domingo, 12 de fevereiro de 2017

É preciso falar sobre morte

Falar sobre morte?! Vamos mudar de assunto?! Não. Dessa vez não. É preciso falar sobre ela.  Não é raro escutarmos por aí que a morte é a única certeza que temos na vida. Sim, é fato, mas por que fugimos tanto dessa conversa?! Um dos motivos certamente é porque não é nada confortável encarar a nossa finitude. Queremos viver, temos sonhos, planos, projetos e a morte é também a interrupção de tudo isso. Outro motivo, para muitos de nós ainda mais desconfortável, é o medo de perder aqueles que amamos.  Só a possibilidade de isso acontecer dói, então, uma grande parte de nós anda por aí fugindo do assunto como se não falar sobre isso pudesse evitar que acontecesse. Infelizmente, evitar o tema não vai fazer com que a morte não aconteça. Caminhamos para ela desde o nosso nascimento e, embora a maioria não saiba onde, quando e de que forma ela se dará, sabemos que o fim do corpo físico é um evento inexorável. 


Nossos tempos estão aí tentando evitar a tristeza a qualquer custo fugindo de assuntos “desagradáveis”.  É proibido estar triste! Esta parece uma regra social da contemporaneidade. Nosso status de humor deve ser invariavelmente feliz, se possível, muito, mega, ultrafeliz. Tristeza em nossos dias não pega nada bem. No entanto, quando evitamos certos assuntos para não abalarmos essa nossa “felicidade”, engolimos as palavras secas e nos alimentamos de angústia.  É preciso vivenciar a tristeza e, mais ainda, a tristeza causada pela morte. O luto é um tempo importantíssimo e deve ser vivido e respeitado. É um tempo de recolhimento necessário para a cicatrização das feridas causadas pela dor da perda de alguém. Elaborar a tristeza até que ela se transmute naquela saudade gostosa em que as lembranças não nos ferem, mas nos apaziguam, leva algum tempo e é importante que não saltemos essa etapa. Silenciar, na maioria das vezes, não nos ajuda nesse processo. Quando estamos tristes e chorosos, é o momento de tocarmos no assunto.

Não quero dizer com isso que devemos nos render à tristeza. É, sim, preciso que  continuemos buscando o bem-estar, mas tendo consciência de que ele vai demorar um pouquinho para chegar. A tristeza faz parte do trajeto. Enquanto ela não passa, aproveitarmos o momento para vivenciar nossa dor é fundamental. Boas e saudáveis conversas podem nos ajudar a enfrentar e a elaborar nossas perdas. Não podemos esquecer que, se o tempo de luto se estender demasiadamente, é necessário que procuremos ajuda profissional. Tristeza é uma coisa, depressão é outra bem diferente. É bom que tenhamos isso bem claro.

A morte de um ente querido mexe conosco. Talvez muito mais do que imaginemos, seja lá qual tenha sido a sua causa. Quando alguém querido morre de repente, o impacto causado pela perda resulta em uma dor lancinante, causa um choque. Há que se lidar com essa dor imensa de um momento para o outro. Nada se pode fazer a não ser lidar com o fato. Quando alguém morre por conta de uma doença, em geral, familiares e amigos vivenciam cada uma das fases atravessadas pelo doente e, quando percebem que o fim daquela pessoa amada está próximo, a dor da perda, embora excruciante, teve um tempo para sua elaboração.  Naquele momento têm-se a chance de entender algo que a jornalista Eliane Brum fala tão bem em seu artigo Morrendo como objeto: “quando não se pode curar, ainda se pode cuidar”.  E a noção de cuidar precisa estar intimamente ligada aos desejos de cuidado daquele que está se despedindo. É preciso respeitá-lo.

Se esse alguém está hospitalizado, as equipes médicas e de enfermagem são fundamentais nesse tempo de transição entre a vida e a morte. Muito mais do que somente manter as funções vitais do paciente, esses profissionais podem auxiliar os familiares e amigos daquela pessoa a passarem por essa hora com consciência daquilo que está acontecendo, para que possam efetivamente dar o suporte afetivo que seu ente querido tanto necessita e merece. É muito interessante que os profissionais se lembrem que os familiares do paciente, no mais das vezes, não têm conhecimento técnico para lidar com alguém doente. É preciso orientá-los. Isso requer paciência. Simplificar a linguagem para falar com eles também é importante. É necessário que tentem traduzir os termos técnicos para que haja um perfeito entendimento da situação. Muitas vezes, quando um profissional de saúde se dirige à família do paciente, fala um milhão de coisas ininteligíveis para um leigo e, embora ele tenha dito tudo o que estava ocorrendo, efetivamente não houve comunicação. Se a equipe profissional, além de competente, é sensível, consegue ajudar a família a se estruturar para o momento da perda. Quando estruturada, as decisões a serem tomadas assim o serão com maior tranquilidade e visando o maior conforto do paciente. A morte é um momento delicado.

Reconhecer que não há mais nada a ser feito, além de oferecer carinho e conforto, é reconhecer que todos temos um limite e que esse limite deve ser respeitado. É o momento de pensar em uma morte digna, numa despedida pautada no amor e no carinho.  Vezes, nossos entes queridos, quando acometidos por uma grave enfermidade, enxergam o término de sua jornada antes de nós e nos revelam esse fato. É preciso ter claro que eles não estão desistindo da vida e tampouco de nós, apenas estão nos mostrando que a hora de partir está próxima e é inevitável. É tempo de despedir-se.

Despedir-se de quem se ama não é fácil. Dói, dilacera, nos enche de tristeza. É assim mesmo. Todavia a morte é sempre um momento de refletir sobre a vida. De rever convicções e prioridades. De realinhar projetos, de traçar objetivos. Porque a morte também é espelho e reflete a nossa finitude, ela sempre nos mostra que é preciso viver melhor.



Recomendo a leitura do texto de Eliane Brum "Morrendo como objeto".




terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Imperativo febril

Deixa. Deixa que eu me rasgue inteira e que de meus sentimentos surjam as folhas atestadas dos meus desejos. Deixa que eu me esgarce em verbos, substantivos, adjetivos e ainda mais. Deixa que eu sangre em letras, sílabas, palavras, poemas, cantigas até que se esgote em mim toda essa vontade de gritar que te quero e que  me fazes querer-te. Íntimas querelas!

Deixa que o meu gozo se faça em versos. Que os espasmos sejam vírgulas, aspas, parênteses até que o ponto final seja apenas reticente. Deixa que o próximo parágrafo se construa à chegada tua. Permite que de meus desejos, dos mais secretos e lúcidos, insanos desejos lúdicos, brotem os clamores erigidos de meu ventre.

Deixa. Deixa que o sal brotado do teu corpo tempere saborosamente o meu. Enche-me de vida. Quimera?! Realidade?! Em que dimensão eu estou?! Deixa que as cabeças pensantes se preocupem em explicar. Deixa que os cérebros definam, que as inteligências espaciais possam me localizar. Eu preciso sentir. Mais que isso, eu desejo, eu quero sentir. Eu! Eu! Eu! Primeira pessoa do singular: Eu. Pronome pessoal do caso reto. Mas eu o quero muito mais do que a menor distância entre dois pontos. Eu o quero vertiginosamente sinuoso. Muito mais desafiante. Quero um eu oblíquo, mas não dissimulado. Verdadeiramente oblíquo. Como dois pólos que se atraem pelas suas diferenças.

Deixa que eu procure ardorosamente o meu querer. Flerta com a minha fêmea-feminina-dificuldade. Derruba-a. Rompe de vez minhas amarras. Liberta-me. Prova-me. Submete-me aos caprichos de felizes provações. Prova-ações. Prova as ações que desprendam das vontades mútuas e deixa que gabaritemos juntos essas compartilhadas questões.

Deixa que se mesclem as Letras e o Direito. Que se fundam e se consumem numa demanda única. Inicia um processo singular. Procede a redação de todas as pendências a fim de que escreva em nossos corpos um acordo. Prossegue com todos os pedidos. Argumenta solidamente a cada negativa. Movimenta-te com arte na retórica atuante desse texto-tabuleiro. Embarga quaisquer descontentamentos. Deixa que se cumpram os trâmites inteiros. Audiências, apelações, deferimentos até a última e derradeira instância.

Deixa que se unam as esferas de governo. Que se interpenetrem os poderes. Que o judiciário absolva, o legislativo se esqueça das regras e que o executivo tenha vontade própria. Deixa que nesse sistema haja mesmo a ditadura do respeito e que assim surjam democraticamente todas as partes constitutivas desse nosso encontro.

Deixa a Geografia sem palavras. Deixa que ela sucumba sem rumos. Cartografa mapas inteiros de realizações. Deixa que as bússolas desorientem. Que nesse rio, que não é só de janeiro,  sejam descobertos santos espíritos provocadores de cumplicidade transcendente às integrais distâncias. Deixa que seja explorado todo tipo de relevo. Que nos mais áridos desertos sejam reveladas grandes bacias hidrográficas. Deixa que as variações climáticas aqueçam a totalidade de nossos corpos terrestres e que a ação dos ventos lance às correntes marítimas toda impossibilidade.

Deixa que numa parceria única nasçam canções com o lirismo de Sant´Anna e a feminilidade de Chico Buarque de Holanda, para que ao despir dos corpos se confundam pernas, braços, cheiros, bocas e línguas.

Deixa que eu perca a menina. Que eu me esvaia dessa infância recorrente. Deixa que se vá toda timidez impura. Deixa! Deixa! Deixa e, num afago, tempera o meu espírito com os teus sabores, revelando as cores dos mais essenciais quereres. 

Arrebata-me com a fúria doce das tuas carícias. Aquece-me com os teus anseios avassaladores mesclando nossos corpos em suor comum. Deixa que o prazer se sagre em nós e, se quiseres, pede-me que deixe e abra em ti generoso corte para possibilidade igual.
(Marise Bender, 2004)


Fonte da imagem:

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Feliz Ano Novo!

Meu fim de ano foi diferente em 2016, assim também foi o início de 2017. Os rituais e o momento meditativo a que sempre me reservo o direito no primeiro dia de cada ano vão ter que esperar um pouquinho. A mudança de planos me fez pensar na dureza do ano que passou. Dureza em muitos aspectos.

2016 foi um ano de muitas perdas e por isso mesmo um ano cheio de lições e de recados. Não cabe aqui ficar fazendo retrospectivas, cabe ir direto ao que se pode extrair desse ano tão difícil. Mais do que muitos outros, o ano passado escancarou que a vida é efêmera, que planejamos, mas não temos nenhuma garantia de que poderemos executar nossos planos e que a liberdade e os direitos são custosos para se conquistar, mas que são bens valiosos que se pode perder muito facilmente. Essas são preciosas lições que levo do ano que passou.

Minha meditação teve, por motivo de força maior, que ser trocada pela contemplação. Uma contemplação rápida, mas suficientemente feliz para saudar o Ano Novo. É que Petrópolis despediu-se do ano velho e chegou ao novo ano com a floração exuberante de um de seus ipês mais célebres: o Ipê da Praça da Liberdade.


