quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Saia justa

Um dia você vai andando leve pela vida e, de repente, tropeça em um pedido. A sensação é mais ou menos como se num passe de mágica o tivessem tirado de uma confortável túnica e o envelopado numa saia justa.
Há várias maneiras de deixar alguém constrangido. Fazer pedidos inapropriados é uma delas. Há solicitações que ferem princípios e, ao contrário do senso comum de que “perguntar não ofende” (algumas perguntas são verdadeiras ofensas), há pedidos que, feitos através de perguntas ou não, ofendem.
Alguns ofendem moralmente, outros ferem a inteligência. Há pessoas que esperam de nós cada coisa que nos pomos a pensar:  mas quando é que foi mesmo que eu transmiti a ideia de que isso era possível?
Imprensar o outro entre os próprios limites, princípios, crenças, diretrizes e o bem querer que tem por alguém é cruel e desleal.
Falo em bem querer porque normalmente tais solicitações provêm de pessoas que sabem exatamente a medida do afeto que se tem por elas. É valendo-se desse afeto que dardejam o que querem  no peito do outro sem  que isso lhes cause incômodo.
É simples e indolor negar algo a alguém com quem não se tem nenhum envolvimento. De quem não se espera compreensão. E não é uma compreensão da situação somente, mas a compreensão de você como um todo, como o ser humano que é.
É preciso, antes de solicitar, avaliar a exata noção dos limites do outro.
Noção. A palavra é essa. Bem desse jeitinho que está na moda, à maneira da gíria. Senso. Bom senso.
Algumas pessoas esperam de nós aquilo que não podemos ou não queremos ser, aquilo que não temos para dar.
O que fazer quando recebemos pedidos assim? Negar, é claro. Ainda que por vezes seja necessário vencer nosso próprio calvário.
Afinal, podemos romper com qualquer pessoa, menos com nossa essência.

domingo, 2 de outubro de 2011

De alto a baixo

Moradora da Serra, mas de olhos compridos no mar. Assim eu sou. O mar me encanta sempre e, mais do que isso, sempre me faz apaziguada com todo seu esplendor e energia.
Uma vez por semana, por compromissos de trabalho, cumpro o ritual de encontrá-lo. São rápidos momentos, menos que um namoro, quase um flerte. O mar está lá, mas não é o meu destino decerto. Fica ali no meio termo entre o desejo e o compromisso. O mar é só trajeto.

Descer a Serra invariavelmente é um prazer. A natureza exuberante.  O rádio sintonizado em uma boa emissora: trilha sonora de primeira. O iminente encontro com o mar.
Cada viagem é uma viagem em dois aspectos: o objetivo e o subjetivo. Enquanto a estrada vai surgindo e o verde se escoando da paisagem, há sempre muito tempo de pôr as idéias em ordem, é sempre tempo de ficar comigo mesma.
Nada me estressa. Nem o trânsito, nem a mudança de odores, nem mesmo espaços de paisagens tão hostis. É tudo parte de um rito de passagem. “Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor”.
Ao nível do mar, a primeira imagem que observo com delícia é a Igreja da Penha. Pequenininha e graciosa (se vista à distância) pairando sobre a Baía abençoada. Sempre um convite para o agradecimento aos céus por mais uma semana, por mais mar, mais Cristo Redentor, mais Rio de Janeiro - um amor bem antigo. Desde criança esse lugar me fascina.
No Rio, nessas idas semanais, as paisagens, no mais das vezes, são as do centro da cidade. Lapa. Bonde. Catedral. Academia Brasileira de Letras. Biblioteca Nacional. Um pedacinho do Santos Dumont. O cais do porto. Sobe e desce. Anda, para. Um buzinaço aqui, outro acolá. E o Rio antigo ali exposto ante os olhos de qualquer um que esteja disposto a admirá-lo.
Um corre-corre inevitável na cidade. Descer do carro é deslocar-me do tempo da contemplação ao da ação. Cumprir compromissos freneticamente, conforme dita a correria dos dias atuais. E depois, feliz, tornar ao carro-nave-salvo-conduto, para apreciação de tudo o que fica no caminho entre o mar e a montanha. É hora de, revigorada, regressar.

sábado, 10 de setembro de 2011

Não é segredo

Não é segredo: gosto de música. Quase todos os estilos. Muitos ritmos. Praticamente, de tudo um pouco. Na música estão as sensibilidades expostas ao som de arranjos e detalhes que para mim são denso mistério. Beiram a magia. Letras, versos, entonações, variedades. "Tudo ali às claras", como diz Djavan, ainda que em outro contexto.
Seja diante das dificuldades ou mesmo das alegrias, a música me faz companhia. Vezes estou meio Chico Buarque em “roda viva”: “tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”,  noutras um tanto Tony Garrido “na estrada”: “você não sabe o quanto eu caminhei pra chegar até aqui”, de uns tempos pra cá, invariavelmente, Vinícius de Moraes nos sábios versos do “samba da bênção”: “é melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração”.
Com o tempo, vai-se aprendendo a cultivar a alegria.  A não deixar que o azedo que vezes se apresenta na vida, tome conta de todo o dia, mês, ano. Aprende-se a extrair o bom que há em cada coisa e a valorizá-lo preponderantemente. Fica-se um pouco mago especialista na alquimia de tornar palatável o dissabor dos desgostos.
A mente humana é um universo fantástico. Nela reside a capacidade de ser feliz. Já repararam como o mesmo fato adverso é recebido de maneiras totalmente diferentes pelas pessoas? Algumas transformam as adversidades em preciosas lições e fazem delas um mote para a conquista de uma vida ainda melhor. Outras fazem do fato indesejável revolta e sucumbem na angústia gerada por ela. Há aquelas que se deixam imobilizar pela dificuldade, que são presas pelos tentáculos dos acontecimentos. Ficam estagnadas, gravitando ao redor de um problema.  Há quem encare cada obstáculo como merecimento. Esses se aprisionam na culpa. Perdoar-se é também um caminho para a felicidade.
O fato é que o funcionamento da mente humana está intimamente ligado a possibilidade da experimentação da felicidade. Tristeza, frustrações, decepções existem. É preciso aprender a lidar de maneira saudável com elas.
Felicidade é também uma questão de foco. Há que se ter bem claro o objetivo e a determinação de ser feliz. É necessário decidir pela felicidade, antes de tudo. A vida apresentará dificuldades durante todo o tempo para a maioria absoluta das pessoas. Como reagir? Aí está a chave para o bem-estar.
Há pessoas que não conseguem sequer ficar alegres diante de boas novas. Diante de acontecimentos que deveriam gerar contentamento.  É gente que, diante de uma imensa tela branca,  é capaz de notar somente uma manchinha qualquer num cantinho do tecido.
Entender que dificuldades se apresentarão sempre na jornada da vida facilita, e muito, as coisas. É claro que fatalidades acontecem.  E aqui não posso deixar de me lembrar do exemplo de otimismo e de coragem dado por Lars Grael, quando da amputação de sua perna em um acidente. Diante do trágico, sua mente sã preferiu ficar com a parte boa. Ele estava vivo! Depois do acidente, se empenhou em voltar a velejar. Deprimiu. Superou. Botou a fatalidade no bolso. Venceu.
É feliz aquele que consegue extrair da Vida mais alegrias do que tristezas (por mais óbvio que isso possa parecer é preciso lembrar). Os acontecimentos ruins estão aí o tempo todo, o peso que damos a eles na balança da Vida é que pode fazer a diferença.
Viver é mesmo uma arte. Algumas vezes com sabor de uma enorme travessura. E já que não é segredo que a música faz parte de mim e que eu a encaro como a parte mais melodiosa da Filosofia, diante de obstáculos, sigo cantando alguns versos reveladores de um delicioso pagode: “às vezes a felicidade demora a chegar, aí é que a gente não pode deixar de lutar. Guerreiro não foge da luta e não pode correr (...), na vida é preciso aprender: se colhe o bem que plantar (...), basta acreditar que um novo dia vai chegar.”

