segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Alvíssaras!

O Bingen é um bairro petropolitano aprazível e acaba de  receber uma notícia bastante alvissareira: ganhará uma praça. Sim, fui buscar um adjetivo lá no fundo do baú para combinar com o tempo que se espera a sua construção. Lembro-me da comunidade reivindicando esse espaço desde a infância.

Embora não pudesse começar esta crônica sem contar tal novidade, a notícia que tem feito meus olhos brilharem nos últimos dias tem nome e cor: um enorme flamboyant vermelho floresceu na localidade do 17.

Um flamboyant. Enorme. Com flores vermelhas. No 17.

Dezessete era o número dado ao ônibus que fazia a linha Bingen no século passado e que acabou por batizar o lugar em que ficava o seu ponto final.

Conquanto eu tenha contemplado as flores vermelhas desta crônica muitas vezes no trajeto entre a  casa e o trabalho, somente pude parar e  fotografá-las ontem ao final da tarde. Pra mim, que sempre gostei de fazer fotos de flores em dias azuis, o fato de fotografar quase na boca da noite teve um quê de desafio. Fiz o registro possível.

Uma árvore frondosa. Como posso não tê-la notado nos anos anteriores, não sei.  Talvez sua florada tenha sido mais explícita desta vez ou, quem sabe, seja esta a  primeira vez que floresce. O certo é que ela está lá faz tempo e agora, apesar do clima enlouquecido aqui na serra, se vestiu de flores para o Natal.

A vida, ás vezes, é feito um frondoso flamboyant. Fica bem quietinha e, sem mais nem meio mais, nos faz uma surpresa. Uma flor aqui, um amor ali, a vista de um chalezinho no topo da montanha. Até quem nasceu e foi criado no mesmo bairro e transita por ele todos os dias está sujeito a uma revelação no caminho.

E, por falar em revelação, hoje é dia de lembrar Daquela que há mais de dois mil anos se mostra e nos oferece a oportunidade de florir fraternalmente em qualquer época do ano.

Hoje é Natal. Passada toda a euforia das compras, presentes e banquetes, é dia de lembrar das propostas de um aniversariante que não quer regalos para si, mas que continua propondo o amor e a partilha como receita para um mundo melhor.

Feliz Natal!

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Das pequenas rebeldias do dia a dia

Tinha  sido um dia de extrema tensão. Estava exausta. Mas, diante do deserto instalado na geladeira e nos armários, precisava ir ao mercado.

Em geral, supermercados, lojas e afins não são de fazer minha cabeça e, se eu não estiver vestida confortavelmente então, eles constituem um verdadeiro suplício.

Bora lá procurar uma roupa confortável para ir às compras. Escolho um vestido larguinho e comprido e como, todo mundo tem direito a uma rebeldia inofensiva de vez em quando, fui de chinelo de dedo.

Só quem nasceu em Petrópolis ou mora aqui há bastante tempo sabe o que isso pode significar: uma chuva de narizes torcidos e caretas capazes de enrugar as testas mais enrijecidas de botox. Afinal, quem ousa sair com um par de havaianas numa cidade em que os sapatos do imperador eram tão ricamente bordados?

Voltemos ao mercado. Eu sei que a sociedade teve que evoluir uma enormidade para que tenhamos a nossa disposição grandes salões arejados e frescos repletos de bancas, gôndolas e prateleiras.   Tudo arrumadinho e dividido em seções nos oferecendo uma porção de coisas de que realmente precisamos e um tanto de outras que nem tanto. E, não duvidem, valorizo imensamente essa organização e essa praticidade toda.

Já tentei encarar a ida ao mercado das maneiras mais diversas para tornar o fastio que sinto em coisa melhor, mas ainda não havia tido sucesso.

Dessa vez ia ser diferente com o mercado e com os calçados. Ao invés de olhar nos olhos e receber as mais duras críticas imperiais, ia olhar para os pés à procura de alguma rebeldia que pudesse combinar com a minha.

Encontrei. Havia naquele mercado, alguns pares de pés enfiados em chinelos nem aí para o que diriam aqueles que se pusessem a julgá-los. Vibrei.

Tudo bem que eram, em sua maioria, do sexo masculino e que para os homens geralmente é mais fácil romper com esse tipo de regra social. Mas havia ali alguma insubmissão feminina também. Havia moças e mulheres andando com os pés desnudos num chinelinho de borracha sobre aquele chão de belíssimo granito. Éramos só conforto.

Os tempos estavam mudando.

E, por falar em tempo, o tempo passou que nem vi. Olhei para o carrinho de compras, tudo o que precisava já estava lá.

Passei no caixa, paguei e pensei: vim, vi e venci. Evoé! As livrarias que me esperem.

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Um beijo da vida

Nos últimos meses, tenho observando o quanto foi difícil para mim escrever durante a pandemia. No mais das vezes, senti, calei e guardei na memória aquelas imagens e vivências tão angustiantes de um tempo em que quase não havia certezas. Também naquele momento em que chorar parecia o óbvio, minhas lágrimas se foram. Diante do desamparo do mundo, tive  textos e lágrimas embargados num recolhimento para além da proteção do corpo.

Os textos foram retornando aos poucos, mas o pranto, esse ficou contido até a última quarta.   

Nesse dia,  teve  "Som Brasil" com Milton Nascimento, Chitãozinho e Xororó apresentando o projeto "Outros cantos"  com narração, entrevista e comentários de Pedro Bial.  Em um isolamento produtivo, esse EP foi idealizado e gestado no período pandêmico e guardado até que fosse trazido à luz no encontro que gerou o programa.

O programa começa com imagens das avenidas e vias expressas vazias de medo, dúvida e precaução Brasil afora.  Lembrei-me das vias desnudas do mundo naqueles dias. Nó na garganta. Emoção. Até que, ao som d"A festa" de Bituca,  meu choro rompeu o silêncio áspero com que convivia há mais de três anos.

As lágrimas rolaram em desabafo com os potentes versos do refrão "me abraça, me aperta/me prende em tuas pernas/me prende, me força, me roda, me encanta/me enfeita num beijo", ao recordar daquele tempo em que o toque, o beijo, o abraço e a intimidade eram contraindicados pela ciência e que nós, atônitos, na contramão de nossos desejos, nos esforçávamos para cumprir as recomendações médicas.

Chorar foi o alívio de que vinha precisando há tempos. Hora de ficar sozinha entre cordas e acordes no ritmo latino e vibrante dessa canção que é pura pulsão de vida e que senti como um beijo.

Uma das expressões de Bial, logo no início da apresentação, dá conta de que a música foi um dos remédios que possibilitaram o enfrentamento e a superação daquele momento difícil. De fato foi. Quem não se lembra dos vizinhos cantando nas janelas e sacadas dos prédios na Itália ou dos shows feitos por artistas brasileiros nas varandas dos seus apartamentos? A humanidade se uniu em cantos para preservar sua existência e saúde mental.

O mundo pós-pandêmico tem sido um  desatino. Nem parece que aprendemos tanto sobre a fragilidade da vida e a necessidade protegê-la nos últimos anos. Assistir a "Outros cantos"  pode ser uma ótima opção dar-se "um pouquinho de saúde, um descanso na loucura".  O EP é puro amor e "de amor, andamos todos precisados".

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Carpe diem

É primavera. Os agapantos vestem a cidade de flor. Os dias estão abafados e chorosos. Novembro chegou vertendo saudade. Soprando lembranças. Pressupondo recolhimento. Não o recolhimento dos que se escondem, mas daqueles que refletem sobre a vida e seus ciclos impermanentes. E o que é essa impermanência senão um imperioso mote  para que se procure vivenciar cada experiência em sua plenitude?

"Carpe diem", lembrei de um filme de 1989, "Sociedade dos poetas mortos". Se fecho os olhos,  ainda ouço Mr. Keating, o protagonista e professor de Literatura,   diante das fotos daqueles que já haviam passado pela universidade: "colha logo seus botões de rosa". "Aproveite o dia!" 

Rosa era o nome de minha avó paterna. Mulher que, com sua simplicidade, nos ensinou muito sobre a experiência de viver. Senhora de dedo verde,  cultivava agapantos um ano inteiro para homenagear os mortos da família no dia de finados. Era nossa xamã, nosso totem e pajé (descendia de índios brasileiros). Com naturalidade, cabia a ela contar as histórias de nossos antepassados e os manter vivos em nossas memórias, bem como estar sempre pronta a abençoar nossos caminhos.

De certa maneira, sermos sobreviventes da pandemia, um desencarne doloroso e  coletivo, faz de nós pessoas que sabem e que experimentaram  a brevidade e fragilidade da vida. Nossos paradigmas foram mudados. Coisas de quem sente mais do que sabe que o tempo um dia cessa.

Dia desses, no aniversário de minha prima, conversávamos sobre os legados da pandemia. Para ela, a COVID-19 veio, entre outras coisas,  mostrar precisamos valorizar aqueles que estão perto no momento. Festejar com os que estão na festa. Focar na presença e entender as ausências. Para mim, a pandemia gritou alto e bom som que precisamos cuidar de nós integralmente: mente, corpo, espírito e escolhas.

A morte/os mortos nos falam muito sobre a vida. E, como dizia Vinícius, "a vida é pra valer,  e não se engane não, tem uma só".  

É preciso honrá-la.

domingo, 22 de outubro de 2023

Rio enquadrado

“A alegria e o sofrimento deste povo é que me obrigam a trabalhar”(Heitor dos Prazeres)

Há alguns meses, desci a serra  para encontrar Heitor dos Prazeres e uma de minhas amigas no CCBB. A manhã estava nublada. Sem guarda-chuva,  acabei por tomar  inevitável (e delicioso) banho em plena Rua Primeiro de Março. Ótima desculpa para começar a visita pelo Salão de Chá da Confeitaria Colombo: um café com leite e um misto, quentes, por favor.

Mais aquecida, hora de subir as escadas e acessar a exposição. Confesso que não conhecia sequer um terço das habilidades e da multiplicidade do pintor, compositor, sambista, ogã, estilista, designer de moda, marceneiro, instrumentista, além de fundador das primeiras escolas de samba do Rio de Janeiro. Da Mangueira, inclusive. O homem era fera.

De uma lindeza sem fim! Foi minha avaliação. Ali estavam as obras e a história daquele homem, de sua religião, do tempo em que viveu, das músicas que compôs, do som que fazia, da sociedade em que ele vivia, dos trajes que confeccionou, dos móveis que planejou,  das telas que pintou. Uma curadoria primorosa  juntou um sem número de peças de coleções públicas e particulares sobre o autor.

Circulei o primeiro salão, e foi no quadro " Morro da Providência" que me dei conta de coisas  e profissões meio nostálgicas: o vendedor de sorvetes, o  moço que vendia bolas de gás, o futebol jogado pelas crianças no meio da rua.  Das jovens e das senhoras com bacias e  latas  d'água na cabeça não sinto saudade. Embora seja fácil encontrá-las próximas à Comunidade de Manguinhos. Agora com baldes de água para lavar carros.

Quando olhava as vitrines que expunham objetos e documentos pessoais do artista, pude perceber uma senhora  acompanhada por uma adolescente. Ela ia recebendo as informações ali escritas através da leitura da menina. Ela me olhou constrangida. Com cuidado,  me afastei para que elas pudessem desfrutar daquele momento que era só entre elas  e o multiartista. Há instantes que são sagrados. É preciso respeitá-los.

Reencontrei minha amiga ao final da exposição. Eu e ela sempre tivemos um acordo tácito em passeios assim: cada uma percorre o trajeto a seu tempo para depois, então, compartilhar as leituras. Saímos do CCBB para ganhar as ruas da Centro e trocar impressões.

O Rio enquadrado por Heitor tem algo de saudosismo e outro tanto de atual. Embora continue lindo,  não dá para deixar de notar que as comunidades com habitações precárias se estenderam para além da poesia e da realidade das paisagens retratadas. As pipas já não são tão inocentes. Há fome. E vendedores nos sinais, nas vias expressas, no mais das vezes, debaixo de um sol de 40 graus. A cidade vezes dói, vezes encanta.


O Rio é hoje uma adorável e complexa mistura de cores que suscita lembranças, desperta prazeres e inspira cuidados.

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Foto de perfil

Com as redes sociais fazendo cada vez mais parte do nosso cotidiano, sobrou-nos mais uma atribuição: escolher a foto do perfil. Quando aquela dieta está a toda, e os resultados estão na cara, a tarefa pode ser até um tanto prazerosa. Duro mesmo é fazer isso quando os ponteiros da balança estão gritando e o rosto redondo já se faz indisfarçável. Há quem apele para aplicativos, eu prefiro a imagem real, a fim de evitar algum constrangimento diante de um encontro fora das telas. Imaginem só.

Não posso dizer que só tenha me metido em apuros nas vezes em que tentei resolver à força meus problemas com o excesso de peso. Mas posso garantir que todas as vezes que fiz isso me meti em encrencas.

Primeiro indo ao consultório de um endocrinologista que me receitou um remedinho que não só prometia um milagre, como o realizou. Perdi mais de trinta quilos. O problema é que os encontrei com acréscimo logo na esquina.

Depois, mudei de médico. Agora era uma endocrinologista que vendia medicamentos manipulados. Eles secavam o corpo e a alegria dos pacientes. Quando isso acontecia, ela indicava um analista. Não deu certo. E nem podia.

Os anos se passavam e lá estava eu lutando por um corpo mais magro e funcional. Até que apareceu a possibilidade de uma cirurgia de banda gástrica. Era definitivo, diziam. Topei.

Nada de ser feliz para sempre. Dez anos depois, partes da banda me causaram uma  enorme infecção. Tive que retirar a prótese. Foi um tremendo susto, minha vida esteve por um fio.

Encerrado o capítulo banda gástrica, vivi muitos anos com uma variação controlada de peso. Há uns três anos, no entanto,  todos os quilos estão de volta. Exibidos e prepotentes.

Vasculhar um baú com fotografias é revolver a própria história. Para trocar minha imagem de perfil, revisitei minha trajetória.  Encarei  os fatos, analisei as fotos, selecionei o melhor retrato. 

Entendi. Escolhi. Postei.

O aumento de peso ficou mais evidente. Postar uma foto nas redes é lançar-se a um julgamento em praça pública com sentenças nem sempre edificantes.  Inclusive as nossas. O juízo social me importa menos do que as ameaças que o excesso de peso pode trazer a minha qualidade de vida. Por isso, resolvi escrever. Gosto de pensar que dividir essa jornada pode poupar sofrimento a alguém.

Hoje é Dia Internacional da Obesidade e Nacional de Prevenção à Obesidade. Ontem foi Dia Mundial da Saúde Mental. As datas são próximas e os assuntos estão absolutamente interligados. Ao obedecer cegamente ao desejo de perder peso, pode-se encontrar depressão, ansiedade e muitas outras dores físicas, psicológicas ou emocionais. É preciso estar muito atento, instruído e equilibrado  para fazer as melhores escolhas.

Não desisti das dietas, mas me desprendi dessa ampulheta em looping que nos faz querer resultados rápidos. Tanto enfrentamento  já me ensinou que nem sempre a melhor pose rende os álbuns mais bonitos. Todo o cenário importa e bem-estar é algo que nenhuma lente pode verdadeiramente  capturar.  É do tanto de mim que não cabe em imagens que estou cuidando neste exato momento. Penso em nutricionistas, opto por terapia e não desejo coisa alguma que me tire a paz.


Meu foco hoje é ser e estar sã.


📷 Contemplando o nascer do sol.

domingo, 1 de outubro de 2023

Dois fios e um tear


O dia começou cedo, e o fim da tarde tinha endereço certo: o Arpoador. No caminho, descer a serra, metrô, Copacabana e uma cena de que jamais pude me esquecer.

Um rapaz lindo, lendo concentrado até que se abriu a porta do vagão e entrou uma senhora já com as marcas do tempo em suas mãos, segurando uma bengala e buscando o equilíbrio no meio do salão.

O jovem levantou os olhos, fechou o livro, dirigiu-se à senhora e ofereceu-lhe a sua mão e o seu lugar. Sustentou-a até que ela pudesse se sentar. Poucos notaram o pequeno diálogo e a harmonia existentes naqueles gestos.

Num sorriso, ambos se entreolharam. Ele desceu pouco depois.  Provavelmente, jamais se encontrariam novamente, mas cada um havia deixado semeada no outro sua mais terna parte.

Podia ter sido só mais um gesto, uma gentileza, uma formalidade. Não foi. Contemplar aquela cena foi notar a personificação do lado poético que cada um traz em si.  

Cada um tem em si um tanto de poesia que, em dado momento, desabrocha. Pode ser ao provar uma onda do mar. Pode ser ao sentir uma dada fragrância. Pode ser sentindo o vento passar entre os dedos da mão posta para fora da janela  do  carro na estrada. Pode ser no silêncio, sozinho, em meio à multidão ou no transporte público.

É verdade que há quem escolha cultivar a  amargura e a crueldade, eu bem sei.  Talvez esse seja o tipo de pessoa que nunca tenha acessado a poesia de si. Certamente, alguém a quem Bilac recomendaria o uso de um bom cinzel, muito tempo e muita técnica para que se aprimorasse como ser humano.

Poesia é pulso, ritmo, beleza, vida, mas não se entrega a quem a maltrate mesmo não. Foi um privilégio ver a poesia daqueles dois se mostrar bem diante de meus olhos naquele átimo de delicadeza.

Pensei no Arpoador, sorri. O sol me esperava lá fora, mas eu já tinha sido iluminada ali dentro. Afinal, não é todo dia que os fios de um poema se entrelaçam bem a nossa frente e tecem  um momento de amabilidade.

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Urgências artificiais

Sábado passado, saí para fazer registros da primavera em Petrópolis que, de antemão, posso  que está lindíssima. Como tivesse outras coisas para fazer e tivesse deixado para sair um pouco mais tarde por conta do calor, cheguei aos jardins mais fotogênicos da cidade já com o sol à meia-cortina. Nada que me impedisse de fazer os registros com as retinas e de  marcar mentalmente os pontos que mais me encantaram para fotografar depois.

De carro, me pus no caminho de volta para casa, não sem antes dar conta de uma listinha de compras que não tenho como fazer durante os dias da semana. Pelo caminho, vim contemplando as nuances da estação recém-inaugurada, aproveitando cada minuto para contemplar as belezas do entorno a mim.

Pois foi quando entrei na loja para comprar o que precisava, que fui catapultada para o futuro. Sem aviso prévio nem anestesia: o estabelecimento era todo Natal, com direito a músicas temáticas etc e tal.

O Natal costumava chegar mais tarde em outros tempos. Agora nem o Dia das Crianças parece bastante forte para evitar que ele ocupe as vitrines e prateleiras em pleno mês de s-e-t-e-m-b-r-o.

Foi um susto. Susto mesmo! E não foi só no sentido conotativo. Passei na frente de um "Papai Noel" à meia-distância e o dito cujo começou a reproduzir o som de um sax (desafinado, coitado!).

Olhei ao redor: tudo era vermelho. Coisas bonitas e muito sedutoras. Quando dei por mim, tinha embarcado nessa locomotiva chamada técnica de venda, que quer a todo custo nos levar para um tempo ainda adiante de nós o tempo todo. A bordo dela, não há ponto de chegada. Há sempre uma cenoura pendurada na ponta da varinha nos prometendo satisfação.

Peguei minha lista. Ajustei meu foco. Comprei o que precisava e desembarquei desse trem-sempre-à-frente-do-momento-presente para o bem do meu relógio biológico e antes que descarrilasse em mim a primavera que eu começara a curtir havia menos de 24 horas.

Faz muito tempo que sinto e me incomodo com a intensidade da necessidade desse porvir inventado que o mundo implanta em nós. Estamos sempre esperando alguma coisa. Malsatisfeitos. Perdendo o sabor das refeições por ansiar pelas sobremesas num atropelo que parece não ter fim.

Parece. Afinal, não somos obrigados a viajar nesse ritmo ditado pelo comércio. Respirar e aproveitar o tempo é muitas vezes possível. Enxergar as estações da vida pode ser bem saboroso. Mesmo que haja saltos, sustos e solavancos (são inevitáveis, mas raramente temos controle sobre eles). Um dia após o outro, 365 dias por ano, com 12 meses no meio e divididos em quatro estações.

E viva a Primavera!

📷 Disponível no Pixabay

domingo, 17 de setembro de 2023

As lições de Manuela

Há dez anos, recebíamos a notícia de que nosso gatinho havia nascido,  de cor preta, muito aguardado e ficamos bem felizes esperando o seu crescimento para que ele pudesse vir, enfim, morar conosco.

Um tempo depois, fomos informados de que o gatinho macho da ninhada era branco com apenas um chumacinho de pelos pretos no topo da cabeça. Não ligamos para isso e reforçamos nosso desejo de adotá-lo. 

Tendo sido desmamado e passando a comer ração sólida, Frederico chegou a seu novo lar cheio de privilégios e fazendo muitas gracinhas. Como era pequenino o bichano! Por esse motivo, dormia comigo todos os dias e recebia todos os mimos a que faz jus um mascote.

Nosso gato chegou em um fim de semana e foi levado à veterinária logo na semana seguinte. Depois de passar pelos exames físicos e de tomar as vacinas indicadas, fomos notificados de que ele era ela, uma gatinha charmosa, toda branquinha e com uma  pinta preta no meio da testa. Desse modo, saímos de casa com o Frederico e voltamos com a Manuela. Nada que fosse capaz de abalar ou diminuir nosso amor por aquele serzinho.

Aos poucos, aquela pequena foi nos fazendo aprender sobre o mundo felino, suas diferenças, suas manias e suas graças. E conquistou-nos desde o primeiro contato. 

Nunu, um dos apelidos carinhosos que demos a ela, nunca foi chegada aos excessos de carinho. enche a casa de alegria, faz charme e, a seu modo, é super afetuosa. Curte um cafuné, um colo rápido e adora dormir acompanhada, mas impõe claramente os seus limites.

Manu é dessas criaturas que nos fazem entender  todos os dias que ninguém veio ao mundo para atender às expectativas de ninguém, mas para ser autêntico e, assim sendo, conquistar ou não  os corações aos quais se expõe. A última coisa de que faz questão é agradar todo mundo.

E assim, esperávamos um gato preto de olhos amarelos e ganhamos uma gata branca de olhos azuis e com uma belíssima pinta preta no focinho.. E nada disso nos impediu de amá-la (nem mesmo nossos sofás pedindo socorro). Somos completamente apaixonados por ela. Nesta vida, o que importa mesmo é a essência. Parabéns, Manu!

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Sinais do tempo

Quando as copas das árvores da Praça da Liberdade acordam amarelecidas e há um tapete de folhas bronzeadas sobre o solo, é sinal de que o inverno se despede.

É possível ler o tempo nas folhas das sapucaias verdes, amarelas, marrons e púrpuras ou rosa-avermelhadas. São estações de cores que sinalizam as estações do ano, como se fossem relógios poéticos a mostrar que a ampulheta da vida está sempre em movimento.

Hoje à tarde, saí para colher fotos da praça em festa e me deparei com uma profusão de imagens e de sons: crianças correndo atrás de bolas, pais fazendo bolhas de sabão, um drone aterrissando no meio do jardim, meninas andando de patins e bicicletas, cachorros rolando no gramado. A proximidade da primavera parece mudar o astral serrano e verter alegria pra todo lado. Degusto.

Flagrar a estação das cores na praça requer atenção e agilidade. As copas das árvores trocam de roupa em questão de dias e nem sempre há sol o bastante para iluminá-las e mostrá-las em sua melhor versão. É o tempo passando voraz e apressado. Fiz o melhor que pude.

De repente me dei conta de que as roupas para o frio de dias atrás deram lugar aos shorts, bermudas e camisetas para aproveitar o calor generoso do domingo à tarde _. As pessoas estão leves e felizes. Sinto o vento tépido no_ rosto e sorrio. Cheiro de primavera chegando é como comida bem feitinha no fogão à lenha:  manifesta fome.

Fome de banho de mar. De pôr de sol na estrada. De café quente de manhã cedinho. De balanço na rede da varanda. De conversa boa com amigos num jardim. De abraço dos amores da vida da gente. Fome de um dia após o outro com vinte e quatro horas no meio. 

Quando as folhas se espalham pelo chão em qualquer estação é sinal de que devemos bem-aproveitar os dias para eternizá-los em nossas vivências. Há sempre alguns mistérios e belezas insondáveis que não se revelam em fotografias.

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Refazimento

Quem sobe a rampa do pronto socorro do Bingen, pode nem imaginar que no lugar em que habita um belíssimo pé de manacá da serra, costumava morar um frondoso e produtivo abacateiro.

Em sua sombra, em dias de sol, descansavam funcionários sorridentes para fugir do calor. Em dias tristes, algumas famílias consolavam-se em torno dele das notícias ruins recebidas em um hospital. Era uma árvore acolhedora.

Nos fins de tarde, abrigo de passarinhos. Em seus galhos pulsava a vida, a seiva, sangue verde de fazer viver os vegetais.

Tentando ampliar o pátio, foram cercando a árvore com cimento e piche. Forte, ela não se rendeu. Permanecia produzindo frutos que, aquela altura, atingiam algum carros desavisados. 

Ela não agradou.

Condenada ao corte e sem ter para onde expandir suas raízes, virou um tronco-toco aparentemente apático. 

Mas, não sei se por mãos humanas ou pela proeza do bico de algum pássaro, foi parar naquele tronco o manacá da serra de que falei lá no início.

Este ano ele floresceu. Está ainda menino, um arbusto adolescente se tanto, mas floriu por todos os lados. E pulsa lilás e um pouco branco para celebrar a vida. Está lindo!

Não produz sombras, não dá abrigo, mas transborda flores e alegra espíritos, equilibrando-se entre uma canção de Gil e outra de Djavan. A vida é ciclo. Vezes inteiro,  outras interrompido. Cada ser tem seu espaço e seu tempo, mesmo que brote em lugares e circunstâncias improváveis.

domingo, 20 de agosto de 2023

Tempo e espaço navegando todos os sentidos


Devo confessar que fiquei um pouco borocochô com o final dado à novela "Vai na fé". Razão pela qual não consegui escrever sobre isso logo de saída.  Achei um tanto exagerada a dose empregada de mentiras nos últimos capítulos da trama. Mesmo pra mim que não perco um "Missão impossível" e tampouco um "Indiana Jones". Ainda bem que uma obra não se resume ao seu último capítulo!

Houve muita coisa boa exibida no trajeto. A valorização da diversidade foi destaque nessa obra de Rosane Svartman. Diversidade racial, sexual, religiosa, social, cultural. Falar de um plural tão presente, tão notório e tão notável em nosso dia a dia foi, desde sempre, sua marca registrada.

O uso do canto e da música para tornar visível e tátil os conflitos internos, os desejos, as dificuldades, o trabalho das personagens foi um recurso muito bem aproveitado do início ao fim. E, mesmo quando os intérpretes desafinaram, deram prova inconteste de que "no peito dos desafinados também bate um coração".

Aliás, entrei nesse texto para falar de um capítulo bastante significativo. Capítulo esse em que a passagem do tempo foi marcada pela maioria do elenco cantando "Tempo rei", de Gilberto Gil. Programadas para serem uma homenagem a Gil por seus robustos 81 anos de idade, as cenas presentearam a todos nós com a delicadeza necessária para nos lembrar que o tempo é soberano e que "tudo agora mesmo pode estar por um segundo".

E, por falar em fim, do término, tirei como ponto alto a ascensão das personagens negras e de origem pobre pela arte, pelo trabalho, pela fé e pela luta diária para a conquista dos sonhos e objetivos. "Vai na fé", sem dúvida, ofereceu referências fortes o suficiente para que elas se tornassem um espelho para a sociedade. Que o diga Clara Moneke.

Do último capítulo, posso dizer que achei de "mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto" em relação ao parto caricato da Guiga, que não gostei dos exageros em relação ao Theo (ele merecia ter sido preso antes daquele momento derradeiro), mas que gostei que tudo terminasse em celebração, que um buquê marcasse a união de três casais, que todos os caminhos conduzissem Sol até Ben (e vice-versa) e que houvesse um baita beijo e uma piscadela no final.

Graça, paz e axé!

Gosto muito de te ver


O que vou revelar hoje não chega a ser uma novidade para os que me conhecem.  Tampouco é
exclusividade minha. Muita gente experimenta esse mesmo sentimento. Caetano é meu crush.

Ontem o cantor chegou aos 81 com o charme dos oitentões do nosso tempo e a elegância que só quem viveu cada uma das idades que teve pode atingir.

A primeira vez que o vi, acelerei inteira numa autêntica reação de surpresa e admiração. Éramos três gerações da família na plateia e cada uma o sentiu a seu próprio modo. Aquele terno azul e impecável, um banquinho e um violão no Teatro Mecanizado do Quitandinha me fizeram descobrir acordes insondáveis. Foi graça, vida, força e luz.

Memórias com ele,  quem não as têm? Se pensar na minha linha do tempo, "Alegria, alegria" é a lembrança mais antiga.   Criança, cantarolava-a sem sequer supor o que seriam cardinales, mas a melodia e as rimas já haviam me arrebatado. Já adolescente, nos tempos das festas em que se ofereciam músicas às pretendidas, os alto-falantes do colégio chamaram o meu nome e dedicaram-me "shy moon". Fiquei verdadeira e adolescentemente encabulada. Alguém havia se declarado para mim. Mãe, costumava cantar músicas do compositor para embalar o sono do meu filho. Hoje eu o escuto sempre que desejo ensolarar a alma.

Outro dia,  ouvindo-o cantar com Roberto Carlos, comentávamos entre amigas, como está gostoso o Caetano! E rimos de nossas opiniões unânimes e ousadas.

Ele amadureceu, e isso é coisa fina. Muitos só envelhecem mesmo. Ele hoje canta ainda melhor, sabe de si, por isso mesmo, está um homem no esplendor da sua beleza. Salve a Bahia, que gerou e pariu um filho desse naipe!

Que venham outros aniversários, para que continuemos a beber Caetano na fonte e a nos embriagar!

domingo, 6 de agosto de 2023

BARBIE

Dia desses, fui ao shopping apanhar uns óculos que havia esquecido por lá e me deparei com 50 tons de rosa. Do bebê ao fúcsia a cada meia dúzia de pessoas com as quais eu cruzava pelos corredores..

No trabalho, as colegas estão todas animadas para a ida até o cinema. Também por  lá tivemos um dia de Barbie. Mulheres bem heterogêneas vestindo pink e desempenhando suas funções no mundo real.

Num encontro entre amigas na última sexta, fui provocada a assistir ao filme, sob a alegação de que era todo metafórico e de que era preciso ver para além dos símbolos e do plástico para poder se divertir.

Não bastasse tudo isso, no domingo, minha prima de apenas 13 anos estava indignada com as críticas ao filme alegando veementemente que a crítica não havia entendido o longa metragem.

Foi o que bastou: não havia outra opção que não fosse   me render à produção e comprar o ingresso para ver isso de perto.

