quinta-feira, 23 de março de 2017

Comigos de mim

No jardim aqui de casa. Presente do meu querido Sr. Luiz.
Sábado chuvoso. Tempinho frio e muito bem recebido depois de uma onda de calor intenso. A amiga liga chamando para sair. Cinema? Perfeito! E lá fomos nós animadas para assistir ao filme, quando tivemos uma surpresa: não havia ingressos. Tickets só para o dia seguinte, informava um aviso. Ao contrário de nos aborrecermos, compramos as entradas para o domingo e saímos encantadas com as longas filas e o clima de expectativa no ambiente. Um burburinho, uma inquietação, uma delícia! O sábado terminou mesmo em pizza e isso, ao contrário do sentido que vemos por aí, foi muito bom.

Vinte e quatro horas depois, chegamos para a sessão que já ia começar. Nada de pipocas! A fila estava gigantesca e o que a gente queria mesmo era se fartar de filme. Tempo de espera é também tempo de observação. Havia crianças, pais, avós, grupinhos de jovens, casais de namorados, gente sozinha e acompanhada, homens, mulheres. Enfim, o público era pra lá de heterogêneo, ponto a favor!

Entre ruídos vários, pipocas sucumbindo entre dentes, latas de refrigerantes se abrindo, pacotes sendo rasgados, zunzunzum de crianças e pais, risinhos adolescentes – é, quando a gente não faz parte da orquestra, os barulhos ficam mais evidentes - começou a sessão. Demorou um pouquinho pra todo mundo embarcar na magia, o silêncio veio sem pressa, mas todos chegamos lá. Era hora de viajar.

De alguma maneira, à medida que as cenas apareciam e que canções e diálogos iam se revelando, eu ia me conectando a uma jovem entre dezenove e vinte, que assistira a uma animação exibida há mais de vinte anos. Era tudo tão familiar, só que agora eram pessoas dando vida aos personagens. Eu estava duplamente encantada.

Ao mesmo tempo em que a personagem principal ia se revelando, eu ia me lembrando de algumas pessoas que têm esse amor deliberado pelos pensamentos escritos, os livros. Daquelas que sabem que em cada exemplar há um mundo vezes feio, vezes bonito, vezes complexo, outras simples. Há até os desinteressantes. Numa biblioteca está o pensamento materializado, aquilo que existiu ou existe dentro da mente dos seus autores. São prateleiras inteiras de sonhos e ruminações. Pode haver algo mais íntimo que o pensamento? Talvez por isso seja um espaço sagrado.

Deixei-me encantar com o ímpeto e a determinação da protagonista, mas quando olhei nos olhos da Fera  foi que me encontrei. Foi ali que me lembrei de que cada um de nós tem um lado meio/muito bruto, precisando de cuidadosa e insistente lapidação. E me veio Fernando Pessoa: “Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim”.

E, naquele espelho encantado, resgatei aquela jovem que outrora assistira ao desenho cheia de paixão, sonhos, ilusões e encantamento. De lá até aqui, foram anos e mais anos de desilusão e burilamento. Não desse desiludir-se barato, que parece uma grande tragédia, mas de um desiludir-se próprio do amadurecimento em que vamos trocando ilusões por planejamento e realidade. Desiludir-se não é mau, é apenas aprender a trabalhar com o que é real e, embora possa haver algum sofrimento no processo, é crescimento e não há nada de melancólico nisso.

Na vida, todos temos nossa rosa, dentro ou fora da redoma, a perder as pétalas do tempo. Urge que nos encontremos e que amemos a nós mesmos profundamente, apesar de nossos espinhos. Sem egolatria, mas com a humildade necessária para saber-nos e aceitar-nos belos e feras. Essa é minha busca, é o meu desafio diário.

Conforme a trama avançava, amparada por toda poesia musical e imagética do longa, fui me afeiçoando, tal qual Bela, àquela Fera desajeitada, mas cheia de potencial. Ao mesmo tempo, segui amparando “as feras de mim” e recordando o quanto foi difícil refiná-las ao longo desses anos. Valsei com minha fera longamente, com doçura e compreensão e me vieram à memória muitas pessoas envolvidas nessa depuração, ao longo desses quarenta e cinco anos vividos intensamente. De fora pra dentro, houve quem me olhasse e só visse a bela, outros só a fera. Poucos a moeda inteira. Bela e fera são dois lados da mesma moeda. Muitos torceram, muitos vibraram e tantos outros jogaram contra, mas, ainda que alguns tenham tido papel mais determinante que outros, todos foram importantes para a formação daquela que sou hoje. E novamente Pessoa chegou me dizendo que (com licença poética) minhas mágoas não foram capazes de me fazer ver para sempre pálido o que era de cor laranja. Isso aqueceu minha alma e me encheu de emoção.

Na Fera, perscrutei a mim, e vi em seus/meus olhos que, sentimentos (pensamentos e  posturas também), ao contrário do que diz a canção, nem sempre são fáceis de mudar, entretanto essa mudança pode ser pra melhor. As “feras de mim” ainda existem, elas são minhas, são eu. Algumas já não rugem, mas todas são trajeto para meu equilíbrio. E saí do cinema entre Pessoa e Gonzaguinha, comigo, com os comigos de mim, me gostando muito mais, porque me entendendo muito mais também. Isso não tem preço.



Eu apenas queria que você soubesse
(Gonzaguinha)



domingo, 5 de março de 2017

Bate-bola


Costumo dizer que sou vascainíssima e tricolor por parte de filho. Pois é, sou vascaína e tenho um filho tricolor. Quando meu menino era pequeno, costumava dar todo incentivo do mundo para que ele fosse cruzmaltino. O pai dele, torcedor do Fluminense, nunca fez campanha para que ele fosse tricolor, no entanto meu filho se apaixonou pelo Clube das Laranjeiras. Uma paixão que brotou com vontade, veio legítima, cresceu, tornou-se amor.

Desde muito nova me encantei com o futebol. Sempre achei um esporte lindo e vibrante e, desde que tenho notícias de mim, torço pelo Vasco da Gama. Foi herança genética, veio no DNA: pai e mãe vascaínos, ainda que seja neta de vascaínos e botafoguenses.

Quando pequena, fui levada por meu pai ao Estádio Atílio Marotti para assistir, pela primeira vez, a um jogo do Vascão.  Serrano 1 X Vasco 3, já faz tanto tempo! Caramba! Naquela época o Acácio ainda fazia parte da equipe do Leão da Serra, um goleiraço. Foi em 1980, mas me lembro com detalhes do fascínio que a vibração da torcida, especialmente a cada gol, despertava em mim.  Fiquei apaixonada. Eram cantos, gritos, batucada e havia um monte de xingamentos com “palavras feias” que, naquela época, meninas educadas não deviam pronunciar nem nos estádios. Já naquela ocasião achava aquilo muito interessante, embora não soubesse o porquê e confesso que tive que me conter. Hoje sei que o ímpeto de gritar também estava ligado ao efeito catártico que aqueles gritos proporcionam.

Em outra oportunidade, meu pai veio a casa me buscar para ver um jogador do Vasco de pertinho. Ele estava aqui bem próximo de casa e eu, ansiosa e eufórica, levei minha camiseta do clube para um autógrafo, o único que pedi a jogadores de futebol. Era um cara altíssimo, tímido, mas simpático, que me cumprimentou educadamente e escreveu na pequena camisa: “Abraços do Acácio”. Sim, aquele goleirão agora jogava no meu time e era destaque nacional. Adorei! Tenho a camisa até hoje!

Voltando ao início do texto, Leonardo era ainda um garotinho quando me disse que torcia mesmo era para o Fluminense, era este o seu amor, o que me convenceu de que time não se escolhe, que essa paixão flui naturalmente.  Desde então, minha postura mudou completamente. Cessei os apelos para que torcesse pelo gigante da colina e começaram a aparecer as primeiras camisas do Flu aqui em casa. O filho foi crescendo e, como era da sua vontade, foi matriculado na Escolinha de futebol do tricolor aqui em Petrópolis.  Pequeno ainda, eu o levei ao Maraca para visse o time dele jogar. Três gerações no Maracanã: ele, eu e minha mãe.  Como era da escolinha, entrou com os jogadores. Fluminense X Santos. Foi emocionante. Daí em diante, sempre que podíamos, lá estávamos no Estádio Mário Filho torcendo juntos para o Fluminense. Eu o acompanhei muitas vezes para ver o Flu, assim como ele a mim em alguns jogos do Vasco, inclusive em São Januário. Sempre torcemos juntos, com imenso respeito um pelo outro.

Leo é tricolor, filho de mãe vascaína e pai tricolor, neto de vascaínos e tricolores, bisneto de vascaínos, tricolores e botafoguenses, sobrinho e primo de vascaínos, tricolores, botafoguenses e flamenguistas, amigo de uma galera que torce pelos mais variados times de futebol. Isso é maravilhoso!

Claro, rolam inúmeras brincadeiras, especialmente no grupo da família no WhatsApp. Tudo na maior harmonia, felizmente. Rimos, brincamos e eu não perco tempo desqualificando o time alheio, prefiro declarar o amor pelo meu clube na alegria e na tristeza, como acho que tem que ser.

Pra qualquer um que tenha essa relação de amor com o futebol, receber a notícia de que alguém foi morto porque pertencia a essa ou aquela torcida causa mais que um impacto, um ferimento, uma dor profunda.

Nos últimos dias, acompanhamos a discussão e a batalha judicial sobre ter ou não ter torcida única no Fla X Flu desse domingo. Depois do clássico do dia 12 em fevereiro último, em que jogaram Botafogo e Flamengo, parece que soaram as sirenes de que algo vai mal entre as torcidas dos clubes de futebol no Brasil. Uma morte e, pelo menos, sete feridos no entorno do Engenhão antes da partida é um saldo difícil de ignorar. As cenas de horror veiculadas pela imprensa ganharam o mundo e a realidade nos deu um tapa no rosto, atingindo-nos violentamente. Pois é, vamos combinar, as sirenes da preocupação soaram já bastante atrasadas. A violência entre torcidas dentro e fora dos estádios já vinha mostrando sinais e sintomas há muito tempo. Basta, como dizem por aí, “dar um google” para que sejam listados episódios e mais episódios de violência e morte entre torcedores dos mais variados clubes do Brasil. Sim, essa violência não é prerrogativa de uma só torcida, mas em todas elas há membros e núcleos violentos que, lamentavelmente, soltam suas bestas-feras e executam indivíduos com essa ou aquela camisa por aí.

Da arquibancada da minha casa venho percebendo a presença dessa patologia há anos. Assim como eu, muitas outras pessoas também. É daqui que também observo as tomadas de decisão e as tentativas para solucionar essa questão tão urgente e complexa. Não sei qual seria a melhor saída, mas já é hora de saber que não há solução mágica, não há solução simples, não há solução rápida.  Segurança é essencial, mas só ela não resolve. Os gatilhos estão postos dentro de grupos, de indivíduos e de indivíduos em grupo. Combater a violência nos estádios e fora deles não é puramente um processo mecânico: põe segurança e tudo se resolve. Aí estão os confrontos entre policiais e torcedores para sinalizar isso. A solução para que não haja violência entre torcidas deve ser também um sério processo de desconstrução da violência que deve começar ontem.

Os episódios de violência entre torcidas são o reflexo, devem-se tratar e combater as causas. Quais são elas? Tem muita gente séria estudando o assunto. É preciso levar esses estudos em consideração para a tomada de decisões que não sejam só emergenciais, mas que sejam definitivas. É preciso envolver todos os atores nesse processo. Isso não é só uma questão segurança pública, é também.

É sempre bom lembrar aos clubes que eles precisam ter atitudes responsáveis em relação a sua torcida sempre. Isso inclui o cuidado com as falas de seus presidentes. Um cara desses não pode jamais perder a noção de que está falando para multidões. Assim também os ídolos. Subestimar o valor da palavra é um erro. Supervalorizar a palavra, outro. É importante que haja trabalhos de conscientização, manifestações pela paz, tudo isso, mas é fundamental que se descubra o caminho para desengatilhar e coibir atitudes que ponham em risco a vida dos torcedores.

