terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Flashback

Início de ano à vista e é hora daquela velha história de organizar a agenda. Lá está ela. Foi leal. Prestou serviços durante um ano inteiro e agora jaz obsoleta. A outra brilha intacta. E se faz sedutora, exalando seu perfume de novidade no ar. Tudo nela é branco. São trezentos e sessenta e cinco histórias para contar. Trezentos e sessenta e cinco possibilidades de um novo começo. A incerteza daquilo que vai acontecer, bem como a certeza de que virão surpresas são um excelente tempero para um prato apetitoso com sabor inconfundível de princípio.

Começo pelo fim. Encarrego-me de completar cuidadosamente os espaços destinados a endereços, telefones, correios eletrônicos. Letra "A". Inicio. Faço isso sempre a lápis, pois tudo pode mudar num clicar de mouse nesses nossos dias, do nome completo ao número do telefone, passando pelo endereço. Cada nome uma lembrança ou um brusco lapso de memória que surge do encontro de algum número de telefone anotado às pressas. Ai! Quem será essa pessoa?! Transcrevo? Não faço. Fico pensando que é possível que me lembre de quem era aquele número no exato momento em que eu mais precisar. Resolvo correr o risco.

Terminada a tarefa com os nomes, passo a um outro hábito que tenho: anotar aniversários. Vou deslizando as mãos pelas folhas da antiga companheira e recordando a escrita de um ano inteiro. Dia primeiro, nenhuma anotação especial. É estranho, sempre procuro escrever nessa data uma mensagem de otimismo, o que teria feito com que eu ignorasse esse costume? Ignoro. Vou prosseguindo entre lembranças e sorrisos até me deparar com a primeira data a registrar. Escrevo o nome e, subitamente, sou lançada  numa nuvem de recordações. Cada data uma pessoa especial. Cada pessoa um sentimento. 

Vou seguindo por esses registros e encontro uma data que já perdeu seu significado. Teve seu tempo nos trilhos da minha estrada.  Não cabe cartão de aniversário, tampouco telefonema. Já não há proximidade. Vocês já repararam como nos distanciamos de algumas pessoas com o correr dos dias? 

É curioso o quanto, ao observar uma agenda usada, se pode perceber da vida. Vezes, ficam nítidos alguns ciclos. Espaços de tempo em que as pessoas e os fatos têm maior ou menor importância na vida da gente. Donde se pode supor que tudo é mesmo uma questão de tempo, de hora, de instante, de perspectiva. Ficam tão claras as indefinições! De acordo com nossa "tábua cronológica", variam até as maneiras de enxergar um mesmo problema. Quantas vezes não nos surpreendemos com um clássico espanto: por que agi assim?! Muitas vezes esbarramos na mesma conclusão: hoje faria tudo diferente!

Prossigo. Mais um aniversário. Esse sim! Resolvo anotar em letras garrafais. Importantíssimo. O que fazia nessa data? Houve comemoração? E me delicio nas lembranças dos alegres acontecimentos de uma data especial. O bolo era Floresta Negra! Hum, eu adoro chantili! E são cores, aromas e sabores ecoando sem cessar pelo vão da memória.

Outra página. Data importante: caiu o primeiro dente de leite do meu filho. Fato de relevância incontestável! Devia ser um feriado particular na vida dele por todos os anos que se seguissem. Mãe é bicho bobo (risos)! Falando sério, é a representação da mudança. Do temporário pelo definitivo. E, aos seis anos, essa criança já começa a se vestir de definição. É tão cedo ainda! Nada deveria ser pra sempre aos seis anos de idade.

E datas, aniversários, e festas, e brigadeiros, e bolas, e comemorações, e decisões, e decepções, e conquistas... tudo resumido num revolver de páginas. Tudo representado por lógicas sequências alfabéticas. Tudo delineado por um conjunto de palavras encadeadas.

Esbarro em umas lágrimas e elas voltam vivas como se nascessem nesse instante. Quase um ano depois! Um brilho apagado, uma saudade irremediável. Alguém se foi. A dor, mais aplacada hoje do que ontem,  persiste e se transforma num aprendizado de distância.

Distâncias... efêmeras ou perenes. Se há vida, podem ser passageiras. Vai depender da habilidade e da vontade de cada um em mantê-las, encurtá-las ou mesmo eliminá-las. São desafios que podem ou ser não ser enfrentados, cabendo ao indivíduo pôr a relação numa balança e verificar se vale a pena uma reaproximação. Mas, ai! Se as separações são daquelas vivificadas pela morte, resta-nos aprender com a saudade e alimentar a esperança da eternidade.

Encontro uns planos descritos no papel.  Que felicidade! Foram totalmente realizados. Claro está que nem tudo saiu como o planejado. Voilà! Est la vie et la vie c´est  très compliquée! (espero que ainda me lembre das minhas aulas de francês). Nem tanto, nós é que fazemos questão de emaranhá-la muitas vezes.

Nessas alturas já estou pelo meio do ano. Já passaram a febril correria do carnaval, a gulosa comoção pascal, as emocionadas compras de maio e chego às flores e aos bombons de junho juntinho cartão de "Feliz Dia dos Namorados!" 

É inverno, no entanto o espirito está pra lá de aquecido. É chegado o meu momento de comemorar mais um ano de existência. Se me pego pensando nos anos que se passaram haverá para nós duas possibilidades: ou jamais chegarei ao fim desta crônica ou então acabarei escrevendo um livro de memórias, nesse caso não estou certa de que você tenha a paciência necessária para chegar ao seu fim. Optarei, em nosso benefício, por não pensar no assunto.

