborosas que um passeio suscita. A alegria parece mesmo ser irmã siamesa da simplicidade. Gostoso sentar e conversar naquele lugar. Nessa época do ano, o sol é manso, aquece, mas não queima. A temperatura fica confortável. Adoro os dias iluminados de inverno.

Depois de alimentarmos a alma, hora do regresso! Eu e os meninos já estávamos bem contentes com o recreio de domingo e, para o dia, esperávamos nada mais que um bom almoço. Foi aí que veio a grande surpresa. Na estrada, antes um pouco de uma curva, um serzinho diferente estava decidido a atravessar a pista movimentada. Era um bicho preguiça. Ficamos apreensivos. Meu filho o protegeu com sua moto, enquanto eu parava o carro em local seguro. Foi uma cena bonita de ver: Leo ia atravessando a moto e desviando o fluxo de veículos, enquanto o bichinho estava na estrada.

Eu o segurei. Sem entender o perigo que corria, emitiu um sonzinho irritado, uma espécie de rosnado pra mim. Fiquei emocionada com aquela oportunidade. Nós o levamos de volta para a mata e ficamos ali observando enquanto subia em uma árvore.

Encantados, mas temerosos por sua segurança, comunicamos o fato e a localização à Concer. Na segunda, telefonamos para a APA Petrópolis informando o ocorrido e pedindo orientações. Curioso, sempre observamos as placas alertando sobre a possibilidade de animais silvestres cruzarem a pista na Serra, no entanto, nunca pensamos no que fazer num caso desses.

Sei, é motivo pra pensar nas razões pelas quais, micos, quatis, gambás, capivaras, esquilos e preguiças vêm se aproximando cada vez mais do homem por aqui. As razões são sérias. Contudo, hoje prefiro ficar com a poesia do instante: a oportunidade de acolher um bichinho amedrontado que, quando mais calmo, se deixou até acariciar e de merecer um pouquinho daquele olhar terno. Diz meu filho: - Preguiças têm uma carinha de vó... como resistir!?

Era domingo e, quando menos esperávamos, o imprevisto surgiu com pó de pirlimpimpim e cobriu o nosso dia de magia. Há momentos poéticos que se tatuam na alma da gente. É preciso agradecer.
ENDEREÇOS ÚTEIS:

APA Petrópolis

Concer (Concessionária que administra a Rio-Petrópolis)
http://www.concer.com.br/
Telefone: 0800-282-0040

As fotos são  mesmo da nossa preguicinha aventureira. 

domingo, 17 de julho de 2016

Ilusões e desventura

De todas as tragédias humanas, aquela que considero mais impressionante é alguém perder-se de si mesmo. A sucessão de escolhas mal feitas, a má sorte e a crença em ilusões para a tomada de decisões são maneiras eficientes de atingir esse destino.
A perda de uma ilusão pode, muitas vezes, nos mostrar o quanto a vida pode ser dura. É aí, nesse ponto nevrálgico da existência humana que o longa “Estive em Lisboa e lembrei de você” faz sua arte.

O filme é uma porta aberta para o território das reflexões e aborda delicadamente a profundidade de uma vida triste. Trata-se de um escrutínio do papel importante e definitivo que cada uma de nossas escolhas desempenha em nossas vidas.

Não é possível dizer que se consegue sair do cinema sem algum grau de aflição. Durante a projeção fica-se o tempo todo com o coração inquieto a espera de um desfecho trágico e clichê, o que não acontece. A tragédia existe, no entanto é exposta não pelo desespero, mas por sua afinidade com a realidade. É a proximidade com o real que nos arranca a tranquilidade e que nos põe a pensar.

Todo mundo conhece um Serginho. Um cara que tinha uma vida toda pela frente e que de repente, sem mais nem meio mais, enfrenta a explosiva combinação de uma sorte ruim com conselhos desacertados e escolhas mal feitas.