Nós no entorno do Maraca depois de uma partida
há alguns anos
Ganhar, perder, empatar faz parte do jogo. É a grandeza de cada um dos adversários que agiganta uma partida. O Fla x Flu de hoje foi um jogaço porque as duas equipes deram de si o melhor.  Alguém duvida? É só conferir na internet. Oponentes devem ser respeitados. O jogo acabou, estão todos voltando pra casa ou partindo para as comemorações. Usar a camisa de um clube deve ser um ato de amor e não motivo de medo, tampouco sentença de morte. Nas arquibancadas e fora delas precisamos de torcedores. Deixemos definitivamente no passado o tempo dos gladiadores. Eu torço por isso e sigo respeitando aliados e oponentes, e você?







sábado, 4 de março de 2017

Sobre "Simplesmente eu, Clarice Lispector"

Foto disponível no site do Sesi Cultural
Simplesmente maravilhosa. É assim que dá para começar a falar desse monólogo adaptado, encenado e dirigido por Beth Goulart. O texto foi retirado de trechos dos romances "Perto do coração selvagem" e "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres" e dos contos "Amor" e "Perdoando Deus", além de partes de depoimentos, entrevistas e correspondências de Clarice Lispector.

Deixar de comparecer ao encontro com Clarice ontem no Theatro D. Pedro era, de fato, algo imponderável. E estar no teatro valeu cada minuto. Beth encarnou a escritora numa apresentação amorosa e repleta de emoção. Textos, entrevistas, enigma e dramaticidade. Tudo transpirava e exalava Clarice. O que dizer?!

Clarice nos atordoa sempre com a profundidade de suas sentenças engatilhadas. É, sob o aspecto da velocidade, uma metralhadora giratória de pensamentos complexos. Ao  vê-los interpretados, ditos com a força do drama por Beth, cada um deles nos arranca da inércia sem violência, mas com a força e o impacto naturais da escritora.

A semelhança física entre a atriz e Lispector é algo assombroso e delicado, lindo mesmo. Percebe-se o estudo de postura e movimentos para a uma primorosa representação, nota-se toda a dedicação da intérprete.

A interpretação rebuscada da atriz nos cala. Destaque para a plateia que ficou silenciosa, inebriando-se do drama expresso no palco, perscrutando os dramas soltos na vida e o grande mistério da existência humana.

E que voz tem Beth Goulart? Você sabia que ela cantava? Pois bem, eu não sabia e fiquei comovida e perplexa. Que momento sublime!

É um espetáculo belíssimo. Se tiver oportunidade, não se permita perder, é simplesmente um encontro com ela, Clarice Lispector. 

E viva o SESI Cultural que trouxe a peça para Petrópolis.



terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Mas é carnaval

Eu sei, as coisas estão bem difíceis no Brasil e bastante esquisitas mundo afora, mas me rendi à alegria. Resolvi me aproximar da folia e brincar o carnaval. Isso mesmo, brincar. Como gosto de um sossego relativo, mais conhecido como bagunça organizada, procurei um bailinho bem tradicional e dancei, cantei, suei, sorri e o resultado foi a alma bem levinha. E, vamos falar a verdade, alma leve faz um bem enorme.


Para garantir a diversão, meu foco foi mesmo a pausa, a curtição, a delícia, o meu encantamento, a animação alheia e o ambiente de fantasia ao meu redor. Pais e filhos.  Avós e netos. Crianças, jovens, adultos, idosos, todos com energia de sobra extravasando o seu contentamento. Sem prejudicar ninguém, que mal tem?

Contemplar pais e filhos fantasiados, brincando juntos e entoando uma série de canções que sobrevivem ao tempo e que ainda provocam risos ou despertam sonhos tem um quê revigorante. Os adultos dançam, os jovens também e os pequeninos ficam interessados mesmo em confetes e serpentinas num joga-ri-junta-joga-ri que não cessa e não cansa nunca. Haja energia! Haja disposição! A brincadeira rende muitas gargalhadas e um sem número de sorrisos estampados nos rostinhos suados e satisfeitos. Pais, vezes, visivelmente exaustos, mas felizes. Não é para menos, os meninos estão bem, curtindo a festa vestidos de heróis, bichinhos, personagens de quadrinhos, figurinos totalmente originais ou sem qualquer fantasia. Todos ali dando asas à imaginação. E isso é mágico.

O lado leve do carnaval me fez pensar em como é importante imaginar, sonhar, brincar, dar um espaço para o lúdico em nossas vidas. Pode até ser pedagógico para os dias atuais vivenciar o contentamento com tão pouca coisa. Basta uma banda bacana e deixar-se embalar pelo ritmo alegre e contagiante que tudo flui. A alegria vem e os sorrisos aparecem. São momentos em que só se pensa em dançar e cantar, em que se dá uma folguinha para a mente, em que se relaxa um tanto e se permite outro. Até a melancolia ganha uma certa leveza no carnaval, duvida?! Olha aí a música para confirmar: “confete, pedacinho colorido de saudade”.

E as escolas de samba? Quanta cultura desfilando nas passarelas! Eu não sei vocês, mas invariavelmente, os carnavalescos tocam em pontos da História ou em certas histórias de que eu nunca havia ouvido falar. Os desfiles são sempre uma oportunidade de aprendizado, de valorização e de divulgação de cultura. Além de franca exposição de criatividade. Sem contar as novidades e malabarismos que as escolas vêm apresentando em suas baterias. É tudo muito rico.

Tudo bem, há quem não goste da euforia carnavalesca e que se dedique a outras atividades: ler, dormir, acampar, meditar, orar, fazer piqueniques. Tudo está valendo. Agora digam para mim se não é ótimo aproveitar essa espécie de recreio que o carnaval proporciona. Seja lá como for, este é um feriadão convidativo e que abre uma série de oportunidades de encontro consigo mesmo e também com o lado mágico e encantado da vida. A vida é deslumbrante, viver é uma aventura permanente e a fantasia pode ser um mecanismo importante para manter a saúde mental e emocional.

A humanidade tem uma estranha tendência a complicar o simples, tornar sério aquilo que é para ser lúdico e deixar de lado aquilo que deve ser sério. Isso, ao menos para mim, é uma inversão enigmática.  Tudo tem seu momento e seu espaço.