Dia primeiro do ano pra mim é tempo de recolhimento. Longe das algazarras e das bebedeiras e perto da família, vejo nesse dia uma data especial para procurar estar comigo, para estar em oração, pedindo que os dias vindouros soprem suaves e que sejam de realização, de paz e de conquistas. Íntimas conquistas. Aquelas que fazem toda a diferença para a vida da gente: uma mudança de hábito, mais um degrau alcançado no autoconhecimento, o amadurecimento de  desejos e de emoções. Conquistas que sejam verdadeiramente nossas. Bens materiais podem, sim, nos auxiliar na tarefa da felicidade, no entanto, é preciso que tenhamos em mente que eles são invariavelmente de empréstimo. Considero que apenas possuímos o que vivemos, o que experienciamos e nada mais. Nosso passado ninguém nos rouba, quer recordemos dele ou não, ele é nosso verdadeiro patrimônio. Por isso gosto de pensar no presente como o momento de construção desse patrimônio. Ué, mas construir passado? Pois é, a gente constrói passado o tempo todo, mesmo sem ter consciência disso. 

Desse modo, vejo que o presente tem que ser bem cuidado. É no agora que é preciso viver melhor. É no agora que é necessário eliminar emoções e coisas que nos maltratam. É no momento presente que temos que cuidar de nós como a maior preciosidade de nossas vidas. Isso não é egoísmo. Não podemos viver longe de nós mesmos, não podemos sequer nos afastar de nós. Do contrário, nos perdemos. Cuidar de si mesmo é um ato de amor e é preciso ter  esse cuidado no momento presente.  A vida é boa, mas não é fácil não. Cada um de nós pode torná-la mais leve, mas há que exercitar essa habilidade diariamente. Cada um tem o seu jeito pra isso, quanto mais cedo descobrirmos o nosso, melhor para nós e para os que estão ao nosso redor.

Para estar bem, é fundamental evitar o que nos faz mal. Uai! E isso não é óbvio?! Parece, no entanto, aí estão os psicólogos e psicanalistas para atestarem que vezes a gente se sabota e faz questão de ter por perto aquilo que nos prejudica.  Quando isso acontece, é fundamental corrigir o rumo.  A vida é curta demais pra ficar sofrendo o tempo todo. Autoconhecimento: aí está a chave para o rompimento com a autossabotagem. É necessário ousar conhecer a nós mesmos. É preciso nos permitir esse mimo. É um presente dolorido às vezes, mas de valor inestimável. Olhar no espelho e encarar a nós mesmos olhos nos olhos nem sempre é fácil, mas pode ser libertador. Ver, viver, crescer, modificar, conquistar. Bora lá!

A vida é uma oportunidade diária de evolução. A missão aqui é o aprimoramento. Melhorar sempre. Há obstáculos. Há preguiça. Há má vontade. Há inabilidade. Tudo isso temos que vencer. E não dá para nos iludirmos: humanos que somos, nunca seremos perfeitos e isso é ótimo. Enquanto houver objetivos a alcançar, estaremos em movimento. Nem sempre será a nossa parte boa que vai sobressair. Perfeito! Mais trabalho pela frente. Olhando nossos tropeços, evitaremos a soberba, que é uma ilusão e um desperdício.  Nosso maior obstáculo, ao que parece, está dentro de nós. Vencer-nos é nosso maior desafio. É diário, ininterrupto, pessoal e intransferível. E isso é coisa à beça!

Gosto sempre de lembrar que estamos nesse planeta completamente interligados. Funcionamos como ondas concêntricas. A medida que nos modificamos, vamos modificando o nosso entorno para o bem e para o mal. É preciso escolher melhorar.

Falei tanto do presente, mas e o futuro? O futuro é hipótese (e aqui me lembrei de Monteiro Lobato num texto maravilhoso, mas em outro contexto). Tê-lo em mente, fazer planos e sonhar é essencial. Embora incerto, ele é, entre outras coisas, o que nos move, nosso horizonte, o que faz nossos olhos brilharem de esperança e aqui tenho que voltar ao ipê.

Ninho de pássaros no Ipê da Praça
Um ipê sem flores não chama muito a atenção. É, para um olhar distraído, só mais uma árvore, mas ele está lá firme e sua madeira continua de lei. Ele não se modifica pelo fato de não o identificarem. Passa o ano inteiro discreto preparando a floração, que é efêmera. Seu destino é a flor e para isso trabalha diuturnamente. Enfrenta o sol, a chuva, o vento, abriga pássaros e fornece sombra. Tudo isso sem alardes, até que explode em flor, encanta e volta à discrição. Que ciclo inspirador!

O ipê da praça não floresce no inverno e tampouco no começo da primavera, como faz a maioria dos ipês. É autêntico.Tem liberdade, floresce a seu tempo, sem pressa nem comparações. Que ipê!


A vida é meio ipê: é efêmera, não está sempre florida, mas tem potencial pra isso. Como é bom reconhecer o seu valor e a sua natureza! Como é bom florescer! Hoje, dia de reis, lembro-me ainda mais que a vida é presente e recorro uma vez mais ao que diz Chico Buarque nos versos de sua canção: “dura a vida alguns instantes, porém mais do que bastantes, quando cada instante é sempre.” Vambora caprichar na florada!

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Flashback

Início de ano à vista e é hora daquela velha história de organizar a agenda. Lá está ela. Foi leal. Prestou serviços durante um ano inteiro e agora jaz obsoleta. A outra brilha intacta. E se faz sedutora, exalando seu perfume de novidade no ar. Tudo nela é branco. São trezentos e sessenta e cinco histórias para contar. Trezentos e sessenta e cinco possibilidades de um novo começo. A incerteza daquilo que vai acontecer, bem como a certeza de que virão surpresas são um excelente tempero para um prato apetitoso com sabor inconfundível de princípio.

Começo pelo fim. Encarrego-me de completar cuidadosamente os espaços destinados a endereços, telefones, correios eletrônicos. Letra "A". Inicio. Faço isso sempre a lápis, pois tudo pode mudar num clicar de mouse nesses nossos dias, do nome completo ao número do telefone, passando pelo endereço. Cada nome uma lembrança ou um brusco lapso de memória que surge do encontro de algum número de telefone anotado às pressas. Ai! Quem será essa pessoa?! Transcrevo? Não faço. Fico pensando que é possível que me lembre de quem era aquele número no exato momento em que eu mais precisar. Resolvo correr o risco.

Terminada a tarefa com os nomes, passo a um outro hábito que tenho: anotar aniversários. Vou deslizando as mãos pelas folhas da antiga companheira e recordando a escrita de um ano inteiro. Dia primeiro, nenhuma anotação especial. É estranho, sempre procuro escrever nessa data uma mensagem de otimismo, o que teria feito com que eu ignorasse esse costume? Ignoro. Vou prosseguindo entre lembranças e sorrisos até me deparar com a primeira data a registrar. Escrevo o nome e, subitamente, sou lançada  numa nuvem de recordações. Cada data uma pessoa especial. Cada pessoa um sentimento. 

Vou seguindo por esses registros e encontro uma data que já perdeu seu significado. Teve seu tempo nos trilhos da minha estrada.  Não cabe cartão de aniversário, tampouco telefonema. Já não há proximidade. Vocês já repararam como nos distanciamos de algumas pessoas com o correr dos dias? 

É curioso o quanto, ao observar uma agenda usada, se pode perceber da vida. Vezes, ficam nítidos alguns ciclos. Espaços de tempo em que as pessoas e os fatos têm maior ou menor importância na vida da gente. Donde se pode supor que tudo é mesmo uma questão de tempo, de hora, de instante, de perspectiva. Ficam tão claras as indefinições! De acordo com nossa "tábua cronológica", variam até as maneiras de enxergar um mesmo problema. Quantas vezes não nos surpreendemos com um clássico espanto: por que agi assim?! Muitas vezes esbarramos na mesma conclusão: hoje faria tudo diferente!

Prossigo. Mais um aniversário. Esse sim! Resolvo anotar em letras garrafais. Importantíssimo. O que fazia nessa data? Houve comemoração? E me delicio nas lembranças dos alegres acontecimentos de uma data especial. O bolo era Floresta Negra! Hum, eu adoro chantili! E são cores, aromas e sabores ecoando sem cessar pelo vão da memória.

Outra página. Data importante: caiu o primeiro dente de leite do meu filho. Fato de relevância incontestável! Devia ser um feriado particular na vida dele por todos os anos que se seguissem. Mãe é bicho bobo (risos)! Falando sério, é a representação da mudança. Do temporário pelo definitivo. E, aos seis anos, essa criança já começa a se vestir de definição. É tão cedo ainda! Nada deveria ser pra sempre aos seis anos de idade.

E datas, aniversários, e festas, e brigadeiros, e bolas, e comemorações, e decisões, e decepções, e conquistas... tudo resumido num revolver de páginas. Tudo representado por lógicas sequências alfabéticas. Tudo delineado por um conjunto de palavras encadeadas.

Esbarro em umas lágrimas e elas voltam vivas como se nascessem nesse instante. Quase um ano depois! Um brilho apagado, uma saudade irremediável. Alguém se foi. A dor, mais aplacada hoje do que ontem,  persiste e se transforma num aprendizado de distância.

Distâncias... efêmeras ou perenes. Se há vida, podem ser passageiras. Vai depender da habilidade e da vontade de cada um em mantê-las, encurtá-las ou mesmo eliminá-las. São desafios que podem ou ser não ser enfrentados, cabendo ao indivíduo pôr a relação numa balança e verificar se vale a pena uma reaproximação. Mas, ai! Se as separações são daquelas vivificadas pela morte, resta-nos aprender com a saudade e alimentar a esperança da eternidade.

Encontro uns planos descritos no papel.  Que felicidade! Foram totalmente realizados. Claro está que nem tudo saiu como o planejado. Voilà! Est la vie et la vie c´est  très compliquée! (espero que ainda me lembre das minhas aulas de francês). Nem tanto, nós é que fazemos questão de emaranhá-la muitas vezes.

Nessas alturas já estou pelo meio do ano. Já passaram a febril correria do carnaval, a gulosa comoção pascal, as emocionadas compras de maio e chego às flores e aos bombons de junho juntinho cartão de "Feliz Dia dos Namorados!" 

É inverno, no entanto o espirito está pra lá de aquecido. É chegado o meu momento de comemorar mais um ano de existência. Se me pego pensando nos anos que se passaram haverá para nós duas possibilidades: ou jamais chegarei ao fim desta crônica ou então acabarei escrevendo um livro de memórias, nesse caso não estou certa de que você tenha a paciência necessária para chegar ao seu fim. Optarei, em nosso benefício, por não pensar no assunto.

Sou estudante. É agosto. Recomeçam as aulas. Hora de estudar! É também hora de ceder aos apelos da mídia e sentir um desejo incontrolável de presentear o pai precisamente no segundo domingo desse mês.

Segundo semestre afora. Primavera, flores, cores, amores, dores e um bocado de rimas simples também só porque, de repente, me deu vontade de escrever desse jeito. A essa altura já registrei um tanto de nomes e aniversários que nem mencionei aqui, mas esse não vai ter jeito. Sou mãe, né?! E coruja! É a comemoração do nascimento do filhote. Como está crescido! Mais festa, bolo, parabéns e aquela coisacada toda a que se tem direito na ocasião. E seguem mais datas importantes e mais apelos comerciais para o exercício de presentear.

Outubro vem fortalecendo a certeza de ter sido agraciada. com uma verdadeira amizade. É um período de partilhas, de cumplicidade, de gargalhadas. Euzinha e Tuzinha. Amigas pra vida toda. 

Novembro. Páginas vazias. Um mal sinal. Sintoma de um leve e transitório adoecimento de alma.

Datas festivas, funestas, patrióticas e chegamos a dezembro. Aí é pura apoteose. Embora haja gritos pelo mundo inteiro ordenando: ao consumo! Há uma aura diferente que emana das pessoas. Não é regra, todavia é mais fácil encontrar sorrisos pelas ruas, receber notícias de um amigo a quem não se vê há muito tempo, de ouvir e formular um pedido de desculpas, escutar uma oração. 

Deus! Há música nas praças, nos shoppings, nas igrejas. Todos os corais afinam suas vozes para cantar glórias, alegrias, votos de felicidade. Ouça: é um solo de violino na apresentação pública da Orquestra Sinfônica Brasileira. Sublime. Harmonia de sons e movimentos. Inclinada, pende a cabeça do músico. Molemente o violinista procede o musical feitiço, que acentua-se quando o solo é  interrompido pelo vigor dos outros instrumentos. Vem, então, um  crescente de vibrações, de gestos, de sensações até que o maestro desce a batuta e finaliza o espetáculo. Êxtase! A plateia explode em aplausos.

Passou o Natal. É tempo de balanço, saldos, resultados e de esperança. Esta, sem dúvida, a minha dileta palavra dentre todas as outras que provêm desse dia 31.  Chegar ao 31 de dezembro novamente é poder sonhar com novos trezentos e sessenta e cinco dias em branco, ávidos pelo preenchimento de uma escrita feliz. Vamos a isto!

Feliz Ano Novo!








Observações:
Fazendo arrumações e balanços de fim de ano, reencontrei esse texto. Ele foi escrito em 2001 e, devo dizer, é bem curioso lembrar de um tempo que meu filho ainda era uma criança. Observar como as coisas mudaram, que minhas amizades permaneceram. Resolvi publicá-lo por conta da época e fiz pequenas modificações no original. Espero que tenham gostado.

Fontes das imagens:

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Crônica de Natal

"Salve, Jesus amado!
Salve, imortal Jesus!
Salve, Deus Humanado!
Salve, Esperança e Luz!"



Estamos quase lá! Falta um pouco mais de vinte e quatro horas para a celebração do Natal. Muitos de nós ainda estamos preocupados com os últimos presentes a serem comprados, com o jantar, com os amigos e familiares que vão chegar ou com as pessoas queridas que sabemos que não virão. Enfim, cada um de nós tem os seus motivos para estar mais eufórico e agitado ou mais introspectivo nessa data. Querendo ou não, a verdade é que o natal mexe com a gente.

Tenho lido por aí questionamentos relacionados ao fato de o “espírito de bondade” estar atuante apenas nessas datas festivas. Entendo a preocupação, mas na verdade, acho muito bom que, nesse mundo tão acelerado e digital em que estamos inseridos, haja uma data que toque os nossos despertadores internos e nos lembre que abraço é bom, que carinho é uma delícia, que um mimo pode tornar a vida da gente muito mais alegre, que presença é fundamental e que nesse tique-taque galopante dos dias de hoje o mundo ainda pode parar ao som do cuco que nos avisa: “Nasceu-nos um Menino na gruta de Belém, tão doce e pequenino, quanta lindeza tem!”

Acho bom à beça relógios no mundo inteiro badalando que é tempo de olhar pra dentro e também é tempo de olhar pro outro, que a vida é muito mais simples do que esse cavalo de batalhas que insistimos em montar trezentos e sessenta e cinco dias por ano, que despir a armadura é ótimo e que ainda há tempo para ouvir os apelos das crianças que escrevem cartinhas para o Papai Noel, dos idosinhos institucionalizados que desejam tão pouco de presente e de pessoas que por vezes estão tão perto de nós e que apenas desejam um pouco de atenção.

Das festas cristãs, talvez o Natal seja a mais alegre. Toda a sua simbologia é mágica e maravilhosa. É um momento povoado por anjos, por estrela, por anúncios, pela fé e pela superação. Maria e José com sua fé inabalável entendem o papel a eles destinado e se põem humildemente a auxiliar na realização de uma obra muito superior as suas existências. Recebem uma missão e seguem. Enfrentam preconceito, susto, adversidades, mas obstinados, empreendem a sua jornada para tomar nos braços e ajudar a criar o filho Deus. Olha aí Deus dando uma colher de chá para a humanidade e fazendo um convite para a participação num projeto amplo e sem precedentes. Deus confia seu filho a homens comuns.

O Menino Deus nasce simples, sem recursos e nos ensina que o importante mesmo é nascer, é chegar, é brotar. O nascimento Dele era muito mais importante do que todo o contexto. Na vida, não importa se nos hospedamos num hotel cinco estrelas ou numa estrebaria, no fim das contas o que vale mesmo são as nossas ações. O menino, que teve como berço uma manjedoura, cresceu, foi firme em suas convicções e foi tão valoroso que dividiu a História da Humanidade em dois momentos: antes e depois de Cristo. Claro, não há comparação possível entre o projeto de vida Dele e o de cada um de nós.

Somos humanos, temos objetivos muito mais modestos nesse planeta, contudo cabe a cada um de nós procurar alcançá-los diariamente. Ser humano é um conforto. Ser humano é entender que somos falíveis, entretanto somos também reinventáveis e compete a cada um de nós tomar as rédeas de seu próprio destino e procurar viver melhor e deixar que os outros vivam melhor também.

Vivemos em um mundo cheio de diferenças e de diversidade. Basta olhar em volta. Somos rodeados de verdes, azuis, pássaros, répteis, mamíferos, incontáveis seres vivos e não vivos coabitando a Terra. Há tanta beleza espalhada por aí. Todavia, nós humanos temos sacrificado sobremaneira as outras espécies. Temos causado danos irreparáveis ao planeta. Precisamos pensar nisso e, falando sério, já passou da hora de começarmos a tomar atitudes para mudar essa realidade.
Olhe aí, ouça bem, o Espírito de Natal tá chegando e acho que, mais uma vez, tem um recado importante pra nós: Não podemos mudar tudo ao nosso redor, mas podemos, a partir de nós mesmos, transformar o mundo em um lugar mais solidário e feliz. O segredo é viver e deixar viver. Mãos à obra e feliz Natal!





Ouça:
"Doce é sentir" com as

 Meninas cantoras de Petrópolis



Fonte das imagens:
https://pixabay.com/pt

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Mais agradecimentos

Olá, galera!
Preciso agradecer mais um pouco,
afinal são mais de 10.000 acessos.
Obrigada pela força, pelas leituras, 
pelos comentários, pelo carinho.
Esse foi um resultado a que chegamos juntos.

A vocês todo meu respeito, toda minha gratidão
e todo meu carinho.
Obrigada!

Marise.

domingo, 18 de dezembro de 2016

As lições de Garibaldi

Garibaldi era um gatinho arredio. Opa!  Ah, sim! Vou falar de um gatinho que para falar do personagem histórico, Giuseppe Garibaldi, há bastantes historiadores competentes.  Voltando ao felino, Garibaldi foi abandonado por sua família original, assim que esta mudou de endereço. Ele e uma adorável irmãzinha foram deixados sozinhos numa casa sem água nem comida, entregues à sorte. Sem qualquer combinação, eu e outros vizinhos, resolvemos alimentá-los.  

Todos dois eram bem miudinhos, embora não fossem filhotes, mas se a relação com a fêmea era bem fácil, Gari não chegava nem perto de nós. A “menina” deve ter sido adotada, ele continuava lá, só e fugidio. Num dia de chuva, me seguiu até em casa e, uma vez que pus um potinho com água e outro com ração na varanda, ele jamais foi embora. Era uma relação a distância: fugia de nós, dormia no balanço e estava feliz.

Garibaldi na rede, meu companheiro de embalo
Gato tigrado, de olhos verdes e expressivos, muito bonito. Incomodava-me o fato de não poder acarinhá-lo e, de pouquinho em pouquinho, fui tentando aproximação com ele. Foi um namoro longo, o que me fez lembrar da raposinha de O Pequeno Príncipe. Fomos nos aproximando um tantinho mais a cada dia, até que ficamos íntimos amigos. Era muito carinho, muito cafuné, ronrom pra todo lado e muito pãozinho amassado. Confiando em mim, expandiu seus vínculos com meus familiares também. Não demorou nada e já era o xodó da família. Garibaldi experimentou o afeto e o aprovou. Ficou especialista. Em pouco tempo era querido de conhecidos e desconhecidos.

Como havia sido criado soltinho da silva por aí, não se adaptou quando quis trazê-lo para dentro de casa. Era julho, estava frio e me preocupava com o seu bem-estar. Em casa, miava uma barbaridade e se batia contra as janelas querendo sair. Desse modo, mesmo no frio, Gari ficava no quintal e dormia na varanda, vezes no balanço, vezes dentro de um cestinho preparado com todo carinho para ele.

Valente, virava e mexia, metia-se em disputas felinas com os gatos da vizinhança até que um dia sumiu. Uns três ou quatro dias depois foi achado por uma conhecida e levado muito machucado a uma clínica onde permaneceu internado. Ficamos angustiados, não tínhamos notícias dele.  Quando soubemos de seu paradeiro e de sua situação, eu e minha família trouxemos o bichano para casa. Estava extremamente ferido. Eram curativos e cuidados diários e muita sujeira para limpar algumas vezes por dia. Depois de melhorar um bocado, de ficar mais forte, passou por uma cirurgia para amputação do rabo e vieram mais cuidados, mais curativos, mais despesas, mais sujeira, mais limpeza, mais dedicação. Minha área de serviço virou uma enfermaria por uns três ou quatro meses. Com os mimos recebidos, Garibaldi teve uma recuperação surpreendente.

Faltava quase nada para a cura completa, apenas uma pequena feridinha perto do coto de seu rabo, quando o gato, que já estava bem fortinho, começou a se sentir incomodado com o fato de estar “preso” e novamente começou a bater-se contra as janelas na tentativa de ganhar a liberdade.

Eu o soltei. Ele ficou numa felicidade sem medida. Lá estava o Garibaldi em cima do telhado apanhando sol novamente. Como era de costume, ficava na minha varanda, vinha fazer as refeições e aproveitávamos para cuidar do ferimento devolvendo-o logo em seguida a sua vida independente, assim se passaram dois dias. Depois disso, ele sumiu e deixou uma enorme saudade em seu lugar.

Prefiro pensar que está vivo, que alguém tenha visto aquela pequena ferida e que, sem saber de toda a sua história, tenha se apiedado dele e o levado para casa para lhe dar abrigo e cuidado. Pensar dessa maneira me conforta.

No último dia 13, fez um ano que meu gatinho malandro, meio Mandachuva e meio Batatinha, foi embora sem deixar sinal e, como ele marcou a minha história, fiquei pensando em tudo o que pude aprender com a presença e com a ausência dele em minha vida.

A primeira lição que aprendi foi que amor de bicho é autêntico. Não faz média nem nove horas. É papo reto. Fica tudo às claras sempre. Se quer proximidade demonstra e quando quer distância também.

A segunda foi sobre a importância da adoção responsável. Bichinho é para sempre. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Isso precisa estar claro. O tratamento de Garibaldi custou uma nota em um momento bem complicado a minha vida. Ainda assim, como deve ser, eu e minha família não abrimos mão do pequeno por conta disso. 

Cafuné no Garibaldi
As outras lições são mais sutis e dão conta de que, não importa o que se faça por quem quer que seja não se sabe a hora em que esse convívio cessa. O futuro é uma incógnita e é preciso que se faça o melhor possível.  É necessário aproveitar bem as oportunidades que se apresentam. Aprendi que afagos ajudam na recuperação dos enfermos, e que isso não é mito, é visível a olho nu. E constatei que há um limite para auxiliar o outro. É importante respeitar seu espaço, ainda que isso seja difícil e doloroso. Garibaldi me ensinou que, quando tudo dá errado, é preciso converter a tristeza da distância em boas lembranças para que, no fim das contas, sobre gratidão pelo tempo vivido em comum.

Gatos, em geral, nos ensinam que amor e posse não combinam, que devemos respeitar o desejo alheio, que sutileza é muito mais eficiente do que agressividade e que liberdade é fundamental. Esses animais fantásticos interagem conosco o tempo todo e nos fazem humanos um pouquinho melhores.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Volúpia


Estrala a terra fertilizada
convulsivante da primavera.
Palavras, métrica, espera:

Volúpia das marcações.

Contos, poemas, canções,
cordas, sonoros sons.
Melodiosas paixões:
Volúpia dos violões.


Dançam, inspiram, explodem,
choram, versejam, gracejam,
cochicham e gaguejam:
Volúpia das emoções.

Homenagens, aplausos, beijos,
sonhos, ânsias, desejos,
murmúrios, recados, bocejos:
Volúpia das realizações.

Correm, socorrem, encantam,
ensinam e plantam.
Colhem, beneficiam, recolhem:
Volúpia das profissões. 

Crianças, doutores, atores,
pacientes, intérpretes, escritores.
Gente de todas as cores:
Volúpia das variações.

Tristezas, granadas, minas,
lágrimas, amputações,
lamúrias, guerras, vergonha:
Volúpia das destruições. 


Chico, Strauss, Cruz e Souza, 
Sant´Anna, Caetano, Camões.                         
Um Augusto que é dos Anjos, 
Bandeira, um anjo torto e Drummond.
Volúpia das criações. 

Voa Poesia,
leva o teu canto a todos os ouvidos
estejam eles bem ou mal dispostos.
Bate às janelas, abertas ou fechadas,
quaisquer que sejam elas.

Voa, seduz, encanta,
planta e, como em nós realizou,
desperta em todos os mortais
a vontade e o amor pela paz.



Observação: Em 13/12/2016, fez 13 anos que me formei em Letras. Esse texto foi escrito para amigos das faculdades de Letras e Direito da Universidade Católica de Petrópolis em
11 de outubro de 2001.



Imagens disponíveis em:

https://br.pinterest.com/Stevchic/music/
https://br.pinterest.com/explore/partituras-927820568200/

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Lenitivos para 2016

"Tudo ficará claro na plenitude do tempo."
(Alice através do Espelho)

Cena do filme Alice através do espelho
Dois mil e dezesseis ainda nem terminou e eu já preciso falar sobre ele. Tanta coisa preocupante acontecendo aqui e em outros países. Tantas baixas, meu Deus! Quantas! Não tá fácil pra ninguém, como dizem por aí, e eu tenho necessidade premente de escrever. Do contrário, a digestão de fatos tão amargos, fica ainda mais difícil. 

A permanência da crise migratória na Europa, Malauí decretando desastre nacional por motivo de seca e de falta de alimentos, o massacre em Nice em 14 de julho, o processo de impeachment no Brasil, as eleições americanas e a incerteza que trouxeram ao mundo, isso para citar apenas uma pequena parte da aura pesada e tumultuada de 2016, nos dessassossegam. 

Em nosso país tivemos muitas mortes. Muitas mesmo. Inclusive de processos, instituições e afetos, haja vista a morte da moralidade no Congresso Nacional e de muitas amizades pelas redes sociais. A sociedade parece adoecida. Muito radicalismo, muito maniqueísmo, bom senso quase nenhum e significativas perdas. 

Há uma semana, fomos abatidos pelo acidente com o avião que transportava a equipe da Chapecoense, um clube que galgou a primeira divisão do futebol brasileiro por mérito próprio, sem jeitinho, na determinação, na atitude, na organização, na raça e na competência, e que estava prestes a disputar o título mais importante de sua existência. Todos nós ficamos, de certo modo, mortificados naquele desastre, mais ainda com o fato de a tragpedia ter sido causada por falhas evitáveis. O acidente com os meninos bateu, sim, como uma voadora em nossos peitos levando muito da nossa alegria. A vida é tão fugaz! 

Não bastassem esses e outros acontecimentos, temos que dar conta de nossas demandas e dos nossos dramas pessoais, claro. O trabalho que não deslancha como queremos, o colega que resolve infernizar nosso dia, os altos e baixos dos relacionamentos, o dinheiro que está curto e as contas que estão prestes a vencer, para falar o mínimo. É... cada um tem seus problemas.

