domingo, 16 de abril de 2017

Todo dia é dia de ressurgimento

Todos os dias os noticiários nos matam um pouco e tentam pôr uma pá de cal na esperança nossa de cada dia. São crimes, guerras, corrupção, crueldades e, ainda, algum absurdo do qual nós nem fazíamos ideia da existência (denúncias de campos de concentração para gays na Chechênia, é isso mesmo?!). Todos os dias o mundo árduo, duro, embrutecido tenta sepultar nossa ternura, compelindo para a morte os nossos mais nobres sentimentos. 

Todos os dias o trânsito nos violenta com berros, brigas, xingamentos, freadas bruscas e desrespeito. Todos os dias as relações humanas sofrem com alguma doença degenerativa. Todos os dias as redes sociais vociferam ódios gratuitos pondo abaixo o uso de toda e qualquer estratégia de argumentação. Todos os dias alguém tenta nos manter alienados através de veículos que deviam trazer informação. Todos os dias tem alguém simplesmente replicando notícias falsas e sensacionalistas sem a checar a idoneidade de suas fontes. Todos os dias nossa cidadania é violada. Parecemos todos imersos num fluido lodacento que tenta dificultar nosso movimento para a luz e que, se bobearmos, seremos nele submersos. Sob esses e outros aspectos, vivemos uma espécie de via crucis diária.

No que diz respeito à informação, em muita medida, somos nós mesmos que permitimos nosso afundamento nesse pântano de negatividade. Se pararmos para pensar, os meios de comunicação de massa nos servem generosas e regulares refeições todos os dias e o cardápio é quase sempre muito ruim e pouco variado. Mais do mesmo o dia inteiro. No despertar, no café da manhã, no almoço, no jantar e na hora de dormir e, ainda, é claro, algumas "colações" entre cada uma das principais refeições. O menu por vezes é o mesmo dias a fio. Resultado: ficamos impregnados de alguns elementos e carentes de outros tantos nutrientes. Sem nutrir-se, a vida perde sua qualidade ou se esvai. Precisamos, pois, cuidar da nossa dieta. É preciso promover uma mudança de hábitos e ela deve começar em cada um de nós.

Não é que tenhamos que nos manter mal informados. De jeito nenhum! Mas é observar a velha máxima de que quantidade nem sempre é qualidade e de que a alimentação que já vem processada e preparada nem sempre (ou quase nunca) é aquela que nos proporciona melhor qualidade de vida. É necessário dosar, variar, criar e buscar fontes que nos alimentem de maneira mais adequada e balanceada. Isso é urgente. É questão de saúde mental, emocional, física, intelectual e espiritual.

Buscar informação leve também é de suma necessidade para contrabalançar com as inevitáveis notícias densas que circulam por aí e que, invariavelmente, consumimos todos os dias (afinal, é preciso saber da dor, doer-se, agir e também cuidar-se). Essa alimentação mais leve, no entanto, não vem oferecida em bandejas nos telejornais e revistas por aí, elas não estão em destaque, elas não são o prato principal. Não estão nas vitrines. São da ordem do garimpo. Há que buscá-las. Elas podem ser de vários tipos, cabe-nos descobrir aquelas que funcionam melhor para manter a nossa leveza.

Foto de arquivo pessoal
Todos dias a vida nos oferece um tanto de beleza. Flores. Perfumes. Árvores frondosas ou pequeninas. Água correndo no riacho. Cantos de pássaros em lugares prováveis ou não. Sol. Chuva. Nuvem formando figuras ao sabor do vento. Noite. Lua. Estrelas. Cinema. Música. Literatura. Fotos de lugares paradisíacos. Gestos de carinho e gentileza. Sorrisos. Abraços. Beijos. Gostos.  Cores. Gargalhadas. Café quentinho e papo com amigos. Almoço em família. Não tudo para todos o tempo todo, mas sempre há uma possibilidade. Na simplicidade, há incontáveis fontes de alegria e apaziguamento.