Assista:
Over the rainbow 
The Piano Guys




Fonte da Imagem: 

https://pixabay.com/pt/photos

sábado, 30 de julho de 2011

Maresia

O mar está em mim.
Forma-se. Espraia-se
inscrito em meu nome.

E vem, e bate,
explode, espuma,
e molha e salga.

Vigor, som e tempero.
O mar me curte inteira.

Cheiro forte.
Marulhar.
Beleza.
O mar me encanta e
desassossega.

Despertar de sonhos,
pensamentos vãos...

Noite: espelho negro
o luar reflete.
Prata que liberta
desejos do impossível.

O mar que canta aos ouvidos meus,
acolhe-me a alma e me faz convites.
Se me entrego toda às suas canções
e me deixo inteira escutar seus sons,
ouço seus murmúrios,
crio ilusões.

Em momento tal toda areia é pouca,
já não cabe mais a contemplação.
O meu corpo clama por carinhos seus
e dele me faço sem hesitações.

O mar devolve minhas atenções!
E me revigora, conclama-me à Vida.
E entre beijos-ondas deixa-me partir.

Sigo para a Serra,
às origens torno.
Longe permaneço
até que as saudades
em maré vazante,
fazem-me um rio
a buscar o mar.

E em novo encontro,
sôfrego e cúmplice,
sinto-me preenchida:
Mari-sea.

domingo, 17 de julho de 2011

Sempre

“Dura a vida alguns instantes
  Porém mais do que bastantes
  Quando cada instante é sempre.”
  (Chico Buarque de Hollanda)

Quarenta anos.

Fazer aniversário é coisa que cada um vivencia de uma maneira. Uns curtem extremamente. Outros se entregam ao isolamento. Há quem se dedique a fazer meditação. Há aqueles que ficam felizes e até os que se entristecem. Vivenciar a chegada de uma nova idade é, sem dúvida, uma questão subjetiva.

Eu mesma já vivenciei a nov-idade de maneiras diferentes. Os trinta foram emblemáticos e decisivos. Fiquei na corda bamba e, já que a chegada era inevitável, fui correndo ler Balzac para saber com propriedade o que vinha a ser mesmo uma balzaquiana (hoje até esse conceito está mudado). Os tempos realmente são outros. Graças a Deus!

No último dia 14 fiz 40. Que delícia! Ao contrário da entrada meio atribulada e trêmula nos trinta, cheguei aos quarenta cheia de esperanças, de expectativas, de alegrias, de satisfação. Cheguei aos quarenta agradecida a Deus, à Vida, à Família, aos Amigos e a todos aqueles que, de alguma maneira, me fizeram e me fazem aprender e crescer todos os dias.

Se me perguntarem se realizei plenamente os meus sonhos até aqui, direi sem pestanejar que não. Se fui bem sucedida em todas as minhas empreitadas, claro que não. Se houve sofrimento no caminho, certamente que sim. Há um rastro de frustrações e de felicidades diárias ao longo desses quarenta anos. Mas todas elas me deixaram incontáveis lições.

Completei quarenta no caminho entre Petrópolis e o Rio de Janeiro, na Serra. Vi o sol nascer na estrada e se pôr na baía. Tudo assim sem programar. As coisas e os horários aconteceram naturalmente. Para completar, que espetáculo! Era véspera de lua cheia. E o brilho prata se fez farto naquela noite. Tudo presente. Todos os amores presentes de alguma maneira: Filho e Pais, Amigos e Amor, Colegas e até desconhecidos (alguns desconhecidos não são definitivamente uns amores?).

Foi o meu melhor aniversário. Interna e externamente. Tudo o que era realmente importante se fez presente. E viva Graham Bell, o santo Orkut, o venerável Facebook (exagerada!) esses deliciosos encurtadores de distâncias!

Completei quarenta anos amarradona, no dia 14, com café da manhã especial e tive festa surpresíssima no dia 15, que fantástico! Os amigos me trouxeram aos pouquinhos cada uma das minhas paixões: o filho, a família, os próprios amigos, as palavras de Affonso Romano, minha grande paixão literária, as canções de Chico Buarque, minha eterna paixão musical. Não há como agradecer.

Para melhorar, no dia 16, festa julina com a família e comemoração especial para os aniversariantes de julho.

Nesse meu aniversário tive Amor (na sua definição mais ampla), Sol, Mar, Lua, Música, Literatura. Foi uma chegada cheia de afeto, repleta de significado. Recebi tanto carinho que não houve um espaçozinho sequer para pensar em algo que não fosse bom. Pode haver melhor presente?

domingo, 10 de julho de 2011

Lá vem o sol

Domingo ensolarado na Serra. Céu azulzinho, desses caprichados na tinta. Dia iluminado, com ares de barulho de crianças na praça. Não resisto. Numa volta de carro, curto um pouquinho da criançada barulhenta na Praça da Liberdade. Jardim, estalinhos, bolas, algodão doce, passeio de bodinho. Tudo lá, como nos tempos do filho pequeno.

Para mim, dias alegres e cheios de luz assim  combinam com Lulu Santos cantando a mais que empolgada "Lá vem o sol", versão de uma das muitas e inesquecíveis canções dos Beatles.

Coisa boa é ver filho crescer sorridente e saudável. Faz exatamente duas semanas que estou envôlta nessa atmosfera de alvoroço infantil. Primeiro foi a festa julina no colégio do filho. Meu menino já tem 15 anos, logo a dança de que participou ficou para ser apresentada em último lugar. Até lá foi um desfile de séries inteiras, desde a Educação infantil até o 9º ano. Impossível não lembrar do meu menino ainda pequeno. Ali um pouco  agitado em meio às coreografias infantis, bigodes pintados, chapéus de cowboy ou caipira, calças jeans com falsos remendos pregados.

Calças jeans e falsos remendos! Lá está ele. Um jovem entre seus amigos, gargalhadas, sorrisos, piadas e aquele jeito de falar próprio dos da sua idade. Lindo! Dá para alguém me dizer como é possível ser mãe sem deixar que a corujisse role solta na alma da gente?  Quero não. Quero mais é ser coruja que ele merece.

A essa altura, festas no colégio são sempre ocasiões de deixar as lembranças chegarem. De prestar atenção na garotada e em seus pais. Todos iguais. Todos achando maravilhosa aquela dança desengonçada dos pequenos e se derretendo inteiros. Como eu sempre me derreti. E me derreto até hoje. Alguém duvida? (risos)

Essa semana foi a vez da abertura das Olimpíadas. Bandeira Vermelha. O capitão. Pode?! Pode, o carinha cresceu mesmo e agora anda assumindo responsabilidades. Dedicou-se. Foram dias e dias inteiros no colégio planejando e ensaiando o desfile de abertura. Ele e mais duas amigas. Os três mosqueteiros!

Na hora da apresentação, eu na arquibancada com o coração pra lá de agitado e muito, mas muito mesmo mais que emocionado. Quando meu loiro entrou na quadra foi felicidade imensa. Um orgulho que nem cabia no meu peito. Ele e todos da equipe motivados, empenhados naquele desfile com o propósito de fazer o melhor. Foi lindo!

Se ficaram em primeiro lugar? Não ficaram. Não foram nem os últimos nem os primeiros, mas ganharam. Ganharam a certeza de que vale a pena lutar pelo que se quer, por aquilo em que se acredita. Ganharam o aprendizado de que nem sempre o nosso melhor é suficiente para vencer a competição, mas que o movimento na direção da vitória já é conquista muita. Ganharam a felicidade de ter os abraços amigos para confortarem-se na hora da frustração.

Deu verde na cabeça. E vê-los (o filho e os colegas) parabenizando a equipe vencedora cheios de sinceridade e do verdadeiro espírito esportivo foi motivo mais do que suficiente para, ainda com a voz embargada e os olhos cheios d´água, dizer: valeu, meu filho, você fez o melhor! Valeu Bandeira Vermelha!

sábado, 25 de junho de 2011

Delirium

Rasguem os versos! Abaixo os poemas! Fora o lirismo! Sucumbam as rimas! Que nunca mais haja decassílabos sejam eles sáficos ou heróicos. Extintos sejam alexandrinos clássicos! Que a vida impera exigindo passagem e não tem paciência para eufemísticas firulas. O sangue corre inquieto nas veias. Desejo de gritar latejando nas entranhas. Pulsa.  Ferve. Bate. Queima. Arde. Aquece. Doi e felicita. É ela! É ela! 

Diálogo que impulsiona mudanças. Conversas que mudam destinos. Palavras que marcam encontros. Promessas cumpridas. Troca de olhares. Cúmplice cumprimentar de pupilas. Reconhecer imediato: olhos de esperança. Mudança do ritmo cardíaco. Leve ofegar de surpresa. Desassossegada troca de mimos. Olhos, mãos, braços - corpos e mentes unidos em pensamento único: - será?

Receios. Dúvidas. Temores: olhos de perguntas. Respostas dadas ou consentidas. Verbalizadas. Subentendidas. Sentidas. Permitidos gestos se fazem. Outros, contidos, silenciam. Mãos que se encontram, se tocam: trocam. Avançam. Hesitam. Experimentam. Despertam. Ousam e aproximam.

Olhos conversam. Mãos dialogam. Aquiescentes bocas se entregam, se descobrem, se querem, repetem. Outra vez. Olhos se falam, mãos se entrelaçam, mútuo abandonar de bocas intranqüilas. E recomeço. Ininterrupto processo de querer. Prosseguem. Dança de corpos que se estudam e se desejam. Delicioso descobrir de almas.

O que falam esses olhos que se beijam? O que observam essas mãos que se entreolham com o requinte da minúcia? O que lêem essas bocas tateantes?

Paixão é mesmo estouro de boiada. Espetáculo incontrolável. Beleza de se ver, respeitar e de temer. Delírio. Irrompe ao estampido de um gatilho qualquer, atropelando aos galopes as emoções contidas. Fascínio. Volúpia. Alucinação. Beijo entorpecido de contentamento desmedido.

Inútil tentar domá-la. Risco deixá-la correr sem destino pelas veias, vasos e artérias.

Falta inevitável de ar aos pulmões. Bate-que-não-bate-trotantes no peito. Barulho desatinado. Canção inaudível aos não envolvidos. Mistura de prazer e euforia. 

Paixão vem e passa, e quando vai, se não deixa o Amor, deixa um vazio imensurável em seu lugar. Vazio! Eis uma das razões do medo (outra é justamente o entorpecimento da razão). Por isso muitos a evitam, desviam. Ocorre que diante de tal sentimento, qualquer coisa menor parece um arremedo. Vida: iminente risco de sentir! Paixão: vento indomável que expõe a um redemoinhar constante. É necessário ter coragem para viver. Para apaixonar-se é imperativo ser intrépido. Paixão, felicidade intensa e momentânea. Ela jamais se dá, somente se apresenta, fundamental é conquistá-la.