A proposta é esta: reflexão pela via da diversão (no mais das vezes). O tempo todo o filme nos convoca ao riso, ao comentário, à gargalhada. Há tempo para sutilezas e emoções também. É preciso estar atento o tempo todo, sobretudo aos diálogos.

Desde as primeiras cenas é possível entender o desconforto daqueles que acreditam que o filme é contra a família e que o problematizam por equivocadas razões. O filme, realmente, não é para crianças.

Fui, vi, gostei. 

Do longa não dá para contar coisa alguma. Tudo é spoiler e não vale correr esse risco. Vale ver, sentir e sorrir, descobrindo o seu conteúdo uma cena após a outra.

Boa sessão!


domingo, 23 de julho de 2023

Olhares sobre a finitude

Já faz algum tempo, a novela das 19h, "Vai na fé", vem tratando da finitude da vida. Com delicadeza e humanidade o tema entrou em cena pelas palavras de um médico ao revelar o duro diagnóstico à personagem Dora: um câncer agressivo e incurável.

A trama abordou a tristeza do companheiro de Dora, o sofrimento de sua filha e a busca pelo equilíbrio da própria personagem para viver seus dias até o fim, através de cuidados paliativos.

Foi desse modo que também o público veio sendo preparado para a partida da hippie: com cuidados. Com a exposição à realidade numa aura sensível que dava mais luz aos desejos humanos de Dora do que à doença em si mesma.

A aproximação do núcleo cômico ao núcleo alternativo e, a essa altura, dramático da história tornou a despedida mais leve e terna. Sobretudo com a proximidade de Lui Lorenzo com sua música sem compromisso, seu jeito apaixonado e sua quase ingenuidade extemporânea disposta a realizar os desejos daquela que se aproximava do desencarne.

Em tudo a terra, a arte e a fé estiveram presentes nesse desenlace  entre o mundo físico e o impalpável. Teatro e música. Religião e crença. Natureza e meditação. Fantasias e carnaval.

Não à toa a cena encerra-se com uma cerimônia para o espalhamento das cinzas da mulher/mãe/amiga por um canteiro de flores. Do pó ao pó nas asas de um passarinho e nos beijos de um beija-flor,  Dora foi semeada exalando energia e amor, enquanto cada gesto, verso, canto, rosto de cada personagem revelava saudade e respeito. Foi lindo.

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Fé na vida

Já faz algum tempo, venho acompanhando com certa regularidade os capítulos de "Vai na fé", a novela das 7h exibida na Globo.  Ela tem uma sutileza admirável para abordar certos assuntos que, no mais das vezes, são tratados pela superfície ou beirando  o grosseiro.

Hoje foi dia de bolhas de sabão. Coloridas. Saídas de um  canudo de mamoeiro que bem faz parte da minha tenra realidade infantil. Bolhas multicoloridas para simbolizar a vida breve, frágil e bonita de cada um de nós. Foi dia de ver as cores estourarem no ar ou morrerem no chão. Dia de realizar a finitude como dor espanto, beleza, inevitável.

Também foi dia de verdade. Kate, finalmente, revela-se para Rafa. Primeiro o corpo nu para os flashes da câmera. Depois os corpos revelando a nudez absoluta, entrega física e emocional de amantes que se desejam. Um pouco mais adiante a alma sem roupas em pleno desassossego. Revelação.

Dia após dia, a novela vem me acrescentando músicas da juventude, alegria das refeições em família, excertos de peças teatrais e romances. 

Por falar em música, como não lembrar da despedida entre Theo e Rafa cantando Cazuza em "Mal nenhum"? E como não valorizar a passagem do tempo representada pelos vários núcleos do folhetim entoando o "Tempo Rei" de Gilberto Gil?  Tudo é um caso de amor com a música.

Tudo vai na fé.

Religião?! Tem também. Um núcleo evangélico ensoando hinos de fé e esperança, e um protagonista que segue e honra a umbanda, tendo uma mãe de santo que o guia diante das situações duvidosas da vida.

Os conflitos da adolescência e juventude. A futilidade do mundo virtual. As relações com pessoas do mesmo sexo. As novas configurações familiares. A diversidade. O respeito. O subúrbio. A Zona Sul. A preocupação de quem tem contas a pagar. 

Os relacionamentos abusivos. O perfil do abusador.  A culpabilização das vítimas. O esforço interno de cada uma para buscar Justiça. O joio e o trigo.

Todo dia eu acho que "Vai na fé" é uma novela, mas ao término de cada capítulo, eu vejo o retrato da vida real  com receitas pra buscar o melhor e o justo.