Todo dia é um exercício de ressuscitar. Romper as barreiras do embrutecimento e das reações imediatistas aos ódios que nos cercam. De filtrar as mentiras e de fazer ressurgirem as verdades em nós primeiramente. Isso é da nossa governabilidade. É de dentro pra fora que se transforma uma vida, um lugar, um país, o planeta. É no trabalho de formiguinha, enxergando com clareza o nosso papel na e para a coletividade. Por falar em formigas e em coletivo, dia desses, li no site do El País a seguinte notícia: "Formigas resgatam seus 'soldados' feridos". A matéria dava conta de que as formigas de uma determinada espécie da África Subsaariana carregam de volta à colônia suas companheiras feridas ou mutiladas durante a caça e que não fazem isso pelo indivíduo, mas pela coletividade, já quase todas as formigas resgatadas, cerca de 95% delas, participam das expedições de caça posteriores, ou seja, elas perceberam que salvar o indivíduo favorece toda a colônia. E elas nem precisaram de empatia para isso, apenas de pragmatismo. A matéria é baseada em  um estudo realizado por cientistas do Centro de Pesquisa do Parque Nacional da Comoé, na Costa do Marfim e me fez pensar que, nós, seres humanos, já devíamos ter tido essa sacada: abandonar um é pior pra todos. Em alguns lugares do mundo, as ofertas dessas coisas todas que citei no parágrafo anterior é muito menor do que em outros e aqui esbarramos na solidariedade e na falta dela. Devíamos aprender com as formigas. Alguns de nós já aprenderam, felizmente, haja vista os países que recebem refugiados.

Hoje é Domingo da Páscoa Cristã, dia de ressurreição, de despertar a solidariedade, o perdão, o respeito, o sagrado (independente de religiões, a vida é sagrada), a Esperança para que todo dia possamos exercitar e construir a Paz. Hoje é dia de celebração da Vida. Da vida que supera cada uma das dificuldades e triunfa sobre a morte e sobre o sofrimento. Vimemos um bom momento para lembrarmos disso.

Que sejamos agentes de promoção da vida. Que não nos encharquemos nem contribuamos com aquilo que nos faz mal individual ou coletivamente. Que todos os  dias sejam dias de resistir à vaidade, à leviandade, à hipnose das redes sociais,  de conviver com a gente mesmo para se fazer melhor e melhorar o nosso entorno. Que todos os  dias sejam dias de despertar o bem em nós mesmos e espalhá-lo por aí. Que todos os dias sejam dias do exercício da Ética e da honestidade, a fim de que consigamos ressurgir melhores a cada dia. Enfim, que façamos renascer diariamente nossos mais caros sentimentos, que os alimentemos e os preservemos. Isso podemos fazer e só cabe a cada um de nós. Que tenhamos força, fé e coragem para esse enfrentamento diário e sigamos o exemplo do Cristo. Que possamos encontrar a beleza em qualquer parte. É tempo de ressurgimento. Tempo de ensolarar a alma da gente. São esses os meus desejos de Páscoa para mim, para minha família e para cada um de vocês.


Notícias acerca das denúncias da existência de um campo de concentração na Chechênia:
http://www.bbc.com/portuguese/internacional-39603792

http://g1.globo.com/mundo/noticia/campos-de-concentracao-para-homossexuais-a-crescente-perseguicao-a-gays-na-chechenia.ghtml

Matéria do El País: Formigas resgatam seus 'soldados" feridos, matéria da jornalista Joana Oliveira:
http://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/12/ciencia/1491987928_241787.html?id_externo_rsoc=FB_CC

2 comentários:

  1. Que possamos ressurgir em nós mesmas, queridona, todos os dias, a fim de levar ao nosso próximo, apenas as auto reinvenções de amor, paz, beleza, gratidão...!

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    1. Que assim seja, Ana!
      Estamos na luta diariamente.
      Beijocas.

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