Inebriante. Coexistente confundir de sensações. Frio no corpo. Alma abrasadora. Lancinantes carícias de deleites vários. Mistura de saber e ignorar. Mescla de doer e bem-estar. Vulnerabilidade. Pés fora do chão. Cérebros suspensos, anestesiados, em intensa névoa de prazer e incertezas. 

Converter a paixão em felicidade é uma arte. Experimentar essa felicidade: um desafio de todos aqueles que querem passar por esse mundo, fazendo-a habitar em si mesmos. Deixar verdadeiras heranças de vivência. Ninguém flerta com a paixão impunemente. Ninguém que a conquiste olha em seus olhos e não encontra seu próprio reflexo estampado em suas íris. Mas se fasciná-la exige certo tato, redobrada atenção carecerá se a felicidade for comum objetivo de um par. Harmonizar um encantá-la a quatro mãos é bem difícil, todavia se ela acede aos duplos-unânimes apelos, recompensador. Será perfeito apadrinhar de escolhas, gloriosa bênção de desejos. Ela generosamente se converterá em dádiva. Será transfigurada em Amor.

Amor é calma. Paixão desassossego.



Fonte da imagem:
https://pixabay.com/pt

terça-feira, 21 de junho de 2011

Parto

Preciso esperar.
Ansiosa espero.
Ciosa espero.

Anciosa, dia-a-dia inquieta
eu espero a espera se findar.

Espera, ânsia.
Nessa infinda,
vívida Esperânsia
esperanciã esperanseio.

Processo entreaberto de sangrar.




Obs: Anciosa - licença poética para junção das palavras ansiosa e ciosa.

domingo, 12 de junho de 2011

Tintim!

Há palavras que trazem em si mesmas um bom astral. Sim, há palavras que têm uma energia boa e que evocam a ideia de carinho, de felicidade, de gargalhada, de alegria ensolarada da hora do recreio. A palavra namorado é assim.

Namorado traz em si mesmo a noção de espírito em estado de festa, de leveza, de coleção de momentos iluminados pelo riso, pelo afeto e por esse sentimento de que todo mundo fala o tempo todo: o Amor.

Coraçãozinho pra lá. Coraçãozinho pra cá. Em junho há uma invasão dos símbolos românticos para seduzirem os enamorados de plantão. Não há vitrines sem ursinho. Restaurantes sem rosas e velas sobre as mesas. Anjos que não sejam cupidos. Rádios sem flashbacks. Canais de TV sem anúncios com beijos apaixonados. Mais do que andarem felizes e sorridentes por aí, nesse mês (estou falando dos brasileiros) os namorados querem demonstrar esse afeto todo existente entre o casal.

Namorar pressupõe amar alguém. Namorar pressupõe felicidade por estar junto de alguém. Namorar tem aquele significado mágico de ter encontrado um par com quem dividir os contentamentos e as preocupações desse vidão que se apresenta a cada um de nós. Namorar é um compromisso assumido com a satisfação impressa no rosto.

Talvez seja por isso, pela ideia feliz que a figura do namorado evoca e provoca, que a grande maioria das pessoas “sozinhas” queira ter um namorado. Sozinhas entre aspas mesmo, porque ser sozinho, em absoluto, significa a mesma coisa que ser solitário. Há muita diferença entre um e outro conceito, mas esse é assunto apropriado para outro momento.

“Namorado” é palavra tão gostosa, tão confortável que alguns casais, assumindo um compromisso mais sério, preferem-se denominar “namoridos” a chamarem-se de esposos. Olha a manutenção da leveza aí.

No entanto, ao tratarmos de sentimentos, nem tudo é leveza e paz. Alguns relacionamentos são tão indefinidos que acabam por gerar em seus pares um extremo desconforto: o que será? - perguntam-se a si mesmos.

Parece verdadeiro que o fenômeno da globalização, de alguma maneira, tenha rompido também as fronteiras, vezes tênues,  entre os conceitos. Sendo assim,  de repente, surpreende-se alguém de nosso tempo sem saber lá muito bem em que tipo de relacionamento está mesmo inserido. É comum que alguns não saibam se estão “ficando”, se estão namorando, se estão tendo um caso, se cruzaram a fronteira dos amantes. Vira-e-mexe é fácil encontrar alguém aturdido em meio a esses questionamentos. Numa sensação de que “nada combina com coisa nenhuma”.

De fora parece muito simples classificar um relacionamento. Dentro dele, entretanto, em meio às emoções que desperta, aos sentimentos que provoca, às características que tem, a visão fica turva e a clareza quase desaparece por completo. Se houver nele a presença da paixão então, aí é que as capacidades de análise e de síntese ficam totalmente comprometidas e promover a definição de alguma coisa é tarefa quase impossível.

É importante que um relacionamento assuma uma configuração? Parece que sim.  Consciente da natureza do relacionamento, cada um sabe melhor o que esperar do outro e o que doar de si também. Não constrói castelos de areia e tampouco caminha para a frustração. Ter clara a noção do tipo de relacionamento em que se está inserido é mais ou menos como saber para onde fica o Norte e, desse jeito, saber qual é o curso que se deve seguir.

Talvez uma pista para que os “indefinidos’ comecem a achar definição seja responder a uma simples pergunta: o que fazem namorados? Namorados namoram, claro. Se em um relacionamento não há tempo nem espaço para o namoro, isso pode ser um indício de que namorados é que não são.

Para namorar é preciso sentir. Namorar no sentido próprio da palavra. NAMORO assim todo maiúsculo pressupõe leveza, prazer, sutileza, amor, cumplicidade, felicidade.  Alegria em estar com o outro. Namorar é estado de graça. 

Nesse 12 de junho, um brinde aos namorados que em seus relacionamentos conseguem traduzir  toda a delícia que essa palavra carrega em seu cerne.


ATUALIZAÇÕES:
Inseri a imagem em 05/06/2017, estava faltando um pouquinho de cor.
Fonte: https://pixabay.com/pt/ta%C3%A7a-alimentos-frutas-outdoor-1838538/

Aproveito, na mesma data, para acrescentar um link para uma belíssima canção. Na minha opinião, uma maravilhosa declaração de amor, já que adoro rosas amarelas, céu de Brasília, arquitetura, luz de estrelas, Djavan, Caetano e tudo  mais. É mesmo uma música repleta de alma. Diga lá se não é.



domingo, 5 de junho de 2011

Vidência

Algumas pessoas, ao que parece, têm o poder de antecipar o futuro. Claramente, o conceito de vidência é um tanto mais amplo do que essa capacidade. Recorrendo  a Koogan/Houaiss: “vidência – dom sobrenatural (que se atribui a certas pessoas) de ver o passado, o futuro, objetos ausentes ou inexistentes, etc.”