É imprescindível que nos mantenhamos informados, contudo diante de um ano tão difícil, pessoal e coletivamente (e em todo tempo), carecemos de lenitivos que nos ajudem a preservar a saúde, para não sucumbirmos à tristeza e tampouco à desesperança. 

Cada um tem sua receita própria. Eu, por exemplo, além de tentar me conectar com Deus através da prece, faço questão de me cercar de beleza e de compartilhar um tanto dela diariamente. Percebo alguns amigos fazendo isso também. A arte pode ajudar muito nesse sentido. Esculturas, quadros, romances, poemas, músicas carregadas de harmonia, significado e encanto. Sim! Pode-se usar cada um desses itens, em doses homeopáticas, todos os dias. Todos! Afinal, "a arte existe porque a vida não basta", não é mesmo, Ferreira Gullar? E a beleza é uma das guardiãs da sensibilidade, da humanidade, dos afetos e das emoções.
Amanhacer na Praia de Itaoca-ES

Outra coisa que pode trazer renovação é o contato com a natureza: observar, fotografar, contemplar, ouvir, curtir, sentir. Cheiro de mar, noite de luar, o céu coalhadinho de estrelas ou mesmo cantigas de chuvas suaves me dão uma baita energia. Nascer e pôr do sol ,então, no meu caso, funcionam divinamente.

E tem mais, carinho também faz efeito: abraço de mãe, conversa de pai, beijo de irmã, chamego de filho, papo com amigos, família pra prosear. Brincar com um animalzinho. Sorrir com graças infantis.
Pequenos prazeres podem agir como um bálsamo, embora não funcionem como um milagre. Alguma dor sempre resiste e, cá entre nós, ela é matéria-prima para o nosso crescimento. A dor também faz parte da vida. Cada um deve saber que remédio tomar para enfrentá-la com sabedoria e serenidade.

É importante ter em mente que os excessos são, no mais das vezes, desnorteantes. É preciso buscar o equilíbrio. E não esquecer de reservar um tempo para estar só (isso, para mim, é essencial).

Foi buscando um tempinho de recreio nesses nossos dias tão áridos, que tive uma grata surpresa. Vezes, não é possível assistir alguns títulos que me atraem no cinema, mas eles não me saem da cabeça, com esse, foi o que aconteceu. Era domingo em Petrópolis. Chuva. Frio. “Alice através do espelho”.  Uma sequência perfeita!  Tratando do tempo, “Alice” me conduziu deliciosamente, através da fantasia, a reflexões relevantes para melhor proveito da vida. Revisitei conclusões a que já tinha chegado e a que, em algum momento, todos chegam. São próximas e conhecidas, mas nem sempre as colocamos em prática. Todas as vezes em que ocorrem fatalidades, tomamos resoluções  para aproveitar melhor nosso tempo, mas a medida que os dias vão passando, elas se esmaecem e tendemos a voltar a nossa antiga rotina. É preciso rever essa conduta.

Afinal, o tempo passa mais rápido do que nos damos conta.  Nosso tempo nessa vida tem limites. Haverá um tempo em que não teremos mais acesso aos nossos bens materiais (nossos?!). Nossos preconceitos nos fazem perder tempo e oportunidades, já que, apesar de muitas vezes nos sentirmos os donos da verdade, não podemos julgar com justeza sem o conhecimento de todos os fatos. Fazer boas escolhas deve estar na pauta do dia para aproveitarmos bem nosso tempo. “Um dia todos acabam partindo com o que têm”, na verdade, com o que são. E, quando esse momento chegar, é muito bom que tenhamos tido boas lonjuras, enquanto estivermos por aqui, que seja a bordo do Maravilha.



 

Contextualização:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/04/malaui-decreta-desastre-nacional-por-seca-e-falta-de-alimentos.html

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/07/1791843-caminhao-avanca-sobre-multidao-em-festa-da-queda-da-bastilha-em-nice.shtml

Colombianos: especialistas em solidariedade.
http://globoesporte.globo.com/sc/futebol/times/chapecoense/noticia/2016/11/atletico-nacional-lota-estadio-em-apoio-chape-uma-nova-familia-nasce.html

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

AGRADECIMENTOS



Meus caros.

Hoje vim agradecer pelos mais de 5000 acessos ao blog. Uaaau! Devo confessar que estou feliz da vida. Afinal, quando comecei a escrever por aqui, jamais tinha sonhado em atingir essa marca. Pra mim ainda é uma grande surpresa que haja tantos acessos oriundos não só do Brasil, mas também de outros países (EUA, França, Alemanha, Portugal, Polônia, Reino Unido etc). Nunca havia imaginado essa possibilidade. Obrigada mesmo! Pelo carinho e pela curiosidade.


As postagens mais acessadas até hoje são: "Porque eu sei que é amor", "Dos presentes que a vida nos dá" e "Oração por um beijo de amor (ou por um modo de amar)", nessa ordem.

Espero que deixem suas impressões e comentários. Isso pra mim é de fundamental importância. Quero (e preciso) ouvi-los. Ah! E, se quiserem seguir o blog também, juro que não vou reclamar (risos, risos e risos). Fico curiosa para saber quem é que acompanha as publicações (vejam vocês!) Para os que já são seguidores, um beijo especial. Obrigada pelo incentivo de sempre.

Para todos que acessam o blog desejo muita felicidade, bastantes reflexões e boas energias sempre. Muito obrigada!
Com  gratidão, afeto e entusiasmo,
Marise Bender.