domingo, 20 de agosto de 2023

Gosto muito de te ver


O que vou revelar hoje não chega a ser uma novidade para os que me conhecem.  Tampouco é
exclusividade minha. Muita gente experimenta esse mesmo sentimento. Caetano é meu crush.

Ontem o cantor chegou aos 81 com o charme dos oitentões do nosso tempo e a elegância que só quem viveu cada uma das idades que teve pode atingir.

A primeira vez que o vi, acelerei inteira numa autêntica reação de surpresa e admiração. Éramos três gerações da família na plateia e cada uma o sentiu a seu próprio modo. Aquele terno azul e impecável, um banquinho e um violão no Teatro Mecanizado do Quitandinha me fizeram descobrir acordes insondáveis. Foi graça, vida, força e luz.

Memórias com ele,  quem não as têm? Se pensar na minha linha do tempo, "Alegria, alegria" é a lembrança mais antiga.   Criança, cantarolava-a sem sequer supor o que seriam cardinales, mas a melodia e as rimas já haviam me arrebatado. Já adolescente, nos tempos das festas em que se ofereciam músicas às pretendidas, os alto-falantes do colégio chamaram o meu nome e dedicaram-me "shy moon". Fiquei verdadeira e adolescentemente encabulada. Alguém havia se declarado para mim. Mãe, costumava cantar músicas do compositor para embalar o sono do meu filho. Hoje eu o escuto sempre que desejo ensolarar a alma.

Outro dia,  ouvindo-o cantar com Roberto Carlos, comentávamos entre amigas, como está gostoso o Caetano! E rimos de nossas opiniões unânimes e ousadas.

Ele amadureceu, e isso é coisa fina. Muitos só envelhecem mesmo. Ele hoje canta ainda melhor, sabe de si, por isso mesmo, está um homem no esplendor da sua beleza. Salve a Bahia, que gerou e pariu um filho desse naipe!

Que venham outros aniversários, para que continuemos a beber Caetano na fonte e a nos embriagar!

domingo, 6 de agosto de 2023

BARBIE

Dia desses, fui ao shopping apanhar uns óculos que havia esquecido por lá e me deparei com 50 tons de rosa. Do bebê ao fúcsia a cada meia dúzia de pessoas com as quais eu cruzava pelos corredores..

No trabalho, as colegas estão todas animadas para a ida até o cinema. Também por  lá tivemos um dia de Barbie. Mulheres bem heterogêneas vestindo pink e desempenhando suas funções no mundo real.

Num encontro entre amigas na última sexta, fui provocada a assistir ao filme, sob a alegação de que era todo metafórico e de que era preciso ver para além dos símbolos e do plástico para poder se divertir.

Não bastasse tudo isso, no domingo, minha prima de apenas 13 anos estava indignada com as críticas ao filme alegando veementemente que a crítica não havia entendido o longa metragem.

Foi o que bastou: não havia outra opção que não fosse   me render à produção e comprar o ingresso para ver isso de perto.

A proposta é esta: reflexão pela via da diversão (no mais das vezes). O tempo todo o filme nos convoca ao riso, ao comentário, à gargalhada. Há tempo para sutilezas e emoções também. É preciso estar atento o tempo todo, sobretudo aos diálogos.

Desde as primeiras cenas é possível entender o desconforto daqueles que acreditam que o filme é contra a família e que o problematizam por equivocadas razões. O filme, realmente, não é para crianças.

Fui, vi, gostei. 

Do longa não dá para contar coisa alguma. Tudo é spoiler e não vale correr esse risco. Vale ver, sentir e sorrir, descobrindo o seu conteúdo uma cena após a outra.

Boa sessão!


domingo, 23 de julho de 2023

Olhares sobre a finitude

Já faz algum tempo, a novela das 19h, "Vai na fé", vem tratando da finitude da vida. Com delicadeza e humanidade o tema entrou em cena pelas palavras de um médico ao revelar o duro diagnóstico à personagem Dora: um câncer agressivo e incurável.

A trama abordou a tristeza do companheiro de Dora, o sofrimento de sua filha e a busca pelo equilíbrio da própria personagem para viver seus dias até o fim, através de cuidados paliativos.

Foi desse modo que também o público veio sendo preparado para a partida da hippie: com cuidados. Com a exposição à realidade numa aura sensível que dava mais luz aos desejos humanos de Dora do que à doença em si mesma.