Dependendo da ótica sob a qual for analisada a palavra, vidência terá um sentido ainda mais amplo do que aquele expresso nos dicionários.

Muito longe da ponderação de que essa capacidade realmente exista ou não, isso não vem ao caso, pensar um pouquinho (bem pouquinho) nos efeitos ou na necessidade desse tipo de revelação  é o se propõe aqui.

Muita gente, pelos mais variados motivos, inquieta-se com o futuro. Há quem busque a adivinhação porque precisa da sensação de controle absoluto de sua vida. Controle absoluto?! Ninguém o tem, mas é muito difícil admitir. Não há controle remoto universal que dê conta de comandar os acontecimentos da vida de quem quer que seja. Há quem tenha medo do amanhã e, desse modo, acredita que uma antecipaçãozinha básica aqui e acolá pode acalmar as ansiedades. Esquece-se de que pode deixá-las mais nervosas também. Há quem busque a certeza de que seu maior desejo será realizado algum dia. Será?! Não será? As dúvidas não são molas propulsoras de movimentos? Não têm a sua função? Enfim, as razões para a busca das respostas futuras são muitas e, estou certa, psicólogos e psiquiatras fariam com facilidade um rol enorme dessas razões e objetivos.

A “pergunta que não quer calar”: quais os impactos que uma revelação do futuro pode desencadear na vida de uma pessoa? Partindo de uma lógica simples, pode-se pensar que se as indicações forem positivas haverão de impulsionar positivamente a vida do sujeito. Entretanto, se as coisas não forem tão positivas assim ou forem mesmo revelações bombásticas, isso pode prejudicar a vida do “curioso”. E o vidente? O vidente pode prever que transtornos ou benefícios terão essas notícias na vida do cidadão que o procura? Se pode, no caso de efeitos negativos, por que revela? Se não pode, por que o faz?

Não é raro ouvir relatos de que não é possível modificar essas “profecias”. Sendo assim, qual será o objetivo de “profetizá-las” a não ser a tortura psicológica do “curioso”? Uma vaidade? Excetuem-se aqui os casos clássicos de charlatanismo, que esses têm objetivos muito claros. Perdoem-me o paradoxo. 

A verdade é que, por acreditarem que alguém pode prever o futuro, muitos se matam porque o mundo vai acabar em tal dia como disse tal pessoa. Outros mudam suas vidas, transferem-se de estado, de cidade, de país. Muitos entram em pânico, outros paralisam, congelam. Outros pautam as suas decisões nessas visões, ficam reféns delas. Vivem com uma sombra, um fantasma ou uma dependência.

Uma coisa é certa, quem se antecipou às catástrofes profetizadas e procurou o abismo antes mesmo de pagar pra ver se elas se concretizariam ou não, não está mais aqui para saber o que foi mesmo que aconteceu. Tentar descortinar o futuro pode paralisar o presente, pode doer e atordoar. Assim, é necessário saber, antes de procurar um vidente, que os efeitos desse encontro podem não ser exatamente tão inofensivos assim.

Para as incertezas da Vida, viver é o melhor remédio.

sábado, 28 de maio de 2011

Letargia

Há coisas que insistem em acontecer em manhãs claras, ensolaradas, dessas que por si só ficam perpetuadas na memória da gente.

São nessas manhãs de todos os belos dias de sol que ocorrem continuadamente fatos que se despercebem pela força da rotina.

As pessoas caminham, passos firmes, determinados, com o claro propósito de chegar a seus mais diversos destinos, sejam eles a escola, o trabalho, ou simplesmente o completar de um exercício matinal. As gentes andam, correm, afobam-se taquicárdicas para evitar os atrasos... e num canto qualquer ele dorme. Num sono profundo, deitado nas calçadas, lá está ele adormecido. Sujo, magro, maltrapilho, a barba por fazer e ele não se importa com toda a correria que se passa a sua volta e descansa solenemente em praça pública.

Resolutos, prosseguimos e não paramos um só instante para pensar que por trás daquele corpo inerte, à deriva da vida cotidiana de toda uma cidade, há um homem, um nome, uma história... e ainda assim ele dorme. E não se importa com a sujeira da calçada ou mesmo em dividir seu leito sólido e árduo com um ou dois cachorros que se achegam.

Dorme. Dorme e repousa ignorando as campanhas dos políticos, as falácias da administração pública, as pregações nas igrejas, o estômago doído de fome. O que será que o trouxe até ali, que o deixou tão entregue às marés da vida? Será que teve um dia esperança? Ânimo? Qual será a sua história?

Há coisas que acontecem democraticamente em todas as manhãs, que tenham sol ou disponham da ausência dele. O que mudam não são os fatos, são os olhares. Um dia há um descortinar de olhos, um desvendar de mistérios e nos apercebemos de que o homem sempre esteve ali deitado à beira do caminho e, mais do que isso, que são vários os caminhos como também vários os homens. É um despertar doloroso porque, ao contrário daquele homem, não repousamos e vemos paulatinamente passar em nossa memória todos aqueles homens que não vimos. E vamos descobrindo que ele não é só, não tem um comportamento original. Bem ao seu lado há outro, mais adiante outro, em outra esquina outro.

Cruel é quando entendemos que eles dormem e nós, que pensamos estar bem acordados, ficamos todos embebidos nesse sono pérfido e letárgico que se chama indiferença.

sábado, 21 de maio de 2011

Liberdade, liberdade

É fato que aboliram oficialmente a escravatura no Brasil em maio de 1888. Maio evoca Liberdade.

É também fato que as heranças pungentes da escravidão permanecem em nossas piadas, hábitos, costumes, canções e outras coisas mais. Liberdade. Palavra tão propalada, mas árduo trabalho de construção. 

No Brasil ou em qualquer cantinho do mundo, ainda que estejamos no terceiro milênio, o ser humano mantém em seu DNA a imperativa vontade de dominar. A humanidade parece estar vocacionada à segregação. Pela  cor, pelo sexo, pelo poder, pela economia, pelas enfermidades, pela força, pela orientação sexual, pelo berço, pela religião. Tudo parece ser motivo.

É verdade que a sociedade tem espalhado sementes de diálogo e que aos pouquinhos vão nascendo a reflexão, o entendimento, a compreensão e as atitudes modificadoras dos padrões estabelecidos. Mas aí mesmo, para a modificação do comportamento  padrão, é que é ainda mais necessário o exercício da tolerância. Tolerância é coisa rara de se ver. As relações humanas são cheias de imposições.

Que o ser humano, individualmente, vezes, parece pensa mesmo que o mundo gira ao redor de seu próprio umbigo e que tudo aquilo que difere de suas convicções do que seja certo esteja radicalmente errado. O que é certo? O que é errado? Jamais podemos esquecer a História. Lá, nos registros do passado, está a chave para a compreensão dos nossos tempos, da nossa cultura e para a construção de um futuro mais livre. E preciso ter humildade e reconhecer que muita coisa que um dia já nos pareceu certa, hoje é comprovadamente equivocada. Recorrendo à História quantos equívocos não podemos ressaltar?

Liberdade é exercício. Ser livre e deixar o outro livre é aprendizado. Demanda uma dose imensa de coragem. Para a conquista da Liberdade é necessária a prática do respeito, da aceitação, da generosidade, da coragem de reavaliar os próprios  conceitos, para libertar-se dos conceitos pré-concebidos. Do contrário, o que se consegue é uma liberdadezinha assim toda minúscula.

Preconceitos são amarras. São grilhões. São ideias petrificadas que nos embotam a capacidade de raciocínio. Bom mesmo é ser livre o bastante para chegar aos conceitos. Para sentir a beleza infinita que há na diversidade.

Que a passagem pelo símbolo da Abolição dos Escravos possa ser o mote para um maio-liberdade-em-flor e que as flores de maio possam ser um dia símbolos da libertação dos radicalismos e das discriminações.


Foto disponível em:
https://pixabay.com/pt/suculento-planta-do-natal-cacto-1922167/

Um pouco sobre as flores de maio:
https://jardim.info/flor-de-maio

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Afogamentos

                       A Affonso Romano de Sant´Anna pela
                   inspiradora forma de seus "Assombros".



Por vezes, sinto-me afogando
em desmedidos-demasiados sentimentos.

Em terra, insuficientes olhos enxergam
e me adivinham os sofrimentos.

Paixões, amores, ilusões...
tendenciosos-aliciantes tormentos.

Nas águas, maiores ondas:
maiores os movimentos.

Pulsa o peito, encharcam-se os pulmões,
em vão: esperneantes batimentos.

Mais me debato, mais se embaralha
o fio dos pensamentos.

Não há resgate.
Não há salvo-conduto.
Revôlto, angustiante o mar me consome
e em sal eu me consumo.


sábado, 7 de maio de 2011

Porque eu sei que é Amor

Sou do tipo de pessoa que analisa letra de música. Canto e penso no sentido daquilo que estou cantando. Não importa quem seja o compositor ou qual seja o ritmo, invariavelmente, se me leva a cantar, penso. Dia desses me peguei cantarolando uma música do “Titãs”: “porque eu sei que é amor eu não peço nada em troca...” Cantei e continuei cantando. Repetindo as frases. Analisando. Há coisas ditas nessa canção com as quais concordo, mas embatuquei nessa frase. Como não?! Porque eu sei que é Amor é que eu posso até não pedir assim rasgadamente, mas espero muito em troca. Aliás, porque eu sei que é Amor é que nem penso em pedir, pois a troca é pressuposta. Porque eu sei que Amor eu espero muito em troca. Afinal, que graça há no Amor se não houver troca? Porque eu sei que é Amor eu espero Amor em troca. 

Amor é coisa séria. É sentimento grave. Fortalece e fragiliza. Há coisa mais inquietante do que amar alguém e não ter certeza do que é mesmo que ele sente por você? Inquietante?! Inquietante uma vírgula, um travessão, aspas, uma interrogação. Nesses casos o que há é uma enorme angústia. Um desassossego. A sensação exata de estar na corda bamba e sem sombrinha. Sente-se um bêbado procurando equilíbrio em meio à sensação de torpor. Em contrapartida, há sensação mais agradável do que saber-se verdadeiramente o Amor do seu Amor? Ser o Amor do seu Amor é beijar o sublime. É mérito enorme, visto que é conquista. E muito mais que isso é dádiva. É presente. 

Pedir em troca, esperar em troca. Deve-se pedir do Amor somente aquilo que se é capaz de lhe dar. Do contrário a balança desequilibra. O pedido pesa para um dos lados. Deve-se ser justo com o Amor. Olha aí outro verso da composição: “E eu peço somente o que eu puder dar” (Veja bem: quem foi que falou que não pedia nada em troca mesmo?!).

É preciso diferenciar pedir/esperar de cobrar. Não se deve cobrar do Amor. O Amor dá. Doa-se. Entrega-se. É um movimento natural: dar e receber o Amor. Entretanto, é prudente conhecer a natureza do Amor para saber o que dele esperar. Ele dá o que tem, o que é. Não há que esperar colher figos em uma plantação de maçãs. 

Necessário é esclarecer que pedir/esperar em troca não significa barganhar. Amor não aceita barganha. Há que ser uma espera lícita. O Amor atrai o Amor. O Amor gera Amor.

O Amor sabe das coisas. Sabe conquistar a cada dia, porque sabe renovar. Sabe valorizar. Sabe compreender. Sabe os seus limites. Sabe de si e sabe do seu par. Sabe porque está atento ao outro. O Amor conhece o outro. O Amor enxerga o outro. Não com o intuito de usar seus pontos fracos como forma de atingi-lo, de fazer uso de suas vulnerabilidades em causa própria. Sabe do outro para somar, para fortalecer, para amparar, para falar, para dividir, para silenciar, para respeitar. No entanto, há que se esclarecer que Amor não vem com bola de cristal a ele acoplado como se fosse um acessório de fábrica. É preciso sinalizar pro Amor. Mostrar a ele como se sente na relação. É fundamental dialogar com o Amor. Amor sabe das coisas, mas não é vidente. É essencial observar a diferença entre cobrar e sinalizar. Sinalizar é estabelecer um diálogo franco e amoroso com o Amor. Colocar-se e dar-lhe igual oportunidade de se colocar. Sinalizar não é fazer um julgamento do Amor. Não se vira para o Amor com ar de quem sacou uma arma e aponta para ele em tom de “mão na cabeça e documento!”. Carece não julgar o Amor. É preciso ouvir o Amor. Ouvi-lo de coração e com um coração generoso.

O Amor preserva. O Amor ali pra valer mesmo sabe a exata medida da distância e da proximidade. Sabe que saudade é bom, mas que distância com gosto de ausência é sinônimo de sofrimento. E sofrimento é ruim. É possível estar fisicamente longe e estar perto do Amor, como também estar fisicamente perto e estar longe do Amor. Quando duplamente perto o Amor está em festa.

Amor dá trabalho. Quem pensa que Amor é fácil, que é coisa à toa engana-se em larga escala. Não se pode ser displicente com o Amor. É preciso renovar o Amor. Cultivar o Amor. Cuidar do Amor, que sem cuidados, o Amor se esvai, se vai, se parte, se ressente. Transfigura-se. Há Amor por aí se transfigurando em muitos outros sentimentos: amizade, mágoa, carinho, rancor, bem-querer, indiferença. Indiferença é quando o Amor se perde. É possível um Amor se perder. Muitos se perdem. Perdem-se pelas mais variadas circunstâncias e atitudes: fatalidades, negligência, imaturidade, incompreensão, desencontro, desencanto, despreparo... mas quem é que quer perder o Amor? E mais, quem desejará perder-se do Amor? Amor dá trabalho, como já disse, no entanto é prazeroso laborar o Amor. Amor vale a pena. 

Porque eu sei que é Amor, realmente não peço nem uma prova. O que eu não peço, todavia espero são atitudes. Atitudes coerentes com Amar, atitudes coerentes com Amor. Carinho combina com amor. Compreender condiz com Amor. Chamego combina também. Atenção lhe cai como uma luva. Solicitude casa direitinho com Amor. Presença combina com Amor. Lealdade afina com Amor. Respeito é o par perfeito do Amor. E falo de respeito no sentido amplo: respeito ao ser humano que cada um é. 

“Porque eu sei que Amor, sei que cada palavra importa”. Verdade. Importa. Porque eu sei que é Amor é preciso que haja coerência entre o discurso e as atitudes. Se não há é falácia. E se é falácia, eu sei que não é Amor. E se eu sei que não é Amor, não há o que o meu Amor possa pedir,  muito menos o que possa esperar. Bem, mas se não é Amor, também não é nesse texto que cabe estar. 

Voltando aos versos que tanto me fizeram pensar procuro melhor ponderação, arrisco-me a compreender a frase da cantiga de outra maneira. Primeiro uma consideração: esperar alguma coisa de alguém é como fazer a ela um pedido de que só você mesmo sabe, mas que esse alguém intui o teor. Esperar de alguém é pedir em segredo. Se espero, peço veladamente. Pedir é explícito. Esperar é implícito. Agora ouso usar as considerações de um amigo para quem uma dupla negação é uma ampla afirmação. Logo, se não peço nada, certamente, é porque peço tudo: Amor. Não será essa uma boa interpretação?

Porque eu sei que é Amor, espero tudo que com ele combina. E quem, ainda que saiba que é Amor, não espera, que atire a primeira pedra.



Foto:
https://pixabay.com/pt/amor-praia-mar-areia-rom%C3%A2ntico-226756/

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O Cafa


Há uma espécie de homem que encanta, que instiga e a quem algumas mulheres inconscientemente concedem o direito de vitimá-las em série: o “cafa”.

Ele chega de mansinho, assim como quem não quer nada. Não se engane: vai querer levar T-U-D-O!

Charmoso e dedicado, o cafa tem objetivo específico: a conquista. Primeiro ele fica por ali cercando, plantando sementes como quem não quer nada, na verdade vai passo a passo emitindo pilhas e pilhas de notas promissórias.

O cafa é um pirigueti disfarçado de namorado ideal. Um lobo em pele de cordeiro. É um-sete-um-puro-sangue. É pura malandragem.

Tudo no cafa é promessa, quase nada é realização. É um tipo específico e não muito raro de homem que merecia ser objeto de teses de doutorado. Seria um serviço prestado à imensa massa feminina que se atordoa com figuras dessa natureza.


Reconhecer um cafa, quando não se está envolvida com ele, é fácil. Ele tem cheiro, vocabulário, ginga, atos e atitudes próprios dos de sua espécie.

O cafa é perfumado. Tem bom gosto para os aromas. Quer proximidade com o feminino. Anda bem arrumado, quer impressionar. O cafa é hábil. É gentil. É disponível. Prestativo. É todo sorriso e simpatia. O cafa se sente. É um homem bem relacionado, tem inúmeros contatos e recebe incontáveis ligações telefônicas. Consulta de dois em dois minutos o telefone celular farejando algum indício de uma de suas conquistas.

O celular de um cafa, aliás merece um capítulo à parte, tem características próprias: está sempre na chamada vibratória, com freqüência encontra-se desligado ou fora da área de cobertura e vira e mexe fica sem bateria. A operadora do celular de um cafa é sempre um problema, não importa qual seja ela nunca funciona muito bem.

Nenhum registro de chamadas realizadas ou recebidas constam no celular de um cafa, a não ser aquelas acima de qualquer suspeita: mãe, pai, filhos, avós e a parentela toda que melhor lhe convier. Mensagens de texto então, essas somente as de sua operadora informando acerca das melhores promoções.

O cafa é como um pescador que tem muitos anzóis e muitas iscas em uma mesma linha de pesca. É como um investidor que diversifica suas ações. Investe (com duplo sentido) em muitas áreas ao mesmo tempo.

O cafa permeia todos os estratos sociais. Alguns, durante a abordagem, usam textos de Fernando Pessoa, outros músicas de Chico Buarque. Alguns atacam de pagode. Outros os rodeios buliçosos de um samba. Uns a sensualidade ou a transparência do funk. Outros a profundidade de textos religiosos. Tudo o que puder sensibilizar será utilizado por um cafa. Não se iluda, o cafa não tem escrúpulos, tem foco.

Não cometa um equívoco fatal: Cafa não é sinônimo de galinha. Galinhas são quase inofensíveis em si mesmos. O objetivo deles é “pegar” e para isso fazem o que for preciso. Quando "pegam" falam uma barbaridade. O galinha é "garganta", está sempre contando vantagem. Indivíduos dessa espécie podem causar danos à reputação de uma mulher (danos externos). Entretanto, como falam em demasia, sempre haverá de pairar imensa dúvida sobre seus relatos. Lembre-se: o objetivo do cafa é muito mais elaborado, o que o cafa deseja é conquistar. E conquistando, faz de sua “caça” uma refém de seu afeto. Transforma a cortejada em vítima quase num piscar de olhos. Indivíduos dessa espécie geralmente causam danos a autoestima de uma mulher (danos internos).

O cafa cobra caro! Mulher que se apaixona é presa fácil. Convém rezar todos os dias para não se apaixonar por um deles. Do contrário, é possível sofrer abuso de quase todo os tipos, inclusive abusos financeiros e os de sua inteligência. Sim, porque as desculpas de um cafa são inacreditáveis, são mentiras descaradas, mas ele as conta com tamanha convicção que a vítima não só acredita como, em alguns casos, acaba até se desculpando pelo absurdo de tê-lo questionado.

As finanças de um cafa também renderiam um capítulo separado. O cafa começa o relacionamento arcando com todas as despesas. Corteja promovendo grandes demonstrações de afeto. Tudo é por conta dele. Aos poucos, quase sem perceber, essa conta vai mudando e o peso da balança vai trocando de pratos. Quanto mais envolvida a mulher estiver, mais vai pagar as contas de um cafa. Ele tem tamanha habilidade com as palavras que vai fazendo a mulher acreditar que é o máximo ela poder pagar sempre a conta inteira e todas as contas o tempo todo. Aos poucos, ela vai se envolvendo e, antes que perceba, entregará na mão de um cafa esta ou aquela soma de dinheiro que, não se surpreenda, ele usará na conquista de outra vítima. É isso mesmo. O cafa usa o dinheiro de uma mulher para bancar as suas despesas iniciais com outra. O raciocínio é mais ou menos a noção de capital de giro.

O cafa aposta na carência da mulher e a transforma em sua dependente. O cafa é vício, é droga. Contudo, como sua autoestima é hipertrofiada comete um erro fatal: uma vez que tem que desprender muita energia na diversificação de suas conquistas, o cafa invariavelmente deixa as mulheres com que se envolve ainda mais carentes do que já são. As atenções de um cafa são sempre divididas e isso, mesmo inconscientemente, é notado por suas vítimas. No sexo ele pode ser bom, pode até mesmo beirar o fantástico, mas raramente apresentará uma freqüência satisfatória. Logo, ao deixar “suas” mulheres numa carência abissal, abre espaço para que elas busquem uma nova conquista. Alguém que lhes ajude a enxergar o vazio de si mesmas que um cafa costuma provocar.

Como o ponto fraco de um cafa é sua inabalável autoconfiança, as mulheres têm em suas longas ausências grandes aliadas na possibilidade de encontrar alguém que realmente valha a pena.

Outro ponto vulnerável em um cafa é que ele, depois de ter a certeza de ter conquistado sua vítima, já não se esforça muito para manter essa conquista. Ele esquece que há que manter o charme. Que conquistar deve ser uma atitude diária. Ele é malandro, gosta muito de ter trabalho não e arrefece a sedução. Logo, a mulher se desencanta.

Não demorará muito e ele agirá como se essa mulher tivesse a obrigação de pagar suas contas, fazer-lhe gentilezas, dar-lhe toda a sorte de atenções. Ele quer sempre o melhor e oferece quase sempre o mínimo.

Como se a relação fosse uma caderneta de poupança, de uma hora para outra o cafa começa a fazer saques incontáveis e assim, dentro de determinado tempo, a relação se esvazia e dela não restam sequer parcas moedas. O cafa é um grande sorvedouro de afetos.

Ele, no entanto, não abandonará o barco. Ele está habituado à comodidade. Ainda ficará por ali rondando, na espera de uma nova onda de bonança. Quase sempre, o cafa, apesar de inteligente, é tão cheio de si que não percebe o motivo da mulher ter mudado tanto em relação a ele. O cafa afinal crê, consciente ou inconscientemente, em um trecho infeliz do samba da bênção em que Vinícius afirma que a mulher deve ter "uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher: feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e pra ser só perdão."

Ah! Vinícius. A mulher evoluiu! Sua busca maior atualmente é pelo encontro dela mesma. Seus objetivos e anseios estão para além da existência masculina. Ainda que heranças como essas expressas em sua música tenham deixado vestígios e sinais no DNA feminino. A sociedade ainda cobra, comete equívocos nesse sentido, mesmo que nem sempre com o molejo e o encanto de sua poesia. O perdão tem limites e há imensa beleza nessa descoberta.

O cafa magoa. Deixa marcas. Abala. Pode ter efeito devastador na vida de uma mulher. Ninguém passa impunemente por um cafa. Todavia, a mulher que a ele sobrevive sai dessa relação fortalecida. Ela tem qualquer coisa de fênix. Qualquer coisa de experiente. Qualquer coisa de mordaz. Qualquer coisa de azougue. De etéreo e impalpável. Afinal, toda experiência traz aprendizado. E todo aprendizado deixa uma ou mais lições e diretrizes para lidar com situações similares e até mesmo diversas.

Vezes, pode ser no vazio deixado por um cafa, que a mulher saia em busca de si mesma e encontre sua própria completude, porque nenhuma relação pode ser plena se há em uma das partes uma enorme carência essencial. Para essa mulher, um cafa pode ser um grande e benéfico divisor de águas: de mulher carente a plena de si mesma. Afinal, como dizia o poeta: “ a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida” e um encontro com sua própria essência pode ser a melhor maneira de começar a viver com um pouco mais de Amor.

Primeiras notas

Meus queridos.
Há muito gosto de escrever, mas isso ganha um colorido todo especial quando há alguém com quem dividir as letras. Assim, finalmente, criei um blog para mim e para aqueles que possam ter algum interesse em “sintonizar” os meus escritos, as minhas ideias.
Para começar vou postar o texto que me incentivou  a criar esse blog.
Espero que possam curtir. Sejam bem-vindos e um grande abraço.