domingo, 21 de julho de 2019

Firmamento


Imagem do Pixabay
Desde criança, sempre quis ser mãe. Brincava de bonecas cobrindo de cuidados o bebê que, sem perceber, já estava gestando no plano das ideias. É claro que essa análise é coisa que só posso fazer agora. Quando criança, via aquilo tudo apenas como a brincadeira que devia ser. Ponto para a infância!       
Aos 24, realizei aquele que seria o meu mais acalentado desejo: tornei-me mãe. Jamais vou me esquecer daquele par de olhinhos me fitando na sala de parto. Nem da troca de olhares durante a amamentação. É nesses momentos que se percebe que é preciso nutrir aquela criança que você carrega nos braços. E nutrir uma criança é coisa muito maior do que lhe oferecer leite e alimento. Dar-se conta da dimensão dessa tarefa e desse vínculo é descobrir que mãe é isso: parte coragem e bocado medo, parte certeza e bocado dúvida, parte acerto e bocado erro.
Ser mãe é descobrir-se na corda bamba sem sombrinha com um bebê no colo e, ainda assim, entender que a travessia é necessária, que é preciso buscar o equilíbrio na caminhada para vencer os obstáculos e chegar em segurança ao final de cada dia. Vida de mãe é toda travessia, receio, medo e enfrentamento.
Além da companhia de meu filho, a maternidade trouxe para a minha vida uma visão mais humana da figura de minha mãe e, com isso, a melhor compreensão de suas escolhas. Compreender que minha mãe era uma mulher lutando com todas as suas forças para acertar  e que, mesmo assim, errava vez por outra, me fez reconhecer a humanidade de minha mãe. Isso foi libertador. Para além da heroína de minha meninice, entendi que ela tinha, muito mais do que super poderes, o confronto diário com suas angústias e suas dúvidas, e que, portanto, estava muito mais próxima de mim do que eu imaginava. 

A maternidade transformou minha vida em muitos sentidos, inclusive, me apresentando com clareza meus limites e minhas impossibilidades. Ela sempre foi/será um exercício de força, superação e humildade. Qualquer febre alta de um filho mostra claramente que você não pode tudo, e isso dói. Maternidade é isto: doer-se e doar-se.

Daquele bebê de colo até o homem de 23 que hoje meu filho é, ser mãe tem sido amor e aprendizado. Lições de um amor maiúsculo que não dou conta de explicar. Apenas dou conta de sentir da minha perspectiva. Mãe é também um conceito muito plural, e cada mulher sente essa grandeza a seu modo. E há até aquelas que, com igual grandeza, decidam não viver a maternidade.

Da vista do meu ponto, creio que dar asas seja a parte mais complexa e delicada do papel de mãe, e também a mais fundamental. Orientar o voo e deixar voar. Eis aí o grande desafio. É para vencê-lo que mãe é feita, apesar da vertigem que provoca.
Imagem do Pixabay
O filho tem asas e tem céu, tem horizonte, sonhos, objetivos, planos. Vejo-o forte e capaz. A firmeza de seu caráter, o seu comportamento ético, o coração justo, a sensibilidade aguçada, a objetividade e a força são partes da sua grandeza. A criança cresceu e constituiu-se um rapaz admirável. O menino que transformou seus brinquedos-sonho em realidade pode conquistar seus objetivos, é o que penso. 

Ele tem asas. Eu sou ninho e ponto de referência. "Todo verbo que é forte se conjuga no tempo, perto, longe o que for', diz a canção que muitas vezes entoei para niná-lo. Eu e ele cremos nisso. Cada um tem o seu papel e, para muito além de todas as incertezas ou definições, somos mãe e filho. Há 23 anos professamos nossa fé na beleza e na força do significado que isso tem. 

A maternidade é, para mim, um ponto de luz. Céu e alicerce. É firmamento.

sábado, 30 de março de 2019

Que cidade a gente quer?

Registro de Yuri Moura
Quem me conhece um pouquinho que seja sabe do meu amor por Petrópolis. Eu amo esta cidade. A beleza, o clima, a atmosfera histórica, o azul mais azul do céu que a abençoa e até o ruço. Sim, acho a sua neblina um charme, uma espécie de véu que quando se dispersa descortina todo encantamento deste lugar.
Amando este lugar o tanto que amo, não é difícil para ninguém imaginar o quanto fiquei ofendida, triste, magoada e escandalizada mesmo com as imagens da brutalidade cometida no centro do centro da cidade. A Praça D. Pedro, o umbigo de Petrópolis, foi palco de uma cena triste no dia 30 de setembro do ano passado. Foi aqui, num comício, que se exibiu como troféu a placa que homenageava Marielle Franco no centro do Rio de Janeiro partida em dois pedaços. Mais do que chocada com a tentativa de capitalizar em votos com o assassinato de uma vereadora defensora dos Direitos Humanos - de políticos inescrupulosos se espera tudo - fiquei estarrecida com a reação eufórica do público presente àquela exibição da mais absoluta e absurda falta de sensibilidade. Pode haver algo mais bárbaro do que tripudiar da dor do outro em praça pública?! Andei meses inconformada, com o peito dolorido mesmo. Minha cidade não é isso, repeti pra mim mesma todos os dias durante todo esse tempo.
Foi uma alegria descobrir que eu não estava errada. No último dia 14, Petrópolis realizou um desagravo àquele ato bárbaro. Foi realizada, na mesma praça, uma ação da mais pura alquimia amorosa, transformando o local daquela imagem brutal em um grande círculo de orações. Foi um momento redentor em que a cidade professou a sua vocação para o afeto.
Petrópolis, sua linda, você é do bem, do afeto, do amor. Você é terra de Francisco e franciscanos - independente de credos e de religiões. É terra de transformar ódio em amor em Praça Pública, de transformar ofensa em oração a olhos vistos. E, por isso, hoje eu a amo ainda mais!
Parabéns, Petrópolis! 176 anos de vocação para o amor, para a beleza e para a liberdade. Quem quer transformá-la em outra coisa está contraindo no presente uma enorme dívida com a História e ficará marcado para sempre.

