quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Um soco no estômago

Não, não fale! Eu não quero escutar. Cale, vai, quebre essa. Me deixe fora dessas reflexões tão duras. Mantenha esse silêncio de estourar os tímpanos, bote uns panos quentes e não me mostre. Eu não quero ver nem ouvir, muito menos pensar que tudo isso pode ser verdade e pode acontecer.

É duro! Qualquer um que trabalhe na área da saúde, em que o sigilo é tão precioso e tão caro, sente um violento incômodo já nas primeiras cenas do filme. É uma obra áspera, sem burilações e refinamentos. Trata daquilo que se quer empurrar para debaixo do tapete.

O silêncio, a solidão acompanhada dentro de uma família até na hora do jantar. O pai ali num papel secundário. A solidão da criança em casa. O desconhecido (alô!). A fantasia (é você, fulano?). O desequilíbrio, a transgressão, a dor, o preconceito. O afeto. A complexidade. A alternância de papéis. O agressor, o opressor, a vítima. Quem é quem nesse jogo da vida? 

A terapeuta que rompe os códigos de sua profissão advogando em causa própria e aquela coisa de ver mais uma vez o profissional de saúde mental perdendo a linha, o tom, misturando o pessoal e o profissional e é possível que se fique pensando: mas isso não afastará ainda mais as pessoas desses profissionais? Não fará aumentar o preconceito?  Bem, já há algum tempo tenho questionado um pouco essa maneira de olhar para a ficção como um impulso para a realidade. Vejo a ficção como um mote para a discussão, não como um padrão a ser seguido. Entendo que ela possa influenciar comportamentos, mas acho que a discussão tem que ser ainda anterior a isso: se é assim, por que estamos seguindo padrões "impostos" pela ficção? E que "imposição" é essa? Quem a está permitindo? Estamos mesmo assumindo que é a ficção e são as mídias que ditam o que devemos fazer sem questionar?

A gente se mexe na poltrona do cinema, ora irritado, ora constrangido, ora perplexo, sempre reflexivo. "Fala comigo",  o filme de Felipe Sholl, com cenas cuidadosamente trabalhadas e com belíssimas atuações, toca em pontos incômodos, expõe tabus e fica reverberando na gente depois da sessão.

É, sim, é mais fácil olhar para o outro lado, pedir um café, fingir que não vê, mas as situações estão aí o tempo todo em todo lugar e, quer queiramos ou não, continuarão existindo, e por que não falar sobre elas?

Trailer oficial:
https://www.youtube.com/watch?v=o8BqKYjV6qM

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