Sou estudante. É agosto. Recomeçam as aulas. Hora de estudar! É também hora de ceder aos apelos da mídia e sentir um desejo incontrolável de presentear o pai precisamente no segundo domingo desse mês.

Segundo semestre afora. Primavera, flores, cores, amores, dores e um bocado de rimas simples também só porque, de repente, me deu vontade de escrever desse jeito. A essa altura já registrei um tanto de nomes e aniversários que nem mencionei aqui, mas esse não vai ter jeito. Sou mãe, né?! E coruja! É a comemoração do nascimento do filhote. Como está crescido! Mais festa, bolo, parabéns e aquela coisacada toda a que se tem direito na ocasião. E seguem mais datas importantes e mais apelos comerciais para o exercício de presentear.

Outubro vem fortalecendo a certeza de ter sido agraciada. com uma verdadeira amizade. É um período de partilhas, de cumplicidade, de gargalhadas. Euzinha e Tuzinha. Amigas pra vida toda. 

Novembro. Páginas vazias. Um mal sinal. Sintoma de um leve e transitório adoecimento de alma.

Datas festivas, funestas, patrióticas e chegamos a dezembro. Aí é pura apoteose. Embora haja gritos pelo mundo inteiro ordenando: ao consumo! Há uma aura diferente que emana das pessoas. Não é regra, todavia é mais fácil encontrar sorrisos pelas ruas, receber notícias de um amigo a quem não se vê há muito tempo, de ouvir e formular um pedido de desculpas, escutar uma oração. 

Deus! Há música nas praças, nos shoppings, nas igrejas. Todos os corais afinam suas vozes para cantar glórias, alegrias, votos de felicidade. Ouça: é um solo de violino na apresentação pública da Orquestra Sinfônica Brasileira. Sublime. Harmonia de sons e movimentos. Inclinada, pende a cabeça do músico. Molemente o violinista procede o musical feitiço, que acentua-se quando o solo é  interrompido pelo vigor dos outros instrumentos. Vem, então, um  crescente de vibrações, de gestos, de sensações até que o maestro desce a batuta e finaliza o espetáculo. Êxtase! A plateia explode em aplausos.

Passou o Natal. É tempo de balanço, saldos, resultados e de esperança. Esta, sem dúvida, a minha dileta palavra dentre todas as outras que provêm desse dia 31.  Chegar ao 31 de dezembro novamente é poder sonhar com novos trezentos e sessenta e cinco dias em branco, ávidos pelo preenchimento de uma escrita feliz. Vamos a isto!

Feliz Ano Novo!








Observações:
Fazendo arrumações e balanços de fim de ano, reencontrei esse texto. Ele foi escrito em 2001 e, devo dizer, é bem curioso lembrar de um tempo que meu filho ainda era uma criança. Observar como as coisas mudaram, que minhas amizades permaneceram. Resolvi publicá-lo por conta da época e fiz pequenas modificações no original. Espero que tenham gostado.

Fontes das imagens:

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Crônica de Natal

"Salve, Jesus amado!
Salve, imortal Jesus!
Salve, Deus Humanado!
Salve, Esperança e Luz!"



Estamos quase lá! Falta um pouco mais de vinte e quatro horas para a celebração do Natal. Muitos de nós ainda estamos preocupados com os últimos presentes a serem comprados, com o jantar, com os amigos e familiares que vão chegar ou com as pessoas queridas que sabemos que não virão. Enfim, cada um de nós tem os seus motivos para estar mais eufórico e agitado ou mais introspectivo nessa data. Querendo ou não, a verdade é que o natal mexe com a gente.

Tenho lido por aí questionamentos relacionados ao fato de o “espírito de bondade” estar atuante apenas nessas datas festivas. Entendo a preocupação, mas na verdade, acho muito bom que, nesse mundo tão acelerado e digital em que estamos inseridos, haja uma data que toque os nossos despertadores internos e nos lembre que abraço é bom, que carinho é uma delícia, que um mimo pode tornar a vida da gente muito mais alegre, que presença é fundamental e que nesse tique-taque galopante dos dias de hoje o mundo ainda pode parar ao som do cuco que nos avisa: “Nasceu-nos um Menino na gruta de Belém, tão doce e pequenino, quanta lindeza tem!”

Acho bom à beça relógios no mundo inteiro badalando que é tempo de olhar pra dentro e também é tempo de olhar pro outro, que a vida é muito mais simples do que esse cavalo de batalhas que insistimos em montar trezentos e sessenta e cinco dias por ano, que despir a armadura é ótimo e que ainda há tempo para ouvir os apelos das crianças que escrevem cartinhas para o Papai Noel, dos idosinhos institucionalizados que desejam tão pouco de presente e de pessoas que por vezes estão tão perto de nós e que apenas desejam um pouco de atenção.

Das festas cristãs, talvez o Natal seja a mais alegre. Toda a sua simbologia é mágica e maravilhosa. É um momento povoado por anjos, por estrela, por anúncios, pela fé e pela superação. Maria e José com sua fé inabalável entendem o papel a eles destinado e se põem humildemente a auxiliar na realização de uma obra muito superior as suas existências. Recebem uma missão e seguem. Enfrentam preconceito, susto, adversidades, mas obstinados, empreendem a sua jornada para tomar nos braços e ajudar a criar o filho Deus. Olha aí Deus dando uma colher de chá para a humanidade e fazendo um convite para a participação num projeto amplo e sem precedentes. Deus confia seu filho a homens comuns.