A aproximação do núcleo cômico ao núcleo alternativo e, a essa altura, dramático da história tornou a despedida mais leve e terna. Sobretudo com a proximidade de Lui Lorenzo com sua música sem compromisso, seu jeito apaixonado e sua quase ingenuidade extemporânea disposta a realizar os desejos daquela que se aproximava do desencarne.

Em tudo a terra, a arte e a fé estiveram presentes nesse desenlace  entre o mundo físico e o impalpável. Teatro e música. Religião e crença. Natureza e meditação. Fantasias e carnaval.

Não à toa a cena encerra-se com uma cerimônia para o espalhamento das cinzas da mulher/mãe/amiga por um canteiro de flores. Do pó ao pó nas asas de um passarinho e nos beijos de um beija-flor,  Dora foi semeada exalando energia e amor, enquanto cada gesto, verso, canto, rosto de cada personagem revelava saudade e respeito. Foi lindo.

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Fé na vida

Já faz algum tempo, venho acompanhando com certa regularidade os capítulos de "Vai na fé", a novela das 7h exibida pela Globo.  Ela tem uma sutileza admirável para abordar certos assuntos que, na maior parte das vezes, são tratados pela superfície ou beirando  o grosseiro.

Hoje foi dia de bolhas de sabão. Coloridas. Saídas de um  canudo de mamoeiro que bem faz parte da minha tenra realidade infantil. Bolhas multicoloridas para simbolizar a vida breve, frágil e bonita de cada um de nós. Foi dia de ver as cores estourarem no ar ou morrerem no chão. Dia de realizar a finitude como dor espanto, beleza, inevitável.

Também foi dia de verdade. Kate, finalmente, revela-se para Rafa. Primeiro o corpo nu para os flashes da câmera. Depois os corpos revelando a nudez absoluta, entrega física e emocional de amantes que se desejam. Um pouco mais adiante a alma sem roupas em pleno desassossego. Revelação.

Dia após dia, a novela vem me acrescentando músicas da juventude, alegria das refeições em família, excertos de peças teatrais e romances. 

Por falar em música, como não lembrar da despedida entre Theo e Rafa cantando Cazuza em "Mal nenhum"? E como não valorizar a passagem do tempo representada pelos vários núcleos do folhetim entoando o "Tempo Rei" de Gilberto Gil?  Tudo é um caso de amor com a música.

Tudo vai na fé.

Religião?! Tem também. Um núcleo evangélico ensoando hinos de fé e esperança, e um protagonista que segue e honra a umbanda, tendo uma mãe de santo que o guia diante das situações duvidosas da vida.

Os conflitos da adolescência e juventude. A futilidade do mundo virtual. As relações com pessoas do mesmo sexo. As novas configurações familiares. A diversidade. O respeito. O subúrbio. A Zona Sul. A preocupação de quem tem contas a pagar. 

Os relacionamentos abusivos. O perfil do abusador.  A culpabilização das vítimas. O esforço interno de cada uma para buscar Justiça. O joio e o trigo.

Todo dia eu acho que "Vai na fé" é uma novela, mas ao término de cada capítulo, eu vejo o retrato da vida real  com receitas pra buscar o melhor e o justo. Temos que aproveitar.

domingo, 24 de julho de 2022

Entre mãe e filho

Fala-se bastante sobre a maternidade por agora. Verdades sobre ser mãe têm sido ditas de todos os jeitos e em todos os veículos de comunicação. Mas outras verdades têm sido desqualificadas e isso me deixa perplexa e reflexiva.

Quem foi que disse que desejar ser mãe desde que se conhece por gente é romantizar a maternidade? E que ter um filho não pode ser a realização de um sonho?

Engravidei uns três anos depois do casamento, mas a gravidez não foi adiante. Já tinha até roupinhas de bebê quando a gravidez se interrompeu sozinha e o sonho se esvaziou. Chorei à beça pela perda daquele(a) que foi um sonho. Eu era muito novinha. Entendia muito pouco do assunto.

Aos 23 anos, engravidei pela segunda  vez. Tive medo. Medo de perder. Medo de doenças. Medo do momento parto. Medo de não saber criar a criança. Medo de não dar conta do recado  do filho, do casamento, da casa, do trabalho, etc. Tive medo!

Sim, acolher um bebê em seu ventre faz você enxergar o tamanho da sua vulnerabilidade e isso é assustador. Mas venci o medo devagarzinho com muito carinho na barriga ao som de música clássica e muita mpb (fui do tipo de grávida que punha fones de ouvido na barriga pro bebê poder ouvir melhor as  canções) para poder curtir, e muito, a gravidez.

O menino nasceu como tinha que nascer, o parto, por indicação médica, foi cesáreo.  Correu tudo bem e eu encontrei aquele par de olhinhos pela primeira vez. Foi sublime.

Aos 24 anos tinha me tornado mãe.  Era realização de sonho. Conquista. Desafio. E  amor. Tudo junto e misturado ao mesmo tempo agora. A vida inaugurou-se na corda bamba  sem sombrinha.  Meu coração de mãe perdeu definitivamente o sossego e começou  uma aventura repleta de amor  na vida.

Aos 32 anos, quando me separei, fiquei mãe solo. O pai de meu filho, embora sempre tenha pago a pensão alimentícia em dia, começou a rarear na vida do meu/seu filho. Senti ainda mais medo.

Venci meus medos acolhendo o carinho que meus pais, minhas  tias e  meus amigos me davam. Com o atendimento de um profissional competente. Com muita leitura sobre o tema. E, sobretudo, venci o medo com a minha fé num Deus protetor e misericordioso e com as bênçãos que Ele sempre mandou. Venci meus medos enfrentando a situação e levando meu filho aonde quer que eu fosse sempre que possível.

Hoje o filho está aí , aos 26 anos, e vencemos cada uma das muitas fases/lutas da maternidade juntos. Nem sempre é ou tem sido fácil. Os medos trocaram de roupa e de tamanho, mas ainda devem ser vencidos a cada dia. Por aqui,  vamos juntos "caminhando e cantando e seguindo a canção". Muitos desafios. Muito tête-à-tête. Muitas descobertas. Muito chão para pisar e caminhos pela frente. Seguimos.

Romantizar a maternidade, eu?! Nunquinha!! Mas que sempre sonhei com ela e que ela é realização de um sonho, não vou, não quero, não posso negar. Cada um sabe de si! Há coisas que são entre mãe e filho.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

É a vida

Sou do tempo em que as crianças namoravam. Calma! Ainda não é para ficar escandalizado. Naquela época, namorar era simplesmente formar um par. Nesse sentido, meu primeiro "namoradinho de escola" se chamava Pedro, era meu parceiro na quadrilha de São João, nossas famílias se davam bem, tiravam fotos da dança e ponto: namorar era isso.

Também sou do tempo em que o verbo  namorar não tinha qualquer conotação sexual. Pelo contrário, no namoro, o sexo era proibidão, principalmente para as moças (adolescentes e jovens). Não se devia ou podia fazê-lo antes do casamento e  aquela que ousasse experimentá-lo antecipadamente ficava mal vista e mal falada pela sociedade.  Os namorados deviam ser apresentados à família, participar dos almoços aos domingos e aparecerem no máximo três vezes por semana: quarta, sábado e domingo.

Hoje o sexo está  implícito no sentido do  verbo namorar, o que justifica levantar a bandeira de que criança não namora. Não meeesmo!

Voltando à inocência da infância de tempos passados,   era comum as crianças dos anos 70 gostarem de alguém e acreditarem que o namoravam, mesmo que o "parceiro" não soubesse daquele gostar especial. Era quase o crush de hoje em dia para os nossos jovens. Acho que essa pode ser a versão de namoro escondido mais fidedigna que conheço.

Pois bem, me casei muito nova e, quando me separei, depois de um total de dezessete anos de convívio (namoro + casamento), tinha perdido a noção de namoro (qual seria  agora?). Perdi a minha bússola afetiva. O que não deixou de gerar alguns problemas semânticos e sentimentais.

Não por acaso, o primeiro relacionamento amoroso que tive depois do novo estado civil teve um descompasso conceitual: eu namorei/ele ficou/nós tivemos uma amizade colorida. Isso eu entendo com as gradações da palavra namoro que só a vivência me permitiu.

Então à toa, quando o crush foi, meio de lado, já saindo, indo embora da minha vida, trouxe-me  de presente o CD de Milton Nascimento, "Encontros e despedidas", foi nele que escutei pela primeira vez a música "Lágrima do Sul"  que se tornou a minha predileta do compositor.

Seja lá qual for o nome que tenha tido, achei o fim dessa relação digno, sagaz e poético. A amizade?! Essa resiste até hoje. 

A plataforma da nossa estação é a vida.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Milton: um beijo de paz


Tenho acompanhado as notícias sobre a despedida de Milton Nascimento dos palcos com carinho imenso. O cantor, intérprete e compositor faz parte da trilha sonora da minha adolescência. Em 1985, não havia jovem que não soubesse cantar Coração de Estudante, Travessia e Caçador de Mim. 

Era um tempo de efervescência e turbulência política no Brasil. As canções dele eram a marca dos corações esperançosos da juventude, que em uníssono as entoava. Como é bom lembrar dessa época! Havia um sol com promessas de uma pátria mãe gentil no horizonte. 

Não foi bem assim, mais tarde, quando vieram as eleições diretas, a eleição de Collor de Mello deixou claro que tínhamos muito a aprender e, mais uma vez, a juventude, agora cara pintada, renovava em cada um de nós a mais tenra esperança e apontava-nos o brilho de uma nova aurora a cada dia. Sendo assim, tratávamos de cuidar do broto da democracia pra que a vida nos desse flor e fruto. Bituca e suas músicas eram/são parte de nossos sonhos.

As promessas ensolaradas se cumpriram em grande parte durante alguns anos com ordem, progresso e respeito à Constituição Cidadã de 1988. Pelo menos até 2016. As músicas de Milton sobrevivem com o mesmo vigor até hoje e ainda nos dão fôlego para resistir à brutalidade atual.

Em 20/07/2018, tive a felicidade de assistir junto de minha mãe, do meu filho e da namorada dele, a um show de Milton no Quitandinha e ,como no dia 18 houvesse sido o centenário de nascimento de Nelson Mandela, Milton entoou "Lágrima do Sul", música composta por ele para homenagear Madiba e também a minha preferida de seu repertório. Trago em mim o toque do tambor e reverencio a beleza daquele momento. 

Há artistas que nos compõem. Milton está entre aqueles que me conferem mais inteireza, que fazem mais feliz, mais forte, mais pensativa e mais terna.

Sentirei saudade dele nos palcos, embora entenda os motivos que tem para deixá-los. Em mim, no entanto, ele sempre está e sempre estará. Ele sempre é e sempre será. Tenho dito!

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Trevos

Amigo "é  trevo de quatro folhas, é manhã de domingo à toa, conversa rara e boa, pedaço de sonho que faz meu querer acordar pra vida" como diz a canção trevo de Anavitória.

Aliás, faz um tempinho que me refiro aos meus amigos mais chegados como trevos exatamente por causa desses versos e também por essa mesma canção falar sobre aqueles que têm um abraço casa. 

Meus amigos próximos - e isso nada tem a ver com distância física - têm os mais acolhedores abraços que conheço. Dá pra morar neles alguns bons momentos.

A amizade é um tipo de amor generoso que celebra a partilha  e respeita os limites. Age sempre com precisão e está sempre disposto a escutar.

Eu, por exemplo, gosto de dividir com meus amigos aquilo que me encanta e que penso que eles fossem gostar. Curto praia e sol. Maracanã e futebol. Pôr de sol e alvorecer. Exposições e museus. Piquenique. Teatros, shows e orquestras. Fotografia.  Restaurantes aconchegantes e boa comida e muito mais. Pra tudo isso, na maioria das vezes, tenho a companhia de amigos para pôr tempero e dar mais sabor a essas delícias. Bom demais dividir coisa boa!

Mas também é bom receber aquele chamego que só o bom amigo sabe fazer quando estamos borocochôs.

E por falar em amigos, garanto, tenho os melhores. Este ano meu aniversário tinha tudo para ser de uma borocochice só, mas lá estavam os amigos e a família  para comemorar e para me lembrar do tanto que minha alegria importava pra eles. Teve cesta. Teve bolo. E teve até uma embalagem de bilhetinhos. Conta-gotas de carinho que bem que deixou meu coração quentinho. Como não amar?! Como não celebrar o dia de hoje?!

Além disso tudo que já disse, tenho a felicidade de ter na minha família verdadeiros amigos. Portanto, pelo valor que as amizades leais têm e pelo tanto que elas nos sustentam, celebro este dia de alma plena.

Feliz Dia do Amigo!

terça-feira, 19 de julho de 2022

Sobre afetos e transformações

Andei me relendo um pouco. Buscando textos antigos. Às vezes, para andar para frente é preciso aproveitar o presente para revisitar o passado. 

Abri o baú e, foi olhando para trás, que esbarrei em um de meus textos em que me dizia uma mulher de felicidades bobas: simplicidade, natureza, poesia, beleza, afeto, ser e estar em paz. Foi um alívio constatar que continuo bem assim: felicidade ainda é estar e deixar-se em paz. Aliás, pra mim, a paz  é o bem intangível mais precioso que se pode ter.

Foi me relendo que busquei a memória daquilo que me compôs até aqui para ser/estar/sentir o que sou hoje. E me dei conta da importância que minhas relações amorosas tiveram na composição do meu eu. Uma de modo especial.

Começamos juntando moedinhas para pagar um lanche pros dois. Tivemos altos e baixos.  Fizemo-nos as melhores surpresas quando a situação financeira de ambos melhorou. Juntos topávamos o mais simples café na padaria e o almoço mais sofisticado num restaurante com pedigree. A quatro mãos, preparamos muitas vezes um de nossos  pratos preferidos. Foi uma relação intensa. Mas, mais do que as lembranças daquilo que fizemos juntos, ficaram os bens intácteis que ela deixou em mim.

Por ser um pai exemplar, também eu procurei ainda mais ser uma mãe próxima do meu filho. Por ele comemorar cada pequena vitória, aprendi a saborear a simplicidade cotidiana, as pequeninas felicidades de cada dia. Por estar sempre alegre e ser divertido, meu riso ficou mais fácil. Por gostar de músicas animadas, minha alma aprendeu a sambar. A verdade é que nossa relação apurou meu paladar pra vida e me transformou.

Foi perfeita?! Longe disso, houve muita turbulência. Faltava-nos paz. Mas foi essencial. Permanece em mim na sua melhor face, aquela que foi incorporada, que  faz parte da minha natureza. que já é da minha essência.

Antoine de Saint-Exupéry é que estava certo: "o essencial é invisível aos olhos". E nossas vivências por vezes vão forjar - no sentido de dar nova forma - a nossa essência.

domingo, 22 de dezembro de 2019

Saudades

Decoração do Rio Sul - 2020
Lembro-me com saudades - múltiplas e plurais - dos tempos de minha avó. Era uma figura austera durante os trezentos e sessenta e cinco dias do ano, mas o Natal a transformava. O Natal a fazia vestir literalmente a fantasia para presentear seus netos. Era um tempo de preparo, trabalho e presentes. Um tempo genuinamente de luz.
É bem verdade que nosso Papai Noel era um velhinho pedagógico e que gostava de mostrar que sabia das traquinagens que havíamos feito durante o ano. E conversava conosco. E nos falava da escola. E nos lemança levada e o bom Noel era para mim uma figura muito séria, que só nos bonificaria se fizéssemos por merecer. Mas ele sempre tinha um presente, um conselho, uma recomendação. Vó Iracema tinha um olhar carinhoso daqueles que torcem pelo acerto de sua descendência.

Ela sempre nos lembrava da importância de respeitarmos nossos pais e de sermos companheiros de nossos irmãozinhos e primos. Tinha uma onisciência que me fazia temer, naturalmente: e agora? Presente ou não presente? Eis a questão! Era criança.
Por meio dos olhos atentos de minha avó, recebíamos lições de amor e de respeito. De amor fraterno e de doçuras. Quem não se lembra do perfume e do sabor de suas deliciosas cucas? Quem não se lembra do ritual de preparação para o Natal que vivenciávamos a seu lado? Das horas quebrando as cascas das frutinhas natalinas para pô-las à mesa na hora da ceia?
Às vezes o ano havia sido difícil, fomos criados com muita dignidade, mas também com dificuldades. No entanto, o Natal chegava como um bálsamo superando tudo. Mais do que ganhar presentes, aquela era a noite de brincar com os primos até mais tarde, noite em que, a partir de determinada hora, o relógio perdia a importância e o sono era o limite para as nossas farras.

Curtimos muito. Bateu saudade.