Todo mundo conhece alguém que se perdeu, que se afastou de si próprio nas asas de uma ilusão. Todo mundo já fez escolhas mal feitas. Todos se sentem, em alguma medida, vulneráveis diante da história do mineiro Sérgio.

Pouco a pouco, cena após cena, vamos descortinando uma certeza que todos nós temos e que, no entanto, não queremos admitir: o mundo não é lugar para os ingênuos e tampouco perdoa os incautos.

A perda das raízes, do sentido de viver é o ponto alto do longa metragem. A trama aborda ainda outros pontos importantes, como a inabilidade de alguns profissionais de saúde mental em lidar com um surto psicótico, a importância de amizades verdadeiras, sobretudo quando se está em terra estrangeira, a superação e a sucumbência aos vícios, tais como o cigarro e a bebida alcoólica, a vulnerabilidade a que a paixão nos expõe.


“Estive em Lisboa e lembrei de você” é uma produção para aqueles que gostam de análises profundas e que estão preparados para sair do cinema com a sensação de terem levado um certeiro e desconcertante soco no estômago. 

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Contemplativa

É julho. Os dias estão mais frios, embora ensolarados. As manhãs mais claras e douradas e as tardes alaranjadas. Há nuvens cor de rosa no céu ao entardecer. As copas das árvores estão mais verdes e salientes. O azul celeste mais celestial que nunca. Há flores, cores, perfumes. Julho é pura sinestesia.

As noites estão mais negras. As estrelas mais brilhantes. A lua mais prateada. A brisa sopra bem mais fresca, ainda que não chegue a ser cortante. Os casacos saem dos armários e gavetas e vêm aquecer seus donos. O inverno faz-se ver a olhos nus.

É julho. Estou em Petrópolis.  Está aberta a temporada de contemplação da natureza. A cidade está em festa. Há tantas flores por aqui. Espatódeas, mulungus, rosas, lírios, tumbérgias e cerejeiras. Os pássaros estão em alvoroço. Como não ouvir a algazarra das maritacas?! Os quatis colhem as nêsperas nos pés. O frio faz bem ao que percebo. Às plantas, aos bichos e às gentes que se põem a observar essa profusão de cores e tamanhos e belezas várias.

A luz é tanta, os dias têm estado tão belos, que os monumentos estão ainda mais monumentais e atraentes.

Ah, as cerejeiras! As cerejeiras são uma emoção à parte. Há uma poesia particular em suas nuances de rosa. Há um tanto de magia nas pequenas pétalas espalhadas pelo chão. É julho e o Quitandinha floresceu. As copas cor de rosa esbanjam charme. Atraem olhares. Arrancam cliques e flashes.  A beleza fugaz das cerejeiras desperta o desejo de eternidade. Espocam fotografias por toda parte.

Adultos, crianças, jovens, idosos... cerejeiras, fotos, sorrisos. São famílias inteiras passeando pelo jardim do palácio. Encontro de gerações, pura integração. Onde quer que se passe, suspiros e exclamações. As pessoas parecem mais felizes com a exuberância rosada de uma sakura. Tudo fica incrivelmente mais mágico e bonito perto de uma delas.

A floração das cerejeiras esse ano chegou como um bálsamo para tantas tensões que temos vivido. Tem cumprido sua missão com louvor: fazer brotar em cada um a capacidade de sonhar, de observar, de apreciar.

Entre abelhas, gentes e beija-flores a natureza desabrocha e nos desperta as sensibilidades. Muita vez a beleza nos salva, nos devolve o equilíbrio.

É hora de contemplar.



quarta-feira, 13 de julho de 2016

Das coisas que não entendo I

Claramente passamos por tempos difíceis em nosso país e, cobertos de razão, cobramos lisura e conduta irrepreensível de nossos governantes. Não é raro ouvirmos sentenças iniciadas por “o governo devia” (e, muitas vezes, devia mesmo). Até aí morreu Neves enforcado em um pé de couve. Entretanto, tenho me intrigado sobremaneira com as coisas que são da nossa “governabilidade”.  As coisas que estão ao alcance de nossas mãos e que, por uma razão ou por outra, teimamos em não fazer.

Há atitudes que cabem a cada um de nós tomar e que são ignoradas ou postergadas infinitamente. E aqui poderia listar um rol enorme e falar sobre corrupção, sobre política, sobre mil e uma coisas, mas o que me interessa hoje é o transporte público no município de Petrópolis-RJ, que é onde moro e, portanto, a realidade fica mais próxima.

Primeiramente, por transporte público nessa cidade é preciso entender ônibus. Não há alternativas. Sim, há muitos problemas: veículos mal conservados, superlotação, poucos horários disponibilizados para cada linha. No entanto, o que tem me incomodado mais nesse momento é o tratamento dispensado aos idosos.

É sabido que há quatro ou cinco acentos prioritariamente para idosos, gestantes e portadores de necessidades especiais disponibilizados na parte dianteira de cada veículo (acentos que ficam antes das roletas) e outro tanto na parte traseira dos ônibus (depois das roletas). Até aí, novidade nenhuma, visto que isso acontece em muitos municípios Brasil afora.

O que não consigo entender mesmo é um comportamento que considero cultural: os condutores (não sei se por determinação expressa das empresas ou não), invariavelmente, abrem, para o embarque de idosos e demais usuários “prioritários”, somente as portas “do meio” do coletivo.  Assim sendo, os passageiros que se encaixam nessa categoria não têm acesso aos acentos a eles destinados na parte dianteira dos veículos. Eu, hein! Não consigo entender. Enquanto alguns passageiros da terceira idade esforçam-se por manter o equilíbrio nos corredores, muitas vezes, jovens aparentemente saudáveis e em pleno vigor físico seguem confortavelmente instalados nos acentos prioritários.

Nem preciso falar que anda cada vez mais raro encontrar quem ceda lugares às pessoas mais debilitadas (falamos disso hora dessas). O que quero, contudo, ressaltar aqui é o descaso institucional, consentido por usuários que, como eu e tantos outros, utilizamos tal transporte público.

Impedir alguém de exercer um direito é também uma forma de violência. Omitir-se diante dessa situação é ser conivente com ela. Precisamos mudar essa realidade. 

 



Encaminhei cópia do texto para as instituições relacionadas abaixo, que acha de manifestar-se a esse respeito também?

- Câmara Municipal de Petrópolis
  http://www.cmp.rj.gov.br/index/fale.html

- Conselho do Idoso
  cmddpi@gmail.com

- Cia. Petropolitana de Trânsito e Transportes
   http://www.petropolis.rj.gov.br/cpt/index.php/contato.html


- Sindicato das Empresas de Tranportes Rodoviários de Petrópolis
  http://www.setranspetro.com.br/contato.htm



sexta-feira, 1 de julho de 2016

28 de junho - Dia do Orgulho LGBT


Pego-me pensando em uma coisa que tenho ouvido ao longo dos anos: "por que não existe o orgulho hétero?" e me ocorrem algumas considerações. Acaso, sendo hétero, é difícil para alguém ser socialmente aceito por sua orientação sexual? Há notícias de espancamentos e assassinatos pelo fato de as vítimas serem heterossexuais? Há alguma dificuldade em chegar para os próprios pais e assumir sua heterossexualidade? E perante a sociedade? Então, qual é a dificuldade de ser hétero numa sociedade heteronormativa?

Difícil mesmo é ser diferente da maioria e lutar para ter sua orientação sexual respeitada, para exercer sua cidadania e sua sexualidade livremente. E aqueles que têm a coragem e a ousadia dessas lutas custosas e diárias têm mais é que ter orgulho. Orgulho todos dias.

Por um mundo com mais respeito e menos preconceito.