domingo, 18 de junho de 2017

Das coisas simples da vida II: Dia de estar só

Acordo. É domingo. O sol insinuante pelas frestinhas da janela me convida a levantar. Vou ao quintal. O outono se esvai na ampulheta de 2017. O contorno da manhã é dourado e as copas das árvores em tom de verde e cobre contrastam com o azul intenso dessa época do ano.

Inspiro. O desejo de sorver a vida em cada átomo de oxigênio se manifesta. O ar frio e seco me põe um pouco mais desperta. Os pássaros estão em festa e, apesar do dia ensolarado, um vento gélido causa um leve desconforto aos meus braços nus resultando em arrepio. Tudo é naturalmente simples, exuberante e lindo.

Há calma dentro e fora de mim. E um silêncio capaz de deixar que se denunciem os sons dos motores possantes das motocicletas na BR 040. Apesar da distância, domingo de manhã é dia de ouvi-las na estrada. Há qualquer coisa de nostálgico nesse barulho. Inevitável lembrar das corridas de fórmula I dos anos 80/90. O tema da vitória ecoa na memória e uma lágrima sentida insiste em descer pelo meu rosto.

Pensei em Ayrton. Por um instante doeram-me ainda mais agudamente as últimas notícias do cenário político do país. Lembrei-me do orgulho que o piloto tinha em exibir as cores da bandeira nacional e que isso, antes dele, não era coisa corriqueira. Senna, naturalmente, inspirou gerações de atletas a fazerem o mesmo. Somos todos mais verde e amarelo depois dele. Tinha energia e alegria contagiantes. Quanta saudade!

Pensei no Brasil e também nos lenitivos que tenho tido que providenciar diariamente para não me deixar contagiar pela tristeza de constatar os prejuízos que as trapaças e crimes generalizados da administração pública e de parte significativa do empresariado brasileiro têm causado ao país. Estar bem tem sido um ato revolucionário, uma ação de resistência.

Hoje é dia de solitude. Todos a minha volta estão felizes e fazendo algo de que gostam muito e isso me dá a paz necessária para curtir esse dia comigo mesma. Os pais e a irmã na praia, o filho e a namorada no campo. Cada um aproveitando o dia a sua maneira. Como diria uma de minhas amigas: "Isso é que é bonito!"

Olho a paisagem e tiro algumas fotos para o registro da delícia de um dia assim tão manso. Algumas nuvens me fazem lembrar que nem todos os dias são de calmaria e que, portanto, convém apreciar o máximo possível.

Estar só é o momento de ouvir todas as minhas vozes sem interferência e, por mais que eu goste de estar em grupo, ficar sozinha vez por outra é mais do que um desejo, uma necessidade real. É parte fundamental para o meu equilíbrio.

Deito na rede. Leio. Sublinho alguns trechos significativos do texto, escrevo observações. É um livro denso e me faz pensar na vida e nas relações humanas. É hora do almoço, meu estômago e também minha gatinha, impacientes, avisam que está na hora de saciar a fome. Estar só também é estar desobrigada de providenciar algo muito elaborado. E isso é ótimo. 

Aproveito para dar uma olhadinha no mundo lá fora. Do facebook me vêm notícias sobre a Parada do Orgulho Gay de São Paulo e reforço meus desejos por um mundo mais preocupado com o bem e com o amor e muito menos interessado na patrulha e castração da sexualidade alheia.

A tarde flui entre uma leitura e outra, entre uma tarefa e outra, entre um bem-te-vi e outro, entre uma peça de roupa e outra pendurada no varal, entre uma lembrança e outra e vem caindo a noite. As aves se recolhem e os sons ouvidos já não são os mesmos. Lá fora ouço os sons de grilos e um e outro bicho que não consigo reconhecer. As primeiras estrelas já começam a povoar o céu. É tudo harmônico e delicado.

Agora é saborear um chá e aguardar o retorno dos amores. É deixar um lanchinho saboroso pronto para recebê-los. É preparar o coração para ouvir outras vozes tão fundamentais na minha vida e esperar os beijos e abraços dos que foram e que voltam cheios de euforia e novidades de um fim de semana muito bem aproveitado. Sou só contentamento e gratidão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário