domingo, 31 de agosto de 2014

Surreal


Poucas coisas fazem a gente se sentir tão mal como ser ludibriado, enganado, passado para trás (é tão irritante que dá vontade de ir se referindo à vilania de todas as formas). Dá vontade de não pensar mais no assunto e de não falar sobre isso com ninguém. Entretanto, uma parte importante daquilo de que os vilões se alimentam denomina-se silêncio. É o silêncio das vítimas, que colabora para que eles sejam cada vez mais eficazes em seus golpes.

Até as pessoas que me conhecem minimamente  sabem que uma de minhas paixões é a cidade do Rio de Janeiro. A despeito de todas as críticas que são feitas a ela, meu amor pelo Rio é incondicional. Mas dotado de uma boa dose de realidade, não finjo que o lugar não tem problemas. Ontem, eu e  quatro de minhas amigas fomos à  Cidade Maravilhosa para degustar as delícias da exposição de Dali e daquela bossa irresistível que só o Rio Antigo tem. Chegamos na hora certa, visitamos a mostra confortavelmente, revivemos a história, respiramos cultura. Haja variedade em apenas um quarteirão: de Dali à feira livre! Um banquete para todos os sentidos. Até então, um sensacional programinha de sábado para pessoas que curtem estar juntas.

Depois do almoço, como havíamos programado de seguir para o Leme, fomos apanhar o carro para continuar o passeio. Foi, então, que tivemos uma ingrata surpresa: havíamos sido autuadas. O carro, parado em local indevido e eu, a condutora, de repente atordoada a me perguntar: mas se era tão óbvio, como pude parar aqui?

Refazendo o percurso: chegamos à Candelária, tivemos a preocupação de parar o carro em um local adequado, procuramos informações com motoristas profissionais (em seu ponto de embarque de passageiros) e fomos orientadas a seguir pela Presidente Vargas. Num piscar de olhos salta um “flanelinha” à nossa frente e começa a nos direcionar para o pseudoestacionamento. Cobra de nós um valor pelo “serviço” e nós seguimos em paz para nosso programinha cultural. Tudo parece tão normal, que embarcamos na malandragem e deixamos de perceber os sinais claros de que ali, era óbvio que não poderia ser um estacionamento. A constatação de que o estacionamento não existia fez-me vivenciar o SURREALISMO em toda a sua dimensão. O chão faltou sob os meus pés. Eu, verdadeiramente, senti-me tola, ingênua, incauta e uma série de outros adjetivos de campo semântico semelhante.

Conversando com comerciantes do local, soubemos que essa é uma prática comum, que funciona assim o tempo todo, entretanto que, durante a semana, a fiscalização não passa e tampouco autua os veículos estacionados. As autuações são feitas somente aos sábados, quando a maioria dos “incautos” é composta por turistas. Concluo que, se os relatos dos comerciantes forem verdadeiros,  o poder público, nesse casso, seria omisso e agiria de má fé. E me ocorrem vários questionamentos: Se o problema é conhecido, por que permitirem a atuação de “flanelinhas” nesse lugar? Se as multas são comuns, por que não montar um serviço de proteção que alerte os turistas na região? O local é uma “fábrica de multas” que gera receita para o município (havia, somente no local em que estávamos,  talvez uns oito veículos autuados)?!?!

Como pessoa, senti-me ingênua, como turista desprotegida, como cidadã desrespeitada. E o passeio, que até ali seguira perfeito, perdeu um bocadinho de seu brilho. Salvaram a mim e as minhas amigas, uma volta pela orla de Copacabana e Ipanema e o bom senso de uma de nós que colocou um sambinha irresistível pra tocar: “...o Rio de Janeiro continua lindo...”. Concluo: continua, mas precisa repensar a sua administração.
Escrevo para que outras pessoas possam ter conhecimento do fato e que, dessa maneira, não caiam na mesma cilada.




quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O que as novelas nos ensinam



Um pouco porque algumas novelas estão anunciando seus últimos capítulos, um pouco porque a nova novela global esteja mostrando a dura realidade vivida pela população do Rio de Janeiro no fim do século XIX/ início do século XX, tenho pensado bastante naquilo que as novelas nos ensinam.

