quinta-feira, 23 de março de 2017

Comigos de mim

No jardim aqui de casa. Presente do meu querido Sr. Luiz.
Sábado chuvoso. Tempinho frio e muito bem recebido depois de uma onda de calor intenso. A amiga liga chamando para sair. Cinema? Perfeito! E lá fomos nós animadas para assistir ao filme, quando tivemos uma surpresa: não havia ingressos. Tickets só para o dia seguinte, informava um aviso. Ao contrário de nos aborrecermos, compramos as entradas para o domingo e saímos encantadas com as longas filas e o clima de expectativa no ambiente. Um burburinho, uma inquietação, uma delícia! O sábado terminou mesmo em pizza e isso, ao contrário do sentido que vemos por aí, foi muito bom.

Vinte e quatro horas depois, chegamos para a sessão que já ia começar. Nada de pipocas! A fila estava gigantesca e o que a gente queria mesmo era se fartar de filme. Tempo de espera é também tempo de observação. Havia crianças, pais, avós, grupinhos de jovens, casais de namorados, gente sozinha e acompanhada, homens, mulheres. Enfim, o público era pra lá de heterogêneo, ponto a favor!

Entre ruídos vários, pipocas sucumbindo entre dentes, latas de refrigerantes se abrindo, pacotes sendo rasgados, zunzunzum de crianças e pais, risinhos adolescentes – é, quando a gente não faz parte da orquestra, os barulhos ficam mais evidentes - começou a sessão. Demorou um pouquinho pra todo mundo embarcar na magia, o silêncio veio sem pressa, mas todos chegamos lá. Era hora de viajar.

De alguma maneira, à medida que as cenas apareciam e que canções e diálogos iam se revelando, eu ia me conectando a uma jovem entre dezenove e vinte, que assistira a uma animação exibida há mais de vinte anos. Era tudo tão familiar, só que agora eram pessoas dando vida aos personagens. Eu estava duplamente encantada.

Ao mesmo tempo em que a personagem principal ia se revelando, eu ia me lembrando de algumas pessoas que têm esse amor deliberado pelos pensamentos escritos, os livros. Daquelas que sabem que em cada exemplar há um mundo vezes feio, vezes bonito, vezes complexo, outras simples. Há até os desinteressantes. Numa biblioteca está o pensamento materializado, aquilo que existiu ou existe dentro da mente dos seus autores. São prateleiras inteiras de sonhos e ruminações. Pode haver algo mais íntimo que o pensamento? Talvez por isso seja um espaço sagrado.

Deixei-me encantar com o ímpeto e a determinação da protagonista, mas quando olhei nos olhos da Fera  foi que me encontrei. Foi ali que me lembrei de que cada um de nós tem um lado meio/muito bruto, precisando de cuidadosa e insistente lapidação. E me veio Fernando Pessoa: “Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim”.

E, naquele espelho encantado, resgatei aquela jovem que outrora assistira ao desenho cheia de paixão, sonhos, ilusões e encantamento. De lá até aqui, foram anos e mais anos de desilusão e burilamento. Não desse desiludir-se barato, que parece uma grande tragédia, mas de um desiludir-se próprio do amadurecimento em que vamos trocando ilusões por planejamento e realidade. Desiludir-se não é mau, é apenas aprender a trabalhar com o que é real e, embora possa haver algum sofrimento no processo, é crescimento e não há nada de melancólico nisso.

Na vida, todos temos nossa rosa, dentro ou fora da redoma, a perder as pétalas do tempo. Urge que nos encontremos e que amemos a nós mesmos profundamente, apesar de nossos espinhos. Sem egolatria, mas com a humildade necessária para saber-nos e aceitar-nos belos e feras. Essa é minha busca, é o meu desafio diário.

Conforme a trama avançava, amparada por toda poesia musical e imagética do longa, fui me afeiçoando, tal qual Bela, àquela Fera desajeitada, mas cheia de potencial. Ao mesmo tempo, segui amparando “as feras de mim” e recordando o quanto foi difícil refiná-las ao longo desses anos. Valsei com minha fera longamente, com doçura e compreensão e me vieram à memória muitas pessoas envolvidas nessa depuração, ao longo desses quarenta e cinco anos vividos intensamente. De fora pra dentro, houve quem me olhasse e só visse a bela, outros só a fera. Poucos a moeda inteira. Bela e fera são dois lados da mesma moeda. Muitos torceram, muitos vibraram e tantos outros jogaram contra, mas, ainda que alguns tenham tido papel mais determinante que outros, todos foram importantes para a formação daquela que sou hoje. E novamente Pessoa chegou me dizendo que (com licença poética) minhas mágoas não foram capazes de me fazer ver para sempre negro o que era de cor laranja. Isso aqueceu minha alma e me encheu de emoção.

Na Fera, perscrutei a mim, e vi em seus/meus olhos que, sentimentos (pensamentos e  posturas também), ao contrário do que diz a canção, nem sempre são fáceis de mudar, entretanto essa mudança pode ser pra melhor. As “feras de mim” ainda existem, elas são minhas, são eu. Algumas já não rugem, mas todas são trajeto para meu equilíbrio. E saí do cinema entre Pessoa e Gonzaguinha, comigo, com os comigos de mim, me gostando muito mais, porque me entendendo muito mais também. Isso não tem preço.



Eu apenas queria que você soubesse
(Gonzaguinha)



6 comentários:

  1. Marise, aqui, consegue nos envolver de forma muito natural. Acaba, assim, por nos deixar embebidos de seu universo povoado de sentimentos, como se pode notar nas minúcias dos acontecimentos que vai narrando. São detalhes que normalmente nem nos damos conta, mas que não escapa a seus olhos atentos,
    não escapa de sua extrema sensibilidade poética em percebê-los. A riqueza com que partilha seus 'comigos' nos conduz a pensar em nossos próprios comigos, feras ou nem sempre. Os 'comigos' de Marise também são os nossos 'comigos'.

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    1. Obrigada pelo carinho de hoje e de sempre, por me ler tão minuciosamente e pelo comentário tão generoso.
      Beijo grande, carinho muito.

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  2. Minha amiga fera....fera de palavras ditas e escritas! É lindo esse (nosso) momento, não é? Como me identifico com tudo que está aí nesse belo texto de uma fera em transformação! Simbora...o mundo nos espera! 😍😘😘

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  3. Ana querida. Obrigada!
    Estamos sempre em transformação, né? E temos muita garra. Simbora, lindona!

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