É comum ouvirmos que, no Brasil, o ano só começa depois do carnaval. Não sei se isso é assim tão verdadeiro, mas de qualquer forma, hoje é terça-feira, o carnaval tá acabando, a locomotiva do consumo já vem avançando sobre nós e soando seu apito, já há ovos de páscoa à mostra em algumas vitrines. Piuíííííí! A folia está acabando, mas ainda dá tempo. Ainda dá pra escolher um programa que desperte o que há de mais leve e divertido em você e curtir. Afinal, como diz Chico, amanhã tudo volta ao normal, deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar.

Imagem disponível em:
https://pixabay.com/pt/chap%C3%A9u-hat-pena-confete-fl%C3%A2mula-2016797/


Confira "Noite dos macarados", de Chico Buarque:
https://www.youtube.com/watch?v=fgaKvFqD2CU

Sobre o enredo da Imperatriz Leopoldinense, vale a leitura.

http://www.mundosustentavel.com.br/2017/01/nunca-um-enredo-incomodou-tanto-o-agronegocio/

Conheça o enredo da Imperatriz Leopoldinense:
https://www.letras.mus.br/imperatriz-leopoldinense-rj/xingu-o-clamor-que-vem-da-floresta-samba-enredo-2017/






domingo, 12 de fevereiro de 2017

É preciso falar sobre morte

Falar sobre morte?! Vamos mudar de assunto?! Não. Dessa vez não. É preciso falar sobre ela.  Não é raro escutarmos por aí que a morte é a única certeza que temos na vida. Sim, é fato, mas por que fugimos tanto dessa conversa?! Um dos motivos certamente é porque não é nada confortável encarar a nossa finitude. Queremos viver, temos sonhos, planos, projetos e a morte é também a interrupção de tudo isso. Outro motivo, para muitos de nós ainda mais desconfortável, é o medo de perder aqueles que amamos.  Só a possibilidade de isso acontecer dói, então, uma grande parte de nós anda por aí fugindo do assunto como se não falar sobre isso pudesse evitar que acontecesse. Infelizmente, evitar o tema não vai fazer com que a morte não aconteça. Caminhamos para ela desde o nosso nascimento e, embora a maioria não saiba onde, quando e de que forma ela se dará, sabemos que o fim do corpo físico é um evento inexorável. 


Nossos tempos estão aí tentando evitar a tristeza a qualquer custo fugindo de assuntos “desagradáveis”.  É proibido estar triste! Esta parece uma regra social da contemporaneidade. Nosso status de humor deve ser invariavelmente feliz, se possível, muito, mega, ultrafeliz. Tristeza em nossos dias não pega nada bem. No entanto, quando evitamos certos assuntos para não abalarmos essa nossa “felicidade”, engolimos as palavras secas e nos alimentamos de angústia.  É preciso vivenciar a tristeza e, mais ainda, a tristeza causada pela morte. O luto é um tempo importantíssimo e deve ser vivido e respeitado. É um tempo de recolhimento necessário para a cicatrização das feridas causadas pela dor da perda de alguém. Elaborar a tristeza até que ela se transmute naquela saudade gostosa em que as lembranças não nos ferem, mas nos apaziguam, leva algum tempo e é importante que não saltemos essa etapa. Silenciar, na maioria das vezes, não nos ajuda nesse processo. Quando estamos tristes e chorosos, é o momento de tocarmos no assunto.

Não quero dizer com isso que devemos nos render à tristeza. É, sim, preciso que  continuemos buscando o bem-estar, mas tendo consciência de que ele vai demorar um pouquinho para chegar. A tristeza faz parte do trajeto. Enquanto ela não passa, aproveitarmos o momento para vivenciar nossa dor é fundamental. Boas e saudáveis conversas podem nos ajudar a enfrentar e a elaborar nossas perdas. Não podemos esquecer que, se o tempo de luto se estender demasiadamente, é necessário que procuremos ajuda profissional. Tristeza é uma coisa, depressão é outra bem diferente. É bom que tenhamos isso bem claro.

A morte de um ente querido mexe conosco. Talvez muito mais do que imaginemos, seja lá qual tenha sido a sua causa. Quando alguém querido morre de repente, o impacto causado pela perda resulta em uma dor lancinante, causa um choque. Há que se lidar com essa dor imensa de um momento para o outro. Nada se pode fazer a não ser lidar com o fato. Quando alguém morre por conta de uma doença, em geral, familiares e amigos vivenciam cada uma das fases atravessadas pelo doente e, quando percebem que o fim daquela pessoa amada está próximo, a dor da perda, embora excruciante, teve um tempo para sua elaboração.  Naquele momento têm-se a chance de entender algo que a jornalista Eliane Brum fala tão bem em seu artigo Morrendo como objeto: “quando não se pode curar, ainda se pode cuidar”.  E a noção de cuidar precisa estar intimamente ligada aos desejos de cuidado daquele que está se despedindo. É preciso respeitá-lo.

Se esse alguém está hospitalizado, as equipes médicas e de enfermagem são fundamentais nesse tempo de transição entre a vida e a morte. Muito mais do que somente manter as funções vitais do paciente, esses profissionais podem auxiliar os familiares e amigos daquela pessoa a passarem por essa hora com consciência daquilo que está acontecendo, para que possam efetivamente dar o suporte afetivo que seu ente querido tanto necessita e merece. É muito interessante que os profissionais se lembrem que os familiares do paciente, no mais das vezes, não têm conhecimento técnico para lidar com alguém doente. É preciso orientá-los. Isso requer paciência. Simplificar a linguagem para falar com eles também é importante. É necessário que tentem traduzir os termos técnicos para que haja um perfeito entendimento da situação. Muitas vezes, quando um profissional de saúde se dirige à família do paciente, fala um milhão de coisas ininteligíveis para um leigo e, embora ele tenha dito tudo o que estava ocorrendo, efetivamente não houve comunicação. Se a equipe profissional, além de competente, é sensível, consegue ajudar a família a se estruturar para o momento da perda. Quando estruturada, as decisões a serem tomadas assim o serão com maior tranquilidade e visando o maior conforto do paciente. A morte é um momento delicado.