Recentemente, quando acompanhava um dos capítulos de “Amor eterno Amor”, fui surpreendida por um diálogo maravilhoso acerca de ciúmes excessivos.  Há muitas maneiras de matar um amor, ciúmes desmedidos são armas eficazes para esse fim. A cena, que fazia parte do término de um casamento, foi um presente para aqueles que gostam de analisar as relações humanas. “Seus ciúmes me humilham”, dizia o personagem Kléber à esposa Jaqueline, diante das desconfianças absurdas da mulher. Tal trecho da novela merece ser revisto. Não só pelo diálogo entre o casal, mas por todos os que se seguiram entre Kleber e as moças que foram o estopim para a concretização daquela separação. Não há dúvidas de que uma separação, muitas vezes, se constrói durante anos. “São tantas coisinhas miúdas roendo, comendo, arrasando aos poucos com o nosso ideal”, já cantava o saudoso Gonzaguinha em seu “grito de alerta”. Tempos e tempos  abastecendo um barril de pólvora que vezes explode à menor fagulha.

Na mesma trama, a transformação da personagem Cris, auxiliada pelos sábios conselhos e, mais do que isso, pelo amor de seu avô também deve ser olhada com particular atenção. As falas cheias de dignidade e maturidade da personagem Miriam diante da impossibilidade da realização amorosa são definitivamente um primor, um exemplo, um gatilho para analisar a beleza que é ter amor próprio diante de uma frustração.

Mudando de horário (e de novela) a quase comédia “Cheias de charme” tem algumas reflexões para provocar. Ou alguém duvida de que as lições de honestidade e lealdade apresentadas pela personagem Penha devam ser aproveitadas e seguidas? Primeiramente, porque a moça é honesta com ela mesma, conquista que só realizam aquelas pessoas maduras que sabem que “mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira” (Legião urbana). Depois, porque ela vivencia essa honestidade. Aplica o conceito na prática, traduzindo-o em atitudes coerentes com seu discurso. Além de Penha, há algumas sutilezas dignas de nota nessa novela. O conflito vivido por Rosário: amizade x carreira. O desperdício de talento e de energia da cantora Chayene, que se dedica a prejudicar na carreira de suas “rivais” ao invés de investir em sua própria (aliás, que interpretação primorosa a de Claudia Abreu!). A capacidade de dissimulação de Socorro. A subserviência de Laércio. E muitas outras.

Em Gabriela, há lições históricas acerca do papel da mulher na sociedade e os avanços conquistados por ela ao longo do tempo. Além disso, é possível ter um olhar mais crítico para os nossos políticos a partir da história. Salve, Jorge Amado!

E Avenida Brasil? A meu ver, esta chama atenção pela patologia. E não é patológico alguém dedicar uma vida inteira a uma vingança? Além de Nina, há muitos personagens visivelmente desequilibrados. Há muita falta de caráter. Ali há um “mix” daquilo que fragiliza o ser humano e que o faz adoecer.

Novelas. Novelas. E mais novelas. Falei de cinco delas. Nosso país é assim. A emissora com maior popularidade exibe, se não perdi as contas, quatro novelas depois das 18:00h. Outra dedicada aos jovens perto das 17:00h. E um repeteco no meio da tarde. É uma concorrência desleal com os programas informativos e educativos. De alguma maneira, tal programação influencia aqueles que as assistem. Certamente, não é possível ignorá-la.

domingo, 18 de março de 2012

Negação

Os bem-te-vis
estão cantando:
bem-te-vi
bem-te-vi
e eu, triste,
não te vejo.
(27/08/2004)

sábado, 21 de janeiro de 2012

Declarações de Amor?

É fato que todo mundo gosta de ouvir declarações de amor ou de receber gestos entendidos como tais. Sendo assim, entre flores e “eu te amo” seguem-se suspiros e abre-se a porta para o mundo dos sonhos, mas basta falar?
Todo mundo quer ser amado. E o conceito de ser amado quase sempre está ligado ao de grau de importância que se tem na vida de alguém. Quase todos querem ser únicos, especiais para outra pessoa. Bem como querem receber demonstrações de afeto que sejam dadas só para si. Em alguma instância, estando em um relacionamento, todo mundo quer sentir-se dentre as prioridades do ser amado. Para que estas sensações sejam experimentadas, no entanto, palavras por si só não bastam. Gestos declarativos de afeto, quer sejam estes flores ou presentes também não. Para que façam sentido declarações de Amor e gestos declarativos desse sentimento precisam ter alma.
Quantas pessoas se esmeram na escolha das palavras e dos presentes na tentativa, não de demonstrar o que sentem, mas de convencer o outro de que o amam e se esquecem das declarações de não-amor? Sim, tais declarações existem e permeiam os relacionamentos humanos. São atitudes, palavras e decisões que não combinam com o Amor.
Se o amado (o ser amado) diz e repete: “eu te amo”, mas nunca tem tempo para você, haverá um momento em que essas palavras soarão vazias e que perderão o sentido. Se ele vive dizendo que você é importante pra ele, mas você nunca faz parte de sua lista de prioridades, chegará a hora em que não levará mais fé nisso. Se ele cobre você de mimos, mas não economiza nas palavras ásperas e rudes também, não existirá um momento em que aquelas delicadezas perderão a cor e o brilho?  Ou ainda, se esses mimos e atenções são para você e para a torcida do Brasil em peso, isso não fica banalizado? E pode haver declaração de não-amor mais efetiva do que balizar uma relação exclusivamente segundo seus próprios interesses?
Há inúmeras maneiras de fazer declarações de não-amor para alguém. Saber seu ponto fraco e meter o dedo na ferida é uma delas. Outra bem eficiente é minar sua autoestima. Esta, além de uma baita declaração de não-amor, é um descomunal tiro no pé. Picuinhas em geral soam como maneiras de dizer não te amo. Picuinhas são aquelas “espetadinhas” absolutamente desnecessárias que vão, aos poucos, dessaborizando o relacionamento.
Particularmente, penso que se deve tomar bastante cuidado com a relação nos momentos de brigas e conflitos. Todos podem e devem discordar em algum momento. É saudável, mas a maneira como se faz isso pode fazer toda a diferença. Todos podem e devem reivindicar aquilo que querem, que acham certo. Mas tentar impor seu ponto de vista e mais, fazer isso sempre, é declarar não-amor na certa. É preciso ter cuidado com quem se ama até nos momentos em que esse alguém o aborrece. É muito fácil ser gentil e delicado quando tudo vai bem. Quando há tensão, não se deve cuidar para que prevaleça o respeito?
“Nem vem que não tem” há muito mais do que palavras, flores e chocolates a considerar para que se acredite efetivamente em declarações de Amor. Entre as palavras e as atitudes é preciso haver coerência. Afinal, às vezes diz-se muito mais através daquilo que não se fala do que daquilo que se declara.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Saia justa

Um dia você vai andando leve pela vida e, de repente, tropeça em um pedido. A sensação é mais ou menos como se num passe de mágica o tivessem tirado de uma confortável túnica e o envelopado numa saia justa.
Há várias maneiras de deixar alguém constrangido. Fazer pedidos inapropriados é uma delas. Há solicitações que ferem princípios e, ao contrário do senso comum de que “perguntar não ofende” (algumas perguntas são verdadeiras ofensas), há pedidos que, feitos através de perguntas ou não, ofendem.
Alguns ofendem moralmente, outros ferem a inteligência. Há pessoas que esperam de nós cada coisa que nos pomos a pensar:  mas quando é que foi mesmo que eu transmiti a ideia de que isso era possível?
Imprensar o outro entre os próprios limites, princípios, crenças, diretrizes e o bem querer que tem por alguém é cruel e desleal.
Falo em bem querer porque normalmente tais solicitações provêm de pessoas que sabem exatamente a medida do afeto que se tem por elas. É valendo-se desse afeto que dardejam o que querem  no peito do outro sem  que isso lhes cause incômodo.
É simples e indolor negar algo a alguém com quem não se tem nenhum envolvimento. De quem não se espera compreensão. E não é uma compreensão da situação somente, mas a compreensão de você como um todo, como o ser humano que é.
É preciso, antes de solicitar, avaliar a exata noção dos limites do outro.
Noção. A palavra é essa. Bem desse jeitinho que está na moda, à maneira da gíria. Senso. Bom senso.
Algumas pessoas esperam de nós aquilo que não podemos ou não queremos ser, aquilo que não temos para dar.
O que fazer quando recebemos pedidos assim? Negar, é claro. Ainda que por vezes seja necessário vencer nosso próprio calvário.
Afinal, podemos romper com qualquer pessoa, menos com nossa essência.

domingo, 2 de outubro de 2011

De alto a baixo

Moradora da Serra, mas de olhos compridos no mar. Assim eu sou. O mar me encanta sempre e, mais do que isso, sempre me faz apaziguada com todo seu esplendor e energia.
Uma vez por semana, por compromissos de trabalho, cumpro o ritual de encontrá-lo. São rápidos momentos, menos que um namoro, quase um flerte. O mar está lá, mas não é o meu destino decerto. Fica ali no meio termo entre o desejo e o compromisso. O mar é só trajeto.

Descer a Serra invariavelmente é um prazer. A natureza exuberante.  O rádio sintonizado em uma boa emissora: trilha sonora de primeira. O iminente encontro com o mar.
Cada viagem é uma viagem em dois aspectos: o objetivo e o subjetivo. Enquanto a estrada vai surgindo e o verde se escoando da paisagem, há sempre muito tempo de pôr as idéias em ordem, é sempre tempo de ficar comigo mesma.
Nada me estressa. Nem o trânsito, nem a mudança de odores, nem mesmo espaços de paisagens tão hostis. É tudo parte de um rito de passagem. “Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor”.
Ao nível do mar, a primeira imagem que observo com delícia é a Igreja da Penha. Pequenininha e graciosa (se vista à distância) pairando sobre a Baía abençoada. Sempre um convite para o agradecimento aos céus por mais uma semana, por mais mar, mais Cristo Redentor, mais Rio de Janeiro - um amor bem antigo. Desde criança esse lugar me fascina.
No Rio, nessas idas semanais, as paisagens, no mais das vezes, são as do centro da cidade. Lapa. Bonde. Catedral. Academia Brasileira de Letras. Biblioteca Nacional. Um pedacinho do Santos Dumont. O cais do porto. Sobe e desce. Anda, para. Um buzinaço aqui, outro acolá. E o Rio antigo ali exposto ante os olhos de qualquer um que esteja disposto a admirá-lo.
Um corre-corre inevitável na cidade. Descer do carro é deslocar-me do tempo da contemplação ao da ação. Cumprir compromissos freneticamente, conforme dita a correria dos dias atuais. E depois, feliz, tornar ao carro-nave-salvo-conduto, para apreciação de tudo o que fica no caminho entre o mar e a montanha. É hora de, revigorada, regressar.

sábado, 10 de setembro de 2011

Não é segredo

Não é segredo: gosto de música. Quase todos os estilos. Muitos ritmos. Praticamente, de tudo um pouco. Na música estão as sensibilidades expostas ao som de arranjos e detalhes que para mim são denso mistério. Beiram a magia. Letras, versos, entonações, variedades. "Tudo ali às claras", como diz Djavan, ainda que em outro contexto.
Seja diante das dificuldades ou mesmo das alegrias, a música me faz companhia. Vezes estou meio Chico Buarque em “roda viva”: “tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”,  noutras um tanto Tony Garrido “na estrada”: “você não sabe o quanto eu caminhei pra chegar até aqui”, de uns tempos pra cá, invariavelmente, Vinícius de Moraes nos sábios versos do “samba da bênção”: “é melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração”.
Com o tempo, vai-se aprendendo a cultivar a alegria.  A não deixar que o azedo, que vezes se apresenta na vida, tome conta de todo o dia, mês, ano. Aprende-se a extrair o bom que há em cada coisa e a valorizá-lo preponderantemente. Fica-se um pouco mago especialista na alquimia de tornar palatável o dissabor dos desgostos.
A mente humana é um universo fantástico. Nela reside a capacidade de ser feliz. Já repararam como o mesmo fato adverso é recebido de maneiras totalmente diferentes pelas pessoas? Algumas transformam as adversidades em preciosas lições e fazem delas um mote para a conquista de uma vida ainda melhor. Outras fazem do fato indesejável revolta e sucumbem na angústia gerada por ela. Há aquelas que se deixam imobilizar pela dificuldade, que são presas pelos tentáculos dos acontecimentos. Ficam estagnadas, gravitando ao redor de um problema.  Há quem encare cada obstáculo como merecimento. Esses se aprisionam na culpa. Perdoar-se é também um caminho para a felicidade.
O fato é que o funcionamento da mente humana está intimamente ligado à possibilidade da experimentação da felicidade. Tristeza, frustrações, decepções existem. É preciso aprender a lidar de maneira saudável com elas.
Felicidade é também uma questão de foco. Há que se ter bem claro o objetivo e a determinação de ser feliz. É necessário decidir pela felicidade, antes de tudo. A vida apresentará dificuldades durante todo o tempo para a maioria absoluta das pessoas. Como reagir? Aí está a chave para o bem-estar.
Há pessoas que não conseguem sequer ficar alegres diante de boas novas. Diante de acontecimentos que deveriam gerar contentamento.  É gente que, diante de uma imensa tela branca,  é capaz de notar somente uma manchinha qualquer num cantinho do tecido.
Entender que dificuldades se apresentarão sempre na jornada da vida facilita, e muito, as coisas. É claro que fatalidades acontecem.  E aqui não posso deixar de me lembrar do exemplo de otimismo e de coragem dado por Lars Grael, quando da amputação de sua perna em um acidente. Diante do trágico, sua mente sã preferiu ficar com a parte boa. Ele estava vivo! Depois do acidente, se empenhou em voltar a velejar. Deprimiu. Superou. Botou a fatalidade no bolso. Venceu.
É feliz aquele que consegue extrair da Vida mais alegrias do que tristezas (por mais óbvio que isso possa parecer é preciso lembrar). Os acontecimentos ruins estão aí o tempo todo, o peso que damos a eles na balança da Vida é que pode fazer a diferença.
Viver é mesmo uma arte. Algumas vezes com sabor de uma enorme travessura. E já que não é segredo que a música faz parte de mim e que eu a encaro como a parte mais melodiosa da Filosofia, diante de obstáculos, sigo cantando alguns versos reveladores de um delicioso pagode: “às vezes a felicidade demora a chegar, aí é que a gente não pode deixar de lutar. Guerreiro não foge da luta e não pode correr (...), na vida é preciso aprender: se colhe o bem que plantar (...), basta acreditar que um novo dia vai chegar.”

Assista:
Over the rainbow 
The Piano Guys




Fonte da Imagem: 

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sábado, 30 de julho de 2011

Maresia

O mar está em mim
Forma-se. Espraia-se
inscrito em meu nome.

E vem, e bate,
explode, espuma,
e molha e salga.

Vigor, som, tempero.
O mar me curte inteira.

Cheiro forte.
Marulhar.
Beleza.
O mar me encanta e
desassossega.

Despertar de sonhos,
pensamentos vãos.

Noite: espelho negro
o luar reflete.
Prata que liberta
irrealizáveis desejos.

O mar que canta aos ouvidos meus,
acolhe-me a alma e me faz convites.
Se me entrego toda às suas canções
e me deixo inteira escutar seus sons,
ouço seus murmúrios,
crio ilusões.

Em momento tal toda areia é pouca,
já não cabe mais a contemplação.
O meu corpo clama por carinhos seus
e dele me faço sem hesitações.

O mar devolve minhas atenções!
E me revigora e conclama à Vida.
E entre beijos-ondas deixa-me partir.

Sigo para a Serra
Às origens torno.
Longe permaneço
até que as saudades
em maré vazante,
fazem-me um rio
a buscar o mar.

E em novo encontro,
sôfrego e cúmplice,
sinto-me preenchida:
Mari-sea.

domingo, 17 de julho de 2011

Sempre

“Dura a vida alguns instantes
  Porém mais do que bastantes
  Quando cada instante é sempre.”
  (Chico Buarque de Hollanda)

Quarenta anos.

Fazer aniversário é coisa que cada um vivencia de uma maneira. Uns curtem extremamente. Outros se entregam ao isolamento. Há quem se dedique a fazer meditação. Há aqueles que ficam felizes e até os que se entristecem. Vivenciar a chegada de uma nova idade é, sem dúvida, uma questão subjetiva.

Eu mesma já vivenciei a nov-idade de maneiras diferentes. Os trinta foram emblemáticos e decisivos. Fiquei na corda bamba e, já que a chegada era inevitável, fui correndo ler Balzac para saber com propriedade o que vinha a ser mesmo uma balzaquiana (hoje até esse conceito está mudado). Os tempos realmente são outros. Graças a Deus!

No último dia 14 fiz 40. Que delícia! Ao contrário da entrada meio atribulada e trêmula nos trinta, cheguei aos quarenta cheia de esperanças, de expectativas, de alegrias, de satisfação. Cheguei aos quarenta agradecida a Deus, à Vida, à Família, aos Amigos e a todos aqueles que, de alguma maneira, me fizeram e me fazem aprender e crescer todos os dias.

Se me perguntarem se realizei plenamente os meus sonhos até aqui, direi sem pestanejar que não. Se fui bem sucedida em todas as minhas empreitadas, claro que não. Se houve sofrimento no caminho, certamente que sim. Há um rastro de frustrações e de felicidades diárias ao longo desses quarenta anos. Mas todas elas me deixaram incontáveis lições.

Completei quarenta no caminho entre Petrópolis e o Rio de Janeiro, na Serra. Vi o sol nascer na estrada e se pôr na baía. Tudo assim sem programar. As coisas e os horários aconteceram naturalmente. Para completar, que espetáculo! Era véspera de lua cheia. E o brilho prata se fez farto naquela noite. Tudo presente. Todos os amores presentes de alguma maneira: Filho e Pais, Amigos e Amor, Colegas e até desconhecidos (alguns desconhecidos não são definitivamente uns amores?).

Foi o meu melhor aniversário. Interna e externamente. Tudo o que era realmente importante se fez presente. E viva Graham Bell, o santo Orkut, o venerável Facebook (exagerada!) esses deliciosos encurtadores de distâncias!

Completei quarenta anos amarradona, no dia 14, com café da manhã especial e tive festa surpresíssima no dia 15, que fantástico! Os amigos me trouxeram aos pouquinhos cada uma das minhas paixões: o filho, a família, os próprios amigos, as palavras de Affonso Romano, minha grande paixão literária, as canções de Chico Buarque, minha eterna paixão musical. Não há como agradecer.

Para melhorar, no dia 16, festa julina com a família e comemoração especial para os aniversariantes de julho.

Nesse meu aniversário tive Amor (na sua definição mais ampla), Sol, Mar, Lua, Música, Literatura. Foi uma chegada cheia de afeto, repleta de significado. Recebi tanto carinho que não houve um espaçozinho sequer para pensar em algo que não fosse bom. Pode haver melhor presente?

domingo, 10 de julho de 2011

Lá vem o sol

Domingo ensolarado na Serra. Céu azulzinho, desses caprichados na tinta. Dia iluminado, com ares de barulho de crianças na praça. Não resisto. Numa volta de carro, curto um pouquinho da criançada barulhenta na Praça da Liberdade. Jardim, estalinhos, bolas, algodão doce. Tudo lá, como nos tempos do filho pequeno.

Para mim, dias alegres e cheios de luz assim  combinam com Lulu Santos cantando a mais que empolgada "Lá vem o sol", versão de uma das muitas e inesquecíveis canções dos Beatles.

Coisa boa é ver filho crescer sorridente e saudável. Faz exatamente duas semanas que estou envôlta nessa atmosfera de alvoroço infantil. Primeiro foi a festa julina no colégio do filho. Meu menino já tem 15 anos, logo a dança de que participou ficou para ser apresentada em último lugar. Até lá foi um desfile de séries inteiras, desde a Educação infantil até o 9º ano. Impossível não lembrar do meu menino ainda pequeno. Ali um pouco  agitado em meio às coreografias infantis, bigodes pintados, chapéus de cowboy ou caipira, calças jeans com falsos remendos pregados.

Calças jeans e falsos remendos! Lá estava ele. Um jovem entre seus amigos, gargalhadas, sorrisos, piadas e aquele jeito de falar próprio dos da sua idade. Lindo! Dá para alguém me dizer como é possível ser mãe sem deixar que a corujisse role solta na alma da gente?  Quero não. Quero mais é ser coruja que ele merece.

A essa altura, festas no colégio são sempre ocasiões de deixar as lembranças chegarem. De prestar atenção na garotada e em seus pais. Todos iguais. Todos achando maravilhosa aquela dança desengonçada dos pequenos e se derretendo inteiros. Como eu sempre me derreti. E me derreto até hoje. Alguém duvida?!

Essa semana foi a vez da abertura das Olimpíadas. Bandeira Vermelha. O capitão. Pode?! Pode, o carinha cresceu mesmo e agora anda assumindo responsabilidades. Dedicou-se. Foram dias e dias inteiros no colégio planejando e ensaiando o desfile de abertura. Ele e mais duas amigas. Os três mosqueteiros!

Na hora da apresentação, eu na arquibancada com o coração pra lá de agitado e muito, mas muito mesmo mais que emocionado. Quando meu loiro entrou na quadra foi felicidade imensa. Um orgulho que nem cabia no meu peito. Ele e todos da equipe motivados, empenhados naquele desfile com o propósito de fazer o melhor. Foi lindo!

Se ficaram em primeiro lugar? Não ficaram. Não foram nem os últimos nem os primeiros, mas ganharam. Ganharam a certeza de que vale a pena lutar pelo que se quer, por aquilo em que se acredita. Ganharam o aprendizado de que nem sempre o nosso melhor é suficiente para vencer a competição, mas que o movimento na direção da vitória já é conquista muita. Ganharam a felicidade de ter os abraços amigos para confortarem-se na hora da frustração.

Deu verde na cabeça. E vê-los (o filho e os colegas) parabenizando a equipe vencedora cheios de sinceridade e do verdadeiro espírito esportivo foi motivo mais do que suficiente para, ainda com a voz embargada e os olhos cheios d´água, dizer: valeu, meu filho, você fez o melhor! Valeu Bandeira Vermelha!