Petrópolis de amor e respeito é a cidade que eu quero, e você?

sexta-feira, 8 de março de 2019

Por que ela?

Para marcar o Dia Internacional da Mulher, acontecerá hoje em Petrópolis, a Marcha das Mulheres. A notícia foi divulgada ontem na página do Blog do Eduardo Ferreira, um conhecido jornalista da cidade. Como a caminhada homenageia Marielle Franco, era de se esperar que brotassem manifestações indignadas nas redes sociais. Não deu outra! Choveram comentários pouco elogiosos em relação à homenagem para a vereadora brutalmente assassinada há quase um ano na cidade do Rio de Janeiro. Não faltaram também repetições de inverdades sobre Marielle. Tais mentiras haviam sido amplamente divulgadas por ocasião de seu assassinato e, peremptoriamente, desmentidas por idôneas agências checadoras de notícias.

Olho para os tais comentários com imensa tristeza. Quer seus autores estejam conscientes disto ou não, eles representam a tentativa da anulação do outro. O que fica explícito naquelas falas é que se acredita que os diferentes não podem existir juntos numa mesma luta. Isso é tristíssimo. Somos todos diferentes uns dos outros e, ao contrário de isso significar uma perda, pode ser muito enriquecedor. O outro, com suas ideias diferentes das nossas, com seu jeito diferente do nosso, com seu saber em áreas diferentes daquelas que dominamos e com tantas outras qualidades diferentes das nossas, pode ser naturalmente um impulso para nos fazer crescer. Há muita beleza no processo de nos permitimos aprender com o outro.

Repeti a palavra diferente muitas e muitas vezes de maneira proposital. Diferente não significa adversário, mas diverso. Por que razões uma homenagem a Marielle excluiria a possibilidade de levar o nome da Juíza Patrícia Accioli ou o nome da Professora Helley Abreu Batista na mesma marcha? Todas são dignas de homenagem, sim! A caminhada, como bem diz o título da matéria, homenageia o Dia da Mulher Marielle Franco. Há muitas mulheres que merecem ser homenageadas, muitas anônimas inclusive. 

"Por que não homenagear aquela policial que foi morta em Niterói? Por que não aquela professora?" Perguntam alguns se referindo a essas mulheres sem sequer nomeá-las. "Por que não homenagear a juíza Patrícia Accioly?" Perguntam outros. "Estão tentando transformar essa mulher (Marielle) em mito." Afirma outra.

Por que homenagear Marielle Franco? Para quem não se lembra, estamos a uma semana de os assassinatos de Marielle e Anderson completarem 365 dias. Esse tempo significa um ano inteirinho sem que os culpados por suas execuções tenham sido identificados. E não, não há ninguém tentando transformar a vereadora em mito. Marielle é símbolo. Mas símbolo de quê? Da luta das mulheres pobres, negras, lésbicas, nascidas em favelas, para alcançarem representatividade. Ela é uma dentre as poucas iguais a ela que conseguem conquistar um diploma e ocupar um lugar de destaque na sociedade. No caso dela, um cargo de representação na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, a segunda metrópole do país. Isso não é pouco. Símbolo é diferente de mito. Símbolo é a representação de alguma coisa, no caso de Marielle, uma causa. Mito pode significar, por exemplo, “uma personagem real a quem se atribuem valor ou feitos extraordinários ou imaginários". Coloquei o conceito de mito entre aspas, uma vez que ele está registrado no dicionário Lexikon. 

Retomando o início desta conversa, eu pergunto: pra que tentar anular o diferente, se podemos caminhar/marchar por Marielle, por Patrícia, por Helley, por Marias, Marianas, Joanas, Gabrielas e por tantas outras mulheres que morrem em virtude de seu trabalho, de sua luta, de seus casamentos, de seus namoros, de suas amizades, pelos trajes que usam, pelo lugar em que nasceram ou por outro motivo qualquer? Não é preciso desconstruir um símbolo como Marielle para homenagear Patrícia Accioli, Helley e tantas outras. Uma não exclui o que as outras foram. Todas têm seu valor.  Marielle  revelou-se um símbolo tão forte que evoca a lembrança de todas aquelas mulheres citadas anteriormente.

Diante das inverdades que publicaram sobre Marielle Franco, posso até entender o porquê da resistência ao nome dela, mas não posso deixar de lembrar que cabe a cada um procurar a verdade sobre ela antes de falar sobre ela.  A propagação de mentiras é escolha de cada um. Cada um é responsável por aquilo que propaga levianamente. Cada ser humano que reproduz uma notícia falsa é muito mais do que um papagaio repetidor de falas alheias.

É bom lembrar que as estatísticas estão aí para a cada uma de nós que o número de mulheres assassinadas tem aumentado nos últimos tempos. São mulheres de todas as classes sociais, de todos os posicionamentos políticos, de todas as profissões. Diante da violência, no mais das vezes, nada disso importa. Para ser vítima de violência contra a mulher, basta ser MULHER. A caminhada é pelo respeito e pela valorização da mulher. Nessa luta, mais do que ser representada pelo símbolo A ou B, a MULHER precisa se representar.

O Dia Internacional das Mulheres não precisa nem deve ser de exclusão, mas de soma. A luta é para melhorar a vida de todas as mulheres. Marielle Franco, presente! Patrícia Acccioly, presente! Heley Batista, presente! Juliane Duarte, presente!

A propósito, desejo a Ághata Arnaus Reis, viúva do motorista Anderson, toda força necessária para a sua caminhada. Para todas as mulheres e para cada um dos homens que lutam pela conquista do respeito amplo, geral e irrestrito à mulher, um abraço especial pelo dia oito de março. Sigamos na luta!


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Sobre a caminhada:
A Marcha das Mulheres está marcada para as 18h de hoje.
A concentração será a partir das 17h na Praça da Inconfidência.
A caminhada parte da Praça da Inconfidência e vai até a Praça D. Pedro II.
Iniciativa da ação: Coletivo 8M.
Quem pode participar? Todas e todos aqueles que apoiam a luta pelos Direitos da Mulher.
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Confira a publicação a publicação  do blog do jornalista Eduardo Ferreira:
https://www.facebook.com/158429414269490/posts/1875600515885696/

Imagem: reprodução da internet

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Das coisas triviais

Manuela e Capitu
De férias em casa, querendo fazer  um agrado para as gatinhas, mudo a dieta habitual e começo o dia
oferecendo a elas uma pastinha para o desjejum, crente que estava abafando. Estava! Elas lamberam os beiços sem a menor cerimônia.

Já passado do meio dia, estava eu lavando louça, quando Manuela quebra o seu protocolo de boas maneiras e, subindo num tamborete, pousa as duas patas dianteiras sobre a borda na pia olhando ora para mim ora para o armário.

Julgando compreendê-la, dirijo-me a ela e pergunto:

- Você quer uma comida sólida?

Manu virou a cabeça e assim de lado, olhou fixo pra mim como se  protestasse:

- Oi?! Dá pra falar a minha língua?!

Constrangida com a minha falta de habilidade na escolha das palavras, tornei a perguntar:

- Quer comidinha, meu bem? 

- Miaaaau! Ela respondeu.

Peguei o pote de ração dentro do armário e já encontrando as duas gatas na beirada de suas tigelas, servi uma porção pra cada uma. Comeram com uma boca boa que só.

Voltando a guardar o pote no armário, foi inevitável pensar: os bichos sabem mesmo se comunicar, a gente é que, às vezes, escolhe mal o vocabulário.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

A alma das coisas

Já passava da metade do mês de janeiro e ela estava lá, no canto da sala, me olhando de soslaio e me lembrando de que era extemporânea. Dizia-me insistentemente que, segundo as regras do manual do tempo certo de fazer as coisas – ele existe ainda que tacitamente – eu já estava uns doze dias atrasada e que o Ano Novo queria começar, enfim.

O Natal tinha sido pleno de leveza e carregado de felicidade, um momento alegre em um ano conturbado. De uma felicidade genuína e que realmente importa. Talvez por isso eu resistisse tanto em acomodá-la nas duas caixas que a acolhem por onze meses a cada ano.

Ela é simples. Bonita em sua simplicidade e abarrotada de significado. Lembra festa, vida, nascimento, partilha, presentes. Tem aquele quê de promessa de que no fim vencerão os bons e sublimes sentimentos, e de que há uma harmonia possível no horizonte.

Naquela manhã ela gritou mais forte. Bradou inadequação. Olhei-a atentamente e fui observando cada detalhe. Há ali muitos amigos representados nos enfeites: um anjinho aqui, uma botinha acolá, uma guirlanda. É permeada de presenças. Há de meus amigos e há de mim também. As notas musicais que a adornam são de mim. Concebo música como gênero de primeira necessidade. Não podia faltar ali. De mim também, há um Papai Noel de absoluta irreverência em short e mangas curtas e um outro pedalando uma nada convencional bicicleta. Quem sabe eles não estão ali para atenuar aquele carrancudo velhinho da minha infância, que me assustava tanto, a despeito dos presentes que trazia?

É que aquela figura parecia ter uma bola de cristal capaz de dar conta de cada uma das minhas mais graves pisadas de bola, durante o ano inteiro. Encontrar Papai Noel era fazer um flashback das malcriações e prometer que seria melhor no futuro, ainda que, em alguns aspectos, eu soubesse que isso era absolutamente impossível. Era um Papai Noel bem invocado aquele da meninice. Viajei nas lembranças.