Reconhecer que não há mais nada a ser feito, além de oferecer carinho e conforto, é reconhecer que todos temos um limite e que esse limite deve ser respeitado. É o momento de pensar em uma morte digna, numa despedida pautada no amor e no carinho.  Vezes, nossos entes queridos, quando acometidos por uma grave enfermidade, enxergam o término de sua jornada antes de nós e nos revelam esse fato. É preciso ter claro que eles não estão desistindo da vida e tampouco de nós, apenas estão nos mostrando que a hora de partir está próxima e é inevitável. É tempo de despedir-se.

Despedir-se de quem se ama não é fácil. Dói, dilacera, nos enche de tristeza. É assim mesmo. Todavia a morte é sempre um momento de refletir sobre a vida. De rever convicções e prioridades. De realinhar projetos, de traçar objetivos. Porque a morte também é espelho e reflete a nossa finitude, ela sempre nos mostra que é preciso viver melhor.



Recomendo a leitura do texto de Eliane Brum "Morrendo como objeto".




terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Imperativo febril

Deixa. Deixa que eu me rasgue inteira e que de meus sentimentos surjam as folhas atestadas dos meus desejos. Deixa que eu me esgarce em verbos, substantivos, adjetivos e ainda mais. Deixa que eu sangre em letras, sílabas, palavras, poemas, cantigas até que se esgote em mim toda essa vontade de gritar que te quero e que  me fazes querer-te. Íntimas querelas!

Deixa que o meu gozo se faça em versos. Que os espasmos sejam vírgulas, aspas, parênteses até que o ponto final seja apenas reticente. Deixa que o próximo parágrafo se construa à chegada tua. Permite que de meus desejos, dos mais secretos e lúcidos, insanos desejos lúdicos, brotem os clamores erigidos de meu ventre.

Deixa. Deixa que o sal brotado do teu corpo tempere saborosamente o meu. Enche-me de vida. Quimera?! Realidade?! Em que dimensão eu estou?! Deixa que as cabeças pensantes se preocupem em explicar. Deixa que os cérebros definam, que as inteligências espaciais possam me localizar. Eu preciso sentir. Mais que isso, eu desejo, eu quero sentir. Eu! Eu! Eu! Primeira pessoa do singular: Eu. Pronome pessoal do caso reto. Mas eu o quero muito mais do que a menor distância entre dois pontos. Eu o quero vertiginosamente sinuoso. Muito mais desafiante. Quero um eu oblíquo, mas não dissimulado. Verdadeiramente oblíquo. Como dois pólos que se atraem pelas suas diferenças.

Deixa que eu procure ardorosamente o meu querer. Flerta com a minha fêmea-feminina-dificuldade. Derruba-a. Rompe de vez minhas amarras. Liberta-me. Prova-me. Submete-me aos caprichos de felizes provações. Prova-ações. Prova as ações que desprendam das vontades mútuas e deixa que gabaritemos juntos essas compartilhadas questões.

Deixa que se mesclem as Letras e o Direito. Que se fundam e se consumem numa demanda única. Inicia um processo singular. Procede a redação de todas as pendências a fim de que escreva em nossos corpos um acordo. Prossegue com todos os pedidos. Argumenta solidamente a cada negativa. Movimenta-te com arte na retórica atuante desse texto-tabuleiro. Embarga quaisquer descontentamentos. Deixa que se cumpram os trâmites inteiros. Audiências, apelações, deferimentos até a última e derradeira instância.

Deixa que se unam as esferas de governo. Que se interpenetrem os poderes. Que o judiciário absolva, o legislativo se esqueça das regras e que o executivo tenha vontade própria. Deixa que nesse sistema haja mesmo a ditadura do respeito e que assim surjam democraticamente todas as partes constitutivas desse nosso encontro.

Deixa a Geografia sem palavras. Deixa que ela sucumba sem rumos. Cartografa mapas inteiros de realizações. Deixa que as bússolas desorientem. Que nesse rio, que não é só de janeiro,  sejam descobertos santos espíritos provocadores de cumplicidade transcendente às integrais distâncias. Deixa que seja explorado todo tipo de relevo. Que nos mais áridos desertos sejam reveladas grandes bacias hidrográficas. Deixa que as variações climáticas aqueçam a totalidade de nossos corpos terrestres e que a ação dos ventos lance às correntes marítimas toda impossibilidade.

Deixa que numa parceria única nasçam canções com o lirismo de Sant´Anna e a feminilidade de Chico Buarque de Holanda, para que ao despir dos corpos se confundam pernas, braços, cheiros, bocas e línguas.

Deixa que eu perca a menina. Que eu me esvaia dessa infância recorrente. Deixa que se vá toda timidez impura. Deixa! Deixa! Deixa e, num afago, tempera o meu espírito com os teus sabores, revelando as cores dos mais essenciais quereres. 

Arrebata-me com a fúria doce das tuas carícias. Aquece-me com os teus anseios avassaladores mesclando nossos corpos em suor comum. Deixa que o prazer se sagre em nós e, se quiseres, pede-me que deixe e abra em ti generoso corte para possibilidade igual.
(Marise Bender, 2004)


Fonte da imagem:

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Feliz Ano Novo!

Meu fim de ano foi diferente em 2016, assim também foi o início de 2017. Os rituais e o momento meditativo a que sempre me reservo o direito no primeiro dia de cada ano vão ter que esperar um pouquinho. A mudança de planos me fez pensar na dureza do ano que passou. Dureza em muitos aspectos.

2016 foi um ano de muitas perdas e por isso mesmo um ano cheio de lições e de recados. Não cabe aqui ficar fazendo retrospectivas, cabe ir direto ao que se pode extrair desse ano tão difícil. Mais do que muitos outros, o ano passado escancarou que a vida é efêmera, que planejamos, mas não temos nenhuma garantia de que poderemos executar nossos planos e que a liberdade e os direitos são custosos para se conquistar, mas que são bens valiosos que se pode perder muito facilmente. Essas são preciosas lições que levo do ano que passou.

Minha meditação teve, por motivo de força maior, que ser trocada pela contemplação. Uma contemplação rápida, mas suficientemente feliz para saudar o Ano Novo. É que Petrópolis despediu-se do ano velho e chegou ao novo ano com a floração exuberante de um de seus ipês mais célebres: o Ipê da Praça da Liberdade.


Dia primeiro do ano pra mim é tempo de recolhimento. Longe das algazarras e das bebedeiras e perto da família, vejo nesse dia uma data especial para procurar estar comigo, para estar em oração, pedindo que os dias vindouros soprem suaves e que sejam de realização, de paz e de conquistas. Íntimas conquistas. Aquelas que fazem toda a diferença para a vida da gente: uma mudança de hábito, mais um degrau alcançado no autoconhecimento, o amadurecimento de  desejos e de emoções. Conquistas que sejam verdadeiramente nossas. Bens materiais podem, sim, nos auxiliar na tarefa da felicidade, no entanto, é preciso que tenhamos em mente que eles são invariavelmente de empréstimo. Considero que apenas possuímos o que vivemos, o que experienciamos e nada mais. Nosso passado ninguém nos rouba, quer recordemos dele ou não, ele é nosso verdadeiro patrimônio. Por isso gosto de pensar no presente como o momento de construção desse patrimônio. Ué, mas construir passado? Pois é, a gente constrói passado o tempo todo, mesmo sem ter consciência disso. 

Desse modo, vejo que o presente tem que ser bem cuidado. É no agora que é preciso viver melhor. É no agora que é necessário eliminar emoções e coisas que nos maltratam. É no momento presente que temos que cuidar de nós como a maior preciosidade de nossas vidas. Isso não é egoísmo. Não podemos viver longe de nós mesmos, não podemos sequer nos afastar de nós. Do contrário, nos perdemos. Cuidar de si mesmo é um ato de amor e é preciso ter  esse cuidado no momento presente.  A vida é boa, mas não é fácil não. Cada um de nós pode torná-la mais leve, mas há que exercitar essa habilidade diariamente. Cada um tem o seu jeito pra isso, quanto mais cedo descobrirmos o nosso, melhor para nós e para os que estão ao nosso redor.

Para estar bem, é fundamental evitar o que nos faz mal. Uai! E isso não é óbvio?! Parece, no entanto, aí estão os psicólogos e psicanalistas para atestarem que vezes a gente se sabota e faz questão de ter por perto aquilo que nos prejudica.  Quando isso acontece, é fundamental corrigir o rumo.  A vida é curta demais pra ficar sofrendo o tempo todo. Autoconhecimento: aí está a chave para o rompimento com a autossabotagem. É necessário ousar conhecer a nós mesmos. É preciso nos permitir esse mimo. É um presente dolorido às vezes, mas de valor inestimável. Olhar no espelho e encarar a nós mesmos olhos nos olhos nem sempre é fácil, mas pode ser libertador. Ver, viver, crescer, modificar, conquistar. Bora lá!

A vida é uma oportunidade diária de evolução. A missão aqui é o aprimoramento. Melhorar sempre. Há obstáculos. Há preguiça. Há má vontade. Há inabilidade. Tudo isso temos que vencer. E não dá para nos iludirmos: humanos que somos, nunca seremos perfeitos e isso é ótimo. Enquanto houver objetivos a alcançar, estaremos em movimento. Nem sempre será a nossa parte boa que vai sobressair. Perfeito! Mais trabalho pela frente. Olhando nossos tropeços, evitaremos a soberba, que é uma ilusão e um desperdício.  Nosso maior obstáculo, ao que parece, está dentro de nós. Vencer-nos é nosso maior desafio. É diário, ininterrupto, pessoal e intransferível. E isso é coisa à beça!

Gosto sempre de lembrar que estamos nesse planeta completamente interligados. Funcionamos como ondas concêntricas. A medida que nos modificamos, vamos modificando o nosso entorno para o bem e para o mal. É preciso escolher melhorar.

Falei tanto do presente, mas e o futuro? O futuro é hipótese (e aqui me lembrei de Monteiro Lobato num texto maravilhoso, mas em outro contexto). Tê-lo em mente, fazer planos e sonhar é essencial. Embora incerto, ele é, entre outras coisas, o que nos move, nosso horizonte, o que faz nossos olhos brilharem de esperança e aqui tenho que voltar ao ipê.

Ninho de pássaros no Ipê da Praça
Um ipê sem flores não chama muito a atenção. É, para um olhar distraído, só mais uma árvore, mas ele está lá firme e sua madeira continua de lei. Ele não se modifica pelo fato de não o identificarem. Passa o ano inteiro discreto preparando a floração, que é efêmera. Seu destino é a flor e para isso trabalha diuturnamente. Enfrenta o sol, a chuva, o vento, abriga pássaros e fornece sombra. Tudo isso sem alardes, até que explode em flor, encanta e volta à discrição. Que ciclo inspirador!

O ipê da praça não floresce no inverno e tampouco no começo da primavera, como faz a maioria dos ipês. É autêntico.Tem liberdade, floresce a seu tempo, sem pressa nem comparações. Que ipê!


A vida é meio ipê: é efêmera, não está sempre florida, mas tem potencial pra isso. Como é bom reconhecer o seu valor e a sua natureza! Como é bom florescer! Hoje, dia de reis, lembro-me ainda mais que a vida é presente e recorro uma vez mais ao que diz Chico Buarque nos versos de sua canção: “dura a vida alguns instantes, porém mais do que bastantes, quando cada instante é sempre.” Vambora caprichar na florada!

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Flashback

Início de ano à vista e é hora daquela velha história de organizar a agenda. Lá está ela. Foi leal. Prestou serviços durante um ano inteiro e agora jaz obsoleta. A outra brilha intacta. E se faz sedutora, exalando seu perfume de novidade no ar. Tudo nela é branco. São trezentos e sessenta e cinco histórias para contar. Trezentos e sessenta e cinco possibilidades de um novo começo. A incerteza daquilo que vai acontecer, bem como a certeza de que virão surpresas são um excelente tempero para um prato apetitoso com sabor inconfundível de princípio.

Começo pelo fim. Encarrego-me de completar cuidadosamente os espaços destinados a endereços, telefones, correios eletrônicos. Letra "A". Inicio. Faço isso sempre a lápis, pois tudo pode mudar num clicar de mouse nesses nossos dias, do nome completo ao número do telefone, passando pelo endereço. Cada nome uma lembrança ou um brusco lapso de memória que surge do encontro de algum número de telefone anotado às pressas. Ai! Quem será essa pessoa?! Transcrevo? Não faço. Fico pensando que é possível que me lembre de quem era aquele número no exato momento em que eu mais precisar. Resolvo correr o risco.