O Menino Deus nasce simples, sem recursos e nos ensina que o importante mesmo é nascer, é chegar, é brotar. O nascimento Dele era muito mais importante do que todo o contexto. Na vida, não importa se nos hospedamos num hotel cinco estrelas ou numa estrebaria, no fim das contas o que vale mesmo são as nossas ações. O menino, que teve como berço uma manjedoura, cresceu, foi firme em suas convicções e foi tão valoroso que dividiu a História da Humanidade em dois momentos: antes e depois de Cristo. Claro, não há comparação possível entre o projeto de vida Dele e o de cada um de nós.

Somos humanos, temos objetivos muito mais modestos nesse planeta, contudo cabe a cada um de nós procurar alcançá-los diariamente. Ser humano é um conforto. Ser humano é entender que somos falíveis, entretanto somos também reinventáveis e compete a cada um de nós tomar as rédeas de seu próprio destino e procurar viver melhor e deixar que os outros vivam melhor também.

Vivemos em um mundo cheio de diferenças e de diversidade. Basta olhar em volta. Somos rodeados de verdes, azuis, pássaros, répteis, mamíferos, incontáveis seres vivos e não vivos coabitando a Terra. Há tanta beleza espalhada por aí. Todavia, nós humanos temos sacrificado sobremaneira as outras espécies. Temos causado danos irreparáveis ao planeta. Precisamos pensar nisso e, falando sério, já passou da hora de começarmos a tomar atitudes para mudar essa realidade.
Olhe aí, ouça bem, o Espírito de Natal tá chegando e acho que, mais uma vez, tem um recado importante pra nós: Não podemos mudar tudo ao nosso redor, mas podemos, a partir de nós mesmos, transformar o mundo em um lugar mais solidário e feliz. O segredo é viver e deixar viver. Mãos à obra e feliz Natal!





Ouça:
"Doce é sentir" com as

 Meninas cantoras de Petrópolis



Fonte das imagens:
https://pixabay.com/pt

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Mais agradecimentos

Olá, galera!
Preciso agradecer mais um pouco,
afinal são mais de 10.000 acessos.
Obrigada pela força, pelas leituras, 
pelos comentários, pelo carinho.
Esse foi um resultado a que chegamos juntos.

A vocês todo meu respeito, toda minha gratidão
e todo meu carinho.
Obrigada!

Marise.

domingo, 18 de dezembro de 2016

As lições de Garibaldi

Garibaldi era um gatinho arredio. Opa!  Ah, sim! Vou falar de um gatinho que para falar do personagem histórico, Giuseppe Garibaldi, há bastantes historiadores competentes.  Voltando ao felino, Garibaldi foi abandonado por sua família original, assim que esta mudou de endereço. Ele e uma adorável irmãzinha foram deixados sozinhos numa casa sem água nem comida, entregues à sorte. Sem qualquer combinação, eu e outros vizinhos, resolvemos alimentá-los.  

Todos dois eram bem miudinhos, embora não fossem filhotes, mas se a relação com a fêmea era bem fácil, Gari não chegava nem perto de nós. A “menina” deve ter sido adotada, ele continuava lá, só e fugidio. Num dia de chuva, me seguiu até em casa e, uma vez que pus um potinho com água e outro com ração na varanda, ele jamais foi embora. Era uma relação a distância: fugia de nós, dormia no balanço e estava feliz.

Garibaldi na rede, meu companheiro de embalo
Gato tigrado, de olhos verdes e expressivos, muito bonito. Incomodava-me o fato de não poder acarinhá-lo e, de pouquinho em pouquinho, fui tentando aproximação com ele. Foi um namoro longo, o que me fez lembrar da raposinha de O Pequeno Príncipe. Fomos nos aproximando um tantinho mais a cada dia, até que ficamos íntimos amigos. Era muito carinho, muito cafuné, ronrom pra todo lado e muito pãozinho amassado. Confiando em mim, expandiu seus vínculos com meus familiares também. Não demorou nada e já era o xodó da família. Garibaldi experimentou o afeto e o aprovou. Ficou especialista. Em pouco tempo era querido de conhecidos e desconhecidos.

Como havia sido criado soltinho da silva por aí, não se adaptou quando quis trazê-lo para dentro de casa. Era julho, estava frio e me preocupava com o seu bem-estar. Em casa, miava uma barbaridade e se batia contra as janelas querendo sair. Desse modo, mesmo no frio, Gari ficava no quintal e dormia na varanda, vezes no balanço, vezes dentro de um cestinho preparado com todo carinho para ele.

Valente, virava e mexia, metia-se em disputas felinas com os gatos da vizinhança até que um dia sumiu. Uns três ou quatro dias depois foi achado por uma conhecida e levado muito machucado a uma clínica onde permaneceu internado. Ficamos angustiados, não tínhamos notícias dele.  Quando soubemos de seu paradeiro e de sua situação, eu e minha família trouxemos o bichano para casa. Estava extremamente ferido. Eram curativos e cuidados diários e muita sujeira para limpar algumas vezes por dia. Depois de melhorar um bocado, de ficar mais forte, passou por uma cirurgia para amputação do rabo e vieram mais cuidados, mais curativos, mais despesas, mais sujeira, mais limpeza, mais dedicação. Minha área de serviço virou uma enfermaria por uns três ou quatro meses. Com os mimos recebidos, Garibaldi teve uma recuperação surpreendente.

Faltava quase nada para a cura completa, apenas uma pequena feridinha perto do coto de seu rabo, quando o gato, que já estava bem fortinho, começou a se sentir incomodado com o fato de estar “preso” e novamente começou a bater-se contra as janelas na tentativa de ganhar a liberdade.

Eu o soltei. Ele ficou numa felicidade sem medida. Lá estava o Garibaldi em cima do telhado apanhando sol novamente. Como era de costume, ficava na minha varanda, vinha fazer as refeições e aproveitávamos para cuidar do ferimento devolvendo-o logo em seguida a sua vida independente, assim se passaram dois dias. Depois disso, ele sumiu e deixou uma enorme saudade em seu lugar.