Quando dei por mim: árvore e enfeites na caixa e uma coleção de momentos revividos ao guardar cada objeto. Percebi que cada uma daquelas coisas me fazia mais próxima de bem-quereres e afetos vários, de tesouros e bagagens muitas. Bingo! Aí está o motivo de tanta demora em desmontá-la adiando-a uma vez mais para dezembro: minha árvore contadora de histórias é amplo manifesto de sentimentos nobres. A cada natal, percebo agora, junto de mim e dos outros para compor um símbolo de apreço e amizade.

A vida tem dessas coisas, você começa a desmontar a sua Árvore de Natal e realiza uma viagem no tempo. As coisas, às vezes, têm alma. É preciso ter olhos de enxergar. Que saibamos embarcar nas boas recordações todas as vezes que elas nos tragam conforto e paz. E que estejamos sempre no presente para plantarmos e colhermos afetos no ano que nasce todos os dias.

Bem-vindo, Ano Novo!



sábado, 27 de outubro de 2018

A você que não se vê em risco


De certa forma, a luta de hoje me lembra a luta contra a Aids lá do início da epidemia. Explico-me: como as pessoas não se enxergavam em risco, visto que inicialmente a doença era atribuída a homossexuais, usuários de drogas injetáveis e profissionais do sexo, não tomaram atitudes para a sua prevenção. Resultado: a epidemia se espalhou entre homens, mulheres e tantas outras categorias. Hoje a Aids é uma doença que atinge de forma igual todas as categorias e todas as classes sociais. Felizmente, hoje a Aids é uma doença crônica e contra ela há medicamentos eficazes. A Aids tem tratamento.
A luta de hoje é contra a ascensão do fascismo. Muita gente não enxerga o risco que está correndo e, por isso, não toma um posicionamento, uma atitude a favor da Democracia e contra a epidemia fascista. Hoje você não é negro, não é gay, não é artista, não é professor, mas você não se encerra em você. Ou você é tudo ou parte disso, mas não crê que o fascismo o esteja rondando.
Você tem filhos, tem netos, tem sobrinhos, tem amigos. Eles podem ser negros. Seus filhos/sobrinhos/netos podem se apaixonar por negros. Você pode ter descendentes negros/seus amigos podem ter filhos negros. Alguns de seus amigos são negros, alguns dos filhos dos seus amigos também. Apesar da educação heteronormativa que receberá, seu filho pode ser gay (quantos filhos de casais hétero são), sua filha pode ser lésbica, trans, travesti. Seus filhos/sobrinhos/amigos são/podem ser artistas e professores, e estarem impedidos do exercício de sua profissão com Liberdade. Você mesmo pode ser atingido por possuir qualquer uma dessas qualidades. É  mesmo um mundo, um Brasil de intolerância que você quer pra todos eles, pra todos nós?! É um Brasil de intolerância o que você quer para você?
A campanha do candidato do PSL tem se mostrado inclinada ao fascismo. Quem nos disse isso foi a Justiça brasileira, quando mandou tirar uma faixa antifascismo da fachada da Universidade Federal Fluminense, sob a alegação de que ela feria a campanha de JB. A faixa não fazia qualquer menção a tal candidato que disputa a eleição à Presidência da República. Por que alguém que defendesse essa campanha se incomodaria?
Você já parou pra pensar que, a partir de amanhã, a existência, a liberdade de todas essas pessoas/classes pode estar ameaçada? Você já parou pra pensar que a sua existência pode estar ameaçada também? Ao contrário da Aids, contra o fascismo não há medicamento. O fascismo mata! No entanto, contra a ascensão do fascismo no Brasil há uma possibilidade de vacina: o voto na Democracia. Você está mesmo decidido a se calar diante disso?! Ou o que é pior: você, que é da paz e do bem, está mesmo decidido a votar num candidato fascista?!
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Leia a matéria sobre a retirada da faixa:
https://oglobo.globo.com/brasil/juiza-eleitoral-determina-retirada-de-faixa-uff-antifascista-de-universidade-23186076 


O Brasil está um país bipolar


A mim me custa ver a cegueira que acomete a justiça brasileira. Não pelo fato da imparcialidade, o que justificaria a venda nos olhos, embora não justificasse cegueira, já que há muitas maneiras de ler o mundo, mas pelo fato de ela ainda não ter percebido/lido/entendido que, se as instituições estão fortes e se esse discurso de ódio não atinge a justiça e os magistrados, ele atinge em cheio a população do país.
Imagem disponível no Pisabay
A justiça brasileira ainda não viu que uma parte imensa da população está absolutamente dividida entre a depressão/ansiedade e a euforia. Uma parte está horrorizada com o discurso de ódio proferido pelo candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro e outra parte está eufórica pelo mesmo motivo e, por isso, tem extrapolado em medida muita os limites da educação e da razoabilidade. A todo o momento, os consultórios de psicologia têm recebido pacientes deprimidos, ansiosos, apáticos, abatidos.
Há, ainda, outras partes do todo brasileiro que não se encaixam na majoritária bipolaridade. Aqueles que estão vendo a grave situação por que passa o Brasil, que percebem os efeitos negativos daquilo que se aproxima, que notam e que também sentem o impacto violento da onda de ódio em que quase a totalidade da população está mergulhada, não estão deprimidos nem eufóricos, contudo tomados por uma tristeza lancinante. Estão permanentemente em estado de dor.
Há os que percebem e estão paralisados de medo, tentando decidir entre dois grandes medos que sentem ou querendo se abster de decidir. Há os que se abstêm de decidir sem medo.
Há os que não percebem a real gravidade dos fatos que se anunciam, haja vista que não foram atingidos pelo impacto das notícias da explosão de agressividade que se desprendeu das urnas, logo após o resultado do primeiro turno ter sido anunciado. É inegável que houve os ataques violentos por todo Brasil, resultando até em mortes de algumas pessoas que não votaram em Bolsonaro. Homossexuais foram agredidos. Mulheres têm sido constrangidas. Para alguns, nada disso parece fazer sentido e para outros não parece incomodar.
Há muitos e diversos motivos para que as pessoas não percebam seu entorno e não façam a leitura correta dos acontecimentos, o analfabetismo funcional de que se tanto fala pode ser uma dessas razões, mas não será a única. O fato é que não compreender o discurso dos candidatos que disputam um pleito, este especialmente, é realmente um grande perigo. Vale dizer que, de modo especial, não compreender o discurso do candidato do PSL pode ser um risco um tanto acrescido. A fé cega em um líder é coisa que impede os cidadãos de autonomamente questionarem qualquer “verdade” dita por seu, nesse caso não líder, mas ídolo é outro fator a ser apontado. Há também a manipulação pela fé religiosa por meio de lideranças que são notoriamente figuras sem compromisso com a ética ou  com o bem- estar de seus fiéis (notem bem: fiéis). Há outras possibilidades. Não vou enumerá-las todas e nem saberia esgotá-las.
Há, ainda, os eleitores de Bolsonaro que acreditam que o Brasil melhorará sob seu comando e votam nele, simplesmente, por essa razão, são eleitores que prezam o convívio pacífico entre as pessoas. Foi questão de escolha, opinião, preferência. Tudo certo. Ainda que não concorde com a escolha, respeito sobremaneira o direito de eles votarem no candidato que desejarem. Afinal, o respeito às divergências é o cerne do processo democrático.
Há uma infinidade de variedades e matizes que, de forma alguma, compõem a maioria da população. A imensa maioria do povo brasileiro está, como  demonstraram as urnas e têm demonstrado as pesquisas, polarizada. Dentro da maioria eufórica, que é composta por eleitores do candidato que se projeta para a vitória no próximo dia 28 de outubro, há uma fatia de que não consigo precisar a medida nem aproximada que consegue ler o perigo, que concorda com o padrão violento do discurso que tem seguido e que se sente mais e mais empoderada a cada discurso proferido por seu ídolo, por seus correligionários e por alguns de seus apoiadores. É nessa fatia que mora o perigo. É precisamente nela que devemos nos focar nesse momento, tendo em vista que é ela que pode agir violentamente a partir do fortalecimento desse discurso.
A justiça, com a devida vênia, pode até ser cega, mas não pode cerrar os ouvidos aos efeitos de depressão (entre os que fazem oposição ao candidato) e euforia (entre os que o apoiam) que o discurso de ódio do candidato do PSL tem provocado na população.
Quando a justiça não coíbe essas falas, ela passa para a população a sensação de que as está referendando para o mal e para o mal. Não há qualquer efeito positivo em deixar passar essa sensação de normalidade do discurso do candidato do PSL para nenhum brasileiro, quer seja ele de esquerda, de direita, de centro, neutro ou não faça qualquer ideia do que seja isso.
Grafei a palavra justiça com letra minúscula para salientar como uma grande parcela da população, e eu me incluo nela, tem visto a justiça brasileira. Precisamos de uma JUSTIÇA MAIÚSCULA, que nos dê, como cidadãos brasileiros que somos, a sensação da verdadeira Justiça e algum sentimento de segurança. Por ora, o sentimento é desamparo.

