segunda-feira, 17 de julho de 2017

Hibernação


É inverno. A temperatura lá fora cai vertiginosamente, enquanto meu peito se ilumina aquecido de lembranças saborosas e caras da infância e de outras fases da minha história. Talvez porque a vida tenha escolhido essa época do ano para me fazer aportar por aqui e porque, por isso mesmo, inverno sempre tenha sido para mim sinônimo de celebração ou, ainda, porque sempre tenha gostado do recolhimento necessário para apaziguar o espírito e essa estação favoreça o estar consigo mesmo o tempo todo. Talvez porque, diante do frio, os sabores se acentuem. Talvez porque o frio congregue, aproxime, envolva e sugira afago e abrigo ou talvez por cada uma dessas coisas e de outras mais, o inverno pra mim sempre vem cheio de significado.

Recolher, nutrir, proteger, aninhar a si e aos afetos. Tempo de refinamento e construção para desembarcar no setembro primaveril. Há sempre um tempo de brotação que é invisível aos olhos, o inverno é assim. Inverno é etapa, fase, momento, avaliação. Ao contrário do que ocorre com outras espécies, até a nossa alimentação é mais rica nessa época do ano. 

Dia desses, a sala de aula me fez lembrar de um período muito caro da minha vida na escola. Petrópolis amanhecera fria, um vento gélido e cortante insistia em desconfortar. Abro a porta da sala e me deparo com algumas meninas com uma espécie de mantinha de soft jogada sobre os ombros. Estavam em pares. Aquela imagem, repleta da noção de aconchego, reportou-me à infância.

Parte da minha vida escolar se deu em um colégio com ideias e ideais à frente de seu tempo, coisa de que só tive consciência quando já era adulta, cursava a Faculdade de Letras e começava a estudar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Nesse momento, percebi que muitas das coisas que eram apresentadas como novidades, eu já experimentara muitos anos antes na Escola Viva, a educação inclusiva foi uma delas. Nessa escola, vezes, na chegada do inverno, os professores reuniam os alunos num grande salão com lareira em que as janelas permaneciam parcialmente fechadas, para que fosse favorecida a penumbra. O fogo era aceso, eram servidas canequinhas com um delicioso chocolate bem quentinho e falava-se sobre o inverno, contava-se histórias e curtia-se em conjunto esse momento/tempo de recolhimento. À exceção do verão, cuja chegada nos encontrava já em férias, celebrava-se cada estação à sua maneira, frutas, chocolate quente ou flores. Tenho, portanto, uma ligação afetiva com a passagem do tempo, com os ciclos.

A própria Petrópolis fica também mais viva e pulsante no inverno. São festivais, músicas, teatro, poesia, a tradicional Festa do Colono Alemão. É tempo de pura efervescência. As cerejeiras afloram. Tudo fica mais mágico e encantado.

Voltando à sala de aula, a programação era a leitura do conto "O espelho", de Machado de Assis, texto disponível no próprio livro didático. Achei por bem deixar as meninas aconchegadas, duas a duas, tal qual estavam para que nossa "roda" de leitura ficasse um pouco mais confortável. A palavra girou espontaneamente a cada parágrafo e, aos poucos, fomos todos nos assombrando com as colocações de Machado. Eu também?! Sim, eu sempre fico maravilhada com os textos desse escritor, mesmo quando leio um velho conhecido. E eles?! Muito! Duas almas?! E  a surpresa era nítida nos jovens olhares que perscrutavam aquelas linhas machadianas. Quando a leitura acabou estávamos todos envolvidos e eles repletos de curiosidade e fomos, então, desvendando as mensagens daquele escriba também à frente de seu tempo.

De temática atualíssima, o conto nos leva a pensar no contraste entre a aparência e a essência, bem como no risco que corremos ao absorvermos as referências externas, aquelas que vêm dos outros, para enxergar a nós mesmos. Quantas vezes duvidamos daquilo que somos precisamente porque os outros nos apontam o contrário? Quantas vezes nos expomos e, mesmo relutantes no início, aceitamos com o tempo os rótulos que outras pessoas nos dão? Quantas vezes acreditamos que nossa essência está nos papéis que desempenhamos e não exatamente naquilo que somos? Quantas vezes damos ao outro o poder de, tal qual um espelho, nos mostrar "quem somos"? São muitas as perguntas que nos fazemos depois da leitura de tais escritos, além da inevitável ponderação de que a vaidade pode fazer perder uma vida, um projeto. Ela pode nos fazer perder a noção de nós mesmos e dos limites que o outro deve ter em nossas vidas. A adulação é mesmo perniciosa e quem a ela se rende cria, inevitavelmente, uma espécie de dependência.

A aula terminou, estavam todos (ou quase todos) encantados com a genialidade de Machado e com tantas informações críticas e subliminares naquele texto. Deixei a sala de aula feliz, a alegria refletida naqueles olhinhos me encheu de entusiamo. Saímos todos daquela leitura nos conhecendo um pouquinho mais e um pouco mais aquecidos. Inverno é tempo de essência e daquilo que é essencial. Nesse sentido, hibernar é fundamental.



Contos de Machado de Assis:
http://machado.mec.gov.br/obra-completa-menu-principal-173/166-conto

Imagem disponível em:

https://pixabay.com/pt/vela-bruxuleante-chama-2400240/

Up em 19/07/2017
Para encantar e aquecer:

Vivaldi The four seasons - Winter - Julia Fischer

14 comentários:

  1. Tem razão! Hibernar é fundamental... Pra podermos relaxar, descansar, curar feridas, refletir, criar, sonhar... Adorei, querida! Bjus.

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    1. Isso mesmo, Lu! Tudo isso e muito mais podemos fazer na hibernação quer seja inverno aqui fora ou não, hibernar é mesmo fundamental por tudo isso que falou. Beijos.

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  2. Querida, um aconchego para a alma este teu texto. Beijos

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    1. Que delícia saber disso, Sandrinha!
      Beijos grande.

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  3. Muito bom! Parabéns!
    Bjss, Giselle

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    1. Obrigada, Gisele querida!
      Bom demais saber que gostou.
      Beijos.

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  4. Que delícia ler que você escreve. Parabéns pelo seu dom. Bjks mil!

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    1. Ei, Rô!
      Adorei encontrá-la aqui.
      Obrigadíssima, querida!
      Beijos.

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  5. Delícia de texto... 💓
    Beijos,
    Eliza

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    1. Delícia te ver por aqui, Eliza!
      Obrigada.
      Beijos.

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  6. Que texto mais quentinho para a alma de inverno. Lindo. Beijos e afagos para você, querida Marise!

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    1. Com um comentário assim tão poético, fiquei com a alma aquecida. Obrigada, Claudinha!
      Beijos.

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  7. Muito grata, Marise Bender, por guardar com tanto carinho e, assim, me fazer reviver os tempos da Escola Viva, quando eramod todos aquecidos, estimulados e vivificados pelo mais verdadeiro afeto. E isso que nos fazia criar incessantemente e em conjunto. Que alegria saber que tudo esta registrado e pulsando em voce!

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    1. Tia Inez. A Escola Viva está aqui, vivíssima, pulsa verdadeiramente em mim. Há muito o que falar sobre ela e muito daquele legado transmiti, pela educação, ao meu filho e também aos meus alunos em sala de aula. Obrigada hoje e sempre, querida!
      Beijos.

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