Prefiro pensar que está vivo, que alguém tenha visto aquela pequena ferida e que, sem saber de toda a sua história, tenha se apiedado dele e o levado para casa para lhe dar abrigo e cuidado. Pensar dessa maneira me conforta.

No último dia 13, fez um ano que meu gatinho malandro, meio Mandachuva e meio Batatinha, foi embora sem deixar sinal e, como ele marcou a minha história, fiquei pensando em tudo o que pude aprender com a presença e com a ausência dele em minha vida.

A primeira lição que aprendi foi que amor de bicho é autêntico. Não faz média nem nove horas. É papo reto. Fica tudo às claras sempre. Se quer proximidade demonstra e quando quer distância também.

A segunda foi sobre a importância da adoção responsável. Bichinho é para sempre. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Isso precisa estar claro. O tratamento de Garibaldi custou uma nota em um momento bem complicado a minha vida. Ainda assim, como deve ser, eu e minha família não abrimos mão do pequeno por conta disso. 

Cafuné no Garibaldi
As outras lições são mais sutis e dão conta de que, não importa o que se faça por quem quer que seja não se sabe a hora em que esse convívio cessa. O futuro é uma incógnita e é preciso que se faça o melhor possível.  É necessário aproveitar bem as oportunidades que se apresentam. Aprendi que afagos ajudam na recuperação dos enfermos, e que isso não é mito, é visível a olho nu. E constatei que há um limite para auxiliar o outro. É importante respeitar seu espaço, ainda que isso seja difícil e doloroso. Garibaldi me ensinou que, quando tudo dá errado, é preciso converter a tristeza da distância em boas lembranças para que, no fim das contas, sobre gratidão pelo tempo vivido em comum.

Gatos, em geral, nos ensinam que amor e posse não combinam, que devemos respeitar o desejo alheio, que sutileza é muito mais eficiente do que agressividade e que liberdade é fundamental. Esses animais fantásticos interagem conosco o tempo todo e nos fazem humanos um pouquinho melhores.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Volúpia


Estrala a terra fertilizada
convulsivante da primavera.
Palavras, métrica, espera:

Volúpia das marcações.

Contos, poemas, canções,
cordas, sonoros sons.
Melodiosas paixões:
Volúpia dos violões.


Dançam, inspiram, explodem,
choram, versejam, gracejam,
cochicham e gaguejam:
Volúpia das emoções.

Homenagens, aplausos, beijos,
sonhos, ânsias, desejos,
murmúrios, recados, bocejos:
Volúpia das realizações.

Correm, socorrem, encantam,
ensinam e plantam.
Colhem, beneficiam, recolhem:
Volúpia das profissões. 

Crianças, doutores, atores,
pacientes, intérpretes, escritores.
Gente de todas as cores:
Volúpia das variações.

Tristezas, granadas, minas,
lágrimas, amputações,
lamúrias, guerras, vergonha:
Volúpia das destruições. 


Chico, Strauss, Cruz e Souza, 
Sant´Anna, Caetano, Camões.                         
Um Augusto que é dos Anjos, 
Bandeira, um anjo torto e Drummond.
Volúpia das criações. 

Voa Poesia,
leva o teu canto a todos os ouvidos
estejam eles bem ou mal dispostos.
Bate às janelas, abertas ou fechadas,
quaisquer que sejam elas.

Voa, seduz, encanta,
planta e, como em nós realizou,
desperta em todos os mortais
a vontade e o amor pela paz.



Observação: Em 13/12/2016, fez 13 anos que me formei em Letras. Esse texto foi escrito para amigos das faculdades de Letras e Direito da Universidade Católica de Petrópolis em
11 de outubro de 2001.



Imagens disponíveis em:

https://br.pinterest.com/Stevchic/music/
https://br.pinterest.com/explore/partituras-927820568200/

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Lenitivos para 2016

"Tudo ficará claro na plenitude do tempo."
(Alice através do Espelho)

Cena do filme Alice através do espelho
Dois mil e dezesseis ainda nem terminou e eu já preciso falar sobre ele. Tanta coisa preocupante acontecendo aqui e em outros países. Tantas baixas, meu Deus! Quantas! Não tá fácil pra ninguém, como dizem por aí, e eu tenho necessidade premente de escrever. Do contrário, a digestão de fatos tão amargos, fica ainda mais difícil. 

A permanência da crise migratória na Europa, Malauí decretando desastre nacional por motivo de seca e de falta de alimentos, o massacre em Nice em 14 de julho, o processo de impeachment no Brasil, as eleições americanas e a incerteza que trouxeram ao mundo, isso para citar apenas uma pequena parte da aura pesada e tumultuada de 2016, nos dessassossegam. 

Em nosso país tivemos muitas mortes. Muitas mesmo. Inclusive de processos, instituições e afetos, haja vista a morte da moralidade no Congresso Nacional e de muitas amizades pelas redes sociais. A sociedade parece adoecida. Muito radicalismo, muito maniqueísmo, bom senso quase nenhum e significativas perdas. 

Há uma semana, fomos abatidos pelo acidente com o avião que transportava a equipe da Chapecoense, um clube que galgou a primeira divisão do futebol brasileiro por mérito próprio, sem jeitinho, na determinação, na atitude, na organização, na raça e na competência, e que estava prestes a disputar o título mais importante de sua existência. Todos nós ficamos, de certo modo, mortificados naquele desastre, mais ainda com o fato de a tragpedia ter sido causada por falhas evitáveis. O acidente com os meninos bateu, sim, como uma voadora em nossos peitos levando muito da nossa alegria. A vida é tão fugaz! 