domingo, 7 de outubro de 2018

De mãos dadas

Imagem disponível no Pixabay
Sei que muita gente fica incomodada de falar de política, eu entendo. Entendo mesmo. Eu também estou exausta. Exausta! Mas o momento pelo qual estamos passando é grave demais para não falarmos sobre isso. Se nos calamos agora, podemos ser calados amanhã. Nós, nossos amigos, nossos filhos, nossos conhecidos, nossos familiares e tanta gente que nem conhecemos. Isso não é nada bom! Isso é duro demais!
Nossa decisão nas urnas pode significar o fim da livre expressão dos nossos pensamentos e ideais. O risco é real. É bom que tenhamos consciência disso. Vamos falar de política hoje para garantir o nosso direito de falar de amor, de flor, de música, de Arte, de Filosofia, de Sociologia, de religião e tantos outros assuntos amanhã.
Nossa decisão nas urnas (nas urnas, gente! Eu nasci num país em que não se tinha o direito de escolher seu presidente) pode significar o aumento da intolerância, da truculência, da violência. Pode mesmo! Para combater a violência, eu não quero viver num país de justiceiros, eu quero viver num país em que haja Justiça. Eu não quero ter o direito de pegar em armas para me defender. Eu quero ter uma polícia estruturada, equipada, treinada, trabalhando com dignidade por mim, por você, pelo próprio policial. Eu quero investimentos na área de Segurança Pública. Por nós e pelo policial.
A concordância do candidato do PSL com a exibição da sua entrevista exclusiva no mesmo horário do debate da maioria dos outros candidatos à Presidência da República num outro canal de TV, me ajudou a despertar de um transe. Temos sido sequestrados pelo discurso da violência e do ódio. Sequestrados! Ao exibir sua entrevista no mesmo horário do debate dos outros candidatos e estimular a concorrência pela audiência entre os eleitores dele (vamos estourar essa audiência, diziam muitos deles) ele impediu que seus eleitores sequer fossem expostos a falas diferentes das suas. Sequer ouvissem discursos diferentes do seu. Além disso, com essa postura, mandou um recado àqueles que não votam nele de jeito nenhum. O recado de que com eles e para eles não quer nem se dar o trabalho de falar. Ele não está nem aí para os que pensam de modo diferente do dele.
Notem: não estou falando que ele tivesse condições de saúde para participar do debate. Não estou sequer questionando se isso seria possível. Estou falando que, se ele fosse uma pessoa que prezasse a democracia, teria solicitado à emissora que o apoia que a exibição de sua entrevista se desse num horário diferente daquele do debate com os outros candidatos.
Eu quero investimentos na área de Educação. Uma Educação para o exercício da cidadania, coisa que só é possível com a formação de consciência crítica. Eu quero a formação de sujeitos cheios de autonomia e liberdade, para o pleno exercício de suas escolhas. Discursos monocórdicos não primam por produzir reflexões nem sujeitos capazes de ler o mundo. Para isso, é preciso pluralidade. Educar para a Liberdade?! Sim, hoje e sempre! Até para que possam pensar diferente de mim.
Trabalho nas áreas de Educação e da Saúde. Sei bem o tanto de doenças e ferimentos que o discurso intolerante pode produzir. Como agradeço a oportunidade de trabalhar há mais de 20 anos no Programa de DST/Aids e Hepatites B e C! Hoje ele tem outro nome, mas quero usar o nome antigo mesmo. Como cresci vivendo essa luta! Eu quero investimentos em Saúde, inclusive em saúde mental, área tão fundamental e tão desprestigiada no campo da saúde pública.
Não podemos desperdiçar energia travando batalhas de ódio na internet ou em qualquer outro lugar. Violência gera violência. Não podemos ser sequestrados pelo discurso de ódio. Precisamos de atitudes afirmativas em relação às nossas escolhas. Divulgar matérias de conteúdo verdadeiro e produzidas por fontes confiáveis que evidenciem os riscos reais que estamos correndo, pode ser muito mais produtivo do que discutir com o ódio e a violência de alguns dos eleitores daquele candidato nefasto. Observemos que nem todos os seus eleitores são violentos. Há entre eles, inclusive, pessoas que eu amo imensamente e que sequer percebem ou acreditam que defendem um candidato que não exitaria um segundo em nos agredir - pelo menos verbalmente - pelo simples fato de pensarmos de modo diferente do dele. Muitos nem acreditam que ele defende a tortura. Há, claro, aqueles que destilam o ódio. Hoje, especialmente, não podemos perder tempo com eles em discussões inférteis. Discussões inférteis servem apenas para drenar as nossas energias e para nos fazer mal.
Também creio que não podemos morder a isca de combater aqueles que não compactuam com o discurso do candidato do PSL, mas que pensam diferente de nós. Quando atacamos e desrespeitamos os nossos aliados, enfraquecemos a nossa luta. Depois a gente senta, diverge, até briga, se for esse o caso (só pra fazer as pazes depois). Neste momento, não. Sigamos juntos! Sigamos resistindo com amor, determinação, garra e proatividade. Sigamos com atitude e Esperança. O momento é grave. Estamos todos no mesmo barco. Lembremos do poeta: O presente é tão grande. Não nos afastemos. Não nos afastemos muito. Vamos de mãos dadas.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

E agora, José?

Foto: Marcos Arcoverde/Estadão
E agora, José? O fogo queimou. O tempo ruiu. O Museu sucumbiu. A História se foi. E agora, José? Todos sabiam. Não havia verba. Não havia escape. Desastre anunciado. Foi um crime, José! Crime de abandono. Crime de descaso. Crime de omissão. Crime de inércia. Crime irreparável. Dano inestimável, José! O passado sumiu. O presente é vazio. O futuro apagou. E você, José? Você que se abisma. Você que se dói. Você que chora o patrimônio derramado. Você que perde a memória. Tudo virou cinzas sem que haja a mais remota possibilidade de fênix. José, e agora?

O que dizer diante da constatação da perda de peças tão raras? José, algumas chegaram a Terra antes de Cristo, você sabe o que é isso, não é?! O que fazer diante das cinzas de duzentos anos de trabalho e de dedicação de tantos estudiosos para formar o acervo perdido?  Além das peças, algumas milenares, o trabalho de cada um deles também ficou em medida muita reduzido a pó.