Terminada a tarefa com os nomes, passo a um outro hábito que tenho: anotar aniversários. Vou deslizando as mãos pelas folhas da antiga companheira e recordando a escrita de um ano inteiro. Dia primeiro, nenhuma anotação especial. É estranho, sempre procuro escrever nessa data uma mensagem de otimismo, o que teria feito com que eu ignorasse esse costume? Ignoro. Vou prosseguindo entre lembranças e sorrisos até me deparar com a primeira data a registrar. Escrevo o nome e, subitamente, sou lançada  numa nuvem de recordações. Cada data uma pessoa especial. Cada pessoa um sentimento. 

Vou seguindo por esses registros e encontro uma data que já perdeu seu significado. Teve seu tempo nos trilhos da minha estrada.  Não cabe cartão de aniversário, tampouco telefonema. Já não há proximidade. Vocês já repararam como nos distanciamos de algumas pessoas com o correr dos dias? 

É curioso o quanto, ao observar uma agenda usada, se pode perceber da vida. Vezes, ficam nítidos alguns ciclos. Espaços de tempo em que as pessoas e os fatos têm maior ou menor importância na vida da gente. Donde se pode supor que tudo é mesmo uma questão de tempo, de hora, de instante, de perspectiva. Ficam tão claras as indefinições! De acordo com nossa "tábua cronológica", variam até as maneiras de enxergar um mesmo problema. Quantas vezes não nos surpreendemos com um clássico espanto: por que agi assim?! Muitas vezes esbarramos na mesma conclusão: hoje faria tudo diferente!

Prossigo. Mais um aniversário. Esse sim! Resolvo anotar em letras garrafais. Importantíssimo. O que fazia nessa data? Houve comemoração? E me delicio nas lembranças dos alegres acontecimentos de uma data especial. O bolo era Floresta Negra! Hum, eu adoro chantili! E são cores, aromas e sabores ecoando sem cessar pelo vão da memória.

Outra página. Data importante: caiu o primeiro dente de leite do meu filho. Fato de relevância incontestável! Devia ser um feriado particular na vida dele por todos os anos que se seguissem. Mãe é bicho bobo (risos)! Falando sério, é a representação da mudança. Do temporário pelo definitivo. E, aos seis anos, essa criança já começa a se vestir de definição. É tão cedo ainda! Nada deveria ser pra sempre aos seis anos de idade.

E datas, aniversários, e festas, e brigadeiros, e bolas, e comemorações, e decisões, e decepções, e conquistas... tudo resumido num revolver de páginas. Tudo representado por lógicas sequências alfabéticas. Tudo delineado por um conjunto de palavras encadeadas.

Esbarro em umas lágrimas e elas voltam vivas como se nascessem nesse instante. Quase um ano depois! Um brilho apagado, uma saudade irremediável. Alguém se foi. A dor, mais aplacada hoje do que ontem,  persiste e se transforma num aprendizado de distância.

Distâncias... efêmeras ou perenes. Se há vida, podem ser passageiras. Vai depender da habilidade e da vontade de cada um em mantê-las, encurtá-las ou mesmo eliminá-las. São desafios que podem ou ser não ser enfrentados, cabendo ao indivíduo pôr a relação numa balança e verificar se vale a pena uma reaproximação. Mas, ai! Se as separações são daquelas vivificadas pela morte, resta-nos aprender com a saudade e alimentar a esperança da eternidade.

Encontro uns planos descritos no papel.  Que felicidade! Foram totalmente realizados. Claro está que nem tudo saiu como o planejado. Voilà! Est la vie et la vie c´est  très compliquée! (espero que ainda me lembre das minhas aulas de francês). Nem tanto, nós é que fazemos questão de emaranhá-la muitas vezes.

Nessas alturas já estou pelo meio do ano. Já passaram a febril correria do carnaval, a gulosa comoção pascal, as emocionadas compras de maio e chego às flores e aos bombons de junho juntinho cartão de "Feliz Dia dos Namorados!" 

É inverno, no entanto o espirito está pra lá de aquecido. É chegado o meu momento de comemorar mais um ano de existência. Se me pego pensando nos anos que se passaram haverá para nós duas possibilidades: ou jamais chegarei ao fim desta crônica ou então acabarei escrevendo um livro de memórias, nesse caso não estou certa de que você tenha a paciência necessária para chegar ao seu fim. Optarei, em nosso benefício, por não pensar no assunto.

Sou estudante. É agosto. Recomeçam as aulas. Hora de estudar! É também hora de ceder aos apelos da mídia e sentir um desejo incontrolável de presentear o pai precisamente no segundo domingo desse mês.

Segundo semestre afora. Primavera, flores, cores, amores, dores e um bocado de rimas simples também só porque, de repente, me deu vontade de escrever desse jeito. A essa altura já registrei um tanto de nomes e aniversários que nem mencionei aqui, mas esse não vai ter jeito. Sou mãe, né?! E coruja! É a comemoração do nascimento do filhote. Como está crescido! Mais festa, bolo, parabéns e aquela coisacada toda a que se tem direito na ocasião. E seguem mais datas importantes e mais apelos comerciais para o exercício de presentear.

Outubro vem fortalecendo a certeza de ter sido agraciada. com uma verdadeira amizade. É um período de partilhas, de cumplicidade, de gargalhadas. Euzinha e Tuzinha. Amigas pra vida toda. 

Novembro. Páginas vazias. Um mal sinal. Sintoma de um leve e transitório adoecimento de alma.

Datas festivas, funestas, patrióticas e chegamos a dezembro. Aí é pura apoteose. Embora haja gritos pelo mundo inteiro ordenando: ao consumo! Há uma aura diferente que emana das pessoas. Não é regra, todavia é mais fácil encontrar sorrisos pelas ruas, receber notícias de um amigo a quem não se vê há muito tempo, de ouvir e formular um pedido de desculpas, escutar uma oração. 

Deus! Há música nas praças, nos shoppings, nas igrejas. Todos os corais afinam suas vozes para cantar glórias, alegrias, votos de felicidade. Ouça: é um solo de violino na apresentação pública da Orquestra Sinfônica Brasileira. Sublime. Harmonia de sons e movimentos. Inclinada, pende a cabeça do músico. Molemente o violinista procede o musical feitiço, que acentua-se quando o solo é  interrompido pelo vigor dos outros instrumentos. Vem, então, um  crescente de vibrações, de gestos, de sensações até que o maestro desce a batuta e finaliza o espetáculo. Êxtase! A plateia explode em aplausos.

Passou o Natal. É tempo de balanço, saldos, resultados e de esperança. Esta, sem dúvida, a minha dileta palavra dentre todas as outras que provêm desse dia 31.  Chegar ao 31 de dezembro novamente é poder sonhar com novos trezentos e sessenta e cinco dias em branco, ávidos pelo preenchimento de uma escrita feliz. Vamos a isto!

Feliz Ano Novo!








Observações:
Fazendo arrumações e balanços de fim de ano, reencontrei esse texto. Ele foi escrito em 2001 e, devo dizer, é bem curioso lembrar de um tempo que meu filho ainda era uma criança. Observar como as coisas mudaram, que minhas amizades permaneceram. Resolvi publicá-lo por conta da época e fiz pequenas modificações no original. Espero que tenham gostado.

Fontes das imagens:

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Crônica de Natal

"Salve, Jesus amado!
Salve, imortal Jesus!
Salve, Deus Humanado!
Salve, Esperança e Luz!"



Estamos quase lá! Falta um pouco mais de vinte e quatro horas para a celebração do Natal. Muitos de nós ainda estamos preocupados com os últimos presentes a serem comprados, com o jantar, com os amigos e familiares que vão chegar ou com as pessoas queridas que sabemos que não virão. Enfim, cada um de nós tem os seus motivos para estar mais eufórico e agitado ou mais introspectivo nessa data. Querendo ou não, a verdade é que o natal mexe com a gente.

Tenho lido por aí questionamentos relacionados ao fato de o “espírito de bondade” estar atuante apenas nessas datas festivas. Entendo a preocupação, mas na verdade, acho muito bom que, nesse mundo tão acelerado e digital em que estamos inseridos, haja uma data que toque os nossos despertadores internos e nos lembre que abraço é bom, que carinho é uma delícia, que um mimo pode tornar a vida da gente muito mais alegre, que presença é fundamental e que nesse tique-taque galopante dos dias de hoje o mundo ainda pode parar ao som do cuco que nos avisa: “Nasceu-nos um Menino na gruta de Belém, tão doce e pequenino, quanta lindeza tem!”

Acho bom à beça relógios no mundo inteiro badalando que é tempo de olhar pra dentro e também é tempo de olhar pro outro, que a vida é muito mais simples do que esse cavalo de batalhas que insistimos em montar trezentos e sessenta e cinco dias por ano, que despir a armadura é ótimo e que ainda há tempo para ouvir os apelos das crianças que escrevem cartinhas para o Papai Noel, dos idosinhos institucionalizados que desejam tão pouco de presente e de pessoas que por vezes estão tão perto de nós e que apenas desejam um pouco de atenção.

Das festas cristãs, talvez o Natal seja a mais alegre. Toda a sua simbologia é mágica e maravilhosa. É um momento povoado por anjos, por estrela, por anúncios, pela fé e pela superação. Maria e José com sua fé inabalável entendem o papel a eles destinado e se põem humildemente a auxiliar na realização de uma obra muito superior as suas existências. Recebem uma missão e seguem. Enfrentam preconceito, susto, adversidades, mas obstinados, empreendem a sua jornada para tomar nos braços e ajudar a criar o filho Deus. Olha aí Deus dando uma colher de chá para a humanidade e fazendo um convite para a participação num projeto amplo e sem precedentes. Deus confia seu filho a homens comuns.

O Menino Deus nasce simples, sem recursos e nos ensina que o importante mesmo é nascer, é chegar, é brotar. O nascimento Dele era muito mais importante do que todo o contexto. Na vida, não importa se nos hospedamos num hotel cinco estrelas ou numa estrebaria, no fim das contas o que vale mesmo são as nossas ações. O menino, que teve como berço uma manjedoura, cresceu, foi firme em suas convicções e foi tão valoroso que dividiu a História da Humanidade em dois momentos: antes e depois de Cristo. Claro, não há comparação possível entre o projeto de vida Dele e o de cada um de nós.

Somos humanos, temos objetivos muito mais modestos nesse planeta, contudo cabe a cada um de nós procurar alcançá-los diariamente. Ser humano é um conforto. Ser humano é entender que somos falíveis, entretanto somos também reinventáveis e compete a cada um de nós tomar as rédeas de seu próprio destino e procurar viver melhor e deixar que os outros vivam melhor também.

Vivemos em um mundo cheio de diferenças e de diversidade. Basta olhar em volta. Somos rodeados de verdes, azuis, pássaros, répteis, mamíferos, incontáveis seres vivos e não vivos coabitando a Terra. Há tanta beleza espalhada por aí. Todavia, nós humanos temos sacrificado sobremaneira as outras espécies. Temos causado danos irreparáveis ao planeta. Precisamos pensar nisso e, falando sério, já passou da hora de começarmos a tomar atitudes para mudar essa realidade.
Olhe aí, ouça bem, o Espírito de Natal tá chegando e acho que, mais uma vez, tem um recado importante pra nós: Não podemos mudar tudo ao nosso redor, mas podemos, a partir de nós mesmos, transformar o mundo em um lugar mais solidário e feliz. O segredo é viver e deixar viver. Mãos à obra e feliz Natal!





Ouça:
"Doce é sentir" com as

 Meninas cantoras de Petrópolis



Fonte das imagens:
https://pixabay.com/pt

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Mais agradecimentos

Olá, galera!
Preciso agradecer mais um pouco,
afinal são mais de 10.000 acessos.
Obrigada pela força, pelas leituras, 
pelos comentários, pelo carinho.
Esse foi um resultado a que chegamos juntos.

A vocês todo meu respeito, toda minha gratidão
e todo meu carinho.
Obrigada!

Marise.