Não bastassem esses e outros acontecimentos, temos que dar conta de nossas demandas e dos nossos dramas pessoais, claro. O trabalho que não deslancha como queremos, o colega que resolve infernizar nosso dia, os altos e baixos dos relacionamentos, o dinheiro que está curto e as contas que estão prestes a vencer, para falar o mínimo. É... cada um tem seus problemas.

É imprescindível que nos mantenhamos informados, contudo diante de um ano tão difícil, pessoal e coletivamente (e em todo tempo), carecemos de lenitivos que nos ajudem a preservar a saúde, para não sucumbirmos à tristeza e tampouco à desesperança. 

Cada um tem sua receita própria. Eu, por exemplo, além de tentar me conectar com Deus através da prece, faço questão de me cercar de beleza e de compartilhar um tanto dela diariamente. Percebo alguns amigos fazendo isso também. A arte pode ajudar muito nesse sentido. Esculturas, quadros, romances, poemas, músicas carregadas de harmonia, significado e encanto. Sim! Pode-se usar cada um desses itens, em doses homeopáticas, todos os dias. Todos! Afinal, "a arte existe porque a vida não basta", não é mesmo, Ferreira Gullar? E a beleza é uma das guardiãs da sensibilidade, da humanidade, dos afetos e das emoções.
Amanhacer na Praia de Itaoca-ES

Outra coisa que pode trazer renovação é o contato com a natureza: observar, fotografar, contemplar, ouvir, curtir, sentir. Cheiro de mar, noite de luar, o céu coalhadinho de estrelas ou mesmo cantigas de chuvas suaves me dão uma baita energia. Nascer e pôr do sol ,então, no meu caso, funcionam divinamente.

E tem mais, carinho também faz efeito: abraço de mãe, conversa de pai, beijo de irmã, chamego de filho, papo com amigos, família pra prosear. Brincar com um animalzinho. Sorrir com graças infantis.
Pequenos prazeres podem agir como um bálsamo, embora não funcionem como um milagre. Alguma dor sempre resiste e, cá entre nós, ela é matéria-prima para o nosso crescimento. A dor também faz parte da vida. Cada um deve saber que remédio tomar para enfrentá-la com sabedoria e serenidade.

É importante ter em mente que os excessos são, no mais das vezes, desnorteantes. É preciso buscar o equilíbrio. E não esquecer de reservar um tempo para estar só (isso, para mim, é essencial).

Foi buscando um tempinho de recreio nesses nossos dias tão áridos, que tive uma grata surpresa. Vezes, não é possível assistir alguns títulos que me atraem no cinema, mas eles não me saem da cabeça, com esse, foi o que aconteceu. Era domingo em Petrópolis. Chuva. Frio. “Alice através do espelho”.  Uma sequência perfeita!  Tratando do tempo, “Alice” me conduziu deliciosamente, através da fantasia, a reflexões relevantes para melhor proveito da vida. Revisitei conclusões a que já tinha chegado e a que, em algum momento, todos chegam. São próximas e conhecidas, mas nem sempre as colocamos em prática. Todas as vezes em que ocorrem fatalidades, tomamos resoluções  para aproveitar melhor nosso tempo, mas a medida que os dias vão passando, elas se esmaecem e tendemos a voltar a nossa antiga rotina. É preciso rever essa conduta.

Afinal, o tempo passa mais rápido do que nos damos conta.  Nosso tempo nessa vida tem limites. Haverá um tempo em que não teremos mais acesso aos nossos bens materiais (nossos?!). Nossos preconceitos nos fazem perder tempo e oportunidades, já que, apesar de muitas vezes nos sentirmos os donos da verdade, não podemos julgar com justeza sem o conhecimento de todos os fatos. Fazer boas escolhas deve estar na pauta do dia para aproveitarmos bem nosso tempo. “Um dia todos acabam partindo com o que têm”, na verdade, com o que são. E, quando esse momento chegar, é muito bom que tenhamos tido boas lonjuras, enquanto estivermos por aqui, que seja a bordo do Maravilha.



 

Contextualização:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/04/malaui-decreta-desastre-nacional-por-seca-e-falta-de-alimentos.html

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/07/1791843-caminhao-avanca-sobre-multidao-em-festa-da-queda-da-bastilha-em-nice.shtml

Colombianos: especialistas em solidariedade.
http://globoesporte.globo.com/sc/futebol/times/chapecoense/noticia/2016/11/atletico-nacional-lota-estadio-em-apoio-chape-uma-nova-familia-nasce.html

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

AGRADECIMENTOS



Meus caros.

Hoje vim agradecer pelos mais de 5000 acessos ao blog. Uaaau! Devo confessar que estou feliz da vida. Afinal, quando comecei a escrever por aqui, jamais tinha sonhado em atingir essa marca. Pra mim ainda é uma grande surpresa que haja tantos acessos oriundos não só do Brasil, mas também de outros países (EUA, França, Alemanha, Portugal, Polônia, Reino Unido etc). Nunca havia imaginado essa possibilidade. Obrigada mesmo! Pelo carinho e pela curiosidade.


As postagens mais acessadas até hoje são: "Porque eu sei que é amor", "Dos presentes que a vida nos dá" e "Oração por um beijo de amor (ou por um modo de amar)", nessa ordem.

Espero que deixem suas impressões e comentários. Isso pra mim é de fundamental importância. Quero (e preciso) ouvi-los. Ah! E, se quiserem seguir o blog também, juro que não vou reclamar (risos, risos e risos). Fico curiosa para saber quem é que acompanha as publicações (vejam vocês!) Para os que já são seguidores, um beijo especial. Obrigada pelo incentivo de sempre.

Para todos que acessam o blog desejo muita felicidade, bastantes reflexões e boas energias sempre. Muito obrigada!
Com  gratidão, afeto e entusiasmo,
Marise Bender.

domingo, 27 de novembro de 2016

De pai para filha

O que a gente faz, faz de coração.
Fala sério! Quem nunca sofreu decepções? E quem, depois de sofrê-las, nunca precisou de um colo? Quem nunca ficou colocando na balança se devia ter feito tudo o que fez em um namoro, uma amizade ou casamento? Quem?! Quem nunca achou que se doou demais em uma relação, que atire o primeiro lenço.

Em matéria de relações humanas, todos nós temos nossa dose de complicação. Escreveu não leu, ou mesmo que tenha lido, há um problema pra enfrentar. Dores, tristezas, e desilusões fazem parte dos desafios que os relacionamentos nos propõem.

Como tantas outras pessoas, tenho lá o meu lado “complicado e perfeitinho”.  Sim, também eu sou uma mulher de fases (graças a Deus!). E quando o calo aperta, quando a dor incomoda, trato logo de procurar refúgio para uma conversa terapêutica. Desabafar pode ser curativo, à medida que falamos daquilo que vai dentro de nós, nos escutamos e nos compreendemos um pouco melhor. Acho que é por isso que, em geral, quando temos um problema,  precisamos falar daquela história muitas e muitas vezes, até que ela se esgote em nós. É como se ela fosse se resolvendo em sílabas. Haja ouvidos disponíveis para nos auxiliar nessa tarefa! Ainda bem que eles existem.

Uma conversa desse naipe requer que esses ouvidos sejam confiáveis e generosos. Somente aqueles que nos amam (e amam muito) têm a força necessária para conviver com o melhor e com o pior de nós. Meus pais são desse jeitinho: pacientes e altruístas.  Sempre prontos a me escutar, ainda que às vezes, sinto, achassem melhor não verem de forma assim tão crua meus dramas e dissabores. Fortes, firmes e gentis, não raras vezes, me emprestam os ombros e me dão parte significativa de seu tempo. Tenho ótimos amigos, que também me presenteiam com a sua cumplicidade, mas hoje quero mesmo é falar de um diálogo que tive com meu pai.

Pois é, já faz um tempo, estava eu num chororô daqueles, já soluçante, descendo a Serra Velha da Estrela, dirigindo o carro de meu pai e dividindo com ele toda a minha angústia. Chorosa e irritada (com raiva mesmo), eu reclamava o tempo que havia gasto e o tanto que tinha doado de mim mesma naquele relacionamento que me causara tanto sofrimento. Ia eu, Serra abaixo, desfiando um enorme rosário de “eu não”: eu não devia ter feito isso, eu não devia ter dado aquilo, eu não devia tê-lo ajudado em tal ocasião, eu não devia..., ele não merecia...  quem nunca, né?! Lugar comum de todas as frustrações. Meu pai olhou pra mim e, com a voz doce e firme, me chamou à razão: você devia ter feito tudo o que fez, sim! Nas relações, devemos sempre dar o melhor de nós e, se for possível, deixar a pessoa com quem nos relacionamos melhor do que a encontramos, nunca pior. Em cada relação temos que acreditar e oferecer o nosso melhor. Se não der certo, você terá feito o máximo que pôde. Você estará em paz.

Aquilo foi como um choque. As lágrimas cessaram instantaneamente.  Meus horizontes se ampliaram e comecei a enxergar a situação de uma perspectiva completamente diferente. Aquilo era verdade, a razão até já sabia, mas, naquele exato minuto, tinha feito sentido pra mim. Acolhi aquelas palavras como preciosidades. Conversas desse quilate reverberam em nós pela eternidade, autêntica herança deixada em nosso território afetivo. Jamais me esqueci desse dia.

A dor é justa, dividir-se é preciso, reclamar faz parte, mas, vezes, ficamos tão autocentrados que nos esquecemos de olhar o relacionamento como um todo, como oportunidade de crescimento, como parte de um aprendizado, como uma experiência rica, repleta de vivências e significados. Como é bom ter alguém que nos ajude a despertar desse transe! E como é bom que esse alguém seja o seu pai! Valeu muito (e continua valendo), pai!


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Cotidiano

Todo dia
levantar da cama,
abrir a janela,
tomar o café, 
sair para trabalhar.
Reparar no dourado do Sol
que brilha
de maneira espetacular.

(Ou, simplesmente,
a chuva observar)

Todo dia
sorrir, chorar, sei lá.
Cantar, falar, meditar.
Pensar?! Todo dia!

Todo dia 
conquistas a realizar:
A paz, 
momentos especiais,
uma história pra lembrar.

Todo dia
a missão de escrever
nesse caderno, tão particular,
uma página nova de vida
pra saborear.

Todo dia
deitar, dormir, sonhar,
para então,
no outro dia poder
recomeçar.
(2003)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A respeito de Aquarius


Então é mesmo assim, não é?! A gente tem uma vida, uma história, tem convicções, sabe o que quer, atribui valores sentimentais a casas, coisas e lugares, mas o mundo quer diferente e, de repente, acha que sabe o que é melhor para nós. Então, o mundo tenta nos convencer disso. Tenta nos provar que está certo e nos faz até duvidar de nossa própria sanidade mental. O mundo tenta nos confundir. Ele nos faz sentir inadequados. E, quando resistimos, primeiro tenta nos seduzir, se não cedemos, tenta nos coagir. Trapaceia e quer porque quer nos empurrar seu ponto de vista goela abaixo.


O mundo joga duro, joga sujo, joga pesado. Ele se aproxima dos nossos entes queridos, nos cerca de todas as formas, de sorrisos a ameaças. Não tem tempo para ouvir as nossas histórias e nem quer saber o que realmente é bom para a gente. O mundo gira, em grande medida, na frequência de um cifrão. O mundo é, muita vez, um leilão a céu aberto em que se crê que tudo na vida tem um preço.

Esta é a grande sacada de Aquarius: fazer-nos pensar naquilo que realmente importa, nas lutas que devemos travar, nas consequências das nossas escolhas, nos obstáculos que teremos que enfrentar por conta delas. O mundo representado em Aquarius é o mundo dos negócios, mas essa é só uma perspectiva dos vários mundos em que estamos inseridos. As analogias com a política, o esporte, a família, entre outras, são inevitáveis.

O mundo nos empurra como massa de manobra, segundo seus interesses nem sempre justos e lícitos e espera que ajamos segundo as suas conveniências, segundo o que é melhor pra ele. É preciso que estejamos atentos o tempo todo.

O filme é um mote para um balanço, para olharmos o mundo de fora pra dentro e analisarmos as relações que ele estabelece conosco. Para descobrirmos as sacanagens diárias que temos que enfrentar. Para aprendermos a lutar por aquilo que queremos e enfrentar as adversidades. Para lembrar das coisas que sabemos, mas que por vezes esquecemos, como o fato de que nem toda gente joga limpo, que a maioria trapaceia e, vezes, trapaceia com um sorriso no rosto, se achando muito esperta.

A personagem central, Clara, tem objetivos bem definidos, conceitos muito bem construídos e uma fibra impressionante. A escolha de seu nome certamente não é coincidência, como também não será por acaso a escolha do nome do antagonista, Diego (aquele que doutrina). Clara joga limpo e vai, dentro da licitude e da legalidade, lutando com garra por aquilo em que acredita. Mulher independente e corajosa, que aprende a duras penas que, na vida, não se pode deixar adoecer.  Clara vive os dramas da atualidade e não esmorece. Ela não permite que ponham preço em seus afetos e tem um olhar diferenciado sobre a realidade, o que me fez lembrar um poema de Affonso Romano de Sant´Anna:

“ERGUER A CABEÇA ACIMA DO REBANHO

Erguer a cabeça acima do rebanho
é um risco
que alguns insolentes correm.

Mais fácil e costumeiro
seria olhar para as gramíneas
como a habitudinária manada.

Mas alguns erguem a cabeça
olham em torno
e percebem de onde vem o lobo.

O rebanho depende de um olhar.”

Embalado por uma trilha sonora dos anos 60/70/80, o longa tem um atrativo a mais para os amantes do vinil e uma evidente relação entre as letras das canções selecionadas e os diferentes momentos vividos pela protagonista. Enfim, o filme de Kleber Mendonça Filho é um convite à reflexão e a um olhar mais amplo sobre o mundo e vem carregado de princípios sobre os quais devemos lançar luz para a escolha de uma vida melhor e para que saibamos identificar de onde vem o lobo nosso de cada dia. Vale a pena conferir.


Confira o trailer do filme:

sábado, 30 de julho de 2016

Dos presentes que a vida nos dá

Já faz uma semana! Como passou rápido! Era um domingo ensolarado de azul imponderável no céu. Manhã dourada, dessas que nos desassossegam e nos impelem a viver. Bora sair, meu filho! Bora ver o sol, respirar,  contemplar a natureza. O dia está lindo! E fomos!

Mirante do Cristo, um de meus passeios prediletos. Passava das dez, boa hora pra pegar a estrada e descer um pouco. A serra iluminada é, sem dúvida, das coisas que aprecio. Música, cantoria, o filho e a namorada dele: ótimas companhias. Domingo perfeito.

Desce Serra, sobe Serra e o Mirante está florido. Repleto de turistas abismados e deliciosamente deslumbrados e curiosos. Tudo em festa. Tudo cheio de vida.

Contemplação, poses para fotos, flashes da natureza. Todas essas coisas triviais e saborosas que um passeio suscita. A alegria parece mesmo ser irmã siamesa da simplicidade. Gostoso sentar e conversar naquele lugar. Nessa época do ano, o sol é manso, aquece, mas não queima. A temperatura fica confortável. Adoro os dias iluminados de inverno.

Depois de alimentarmos a alma, hora do regresso! Eu e os meninos já estávamos bem contentes com o recreio de domingo e, para o dia, esperávamos nada mais que um bom almoço. Foi aí que veio a grande surpresa. Na estrada, antes um pouco de uma curva, um serzinho diferente estava decidido a atravessar a pista movimentada. Era um bicho preguiça. Ficamos apreensivos. Meu filho o protegeu com sua moto, enquanto eu parava o carro em local seguro. Foi uma cena bonita de ver: Leo ia atravessando a moto e desviando o fluxo de veículos, enquanto o bichinho estava na estrada.

Eu o segurei. Sem entender o perigo que corria, emitiu um sonzinho irritado, uma espécie de rosnado pra mim. Fiquei emocionada com aquela oportunidade. Nós o levamos de volta para a mata e ficamos ali observando enquanto subia em uma árvore.

Encantados, mas temerosos por sua segurança, comunicamos o fato e a localização à Concer. Na segunda, telefonamos para a APA Petrópolis informando o ocorrido e pedindo orientações. Curioso, sempre observamos as placas alertando sobre a possibilidade de animais silvestres cruzarem a pista na Serra, no entanto, nunca pensamos no que fazer num caso desses.

Sei, é motivo pra pensar nas razões pelas quais, micos, quatis, gambás, capivaras, esquilos e preguiças vêm se aproximando cada vez mais do homem por aqui. As razões são sérias. Contudo, hoje prefiro ficar com a poesia do instante: a oportunidade de acolher um bichinho amedrontado que, quando mais calmo, se deixou até acariciar e de merecer um pouquinho daquele olhar terno. Diz meu filho: - Preguiças têm uma carinha de vó... como resistir!?

Era domingo e, quando menos esperávamos, o imprevisto surgiu com pó de pirlimpimpim e cobriu o nosso dia de magia. Há momentos poéticos que se tatuam na alma da gente. É preciso agradecer.
ENDEREÇOS ÚTEIS:

APA Petrópolis

Concer (Concessionária que administra a Rio-Petrópolis)
http://www.concer.com.br/
Telefone: 0800-282-0040

As fotos são  mesmo da nossa preguicinha aventureira. 

domingo, 17 de julho de 2016

Ilusões e desventura

De todas as tragédias humanas, aquela que considero mais impressionante é alguém perder-se de si mesmo. A sucessão de escolhas mal feitas, a má sorte e a crença em ilusões para a tomada de decisões são maneiras eficientes de atingir esse destino.
A perda de uma ilusão pode, muitas vezes, nos mostrar o quanto a vida pode ser dura. É aí, nesse ponto nevrálgico da existência humana que o longa “Estive em Lisboa e lembrei de você” faz sua arte.

O filme é uma porta aberta para o território das reflexões e aborda delicadamente a profundidade de uma vida triste. Trata-se de um escrutínio do papel importante e definitivo que cada uma de nossas escolhas desempenha em nossas vidas.

Não é possível dizer que se consegue sair do cinema sem algum grau de aflição. Durante a projeção fica-se o tempo todo com o coração inquieto a espera de um desfecho trágico e clichê, o que não acontece. A tragédia existe, no entanto é exposta não pelo desespero, mas por sua afinidade com a realidade. É a proximidade com o real que nos arranca a tranquilidade e que nos põe a pensar.

Todo mundo conhece um Serginho. Um cara que tinha uma vida toda pela frente e que de repente, sem mais nem meio mais, enfrenta a explosiva combinação de uma sorte ruim com conselhos desacertados e escolhas mal feitas.

Todo mundo conhece alguém que se perdeu, que se afastou de si próprio nas asas de uma ilusão. Todo mundo já fez escolhas mal feitas. Todos se sentem, em alguma medida, vulneráveis diante da história do mineiro Sérgio.

Pouco a pouco, cena após cena, vamos descortinando uma certeza que todos nós temos e que, no entanto, não queremos admitir: o mundo não é lugar para os ingênuos e tampouco perdoa os incautos.

A perda das raízes, do sentido de viver é o ponto alto do longa metragem. A trama aborda ainda outros pontos importantes, como a inabilidade de alguns profissionais de saúde mental em lidar com um surto psicótico, a importância de amizades verdadeiras, sobretudo quando se está em terra estrangeira, a superação e a sucumbência aos vícios, tais como o cigarro e a bebida alcoólica, a vulnerabilidade a que a paixão nos expõe.


“Estive em Lisboa e lembrei de você” é uma produção para aqueles que gostam de análises profundas e que estão preparados para sair do cinema com a sensação de terem levado um certeiro e desconcertante soco no estômago. 

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Contemplativa

É julho. Os dias estão mais frios, embora ensolarados. As manhãs mais claras e douradas e as tardes alaranjadas. Há nuvens cor de rosa no céu ao entardecer. As copas das árvores estão mais verdes e salientes. O azul celeste mais celestial que nunca. Há flores, cores, perfumes. Julho é pura sinestesia.

As noites estão mais negras. As estrelas mais brilhantes. A lua mais prateada. A brisa sopra bem mais fresca, ainda que não chegue a ser cortante. Os casacos saem dos armários e gavetas e vêm aquecer seus donos. O inverno faz-se ver a olhos nus.

É julho. Estou em Petrópolis.  Está aberta a temporada de contemplação da natureza. A cidade está em festa. Há tantas flores por aqui. Espatódeas, mulungus, rosas, lírios, tumbérgias e cerejeiras. Os pássaros estão em alvoroço. Como não ouvir a algazarra das maritacas?! Os quatis colhem as nêsperas nos pés. O frio faz bem ao que percebo. Às plantas, aos bichos e às gentes que se põem a observar essa profusão de cores e tamanhos e belezas várias.

A luz é tanta, os dias têm estado tão belos, que os monumentos estão ainda mais monumentais e atraentes.

Ah, as cerejeiras! As cerejeiras são uma emoção à parte. Há uma poesia particular em suas nuances de rosa. Há um tanto de magia nas pequenas pétalas espalhadas pelo chão. É julho e o Quitandinha floresceu. As copas cor de rosa esbanjam charme. Atraem olhares. Arrancam cliques e flashes.  A beleza fugaz das cerejeiras desperta o desejo de eternidade. Espocam fotografias por toda parte.

Adultos, crianças, jovens, idosos... cerejeiras, fotos, sorrisos. São famílias inteiras passeando pelo jardim do palácio. Encontro de gerações, pura integração. Onde quer que se passe, suspiros e exclamações. As pessoas parecem mais felizes com a exuberância rosada de uma sakura. Tudo fica incrivelmente mais mágico e bonito perto de uma delas.

A floração das cerejeiras esse ano chegou como um bálsamo para tantas tensões que temos vivido. Tem cumprido sua missão com louvor: fazer brotar em cada um a capacidade de sonhar, de observar, de apreciar.

Entre abelhas, gentes e beija-flores a natureza desabrocha e nos desperta as sensibilidades. Muita vez a beleza nos salva, nos devolve o equilíbrio.

É hora de contemplar.