Um rastro de sombra paira sobre nós. Assustam-me os nossos tempos tão cheios de destruição. Jovem ainda, pensava no incêndio da Biblioteca de Alexandria como coisa longínqua no tempo e no espaço, e o lamentava profundamente.  Que conhecimentos estariam ali depositados, eu sempre me perguntei. Tenho vivido coisas que pensava que eram de outro tempo, de nunca mais. Jamais imaginei que um dia um evento desses pudesse acontecer de novo e tão perto, e por razões de escolha, José. Sim, porque diante de tantos alertas feitos - décadas a fio - sobre a necessidade de investimentos e de cuidados com a instituição, não se pode duvidar que deixar aquele patrimônio histórico à deriva foi escolha. Escolheu-se o risco de perdê-lo a tomar as providências necessárias.  Não deu outra: ele se foi! Queimou nas labaredas da irresponsabilidade, da negligência, das verbas desviadas de seus destinos, dos grandes acordos nacionais (que não é de hoje que acontecem). E tudo acabou. E tudo fugiu. O sonho morreu.

O que mais precisaremos perder para que nos encontremos, José? Perdemos todos os dias: nossos monumentos para o descuido, nossos meninos para o tráfico, nossos trabalhadores para o tiro, nossa saúde para as propinas, nossa cultura para o preconceito, nossa liberdade para a falta de segurança pública, nossa dignidade para as negociatas. Perdemos ainda muito mais que isso, José. Perdemos a nossa capacidade de nos abismar. Essa que você ainda tem, José. Nos acostumamos à barbárie, ao grosseiro, ao funesto. Temos vivido muitos choques, mas não damos tratos à dor. Não refletimos sobre ela. Temos nos negado o único aspecto positivo que ela pode nos oferecer: o crescimento. Temos escolhido não sentir. Acusar, terceirizar cem por cento das culpas sem antes darmos aquela olhadinha básica no espelho para descobrir a parte que nos cabe nesse latifúndio.  Pior para nós. O abismo nos espreita. Pra que tanto ódio, José?

Estamos perdidos, encegueirados de uma cegueira que nos inviabiliza todos os demais sentidos: a cegueira voluntária, José. Entramos num processo de autofagia e estamos devorando a nós mesmos em batalhas estéreis nas redes sociais. Estamos presos a elas, José! E temos repetido ininterruptamente esse processo. Diante das grandes tragédias que têm se abatido sobre nós nos últimos tempos, num primeiro momento, abrimos em nós uma fresta de humanidade: sentimos. Depois, ouvem-se vozes em uníssono por um curtíssimo período de tempo, quase um átimo. Passado o susto, que cede cada vez mais rápido, nossa fresta de humanidade não prospera. Tomamo-nos da compulsão de julgar os que são diferentes de nós e os julgamos incansavelmente nos tribunais histéricos e inquisitórios das redes sociais. Temos sido mesquinhos, José. Diante do inominável, ao procurarmos apenas elementos que comprovem nossos posicionamentos políticos e ideológicos, nos apequenamos.  Almejamos ter razão e mais nada. Apontamos culpas, não assumimos as responsabilidades devidas por nossas escolhas. Tudo é motivo para que nos estapeemos em públicas sílabas e exclamações. Aonde nos levará tudo isso, José?

Valter Hugo Mãe, notável escritor português, falou sobre a notícia da destruição do Museu Histórico Nacional. Notícia essa que qualificou de modo muito pertinente como insuportável e como sendo da ordem do absurdo. Em sua declaração de dor, pronunciou uma sentença que me bateu forte porque fez todo sentido pra mim: “fico com a impressão de que o Brasil está em guerra com ele mesmo”. Eu sinto isso, José.

Que leitura é possível fazer nas entrelinhas das cinzas dessa trágica página da História do Brasil? Há muitas leituras possíveis e necessárias. Uma delas pode se dar logo na superfície: eleger quem nos representa tem um custo. Somos corresponsáveis pelas ações daqueles que elegemos, ainda que indiretamente. Temos elegido políticos e mais políticos que sequer conseguem vislumbrar o valor de um museu como o Museu Histórico Nacional. Precisamos mudar isso. Outra leitura urgente e fundamental é que há outros museus em situação similar e que ainda há tempo para salvá-los. É preciso agir para isso.

É muito simbólico que, numa época em que se atribui tanto valor às imagens e fotografias, da História nos restem apenas as fotos, os flagrantes do instante. Miragens de uma matéria agora inacessível e impalpável. É hora de aprendermos com o presente, para não comprometermos ainda mais o futuro. Até aqui, estamos nos destruindo, José.

José, até quando?
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Observação:
Diante da dureza dos últimos acontecimentos, fui buscar poesia, fui buscar Drummond. Especialmente o poema "José", escrito numa época de guerra e trazendo um José resiliente, que não morre e marcha, ainda que não se saiba para onde. Eu quero ter esperança, José.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Em cada esquina

Imagem disponível no Pixabay
Chego a casa. Ligo a TV. Assisto ao telejornal. Dentre as notícias disparadas à queima-roupa vêm o tiro, a morte, a dor: mais uma mulher assassinada por aquele que deveria ser seu companheiro, mais uma exterminada pelo ex-namorado, mais uma é perseguida e morta pelo noivo. As cenas se repetem dia após dia e os motivos, no mais das vezes, são variações sobre os mesmos - e vis - tons: ciúme, disputas de bens, não conformação com um iminente término de relação. Tapas, socos, pontapés, empurrões, tiros: mais uma família marcada pelo feminicídio. Mais uma mulher é violentamente expulsa da vida porque não se enquadra dentro dos padrões, dos desejos ou do roteiro traçado por outra pessoa.

São advogadas, corretoras, policiais, donas de casa, moradoras de rua. A violência contra a mulher não segue castas, é múltipla, plural e generalizada, ainda que não seja tão democraticamente noticiada pelos meios de comunicação. O tapa, o soco, o tiro disparado na noticia é apenas um átimo daquilo que realmente acontece em nosso país que, segundo dados da Organização Mundial de Saúde, tem a quinta maior taxa de feminicídios do mundo.

Os disparos nas notícias me atingem. Atingem cada um de nós, quer sejamos ou não conscientes disso. Atingem, machucam e ferem. Eles são a prova inequívoca de que somos parte de uma sociedade violenta e, mais que isso, é particularmente violenta em relação à mulher. Acendeu a luz vermelha: nossas mulheres – filhas, irmãs, mães, amigas, colegas, vizinhas, conhecidas – podem não estar seguras em suas casas. A violência contra a mulher parece lá, mas é aqui. Ela está muito mais perto do que se imagina e nos espreita em cada esquina. É bom que estejamos atentos.

Diante desse contexto, é doloroso constatar que, em face de um discurso social cristalizado: “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, tanta gente se deixe em paz em relação a não denunciar casos de violência contra a mulher. E é igualmente dolorido notar que algumas dessas pessoas assépticas que não metem a colher na relação marital dos outros, vêm a público e em redes sociais meter o malho no comportamento das vítimas, num discurso que as desqualificam e culpabilizam. Culpabilizar a vítima é fortalecer o agressor. É dar poder a ele. É legitimar seu ato. É dar alimento à violência e ajudar a encorpá-la. Culpabilizar a vítima é também um modo de tornar-se violento.

Culpar pode também ser um atalho para se ver livre de ter que pensar sobre o problema. É, eu sei, este é um assunto duro e indigesto. Eu sei que é mais fácil empurrar pra lá, pra longe, pra amanhã, pra depois. É mais fácil, mas não ajuda nem resolve. O silêncio só favorece os ciclos de violência. E, vamos combinar, nenhum de nós quer viver em um mundo violento.

Sempre que paro para pensar sobre esse assunto, penso naquilo que cada um de nós pode fazer para contribuir para a mudança dessa situação. E, todas as vezes em que penso no ciclo de violência (aliás, você já leu alguma coisa sobre o ciclo da violência doméstica? É uma boa pedida para começar a entendê-la), penso que a primeira atitude que cada um de nós pode ter é o aprimoramento da escuta. Aprender a ouvir sem julgar. Em tempos de gatilhos prontos para o disparo, é bom que aprendamos a ser os ouvidos que amparam, que acreditam e dão credibilidade, que respeitam o tempo de cada um, que dão forças. Nenhuma vítima de violência precisa de dedos apontados atirando culpas sobre ela, ao contrário, necessita de mãos estendidas e ouvidos de acolher. Pode parecer pouco, mas vá por mim, para uma mulher que está sob o jugo da violência, ter apoio é fundamental. Ser ouvido atento pode ser um passo inicial para que essa mulher consiga romper o ciclo de violência.

Eu sei, muita gente pensa: “mas ela está com ele há tanto tempo, deve gostar de apanhar!” Sabe, o ser humano é um ser complexo e a mente humana não é 100% razão. Nem sempre é fácil romper com um agressor. Muitas vezes há questões emocionais e práticas que dificultam a ruptura. Isso não quer dizer que aquela que não consegue se libertar de uma relação violenta, goste de ser agredida. Muitas vezes, a vítima sente-se numa gaiola de portas até abertas, mas não tem asas para voar. Em muitos casos é preciso ajuda profissional para que as asas brotem e ela consiga alçar voo para longe da violência. Não se pode subestimar a dor de um pássaro preso, ainda que as grades sejam impalpáveis para nós e que não consigamos decifrar seu canto.

Não pense que proteger as mulheres significa perseguir os homens. Somos mulheres, filhas, mães, irmãs, amigas, colegas de homens adoráveis e que estão junto de nós nessa batalha contra a violência. Ser mãe de um rapaz fez meus poros mais abertos e expostos para constatar as feridas que um mundo machista pode causar nas almas masculinas também. Educar para o respeito e para a igualdade é parte do bálsamo que pode curar tais ferimentos. A luta não é contra os homens, é contra a violência. Um mundo que respeite as mulheres será um lugar melhor inclusive para os homens.

Eu sei que o medo de denunciar a violência tem a ver com o medo de se expor. Isso é humano e é normal. É preciso sempre tomar as precauções necessárias. Denunciar não combina com uma postura incauta. Acerque-se dos cuidados necessários e, se for preciso, meta a colher, a caneta, o telefone, o e-mail. Se for pra salvar alguém meta até o dedo na luta contra essa imensa e viva ferida social. Antes que o sangue escorra, antes que a voz se cale, antes que o luto se instale, antes que já seja depois.

(Publicado no Diário de Petrópolis em 22/08/2018)
Importante:
Aproxime-se dos diversos modos para denunciar a violência doméstica, acesse este link do Conselho Nacional de Justiça: