sexta-feira, 7 de abril de 2017

Sobre "Diários marginais"

Era uma noite de quinta. Fazia calor e o céu vestia-se de modo atraente, embora os ventos denunciassem que estava próxima uma mudança de tempo. Saímos de casa para encontrar Lima Barreto e João do Rio no Theatro D. Pedro e, devo dizer, que foi um encontro fascinante.

É verdade que Lima era já aquele, em muita medida, sequestrado pela bebida e vítima do alcoolismo e que João estava demasiadamente perturbado com os apelidos maldosos que a sociedade do início do século XX lhe impôs, ainda assim a riqueza daqueles dois sobressaía a essas tristezas que a vida às vezes decreta.

Os dois nos trouxeram generosamente um pouco de suas biografias e, em seus diálogos delirantes, nos mostraram a dor e a delícia que pode trazer a cada autor o dom para a escrita. É que essa sensibilidade tão aflorada muitas vezes fere e não são raros os exemplos daqueles que não conseguiram lidar com ela sem anestesia, ou mesmo daqueles que não conseguiram a ela sobreviver.

Em dado momento, ambos protagonizaram um julgamento que bem nos faz refletir sobre o lado cruel da sociedade em que não importa o que se diga, o que se faça, o que se apresente ou mesmo os fatos, julga do mesmo modo. Em alguns casos, a conclusão e o veredicto social é sempre o mesmo e viciado. A sociedade julga e rotula desde sempre e isso não é exatamente uma novidade. Novo é ver o processo se fazendo diante dos nossos olhos com humor e ironia.

Não se pode negar que saímos de lá meio mexidos com essa coisa inevitável que é a morte na vida da gente. Igualmente não se negará que é belo e pleno de força constatar que Lima e João estão vivos e atuais em cada um dos textos produzidos pelos autores e que seus personagens renovam suas forças.

A mim, particularmente, Lima sensibilizou mais até por confundir-se ali, bem na minha frente e de maneira tão explícita, com Policarpo. Mas foi João que conduziu muito bem o espetáculo e puxou, do fundo de nossas almas absorvidas pelo Rio de Janeiro confuso e ambíguo da Belle Epoque, um olhar humano e terno para dois autores de um tempo que parece distante, mas que, sob alguns aspectos, se repete um século depois.

Foi um encontro adorável, em uma noite de reflexões, emoção e encantamento. O Teatro tem sempre essa magia.

PS: Diários marginais – um encontro com Lima Barreto e João do Rio é uma peça teatral da Oráculo Cia de Teatro e, atualmente, vem sendo encenada, através do SESI Cultural, em diversos municípios do Rio de Janeiro, com texto e atuação de Gilson Gomes e Wagner Brandi.

Trailer da peça:


Sobre o projeto:
https://www.catarse.me/diariosmarginais

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